Arsonist's Lullaby- Interativa
15 XIV- Illicit Affairs
Notas iniciais
É uma ironia cósmica, que pode acabar tendo resultados deveras interessantes, quando um indivíduo que se julga no controle de determinada situação descobre que está tão perdido quanto o resto de nós, caro leitor.
Eu mesmo já tive diversos momentos em minha vida nos quais me julguei em posse de uma informação vital, que me colocaria em uma situação privilegiada sobre os meus pares. E também já provei o gosto amargo de perceber que, por mais que você esteja um passo à frente, sempre haverá alguém que está a dois. A inteligência humana simplesmente possui certas limitações, e, na maior parte do tempo, sempre haverá alguém disposto a explorar nossas falhas.
Na tarde seguinte ao incêndio no Palácio, Charlotte Griffin experimentaria essa terrível sensação pela primeira vez em sua vida.
O estado de emergência havia sido novamente decretado na Ordem, e tudo parecia bem mais caótico que o de costume. Desde que ela e os irmãos Pembrook haviam voltado da visita ao assentamento de peregrinos romani, não havia sobrado um momento de paz sequer para nenhum deles. Digory havia sido realocado para ajudar Augustus, Pollyanna, para ajudar Antigone. A própria Charlie ficou escalada para dividir seu tempo entre patrulhas na rua e produção das armas e balas com obsidiana para suprir os agentes.
Naquele instante, ela trabalhava justamente nas armas, a testa ligeiramente suada com o esforço, as mãos sujas de pólvora até os cotovelos.
Estava na sua oficina nos fundos da delegacia, e sabia que ninguém viria incomodá-la tão cedo. A polícia local também estava ocupada com as investigações e com a patrulha dos arredores do Palácio, e os policiais mal paravam quietos na delegacia. Além disso, nunca reclamariam da qualidade ruim da faxina enquanto ela mantivesse o estoque de armas com melhoramentos fluindo.
Charlie havia acabado de acabar uma caixa cheia de balas de obsidiana, e estava prestes a ir entregá-las na sede da Ordem, quando ouviu um diálogo por detrás da porta de um dos escritórios.
—Os ricaços e os nobres de Buckingham surtaram completamente— ela reconheceu aquela voz como sendo a do Tenente daquela divisão— Estão até falando em cancelar os bailes dessa temporada e as celebrações de Páscoa.
Uma risada masculina, pertencente a um outro oficial, seguiu-se à do Tenente.
—Eu duvido muito, senhor— quando ele falou, Charlotte reconheceu a voz como sendo a de um dos Sargentos— A nobreza não deixa nada ficar entre eles e uma boa farra. Muito menos um incêndio que não matou ninguém.
Os dois riram novamente. Contudo, quando o Tenente voltou a falar, sua voz estava ligeiramente mais solene:
—Não matou nenhum deles. Mas, desde do início do ano, várias pessoas morreram nesses fogaréus estranhos— ele disse— Eles só vão se preocupar de verdade quando começar a matar gente importante como eles. Mas nós já estamos morrendo há meses, e nenhum dos ricaços fez questão de tomar nenhuma medida.
O Sargento resmungou algo que Charlotte não conseguiu ouvir por detrás da porta. Contudo, a frase seguinte foi dita em alto e bom som:
—Eu fico me perguntando se esse último fogo não foi uma ameaça, senhor. Se não foi o criminoso avisando que está chegando para pegar gente como eles também.
Charlotte não ouviu mais nada do diálogo, pois se afastou da porta e voltou a caminhar até a saída da delegacia. Contudo, naquele momento, ela teve o supracitado momento de desgosto que vosso humilde narrador descreveu no início desse capítulo.
Até aquele momento, Charlotte não havia dado muito pensamento aos motivos do Incendiário. Se tinha sua teoria, era que o criminoso simplesmente estava eliminando uma lista de pessoas contra as quais ele tinha algum tipo de ressentimento pessoal. Havia assumido que ele era um usuário de magia ou ex-agente da Ordem que, tomado por algum tipo de sentimento de ódio ou vingança, havia decidido agir contra as pessoas que haviam se metido com o sobrenatural ou se colocado em seu caminho. Mas nunca havia pensado que ele poderia ter uma sutileza tão grande como ameaçar e variar o padrão dos crimes para mandar uma mensagem.
Por alguns segundos, ela se preocupou consigo mesma. Se o criminoso realmente era tão inteligente quanto pareciam insinuar, e tinha motivações tão complexas a ponto de ninguém conseguir compreendê-las, talvez ele não ficasse nada feliz em ter seus crimes copiados por ela. Talvez ela tivesse se enfiado em uma situação mais perigosa do que poderia possivelmente imaginar.
Ela respirou fundo, e conteve seus nervos. Se o Incendiário soubesse quem ela era, e tivesse um problema com o que ela estava fazendo, ele certamente teria demonstrado àquela altura. Estava segura. Por enquanto.
Ainda assim, uma parte de si pensou no que os policiais disseram: aquele incêndio havia sido uma ameaça, e, com a temporada social cada vez mais próxima, a nobreza estaria aglomerada e exposta a qualquer tipo de ataque que o Incendiário pudesse planejar. Seria a oportunidade perfeita de observar ou descobrir algo a respeito do criminoso, e decidir se ela poderia continuar com seus próprios incêndios ou não. Se o que ela estava fazendo realmente era seguro para si, e se poderia continuar passando desapercebida tanto pela Ordem quanto pelo Incendiário.
Assim que ela chegou na sede da Ordem, foi até a área de convivência, e checou as escalas das próximas semanas. Já haviam começado a recrutar agentes para fazer o patrulhamento dos eventos da nobreza que aconteceriam nos próximos meses, ela concluiu. O mais próximo aconteceria antes do final daquele mês, e seria patrocinado por uns tais de Lordes Forrest Douglas e Basil Beauclerk e um tal de Sr. Leonard Cohen. Charlotte em geral era uma pessoa que jamais se ofereceria para fazer trabalho a mais, sobretudo um trabalho tão ingrato quanto patrulhar. Mas, naquele momento, ela se aproximou do agente responsável pelas escalas e se voluntariou para a patrulha que aconteceria no próximo baile.
Se iria continuar usando o Incendiário e seus crimes para disfarçar e propulsionar os seus próprios, precisaria ter certeza que era seguro, e, para isso, precisaria iniciar uma investigação paralela a respeito das operações do Incendiário. Afinal, ela havia acabado de achar o seu propósito após concluir sua tão desejada vingança. E não planejava parar com sua missão tão cedo.
A tarde também passou tensa e com uma certa ansiedade, para Henrietta Raycraft.
Sua cabeça doía terrivelmente, mas não havia estado sozinha desde bem cedo na manhã, então não havia sido possível recorrer a nenhum tipo de subterfúgio para aliviá-la. O máximo que conseguira fazer foi tomar uma xícara bem forte de café, mas pouco havia adiantado. De qualquer forma, só precisava continuar aguentando até que o sol se pusesse, então poderia ir encontrar seu novo e duvidoso aliado.
O aliado que continuava a aparecer em seus sonhos. Alguns neutros, alguns bons. Mas em boa parte, pesadelos.
Era como se Edward a atraísse como uma mariposa era atraída para luz. Brilhante, e mesmerizante, mas fatal. Ainda assim, ela tentava se convencer que jamais teria chegado até várias constatações de sua investigação sem a ajuda dele. E que, após mais um beco sem saída gerado pelo último incêndio, ele seria capaz de ver as coisas de um ângulo diferente e lhe dar uma nova direção.
—Toc toc— ela ouviu uma voz, e logo a porta de seu escritório se abriu— Desculpe incomodar, mas podemos conversar por alguns segundos?
Henrietta sorriu ao ver Augustus. Podia estar cansada, com dor, e terrivelmente atormentada por pensamentos e dúvidas, mas é como se o homem tivesse uma aura luminosa ao seu redor. Sua presença e seu bom humor pareciam fazer tudo um pouquinho menos ruim.
—Claro, Gus. Entre— ela respondeu, e ele obedeceu— Então, sobre o que quer falar?
Augustus parecia mais cansado que o de costume, ela reparou. Seu sorriso ainda era sincero e largo, mas haviam olheiras escuras debaixo de seus olhos.
—Eu e Antigone talvez iremos precisar usar um dos abrigos secretos da Ordem— ele disse, um pouco hesitante— Uma testemunha, Zoe Rodaki, nos procurou, e pareceu preocupada com a possibilidade de ser a próxima vítima.
—A neta de Sofia Rodaki?— Henrietta perguntou, e Gus confirmou— Tudo bem, é importante mantê-la segura. Vocês se responsabilizam por ela, ou precisam de alguns agentes para ajudar com a guarda?
Gus pareceu pensar por alguns segundos.
—Na verdade, ajudaria ter mais um par de olhos atentos— ele respondeu, e Henrietta assentiu.
—Certo. Você pode levar um agente de sua escolha. De preferência algum dos novatos, os veteranos já estão com a escala muito cheia com as investigações.
—Obrigado, Hettie. Irei reportar a situação assim que Zoe estiver segura.
Eles se despediram, e, conforme Augustus saía, Henrietta se pegou pensando em Edward novamente. Ela não sabia se era a cor da pele ou dos cabelos, ou até mesmo algo no sorriso de ambos, mas havia alguma qualidade em Gus que a lembrava vagamente do outro homem.
Decidiu que estava paranóica, cansada e com dor demais para pensar com clareza, e que definitivamente deveria parar de pensar tanto em Edward. Então tomou outra xícara de café, pegou sua capa, e foi até o túnel que dava para o caminho subterrâneo até o local de encontro.
Quando chegou, o sol já havia se posto quase que completamente, de modo que a escuridão foi seu manto e seu esconderijo conforme ela chegava à porta do sobrado e batia.
Edward não demorou mais que alguns segundos para atendê-la. Assim que a viu, abriu um sorriso, brilhante e ligeiramente torto, como o de Gus, e disse:
—Eu estava começando a achar que você não viria.
Henrietta entrou e abaixou o capuz da capa, dando de ombros.
—Como você fez questão de me lembrar da última vez, sou eu quem costuma solicitar essas reuniões. Eu sempre vou aparecer— ela replicou— Ou talvez um dia eu não apareça e na verdade seja tudo uma armadilha. Você não tem realmente como saber, tem?
Ele riu. O som foi bem mais agradável do que deveria.
—Eu até poderia devolver a ameaça. Mas eu gostaria de evitar ser intimidado com uma arma novamente— Edward replicou.
Henrietta arqueou uma sobrancelha.
—Faz bem. Eu ainda me lembro da sua expressão quando você sentiu a pistola na minha cintura da última vez, não foi muito dignificado— ela comentou.
Edward deu um passo para mais perto, se afastando da porta e ficando entre ela e a sala de estar.
—Foi a primeira vez que uma dama colocou minhas mãos em si para fins de ameaça, e não outros mais… agradáveis. Você não pode realmente me culpar por ficar decepcionado— ele disse, com um sorrisinho afiado, e então se afastou, entrando na sala como se nada tivesse acontecido.
Henrietta só poderia torcer para que ele não tivesse visto o tanto que suas bochechas esquentaram.
—Bem— ela disse, tentando se recompor e tomando um assento de frente ao da poltrona que Edward tinha ocupado— Vamos ao assunto principal, então. Imagino que você já tenha coletado suas próprias evidências a respeito do incêndio no Palácio.
Edward assentiu.
—Certamente. Embora você, como uma Duquesa, certamente tenha mais acesso às imediações que esse reles plebeu que vos fala— ele provocou.
Henrietta revirou os olhos.
—Talvez. Mas só você conhece a magia bem o suficiente para interpretar meus achados— ela replicou.
Edward arqueou uma sobrancelha.
—Para isso você teria de me mostrar as informações que conseguiu, milady. Vai me dar esse voto de confiança? Ou acha que não sou digno dos segredos da Ordem?
Henrietta respirou fundo. Não lhe agradava ter que fazer aquilo, mas ele estava certo. Não havia outra maneira, a não ser com o máximo de honestidade que ela pudesse oferecer.
—Essas são todas as anotações que fizemos a respeito dos achados da cena— ela estendeu um caderno de couro para Edward— Se eu sequer sonhar que você vai usar essa informação da maneira errada…
—Não precisa concluir a ameaça, milady. Embora às vezes seja adorável ouvi-las, dessa vez não será necessário— ele disse, pegando o caderno de couro e começando a folheá-lo.
Henrietta gostaria de não ter ficado tão desconsertada novamente, mas infelizmente ficou, como sempre.
Edward soltou um murmúrio pensativo conforme folheava as anotações. Havia um brilho estranho em seu olhar, como se ele estivesse surpreso e intrigado, algo que Henrietta não havia testemunhado com frequência.
—É estranho— ele comentou— Esse certamente é um ataque mágico, então não poderia ser obra do possível ajudante. Mas também não segue o padrão clássico do Incendiário. A magia é muito parecida, mas não é exatamente a mesma. Como se o mesmo feitiço tivesse sido usado por uma pessoa menos sanguinária, e talvez um pouco menos experiente.
Henrietta refletiu por um segundo.
—Você acha que pode ser uma nova seita?— ela questionou, e apenas então percebeu que tinha falado demais.
Edward ergueu os olhos do manuscrito para ela. Havia uma inflexão de divertimento na curva quase imperceptível dos seus lábios, mas também uma leve insinuação de ironia.
—E aqui estava eu achando que você estava apenas fingindo que confiava em mim— ele soltou uma risadinha seca— Não precisa se preocupar, milady, não é como se eu já não estivesse ciente da última seita do Hierofante e de suas consequências. Dean Wickham era um amigo antes de seu trágico fim, e, como você deve saber, ele também estava lá.
Henrietta suspirou.
—Sim, eu sei. Eu gostaria de ter me esquecido, mas eu me lembro de tudo. Bem até demais— ela murmurou— Mas eu não sabia que Dean e você eram próximos, apesar de saber que você é bem popular entre toda espécie de feiticeiro duvidoso.
Edward riu.
—Vou tomar como um elogio— ele ironizou— Bem, não estávamos tão próximos assim nos últimos anos, mas éramos amigos quando mais jovens. Ele se arrependeu do que fez, sabe? Falava sobre isso toda vez que bebia um pouco para mais.
Henrietta riu com escárnio.
—Ele não parecia arrependido quando me acorrentou àquela pedra. Disse que sentia muito, e deixou as algemas frouxas para não machucar meus pulsos. Mas não impediu os outros de me apagarem com uma pancada na cabeça tão forte que tenho uma cicatriz e dores até hoje. E não os teria impedido de cortar minha garganta se a Ordem não tivesse chegado antes do sacrifício— ela replicou.
Edward a encarou por alguns segundos. Havia uma pontada de pena em seu olhar, mas também algo a mais. Era estranhamente intenso, como se ele enxergasse uma parte de si na raiva que permeava as palavras dela.
—Você ainda carrega essa memória com você, não é? Não consegue se libertar dela, e ela vai te assombrar até seu último suspiro. Você não deixou o ódio te consumir, mas você ainda se apoia nele como uma muleta. Sabe que o dia em que você deixá-lo ir é o dia em que voce vai desabar, o dia em que você não terá mais propósito algum— ele disse, e ela sentiu um arrepio percorrendo sua espinha.
—E você ainda carrega o que aqueles agentes fizeram com seus pais, e também se apoia em seu ódio, eu consigo ver. Eles estão todos mortos, mas o seu desprezo por gente como eu nunca vai estar, eu sei que não— ela respondeu.
Eles se encararam por mais alguns segundos. Havia uma tensão palpável entre os dois. De terem todos os seus segredos mais obscuros expostos com tanta brutalidade. De estarem tão vulneráveis perante aquele que deveriam mais odiar. De talvez não se sentirem tão ameaçados assim, e sim estranhamente reconfortados.
Eles haviam tirado tempo para estudar e aprender tudo um sobre o outro. Os pontos fracos, os segredos do passado, eles haviam tentado achar cada fraqueza, cada vulnerabilidade. Por que naquele momento isso não parecia um ataque, e sim um gesto de devoção?
—Eu não odeio você— ele disse, por fim— Da última vez que nos encontramos, você disse que eu te desprezava, e eu fiquei em silêncio. Porque eu deveria desprezar a Líder da Ordem que matou os meus pais. Mas você não é como eles, e eu não odeio você como eu os odiava. E eu quero acreditar que você não me odeia como as pessoas que te machucaram, porque eu também não sou como elas.
—Eu também não odeio você— ela se pegou dizendo antes que pudesse controlar as palavras que saíam de sua boca— Apesar de todo o meu bom senso, eu sinto que você não quer me machucar como outros feiticeiros fizeram antes. Que você vai me contar a verdade na melhor de suas capacidades, como eu também estou tentando fazer.
Edward sorriu para ela, e não havia nenhuma ironia ou deboche naquele sorriso. Apenas dentes brancos e brilhantes, e uma pontada de ternura.
—Bem, é bom saber que podemos ser sinceros um com o outro, então— ele disse— Porque eu concordo com você. Acho que pode ser outra seita. E a única maneira de impedirmos um desastre é trabalharmos juntos.
Henrietta assentiu.
—Você saberia quem poderiam ser os membros dessa vez, então? Da última foram só feiticeiros, mas dessa vez há o provável ajudante, que parece não ter magia— ela replicou.
—Eu sei que nós dois sabemos bem mais do que deveríamos um sobre o outro e sobre toda essa confusão, mas ainda assim vou perguntar: você sabe sobre os Iluminados?— ele devolveu a pergunta.
Henrietta soltou uma risadinha levemente irônica.
—Eu sou a Líder da Ordem e uma das únicas sobreviventes dos ataques da última seita do Hierofante. O que você acha?
Edward esboçou um sorrisinho.
—Eu já imaginava que sim. Bem, eu estava discutindo sobre esse assunto sobre um outro… contato meu. E ela parece ter uma suspeita em específico de que um dos Iluminados poderia se corromper de tal forma. E um Iluminado seria compatível com o perfil do provável ajudante— ele comentou.
—Um contato…? Quem seria ela? Eu achava que esse tipo de arranjo era exclusivo entre nós— ela indagou.
Edward pareceu conter um sorriso.
—Não precisa ficar com ciúmes, milady. O que eu tenho com esse outro contato é puramente funcional. Sem declarações de não-ódio e confissões sobre nossos passados obscuros entre uma informação trocada e outra.
Henrietta esboçou uma expressão indignada.
—Que audácia! Eu não estou com ciúmes!— ela replicou— Quero apenas ter certeza de que você está levando isso a sério o suficiente. Nada do que eu te digo pode sair dessas paredes.
—A recíproca é verdadeira— ele respondeu— E acredite, Henrietta, eu te levo a sério. Mais do que eu deveria. Além disso, não seria vantajoso para nenhum de nós se nossos pequenos encontros ilícitos fossem descobertos.
Ela não deixou de perceber que ele havia finalmente a chamado pelo primeiro nome. E isso estranhamente lhe passou uma pontada extra de confiança. Mesmo que certamente não devesse.
—Pois bem— ela finalmente respondeu— Eu concordo com a especulação. Um Iluminado seria bem compatível com o perfil do criminoso sem magia.
—Nesse caso, acho que seria sábio da sua parte empenhar uma quantidade razoável de agentes para vigiar o baile da próxima semana. George Cohen, um dos principais suspeitos, estará lá— ele comentou.
—Desde o ataque no Palácio, já estávamos planejando operações em todos os bailes da temporada, de qualquer forma— ela prontamente replicou.
Edward riu.
—Posso ver que minha Duquesa sempre está três passos à minha frente. Eu definitivamente tenho que parar de te subestimar— ele provocou.
Henrietta não conseguiu conter uma careta.
—Eu achava que já tínhamos passado da fase de “Duquesa” e “Senhor Waldford”, a esse ponto— ela replicou.
—Bem, é divertido te chamar assim quando o título parece te constranger tanto— ele gracejou.
Henrietta soltou uma risada seca.
—“Duquesa” não é um título que eu ganhei nas circunstâncias mais felizes, então sempre é estranho quando outras pessoas me chamam assim— ela respondeu.
O sorriso de Edward vacilou por alguns segundos, por mais que Henrietta não tivesse esboçado nenhuma real insatisfação, apenas feito um comentário.
—Se te incomodar, eu posso parar— ele disse.
—Eu aprecio o gesto, obrigada. Não é nada pessoal, não quero ser chata. É só que meu finado marido não era exatamente flor que se cheire, e eu prefiro muito mais os títulos que eu construí sozinha do que o que ele me deu— ela respondeu.
Edward assentiu.
—Eu entendo. Todos temos partes do nosso passado que preferimos esquecer— ele comentou— De qualquer forma, eu estava prestes a começar a fazer o jantar antes de você chegar. Você poderia ficar e me ajudar a comer. Prometo que não vou tentar te envenenar, é só que estou com fome, mas ainda temos muito a discutir.
Henrietta riu.
—Você prometer que não vai me envenenar soou bastante suspeito, mas também estou com fome, então vou deixar passar— ela respondeu— E eu suponho que não tenha mal algum em terminarmos nossa conversa de estômago cheio.
Como o leitor já deve estar ciente, nessa história, coisas pequenas e gestos aparentemente inofensivos tem o potencial de logo se tornarem bem maiores do que o inicialmente pretendido.
Esse era o caso daquele aparentemente incipiente e conveniente jantar.
É bem verdade que muitas informações relevantes ao caso do Incendiário foram trocadas durante a refeição. Mas, ao que consta, Edward Waldford era um cozinheiro bastante razoável, e toda espécie de charme é ressaltada por uma pessoa que sabe cozinhar. Então a noite logo se desdobrou em madrugada, e os assuntos se alternaram entre aqueles relevantes ao caso e outros mais pessoais.
Eles trocaram informações sobre a seita e sobre o que sabiam a respeito do Hierofante. Sobre o sequestro de Henrietta, e sobre como Edward já havia esbarrado com algumas das relíquias sagradas durante seus anos comercializando artigos mágicos. E, embora ambos tivessem uma espécie de temor a respeito do assunto, talvez também houvesse uma pontada de fascinação.
Qualquer que seja o motivo, leitor, o fato é que eles passaram a se encontrar com cada vez mais frequência no próximos dias e semanas. Cada vez mais arranjavam desculpas para seus encontros ilícitos, como Edward havia chamado. Por vezes eles discutiam suas teorias e planejavam o que fariam a respeito do Incendiário. Mas por vezes simplesmente se assentavam em pontas opostas da sala de Edward e faziam seus trabalhos em silêncio, sendo interrompidos pela observação sarcástica ou comentário provocativo um do outro de tempos em tempos.
A questão é que aquilo definitivamente sairia de controle mais cedo ou mais tarde. Mas nenhum dos dois parecia perceber a gravidade daqueles pequenos momentos de paz que dividiam naquela casa isolada do restante do mundo e de seus problemas.
Embora eu certamente gostaria de continuar a dissertar sobre o que quer que a relação de Henrietta Raycraft e Edward Waldford estava começando a se tornar, outros dois personagens, igualmente conflituosos, embora de forma distinta, exigem a atenção de vosso narrador nesse momento.
Pois, na manhã seguinte àquela noite, um evento bastante inusitado colocaria Digory Pembrook e Mihai Beswick em uma situação deveras desconfortável.
Digory havia sido abordado por Augustus no dia anterior, e ele havia pedido sua ajuda para lidar com Zoe Rodaki. Portanto, o jovem Pembrook havia passado a noite vigiando Zoe na casa de Antigone, onde ela ainda estava hospedada, e concordado em levá-la para o abrigo seguro que Gus havia conseguido de Henrietta assim que o dia clareasse.
Antigone havia sido seca, mas cortês. Ela parecia bastante ocupada com as investigações. Gus, por outro lado, havia sido bastante prestativo, mas havia se ausentado por longos períodos de tempo, aparentemente terminando os preparativos para receber Zoe no abrigo secreto.
Então havia sobrado para Digory a tarefa de babá. O que era estranho, já que ele e Zoe tinham a mesma idade.
—Tecnicamente, você é três meses mais velho— a garota havia comentado quando Digory apontou esse fato.
—Bem, é verdade— ele havia respondido— Mas eu gostaria apenas que você estivesse ciente de que eu não sei usar minha arma direito. E que eu não tenho magia. Então, caso as coisas deem errado, eu realmente gostaria que você usasse algum feitiço ou algo do tipo para nos proteger.
Zoe havia soltado uma risadinha debochada.
—Eu achava que agentes devessem tentar me impedir de usar magia— ela provocou.
Digory fez uma careta, um pouco sem jeito.
—Agentes competentes, sim. Mas esse é o meu primeiro mês, e eu gostaria de ficar vivo por tempo o suficiente para receber meu primeiro salário.
De qualquer forma, a noite havia passado sem intercorrências. E, quando a manhã chegou, Digory recebeu um bilhete de Gus informando para onde deveria levar Zoe.
Ele sabia mais ou menos o caminho até aquele bairro, mas não bem o suficiente para se sentir seguro usando os túneis subterrâneos da Ordem. Então ele e Zoe decidiram pegar o bonde e seguir o restante do caminho à pé, para evitar que se perdessem.
—Sabe, quando eu vim pedir ajuda à Ordem, eu não esperava ganhar um menino magrelo de babá— Zoe comentou no meio do caminho, quando estavam no bonde.
Digory já havia reparado que a jovem tinha uma tendência a ser bastante mordaz, mas estava se contendo. Provavelmente porque estava grata pela ajuda. Ou talvez Digory simplesmente parecesse tão indefeso que ela sequer sentia muito prazer em atormentá-lo.
—Eu estou me esforçando— ele respondeu, dando de ombros— Além disso, eu sou menos magro que você. E três meses mais velho!
Zoe riu, e ele se pegou rindo junto. Era bom vê-la um pouco menos retraída e assustada do que no dia anterior.
Eles provavelmente riram alto, porque logo um dos outros passageiros do bonde se virou para encará-los. E Digory teria reconhecido aqueles olhos escuros e brilhantes em qualquer lugar.
—Mihai?— Digory perguntou, e ele pôde ver a expressão confusa no rosto do outro rapaz.
Mihai se levantou e caminhou até eles.
—Oi, Dig!— Mihai cumprimentou, tentando manter um tom educado, apesar de estar visivelmente confuso.
Pois Mihai sabia que Digory não deveria estar ali, naquela condução. Ele sabia que o outro rapaz morava perto o suficiente da Relojoaria para ir à pé, então certamente não haveria motivos para pegar o bonde. O que implicava que ele não havia passado a noite em casa, e a presença de Zoe apenas tornava as implicações disto mais dúbias e constrangedoras.
—Eu não sabia que você pegava essa condução— Digory tentou desconversar, apesar de estar quase gaguejando de tanto nervosismo— Essa é minha… amiga. Zoe. Eu estava apenas a levando para casa, mas não devo chegar atrasado para trabalhar hoje.
—É um prazer te conhecer, Mihai— Zoe disse, aparentemente alheia à tensão entre os dois.
—Igualmente— Mihai respondeu, mas seu sorriso era claramente forçado. Seu olhar parecia triste. E talvez ligeiramente traído — Digory nunca tinha me contado que tinha uma namorada.
Digory arregalou os olhos, e Zoe riu alto.
—Nós não somos namorados— Zoe respondeu, mas, de alguma forma, o tom de divertimento dela fez tudo parecer ainda pior.
Digory sabia que não havia sido intencional. Mas, ainda assim, ele pôde ver que Mihai ainda parecia estar interpretando a situação de maneira totalmente equivocada.
Como se ela estivesse mentindo. Ou como se Digory fosse um grande galinha.
—Eu…- Digory começou a dizer, tentando se justificar. Não poderia contar a verdade, mas também não queria que Mihai pensasse que Zoe era alguma coisa sua.
E o fato de ele ter descoberto meros dias antes que Mihai era um feiticeiro e não ter tido a oportunidade de dizer nada também não ajudava a organizar seus pensamentos confusos.
Ele acabou gaguejando, e simplesmente encarando Mihai com o rosto extremamente vermelho e as palavras entaladas na sua garganta.
—Está tudo bem. Você não precisa se justificar para mim, Digory— Mihai disse, o tom ainda calmo e educado, mas a expressão claramente melancólica— Esse é o meu ponto, de qualquer forma. Até mais tarde, nos vemos no trabalho.
E Mihai saltou do bonde, deixando um Digory ainda corado e confuso para trás.
—Minha nossa, o que foi isso?— Zoe perguntou assim que estavam sozinhos novamente— Eu não queria causar uma briga de casal.
Por mais impossível que parecesse, Digory ficou ainda mais vermelho e envergonhado.
—Nós não somos um casal— Digory replicou.
—Depois dessa, não mais, imagino. Embora você claramente gostaria que fossem— Zoe deu de ombros— Você deveria ter dito que eu era sua prima ou algo assim.
Digory se encolheu em seu assento, tendo que conter o tremor em suas mãos e as palpitações em seu peito.
Era só isso o que lhe faltava. Depois de todas as reviravoltas e tragédias no último mês, agora ele havia perdido a única benção que havia recebido.
É claro que um pequeno mal entendido regado a ciúmes entre três adolescentes no transporte público parece algo pequeno e banal perto dos últimos todos os assuntos mais sangrentos e em chamas desse capítulo. Mas, como dito mais cedo, coisas pequenas logo se tornam bem maiores para nossos pobres personagens.
E seria apenas questão de tempo para que Digory e Mihai novamente se encontrassem em situações inusitadas, com consequências ainda mais inesperadas.
Fale com o autor