Notas iniciais
Hello! Quem é vivo sempre aparece. Peço perdão pelo sumiço prolongado, mas trago boas notícias, então espero que me perdoem kkkk! Eu oficialmente terminei de escrever a história, todos os oito capítulos restantes e o epílogo. Só falta revisar e ir postando, e planejo atualizar uma vez por semana, sempre aos sábados, a partir de hoje. Espero que gostem, boa leitura ♥

Eliza estava assentada com Anne à mesa da casa dos Lockhart quando Edward Waldford chegou, perto do meio-dia.

Era incomum encontrá-las ali àquela hora. Tanto Anne quanto Eliza costumavam ter empregos durante o dia, a esposa de Augustus como enfermeira, a sobrinha do tutor de Edward como aprendiz de costureira.

Isto é, antes da doença quedá-la completamente indefesa e fragilizada. Agora, contudo, a menina parecia forte e sadia novamente, as bochechas coradas, os ossos novamente forrados por uma saudável camada de gordura e músculos.

—Bom dia— Edward abriu um enorme sorriso ao vê-las, pendurando seu casaco à entrada e caminhando até a mesa— A que devo o prazer da presença de duas damas tão ilustres?

Anne riu.

—Eu moro aqui, Ed. Nós é quem deveríamos questionar você chegando a esse horário— Anne retorquiu, uma expressão brincalhona no rosto.

Edward conseguia enxergar porque Gus e ela se davam tão bem. Aquele bom humor com uma pitada de insolência, ainda que o de Anne certamente fosse bem mais ácido, lhes era comum, e certamente era o motivo pelo qual Anne e Gus sempre pareciam não conseguir conter as risadas um perto do outro.

—Eu estava ocupado com meus negócios, mas decidi passar em casa para ver se alguém queria almoçar comigo— ele respondeu.

—Estão todos trabalhando— Eliza replicou, a voz definitivamente soando livre do estertor da doença— Eu vim atrás de Jesper, mas só Anne estava em casa.

Anne deu de ombros.

—Eu vim buscar meu almoço, mas achei essa mocinha escarafunchando os livros de Jesper. Decidi ficar aqui até que alguém mais letrado nesse tópico chegasse para lidar com isso— a mulher explicou.

—Os livros de magia?— Edward questionou, e Eliza assentiu, parecendo um pouco constrangida.

—Sim… eu ando tenho sonhos estranhos, e esperava que Jesper ou os livros pudessem me dar algumas respostas— a garota respondeu.

Anne e Edward trocaram um olhar tenso, mas Eliza pareceu não notar, ainda meio sem jeito em ter sido flagrada bisbilhotando a casa do tio.

—Hmm, sabem o que poderíamos fazer? Vamos comer juntos, e então eu te ajudo a olhar o livros. Pode ser?— Edward propôs, e Eliza assentiu.

—Sobrou torta de frango de ontem— Anne comentou, já se levantando e remexendo nos armários da cozinha— Deve ser o suficiente para nós três, se Edward for civilizado.

Os três riram, e logo a torta foi requentada e apropriadamente repartida. Comeram em relativo silêncio, a não ser por Eliza perguntando se Jesper iria voltar logo, e Edward respondendo que não sabia.

Já faziam alguns dias que ele não voltava para casa, ocupado demais em seu esconderijo e seus negócios que preferiria manter longe da família. Ficou um pouco decepcionado que Gus e Adel não estivessem em casa, mas entendia que eles também tinham suas próprias vida e ocupações. Ainda assim uma pontada de culpa desabrochou ao perceber que não fazia ideia do que se passava na vida dos seus irmãos naquele momento, que estivera tão absorvido em suas próprias preocupações e ocupações que sequer conversava com eles há quase uma semana.

Tudo que fazia era para eles. Ainda assim, não poderia deixar que eles se aproximassem demais, ou acabariam se machucando, e ele jamais poderia se perdoar por isso.

Anne teve que voltar para seu trabalho mais cedo do que qualquer um deles gostaria, para o especial horror de Edward.

Ele estava ciente de que aquilo poderia acontecer desde o momento em que usou sua magia para salvar a vida de Eliza. Sangue mágico corria nas veias daquela menina, a mãe e o pai podem nunca ter manifestado o dom, mas o tio era um mago poderoso, então Edward estava ciente do risco desde o momento em que proferiu o encantamento que lhe curou a doença.

Agora, mais do que nunca, ele entendeu o pai de Eliza, Charles, e o porquê de toda a apreensão dele em usar magia em sua filha.

Algo nela havia despertado. Algo que jamais voltaria a dormir. Algo que nenhum deles poderia controlar.

E ela estava viva, e mais forte do que nunca. Mas nunca havia estado em tanto perigo.

Assim que Anne saiu, Edward e Eliza foram juntos até a pequena biblioteca de Jesper. Livros sobre magia se misturavam a novelas e romances, enciclopédias e guia de jardinagem, e Edward ajudou Eliza a pegar um livro de feitiços na prateleira mais alta.

Os dois se assentaram lado a lado no sofá. Edward reparou que as mãos de Eliza tremiam.

—Você não acha que…?— ela começou a perguntar, a voz baixa e insegura.

A menina sequer teve que completar a pergunta, Edward sabia muito bem o que ela queria dizer.

—Não é uma sentença de morte, Eliza. Não é um castigo, é um dom— Edward respondeu, em um tom gentil— Minha mãe era ainda mais nova que você quando descobriu que tinha magia. A sua foi despertada pelo ritual de cura, provavelmente, mas isso não quer dizer que ficaria dormente para sempre sem ele.

A garota abaixou o olhar, e encarou os próprios sapatos por alguns segundos de silêncio desconfortável antes de finalmente dizer:

—Então você acha que eu sempre tive magia?

Edward assentiu.

—É impossível criar uma tendência ao sobrenatural em alguém que não a tenha, mas eventos mágicos podem despertar algo que estivesse dormente. Então sim, Eliza, eu creio que sua magia sempre esteve ali. É algo que corre na sua família, assim como na minha— ele respondeu.

Eliza ainda parecia nervosa, e folheou o livro de feitiços por mais alguns segundos antes de conseguir retomar a conversa.

—Você falou sobre sua mãe… tio Jesper disse que ela era muito poderosa, mas que ela perdeu o controle, e por isso a Ordem a matou— ela disse— Eu não quero morrer, Ed. Eu não quero viver com medo, esperando o dia em que a Ordem vai me achar e me matar também.

Edward respirou fundo. Ele sabia que Eliza não fazia por mal, e que Jesper provavelmente não havia contado a história de sua mãe sem boas intenções. Ainda assim, era um assunto delicado para ele, e ele teve que forçar o sorriso reconfortante que ofereceu para Eliza.

—É verdade, minha mãe perdeu o controle dos poderes quando tentou ajudar um inocente, e acabou ferindo alguém. E é verdade que a Ordem foi atrás dela por causa disso. Mas você não precisa se preocupar com essas pessoas cruéis indo atrás de você, Eliza. Eles estão mortos e enterrados, não podem fazer mal a mais ninguém. E eu nunca deixaria ninguém te machucar— ele garantiu.

Pela primeira vez desde o início da conversa, Eliza ergueu os olhos para ele, o encarando sem uma pontada de insegurança ou medo sequer. Ela tinha os olhos do tio, Edward percebeu. Escuros, mas estranhamente reconfortantes, como café quente e forte em uma manhã fria.

—Você os matou— ela disse, e não era uma pergunta, mas Edward assentiu— Os agentes que mataram seus pais. Você os matou. Eu vi nos meus sonhos.

Edward ainda manteve um sorriso calmo no rosto.

—Sim, Eliza, eu os matei. Um por um. Isso a assusta?

Ela negou com a cabeça.

—Não. Você fez justiça como pôde. Você se defendeu, e defendeu sua família. Não há nada de errado com isso, como você poderia me assustar fazendo a coisa certa?— Eliza replicou.

Dessa vez, o sorriso de Edward não foi forçado, e sim carregado de uma pontada de alívio.

—E a magia? Ela te assusta, Eliza?

—Meu pai tem medo de magia. Eu tenho medo da Ordem, e medo de perder o controle. Mas a magia não me assusta, ela salvou a minha vida, como poderia ser ruim?

—A magia não é ruim— Edward confirmou— Mas também não é boa. É uma ferramenta, e pode ser desastrosa nas mãos erradas, mas milagrosa nas mãos certas. Sem a magia, você ainda estaria doente, e os meus pais não teriam justiça. Mas ela não é um brinquedo, Eliza, e eu acho que você já sabe disso. Foi ela quem colocou meus pais em perigo, e é ela que nos torna alvos para a Ordem.

Eliza assentiu.

—Eu quero que minhas mãos sejam as certas— ela disse— Eu quero fazer algo bom com o meu dom, e eu não quero ser um alvo para a Ordem.

—Eu posso te ajudar a usar sua magia da maneira certa— Edward garantiu— E a Ordem nunca vai te descobrir se você tomar cuidado e for esperta. Eles nunca descobriram Jesper, e também nunca vão descobrir você.

Eliza sorriu.

—Obrigada, Ed. É bom saber que eu posso contar com você, e que eu não estou sozinha nessa— ela respondeu— Posso só te pedir um favor?

Edward assentiu.

—Claro.

—Não conta pro meu pai. Ele vai surtar se descobrir.

Edward riu.

—Não é por mim que ele vai descobrir, mas ele vai saber mais cedo ou mais tarde, Eliza.

A garota fez uma careta.

—Que seja mais tarde, então.

Os dois riram, e Edward passou o resto da tarde folheando os livros de feitiços de Jesper com Eliza, ensinando o básico sobre magia para ela.

Ele esperou que Gus ou Adel voltassem para casa por algumas horas depois que Eliza foi embora, mas quem chegou primeiro foi Jesper. Ele parecia preocupado, e cansado.

—Anne te contou sobre Eliza— Edward inferiu assim que seu velho tutor entrou na sala.

Jesper assentiu.

—Eu sempre achei que ela poderia ter o dom, mas estava torcendo para que permanecesse dormente— ele respondeu— Está no nosso sangue. Mas eu preferiria que ela ficasse segura longe de tudo isso, como a mãe.

Edward respirou fundo.

—Ela vai aprender a se defender— ele garantiu— E a Ordem não vai ser mais um problema. Eles nunca mais vão machucar nenhum de nós. Eu prometo.

A promessa deveria ser boa, e soar reconfortante, mas soou estranhamente ominosa. Jesper encarou Edward pelo que pareceu uma pequena eternidade, e então soltou um suspiro, longo e carregado de toda a exaustão e todo o peso do mundo, e por fim o abraçou.

Isso pegou Edward de surpresa. Jesper havia sido o homem que o havia criado e criado seus irmãos desde que Ed tinha quinze anos, e Gus e Adel dez, mas Edward nunca havia pensado nele como um pai. Aquele abraço era um dos poucos que ele já havia lhe dado em toda sua vida. Jesper era um homem devotado e cuidadoso, mas não muito carinhoso. Naquele momento, Ed percebeu que talvez não visse Jesper como pai, mas que ele certamente o via como filho. E ele parecia preocupado, o olhando como se temesse perdê-lo.

—Edward… eu sei que você odeia a Ordem. Eu sei que você quer proteger seus irmãos, e a nossa família. Mas, por favor, não faça nada que possa te colocar em perigo. Não faça nada que não fosse dar orgulho aos seus pais— Jesper pediu, ainda com as mãos pousadas nos ombros de Edward.

Jesper sem dúvidas tinha os olhos de Eliza, mas muito mais graves e sábios. Pouco surpreendia a Edward que ele fosse um dos únicos capazes de ver através de suas mentiras, aquele era o homem que havia testemunhado um garoto inocente se transformando no homem corrompido que era hoje. E, mesmo assim, ele era incapaz de saber exatamente o que estava acontecendo, só sabia que estava perdendo para a escuridão o rapaz que havia resgatado, e cada dia mais depressa.

—Você não precisa se preocupar, tio— Edward chamou Jesper como Gus e Adel costumavam chamá-lo quando eram crianças, e, pela primeira vez, soou sincero— Eu não faria nada que não desse orgulho a eles. É por eles quem eu faço tudo o que faço.

E então Edward foi embora, deixando Jesper sozinho e atormentado na sala vazia, como havia feito tantas vezes antes. O maior medo dele é que aquela finalmente fosse a última vez.

Edward caminhou sem rumo por algum tempo, talvez fossem minutos, talvez fossem horas, ele não teria como saber. Só sabia que, eventualmente, suas pernas o conduziram novamente até um de seus esconderijos, o que ele frequentemente compartilhava com Henrietta.

Contudo, ele não subiu as escadas do sobrado até o segundo andar, onde sempre ficavam. Ele contornou a humilde construção, até o alçapão nos fundos, que dava para o porão, escondido em meio a mato alto e arbustos.

O cadeado tinha um encantamento, e somente ele saberia como abri-lo. Uma medida de segurança que pareceria fútil, se o resto do ambiente também não estivesse coberto de runas de proteção e segurança, brilhando debilmente conforme ele passava, adentrando pelos túneis cada vez mais fundo.

Pensou em Henrietta, em como ela ficaria horrorizada se visse aquele lugar, aquela magia que impregnava o ambiente. Sentiu uma pontada de culpa novamente o consumindo. A única mulher que em todos aqueles anos de vida havia realmente cativado sua alma era justamente a quem ele mais enganara. Henrietta estava dormindo encima do maior segredo de Edward, a enganação supurando literalmente debaixo de seu nariz, mas ela ainda assim confiava nele, e não suspeitava de nada.

Ela o mataria se soubesse. E ele mereceria.

A última porta do túnel guardava o que ele escondia há anos, o que ele passara décadas buscando, caçando, guardando e protegendo.

Rolos de pergaminho e papiro, livros encadernados em couro antigo e puído, pedras com entalhes complexos e pinturas enroladas em pele antiga, tudo minuciosamente organizado em estantes de madeira escura que alcançavam o teto baixo de pedra.

Lá estavam as relíquias do Hierofante.

Exceto por uma.

Mas ele já sabia como obtê-la, isso não o preocupava. Ele já havia lidado com coisas muito piores.

Todas as viagens que ele havia feito: Grécia, Egito, México, Itália; todo o perigo que havia passado e todo o esforço que havia feito tentando descobrir o que jamais deveria ser descoberto, tudo havia válido a pena. Ele agora detinha poder quase absoluto, hegemonia sobre todo os conhecimentos do Hierofante. Todos os Iluminados daquele continente estavam mortos, ninguém que seria capaz de pará-lo ainda tinha vida. Ninguém teria poder páreo para o que ele obteria com aquela magia proibida.

Ele sabia que o controle que tinha sobre o Hierofante era tênue, que o poder que ele utilizava não era dele, não ainda. Mas em breve seria. Ele passara anos estudando cada uma das relíquias que conseguira, sabia que, quando chegasse a hora, ele conseguiria o único objetivo que mantinha durante todos aqueles anos.

Edward Waldford iria destruir a Ordem. Não importasse o preço. Se o Hierofante consumisse sua alma no processo de obter poder absoluto, de que lhe importava? Um espectro morto há milênios, mas ainda com sede de sangue, por mais odioso que fosse, não teria uma ira que queimasse tão forte quanto seu desejo por justiça.

Porque, no final de tudo, ele não queria aquele poder para si. Era para todos os mortos sob aquele reinado de terror da Ordem por quem ele se sacrificava. E agora era tarde demais para voltar atrás.

As coisas que ele já havia feito por seus irmãos, e para conseguir justiça por seus pais, não eram jamais algo de que ele se arrependeria. Todo o sangue que manchava suas mãos, toda a corrupção que exercia ao redor de si. Os anos passados caçando cada um dos responsáveis por matar Sienna e Henry Waldford, o esforço para apagar a existência de Gus e Adel da mente de qualquer um que pudesse denunciá-los, o sacrifício de passar tanto tempo longe deles para se tornar mais forte, e deixá-los mais seguros.

A Ordem finalmente teria o que merecia.

Ninguém jamais iria conter a magia, ou punir os abençoados por ela por seu dom. Nunca mais. Ele se certificaria disso.

É bastante irônico, leitor, que no mesmo capítulo em que finalmente descobrimos o paradeiro das relíquias do Hierofante e o que seria feito de sua magia, também nós possamos ter um vislumbre de duas pessoas que abominavam em absoluto qualquer tipo de feitiçaria.

Charlotte Griffin e Leonard Cohen haviam passado todos os longos e difíceis dias que se seguiram ao Incêndio no baile no esconderijo de Charlie.

Leonard relutava em retomar seu lugar junto à sociedade enquanto a Ordem ainda estava atrás dele. Ele fora prevenido pela própria Charlotte a respeito do interesse da organização em interrogá-lo, já que aparentemente ele era a única testemunha sobrevivente de qualquer evento claramente paranormal daquela noite.

Portanto, eles passavam as horas em que Charlie não tinha que trabalhar ali, conversamos e conspirando.

Naquele momento em específico, conversavam a respeito de Cecily Campbell, e seus peculiares planos para a Condessa.

—Só tem um problema— Charlotte disse— Eu tenho suspeitas fortes de que ela realmente é uma bruxa, mas não tenho certeza. Nós precisaríamos de uma maneira de confirmar antes de matá-la.

Leonard soltou um risinho debochado.

—Uma assassina em série de princípios!— ele ironizou.

Charlotte revirou os olhos.

—Olha bem, zé bonitinho, eu não sou algum tipo de monstro. Eu só mato aberrações, e não gente normal— ela retorquiu— Eu odiaria machucar uma pessoa inocente.

—Tudo bem, e como você propõe que nós façamos isso, então?— Leonard questionou.

Charlotte pareceu refletir por alguns segundos.

—A Ordem usa obsidiana, mas, se vamos mesmo fazer isso no meio do baile, ela não pode perceber o amuleto, ou vai fugir — ela respondeu— Mas, para funcionar, um de nós vai ter que se aproximar o suficiente dela. Com o amuleto próximo, a maioria dos feiticeiros costuma se sentir mal, alguns até desmaiam. Só que tem que estar quase tocando a pele dela, mais longe do que isso, não vai ter efeito notável.

—E como em nome de Deus nós vamos quase tocar a pele dela com um amuleto sem que ela perceba?— Leonard perguntou.

Charlie o encarou e abriu um sorrisinho talvez entretido demais para a situação.

—Nós não, Leonard. Você— ela respondeu— Até onde eu sei, se tem uma coisa que as pessoas fazem bastante em bailes é dançar. E acho que seu rostinho bonito não vai encontrar muita dificuldade para ficar coladinho com o da namoradinha da Corte.

Leonard soltou uma risada que misturava descrença e ironia.

—E você realmente acha de bom tom me mandar ficar agarrado com uma feiticeira?— ele perguntou, ainda indignado.

Charlie deu de ombros.

—Até onde eu sei, você é um excelente mentiroso, não estou entendendo qual é o problema— então, com uma expressão bem mais maliciosa, ela completou:— Ou está com medo da Condessa ser tão encantadora que não vai conseguir se manter dentro das calças?

Leonard fez uma careta desgostosa.

—Não, Charlie, por incrível que pareça, eu não me sinto particularmente atraído por aberrações— ele replicou— Além disso, eu costumo preferir morenas.

Charlie arqueou uma sobrancelha, um pouco incerta se o breve olhar que ele lhe direcionou realmente era um pouco sugestivo ou se ela estava imaginando coisas.

—Tudo bem, burguesinho, eu confio na sua habilidade de não fornicar por aí por uma noite— ela respondeu— Mas trate de não estragar o plano.

Leonard riu.

—Se eu não te conhecesse melhor, eu diria que está com ciúmes— ele provocou.

Ele estava sorrindo, Charlie percebeu, ela realmente não tinha delirado antes. O tipo de sorriso macio e ligeiramente insinuante que ela já havia recebido várias vezes, e que raramente costumava recusar.

Leonard não era seu tipo habitual, com sua aparência elegante demais e talvez um pouco pretensiosa, mas era inegável que o homem era bonito. Como as estátuas do British Museum, e não como um parceiro de cama, mas ainda assim belo.

E ela raramente se dava ao luxo de manter coisas bonitas. Talvez fosse hora de se permitir uma indulgência nesse sentido.

—Veja bem, engomadinho, eu não sou do tipo de mulher que gosta de quem fica enrolando e faz cu doce— ela falou, direta e grossa. Leonard, supreendentemente, pareceu pouco afetado pelo palavrão, e se limitou a arquear a sobrancelha— Se ajoelhou, tem que rezar. Então, vai ficar flertando e encarando, ou vai fazer alguma coisa?

Leonard riu.

—Você sem dúvidas é a dama mais direta que eu já conheci, Senhorita Charlotte— ele comentou— Mas acho que gostei, me poupa de ter que gastar meu charme.

—Eu dispenso charme. Mas eu aceito whiskey— ela replicou.

—Eu costumo preferir vinho. Brut, principalmente. Talvez um Pinot Noir fosse apropriado pra ocasião. Mas whiskey vai ter que servir— ele disse— Além disso, não é como se tivéssemos nada melhor para passar o tempo até o baile.

—Eu consigo pensar em várias maneiras de passar o tempo.

Ela não estava mentindo, leitor. Vou me limitar a dizer que o tempo foi passado de maneira produtiva, e poupá-lo dos detalhes sórdidos.

A questão é que o jantar de Páscoa estava cada vez mais próximo. Como membro do Parlamento, Leonard contava em receber um convite, e retornar triunfante à sociedade, desenrolando seus planos e obtendo hegemonia absoluta.

Charlie deveria admitir que não entendia muito bem o apelo de toda aquela politicagem, mas entendia o apelo de querer destruir completamente seu inimigo. E, em todas as conversas que tivera com Leonard nos últimos dias, conseguira o retrato perfeito de todo o desprezo que ele nutria pelo pai. Mesmo que George estivesse morto, Leonard ainda queria destruir seu legado. Se tornar mais poderoso, desfazer as leis que protegiam os investimentos do pai, arruinar seus negócios, jogar seu império na lama.

Se ela fosse totalmente honesta, Charlotte diria que isso lhe parecia um pouco excessivo e fútil, mas eram esses esforços que mantinham Leonard leal aos objetivos dela naquele momento. E ela apenas poderia desejar que a sede por sangue do homem aumentasse depois que ele eliminasse seu primeiro feiticeiro.

Enquanto o dia do baile não chegasse, Charlotte fabricava armas, arrumava maneiras de escondê-las em anáguas de vestidos, e apreciava a sensação de finalmente estar no controle da própria vida. Agora, ela tinha um objetivo, e nunca mais seria uma vítima.

Ela era a caçadora, e não mais a caça. E ela se recusava a deixar que qualquer coisa entrasse em seu caminho. Ela teria sua vingança, sua justiça, e seu modo de proteger aquela cidade da podridão da magia. E ninguém iria tirar isso dela.

Em seu respectivo reduto secreto, Mihai e Digory também se dispunham do tempo doce e escasso que duas criaturas consumidas por paixão desfrutam, ainda que de modo bem mais doce e casto.

Mihai estava com o livro que Blackburn lhe dera no colo, a cabeça de Digory apoiada em seu ombro. O garoto parecia cochichar, enquanto o jovem feiticeiro passava os olhos pelas páginas, meio distraído com a presença do outro, meio preocupado com o que estava por vir.

Apenas depois de vários minutos ele percebeu os olhos de Digory fixados em si, e virou o rosto ligeiramente para o lado para encará-lo.

Ele tinha os olhos mais doces que Mihai já vira. Enormes, e em um tom claro e delicado de castanho, como mel denso e inebriante, e Mihai sentia-se afogando neles.

—Bom dia, dorminhoco— o feiticeiro provocou, dando um beijo na testa de Digory, que respondeu com um sorriso.

—Bom dia— ele retribuiu— Você passou todo esse tempo lendo?

Mihai negou com um aceno de cabeça.

—Não exatamente lendo, estou meio distraído com outras coisas— ele explicou.

—Eu sou uma dessas coisas?— Digory perguntou.

Mihai riu.

—Claro que sim— ele respondeu, ainda com um sorriso— Mas também tem outra coisa… se eu te contar um segredo, promete guardar?

Digory desencostou a cabeça de seu ombro, ajeitando a postura para olhá-lo nos olhos.

—Mas é claro— ele respondeu.

Mihai respirou fundo, abaixando os olhos por alguns segundos.

—Eu já usei um feitiço desse livro. Um de memória, para ver acontecimentos do passado do meu pai. Agora eu entendo o quanto isso foi perigoso e irresponsável, mas uma parte de mim sempre quer voltar a usar essa magia, é como se ela estivesse sempre me chamando. Eu fico me perguntando se é por isso que as pessoas servem o tal do Hierofante, se é por isso que seitas sempre parecem surgir ao redor dessas relíquias.

Digory ainda o encarava fixamente, mas não havia julgamento em seu olhar, e sim um tipo tenro de preocupação.

—Pelo que Adel contou do sonho, é exatamente pelo poder das relíquias que as pessoas se submetem— o agente disse, em um tom ligeiramente tenso— Na Ordem eles sempre dizem o quanto a magia pode corromper mentes fracas, o tanto que ela pode consumir as pessoas. Esse livro me dá arrepios, e eu acho que talvez a Ordem esteja certa sobre isso em específico.

Mihai pensou brevemente em Zoe. Naquele exato segundo, ela estava trancada em seu quarto, como sempre, provavelmente tentando falar com os fantasmas que ela parecia amar mais que as pessoas de carne e osso que a cercavam.

Ele conseguia entender porque a Ordem alertaria sobre isso. Mas ele também pensou em todas as vidas que ele e sua mãe haviam arrancado das garras da morte com magia, quantas vezes seus poderes o haviam tirado de perigo, e até mesmo em tudo o que aquele feitiço proibido havia lhe permitido descobrir sobre seu pai.

Ele não conseguia pensar na magia como algo ruim. Simplesmente não conseguia. Era o legado que sua mãe havia deixado em seu sangue, o dom que ele tentava usar para o bem.

Ainda assim, ele se lembrou do perigo em que havia se colocado tentando espiar as memórias atreladas àquele grampo amaldiçoado, ou do sentimento viciante de empunhar tamanho poder.

Digory, em sua suprema simplicidade, havia resumido tudo muito bem. Aquele livro de fato era algo que deveria “dar arrepios”.

—Dig… você entende como a magia funciona?— Mihai se pegou perguntando antes que pudesse reformular a frase.

Digory deu de ombros.

—A Ordem diz que é uma distorção anti-natural das leis que regem o universo. Como a gravidade, ou a morte. A magia corrompe a ordem natural da vida— ele respondeu, sem muita convicção.

Mihai assentiu.

—Isso não está errado. Nas mãos erradas, em mãos inexperientes ou cruéis, a magia pode deixar cicatrizes, e destruir de modo quase permanente as leis desse universo. Mas, se você for cuidadoso, ela não deixa sequelas— ele explicou— Mas essa magia aqui, a que está nesse livro, ela é… diferente. Mesmo quando tomo cuidado, eu sinto que estou deixando uma marca de caos para trás.

Digory franziu o cenho.

—Como assim?

Mihai respirou fundo.

—Veja bem. Quando eu uso magia para levitar alguma coisa— ele ergueu a mão e se concentrou, fazendo um prato na mesa de frente a eles começar a flutuar lentamente— Eu sinto a realidade se distorcendo nesse exato ponto em que aplico meu poder. A gravidade deixa de agir por alguns segundos, e eu comando as forças sobre o prato.

Digory encarou a porcelana flutuante com os olhos ligeiramente arregalados, mas havia um brilho de fascinação, também.

—Eu não deveria dizer isso, mas essa coisa de magia é muito legal— ele murmurou.

Mihai soltou uma risada.

—Eu também acho— ele concordou— Mas a questão é que, assim que eu deixo o prato onde ele pertence, a distorção acaba. A gravidade volta a funcionar como sempre funcionou, e é como se a magia nunca tivesse acontecido. Mas não com os feitiços do livro.

Digory parecia ainda mais tenso.

—Os feitiços do livro… mesmo quando você para de usar a magia, é como se a distorção ainda ficasse para trás?— ele questionou.

Mihai assentiu.

—E isso me assusta. Eu me pergunto se a cada vez que eu uso essa magia estranha, eu dou mais força para o Hierofante, do outro lado. Por que outro motivo ele teria entregado seu conhecimento e poder? Eu realmente estou começando a achar que cada um desses feitiços enfraquece a barreira entre os mundos de certa forma, o deixando mais perto de conseguir voltar para o nosso plano de existência— Mihai divagou.

Digory pareceu pensativo por alguns segundos, ainda encarando o jovem feiticeiro com preocupação, até que ele tomou as mãos de Mihai nas suas e disse:

—Se o que o Hierofante quer é controle, ele vai ganhar se conseguir nos deixar com medo de sequer tentar derrotá-lo…— ele respirou fundo— Eu não sou muito bom me expressando, mas acho que o que quero dizer é que conhecimento é uma ferramenta. E eu não acho que devemos recorrer a esse livro a não ser em último caso, mas não podemos deixar que nosso medo nos controle.

Mihai assentiu.

—Eu não vou tentar usar nenhum feitiço da relíquia até que seja absolutamente necessário. Mas você está certo. Não podemos subestimar o poder de usar o conhecimento dessas relíquias nessa batalha— ele concluiu— E eu acho que, se ele já foi derrotado antes, nós temos uma chance.

Digory sorriu.

—Eu gosto de como você tem fé— ele comentou— Eu tinha perdido a minha antes de conhecer você.

Mihai passou um braço ao redor de seus ombros, e o puxou mais para perto.

—Eu não acredito nisso nem por um segundo— o feiticeiro respondeu— Desde a primeira vez que te vi, eu soube que era você quem acabaria me salvando de mim mesmo.

Digory encostou a cabeça no ombro dele, voltando para a mesma posição em que estava cochilando alguns segundos atrás.

—Acho que podemos concordar que salvamos um ao outro— ele murmurou, a voz ficando sonolenta novamente— E eu não quero descobrir como a vida seria sem você…

Mihai sorriu, mas Digory não viu. Seus olhos já estavam pesados demais.

Dessa vez, Mihai largou o livro, e se permitiu simplesmente aproveitar aquele momento, e ter esperança de que instantes de paz e felicidade simples e descomplicada como aquele não seriam raros no futuro.

Ter a esperança de que todos poderiam sobreviver àquilo tudo.

Por mais improvável que parecesse.

Notas finais
Muito obrigada por ler, espero que tenham gostado! Vejo vocês semana que vem, ou nos comentários (que sempre me deixam muito feliz), até ♥