Arsonist's Lullaby- Interativa
14 XIII- Scared of the Dark
Notas iniciais
Augustus esperava ter mais uma manhã comum e ligeiramente estressante na sede da Ordem.
Depois de tomar café da manhã com Anne e Jesper (Adel ainda estava dormindo), ele saiu cedo, já se preparando psicologicamente para continuar as frustrantes e extensivas investigações a respeito do Incendiário.
Ele estava prestes a ter uma ingrata supresa, leitor, como você já deve ter imaginado após descobrir dos eventos da noite anterior. Mas, conforme andava até a sede da Ordem, alegremente ignorante a respeito do mais recente incêndio, Augustus mal notou que a névoa parecia mais densa que de costume, e a agitação um pouco maior que o comum perto do centro da cidade.
Ele só descobriu que havia algo de errado quando entrou na sede através da entrada secreta na biblioteca, e encontrou o local bem mais cheio e caótico que uma manhã no meio de uma semana comum normalmente teria.
—Smith?— Augustus imediatamente foi falar com o porteiro idoso, que parecia sonolento, apesar do caos— O que está acontecendo?
Smith ergueu a cabeça, um pouco no susto. Talvez estivesse tirando uma soneca antes de ouvir a voz de Augustus. Ele achou melhor não perguntar se realmente era o caso.
—Sr. Lockhart!— o porteiro exclamou— Que bom vê-lo. A Marquesa Lascelle estava te procurando mais cedo. Disse que é para eu mandar você atrás dela assim que chegasse.
Augustus franziu o cenho, estranhando um pouco o pedido.
—Certo, eu irei. Mas o que está acontecendo?— ele perguntou.
Smith deu de ombros.
—Eu ouvi os agentes mais jovens falando de mais um incêndio. Ninguém morreu, mas pareceu importante, você realmente deveria achar a Marquesa o mais rápido o possível.
Augustus agradeceu e não perdeu mais tempo, indo correndo até a casa de Antigone.
Ele sabia onde a Marquesa morava, mas a recíproca não era verdadeira. Ele supunha que esse era um efeito ruim de ter uma posição tão alta na Ordem quanto a de Antigone, eventualmente alguns agentes sempre acabariam tendo que saber onde você morava por motivos funcionais e de segurança. Augustus se sentia grato por ninguém saber onde era sua casa. Ficava mais fácil esconder a identidade de Jesper e as eventuais visitas de Edward. E também ninguém poderia contatá-lo fora do horário de expediente, o que certamente era bom. Pelo menos naquele dia ele pudera dormir uma quantidade razoável antes de lidar com a mais nova dor de cabeça da Ordem.
A casa de Antigone era grande e bonita, mas tinha um aspecto solitário. Não havia criados nos jardins, ou circulando pelas portas laterais até a cozinha. Da última vez que estivera ali, Augustus só havia visto duas empregadas, o que era um número bastante reduzido para a casa de um nobre. Ele supunha que Antigone gostasse da solidão.
Augustus bateu na porta, e logo a Marquesa surgiu, uma expressão insatisfeita no rosto.
—Sabe, Lockhart, a sua capacidade de dormir tão pesadamente em meio a um caos tão grande seria admirável, se não fosse tão disfuncional— ela disse— Por favor, entre. Temos muito a fazer.
Talvez Augustus devesse se sentir repreendido, mas teve que conter uma risada conforme seguia a Marquesa para dentro.
—Bem, pelo menos um de nós dois tem que ter uma boa noite de sono. Para manter o ânimo da equipe alto— ele respondeu.
Antigone olhou para ele, as olheiras ao redor de seus olhos bem visíveis, mas sua expressão não parecia particularmente irritada com a brincadeira.
—Eu suponho que sim, mas está me soando cada vez mais injusto que essa pessoa nunca seja eu— ela replicou.
Seria aquilo… humor? Não, não poderia ser. Augustus conteve a risada que ameaçava sair por precaução. Não queria irritá-la, ainda mais depois do que claramente havia sido uma noite passada em claro.
—Bem, nós podemos combinar uma escala. De qualquer forma, onde foi o incêndio? E onde está Henrietta?— ele perguntou.
Antigone o encarou, um pouco descrente.
—Então você realmente dormiu pacificamente enquanto o Palácio pegava fogo. Como eu disse, admirável, ainda que disfuncional— ela falou, enquanto separava alguns papéis— E Henrietta está no Palácio, coletando mais evidências. Aqui estão as que já temos por enquanto. Você faria bem em se inteirar dos detalhes antes que ela volte.
Os documentos que Antigone lhe entregou detalhavam o padrão das chamas, com até mesmo alguns esboços, e levantavam a possibilidade de magia de Luz e Sombras terem sido usadas simultaneamente. Augustus estranhou, nunca havia ouvido falar de algo assim. Então, assim que terminou de ler, foi questionar Antigone.
—Bem, é complicado— ela explicou— Mas, ao que tudo indica, o Incendiário, quem quer que ele seja, tem acesso a um tipo bem peculiar de magia. Uma das vítimas, Sofia Rodaki, tinha livros a respeito disso em seu acervo antes do incêndio que a matou. Creio que, por mais que seja um tipo de magia rara, o Incendiário esteja utilizando-se dela em seus crimes.
—Nós deveríamos olhar melhor esses livros da Sra. Rodaki mais tarde, então. Parecem ser algo de interesse ao caso— Augustus ponderou.
Antigone suspirou, e disse:
—Eu concordo, Lockhart. Mas essa é outra coisa complicada. Os livros desapareceram depois do incêndio, de acordo com a neta dela, Zoe. E a garota não foi muito cooperativa da última vez que falei com ela.
Augustus estava prestes a sugerir que tentassem falar com a tal neta novamente, quando a campainha da casa de Antigone tocou.
Os dois se entreolharam, e foram juntos atender a porta.
Uma garota baixa, de cabelos loiros curtos e olhos muito azuis e muito desconfiados os encarava. Algo em sua expressão parecia estranhamente inquieto, apesar da postura hostil.
—Zoe— Antigone disse, e Augustus pensou na enorme coincidência da tal neta de Sofia Rodaki surgir bem naquele momento— Entre, por favor. Você está bem? Aconteceu alguma coisa?
A garota entrou, e, apenas quando a porta se fechou atrás dela, fez algo que surpreendeu ambos os agentes da Ordem.
Talvez fossem as roupas escuras e a cara fechada. Mas Augustus não tinha reparado no quão jovem e assustada Zoe parecia até ela lançar ambos os seus braços ao redor de Antigone, abraçá-la com força, e começar a chorar.
—Eu sinto muito, eu não sabia mais para onde ir— a garota disse, em meio às lágrimas— Eu não tenho mais ninguém. Eu não sei mais o que fazer.
Augustus ficou surpreso com a gentileza que Antigone demonstrou com Zoe, envolvendo os próprios braços suavemente ao redor da menina e a guiando até uma das poltronas da sala de entrada. Ela até mesmo ofereceu um lencinho para que Zoe secasse suas lágrimas, e se ajoelhou de frente a ela, aguardando pacientemente que ela parasse de chorar e conseguisse articular melhor suas palavras.
Augustus foi buscar um copo de água para Zoe, que aceitou de bom grado quando ele voltou. Antigone agora estava assentada do lado dela, uma mão no ombro da garota para reconfortá-la.
—Obrigada— Zoe agradeceu quando Augustus lhe entregou o copo de água— E eu sinto muito por todo o drama. Mas algumas coisas bem estranhas aconteceram desde que você veio falar comigo, e eu não sabia como reagir.
—Que coisas estranhas são essas, Zoe?— Antigone questionou, não mais tocando o ombro de Zoe, mas perto o suficiente para oferecer o mínimo de conforto.
Zoe encarou Augustus por alguns segundos, como se estivesse se perguntando se ele era confiável. Ela olhou de volta para Antigone, como se pedindo por confirmação, e a Marquesa assentiu. Somente então ela disse:
—Ele está me vigiando. Eu sei que está. Consigo senti-lo, espreitando nas sombras, sempre calado, mas sempre atento. É como se ele nunca tivesse saído da casa desde que a minha avó morreu. É como se ele estivesse por todo lugar— a menina disse, quase em um sussurro, a voz assustada.
—Mas você viu alguma coisa? Algum evento? Ou só está com essa sensação ruim?— Augustus questionou.
Zoe cruzou os braços. As lágrimas ameaçaram voltar aos seus olhos.
—Eu tenho sonhos, muitos sonhos. Ou melhor, pesadelos. Eu vejo tanto fogo, tanta morte, tanta destruição. Eu vejo uma figura envolta em sombras assomando sobre Londres, pronta para destruir tudo ao seu redor— ela disse, a voz começando a ficar embargada novamente— E, mesmo quando eu estou acordada, às vezes eu vejo um par de olhos brilhantes e cruéis na penumbra. Eu vejo velas e luzes piscando e se apagando sozinhas. Eu vejo objetos que eu não toquei surgindo em lugares nos quais eu não os havia deixado antes. Mas o pior são as vozes. Elas chamam o meu nome, mas, quando eu olho, não tem ninguém lá. Ninguém além dos olhos, que parecem nunca me deixar em paz. Eu sinto que estou ficando doida, estou perdendo minha mente. Vocês precisam me ajudar, por favor.
Antigone parecia preocupada. Augustus imaginou que ele também parecia.
—Você está segura agora, Zoe. Nada de ruim vai acontecer com você, nós vamos te proteger. Eu prometo— Antigone disse, e Augustus nunca havia ouvido sua voz soar tão gentil ou tão melancólica.
Ele se perguntou se já houve alguém no passado da Marquesa que ela não havia sido capaz de proteger. Alguém de quem Zoe a lembrasse.
Augustus ignorou esse pensamento e olhou Zoe, dando leves tapinhas em suas costas de para tentar reconfortá-la.
—Com a sua ajuda, nós vamos acabar com esse babaca antes que ele possa machucar qualquer pessoa de novo— ele disse, e Zoe forçou um leve sorriso.
—Sabe, vocês até que são legais para dois agentes da Ordem— a garota provocou, a expressão já não mais tão assustada quanto antes.
Augustus riu.
—E você é até legal para uma feiticeira— ele replicou.
Zoe fez uma careta, mas acabou rindo.
Os três passaram o restante da manhã discutindo sobre as pistas coletadas no incêndio do palácio.
Zoe não sabia muito a respeito das magias antigas e estranhas que sua avó costumava guardar em sua biblioteca. Ela só sabia que elas estavam contidas em um pergaminho de aspecto antigo, que ficava separado dos outros livros, e que sua avó também tinha alguns cadernos nos quais ela escreveu algumas observações sobre esses feitiços. O pergaminho e todos os cadernos haviam desaparecido após o incêndio, apesar de apenas uma parcela pequena da biblioteca ter sido danificada pelo fogo.
Mais tarde, depois de um rápido almoço na copa de Antigone, Zoe pediu, com uma voz um pouco tímida, se ela poderia usar um dos quartos de hóspede para descansar um pouco.
—Eu não consigo dormir há três dias. Por causa dos pesadelos— ela admitiu.
—É claro que pode, Zoe. Vou pedir para uma das criadas preparar um quarto para você— Antigone concordou imediatamente.
Augustus e Antigone passaram o restante da tarde analisando as provas e discutindo teorias. Nenhum dos dois conseguiu chegar em uma conclusão a respeito do porque aquele incêndio não havia matado ninguém, ou porque o píer do Palácio havia sido o alvo. Apenas concordaram que, quem quer que o Incendiário fosse, ele estava conectado àquela magia aberrante que eles observaram em todas as cenas de crime.
—Zoe falou algo sobre uma entidade chamada “o Hierofante” quando fui visitá-la pela primeira vez— Antigone confidenciou, quando os últimos raios de sol começaram a se esvanecer e o frio da noite se assomava sobre eles— Eu não faço ideia do que seja. Mas acho que são os feitiços desse Hierofante que o Incendiário está usando, e que por isso a magia está mais for e mais perigosa do que jamais vimos antes.
—Nós precisamos descobrir o que essa coisa é— Augustus ponderou— A cada novo crime, parece que a magia realmente está mais forte. O Incendiário, quem quer que ele seja, está ganhando poder, temos que impedi-lo antes que seja tarde.
Já era quase madrugada quando Zoe acordou, e Antigone disse que Augustus deveria ir pra casa.
—As velhas fofoqueiras da vizinhança vão achar bastante escandaloso eu ter um cavalheiro em minha casa a essa hora da noite— ela se justificou— E, além disso, um de nós dois tem que ter uma boa noite de sono. Para manter o ânimo da equipe alto.
Dessa vez, Augustus riu.
—Você deveria descansar também— ele disse, apesar de seu instinto lhe dizer para não abusar da boa vontade da Marquesa.
Ao invés da resposta ácida que ele estava esperando, ele recebeu um dar de ombros.
—Eu só vou conversar mais um pouco com Zoe, não se preocupe. Não vou virar mais uma noite.
Augustus se despediu de Zoe e da Marquesa, pegou seu casaco e seu chapéu, e, com o corpo exausto e os pensamentos caóticos, trilhou seu caminho de volta para residência Lockhart.
Ao chegar ao seu destino, a primeira coisa que Augustus fez foi procurar sua irmã, e proferir um pedido que Adelaide achou bastante inusitado:
—Adel, eu preciso de sua ajuda com um feitiço.
Adelaide, que estava pacificamente tocando o piano, se virou para o irmão de repente, fazendo a música desafinar conforme ela parava de tocar bruscamente.
—Gus, mas que diabos? Você sabe que eu não pratico magia, não me peça coisas desse tipo.
Adel encarou o irmão, e sentiu a leve revolta que se formou com o pedido rapidamente desaparecer. Augustus parecia exausto, e talvez até mesmo um pouco assustado.
—Por favor? É importante— ele insistiu.
Adel soltou um suspiro.
—Primeiro, me explique exatamente do que você precisa. Mas não espere um “sim” como resposta a não ser que seja razoável.
Nem mesmo meia hora mais tarde, Adelaide Waldford se encontrava em uma situação que certamente não lhe soava nenhum pouco razoável. Mas o que ela deveria fazer? Augustus sempre conseguia o que ele queria, e alguém tinha de estar lá para impedi-lo de tentar algo estúpido.
—Augustus, eu juro por tudo, se eu suspeitar por um segundo sequer que estamos em perigo, eu vou dar um fim a essa palhaçada mais rápido do que você conseguir falar “feitiço”— ela murmurou, olhando, desconfiada, os arredores escuros e parcialmente carbonizados da casa.
Augustus riu.
—Não se preocupe, Adel. Essa não é minha primeira vez falando com gente morta.
Adelaide sabia que isso provavelmente era verdade. Augustus tinha magia de Sombras desde muito jovem, e, embora não a usasse com tanta frequência quanto Edward, ele certamente já havia tido algum encontro acidental com algum espírito ou espectro, como grande parte dos feiticeiros de Sombras. Ela podia até não gostar das premonições que sua magia de Luz causava, mas com certeza era grata por não enxergar fantasmas acidentalmente por aí. Certamente era um efeito colateral mágico bem pior.
Adelaide suspirou, tentando manter-se calma, e disse:
—Tudo bem. Vamos logo com isso, então. Essa casa está me dando arrepios.
Quando Gus havia explicado o que planejava fazer, Adelaide havia achado arriscado. Mas sem dúvidas seria mais arriscado ainda se ela não estivesse lá para interferir caso a situação saísse de controle.
Augustus queria invocar o fantasma de Joel Aubert, a vítima mais recente do Incendiário, com sua magia de Sombras.
Joel era o pai de Zoe Rodaki, a garota que ele Antigone haviam resgatado, e genro de Sofia Rodaki, a quinta vítima. De acordo com Gus, ele era a pessoa que provavelmente seria capaz de conectar mais pontas soltas, e responder mais perguntas.
O problema é que ele já estava morto há mais de uma semana, e fantasmas já tinham uma reputação por serem incoerentes e imprevisíveis, o que apenas piorava conforme ficavam mortos por mais tempo. Uma semana podia não soar como muito tempo, mas, para um espírito, poderia ser, ainda mais para um que teve uma morte violenta.
—Não vai ser muito difícil, e você não vai precisar realmente fazer nada— Augustus falou, enquanto começava a montar os elementos do ritual no chão— Só vai precisar expulsar o fantasma caso as coisas saiam do controle, mas eu duvido que isso vá acontecer.
Adel observou enquanto Gus desenhava um círculo com sal grosso— o local onde o fantasma supostamente ficaria contido— e acendia algumas velas. Ela não tinha certeza se essas eram para iluminação ou para o ritual, mas decidiu não perguntar.
Ela sabia pouco sobre magia de Sombras, mas conseguia reconhecer vagamente aquele ritual. Talvez fosse uma lembrança distante de sua infância, quando seu pai ainda estava vivo. Talvez já tivesse visto Ed fazendo algo semelhante. Mas tinha certeza de uma coisa: invocar um espírito sempre era mais perigoso do que simplesmente esbarrar por acidente em algum dentro de uma casa abandonada. Perturbar o descanso dos mortos não costumava ser uma boa ideia.
Gus parecia prestes a iniciar o ritual, quando alcançou a bolsa na qual estavam os insumos e a remexeu por um tempo considerável, soltando um resmungo decepcionado quando pareceu não achar o que estava procurando.
—Eu me esqueci da parte mais importante, que droga— ele murmurou.
—E o que seria?— Adel questionou, embora sua vontade fosse falar “que pena, vamos para casa, então”.
—Um objeto amaldiçoado. Eu até poderia usar outra coisa como fonte de energia, mas teria que matar algum pequeno animal ou planta, o que não é muito agradável. A energia de objetos amaldiçoados é o substituto mais comum, mas eu esqueci meu medalhão em casa— ele explicou.
Adel deu de ombros.
—Estamos na casa de um feiticeiro. Por mais que ele fosse um usuário de Luz, ainda devia usar um ou dois feitiços de Sombras. E ter pelo menos um desses objetos. Venha, me ajude a procurar.
Uma grande parte dos objetos da casa haviam sido carbonizados a ponto de ficarem irreconhecíveis. No canto, contudo, em meio a uma pequena pilha de cinzas, Adelaide viu um brilho metálico e rosado.
Uma pequena pedra de quartzo rosa em formato de gota, cravada no pingente de uma corrente de prata. Bonita, mas com uma energia pesada. Sem dúvidas continha algum tipo de magia, e por isso havia sobrevivido ao incêndio.
—Gus?— Adel chamou, mostrando o pingente— Isso vai servir?
Augustus deu um sorriso metade animado, metade maníaco.
—Sem dúvida alguma. Vamos começar com a diversão.
Agora, com a pedra em mãos, Augustus se assentou de frente ao círculo de sal, e começou a entoar, em uma língua antiga e ominosa, um feitiço que Adel não reconheceu. Latim? Grego? Egípcio? Celta? Ela nunca teria certeza.
O que tinha certeza era que o feitiço, o que quer que fosse, estava funcionando.
O ar dentro do círculo de sal começou a tremular, com um brilho pálido e espectral. Logo, a forma translúcida e mal definida de um homem começou a se materializar, inicialmente ajoelhado, mas, conforme seus traços ganhavam mais definição, ele se levantou. A pedra que Gus segurava brilhava, o rosa tão intenso que lembrava manchas de sangue em suas mãos.
Joel provavelmente havia sido um homem de boa aparência quando estava vivo. Teria sido um fantasma igualmente bonito, se não fossem as queimaduras terríveis que se espalhavam por metade do seu rosto e por uma porção considerável de seu corpo. O olho direito havia sido totalmente consumido pelas chamas, mas o olho esquerdo, de um tom assombroso de azul, olhava diretamente para Augustus.
Para a surpresa de Adel, o fantasma, que parecia inicialmente confuso, sorriu, como se de repente tivesse entendido onde estava.
—Eu não esperava visitas a essa hora da noite— o espírito disse, mas sem realmente dizer nada. Seus lábios se moveram, mas não produziram nenhum som. Ainda assim, a voz ecoou dentro do crânio de Adelaide, rouca e reverberante— Mas nunca é tarde para atender um cliente necessitado.
Augustus pareceu sem reação por alguns segundos ao concluir que o fantasma achava que ainda estava vivo, então Adel decidiu interferir, dando um passo à frente e se dirigindo ao espectro.
—Nós sentimos muito pelo horário, Sr. Aubert. Não era nossa intenção acordá-lo— ela tentou soar natural, apesar da tensão que sentia— Mas meu irmão precisava conversar com o senhor urgentemente.
Joel olhou para ela, e abriu um sorriso ainda mais largo. Teria sido encantador, se as queimaduras em seu rosto não se retorcessem de um jeito tão perturbador.
—Meu cliente não havia dito que estava acompanhado. Ainda mais de uma moça tão bonita— ele elogiou com naturalidade, e Adelaide percebeu que ele sem dúvidas tinha bastante charme quando estava vivo. Um comerciante nato. Ou talvez um charlatão— O que posso fazer por vocês? O horário pouco usual vai pedir uma comissão um pouco mais generosa, é claro, mas nada que não possa ser acertado.
Adel se forçou a sorrir. Era mais fácil seguir com aquela farsa e não quebrar a ilusão do espírito. Fingiria que ele ainda estava vivo enquanto fosse possível.
—Bem, é sobre a última pessoa que te visitou, Sr. Aubert— Augustus tomou a palavra novamente— Não podemos evitar de notar que foi uma visita tão pouco usual quanto a nossa. Talvez você pudesse nos contar algo sobre essa pessoa?
A expressão do espectro pareceu muito perturbada por alguns segundos. Como se ele quase estivesse se lembrando dos eventos de sua morte, e percebendo que certamente não estava mais vivo. Mas logo o sorriso voltou, embora dessa vez mais forçado e menos agradável.
—Eu não costumo discutir sobre meus clientes. Mas posso te garantir que aquilo não era uma pessoa. Era um monstro— ele murmurou— De qualquer forma, estamos aqui para falar sobre você, sim? Os meus clientes da sua idade geralmente me procuram pois querem filhos mas não são capazes de tê-los por meios naturais. Seria o caso do senhor também?
Gus pareceu visivelmente desconsertado. Talvez até mesmo triste. Adelaide sabia que ele e Anne tentavam ter filhos há anos, sem sucesso, e alguns médicos até mesmo haviam dito que isso seria impossível para ele. O fantasma de Joel Aubert não teria como saber, é claro, mas, ainda assim, ele havia tocado em um ponto extremamente delicado para Gus.
Por isso Adel, se viu na obrigação de interferir novamente.
—Sr. Aubert, por favor. Eu sei que aquela pessoa fez algo horrível com o senhor. Mas, se você não nos ajudar, mais gente vai acabar se ferindo— ela disse.
O fantasma a olhou, e havia tanto medo e desespero nos olhos dele que Adel deu um passo para trás, sentindo um arrepio trespassar seu corpo.
—Você não faz ideia do que está me pedindo para fazer. Você não faz ideia da tortura que é me lembrar, do quão cruel é o que você está me pedindo. Por favor, me deixe esquecer. Por favor.— a voz dele se quebrou em um quase sussurro desesperado e cheio de medo, e Adel não sabia o que fazer.
Mas Augustus deu um passo à frente, ficando cara a cara com o fantasma, apenas a frágil barreira do círculo de sal os separando.
—Joel, olhe para mim— ele disse, e o fantasma obedeceu— Eu sei que é horrível. Eu sei que você quer se esquecer. Mas você precisa se lembrar. Zoe está em perigo, e a única maneira de ajudá-la é se você nos contar a verdade. Você precisa se lembrar. Por ela.
—Zoe?— o espectro repetiu o nome, e Gus assentiu— Aquele monstro não pode chegar perto da minha filha… eu… eu preciso me lembrar…
O fantasma olhou para o chão. O seu corpo e suas mãos tremiam, e seus olhos estavam arregalados, empoçados de lágrimas. Mesmo assim, ele forçou um murmúrio alquebrado:
—Aquela criatura terrível… aquela facínora… eu não pude fazer nada, é como se toda a minha magia tivesse sido drenada… foram aqueles malditos amuletos de obsidiana, eu tenho certeza! Aquela pedra profana da Ordem! Antes que eu pudesse reagir, eu fui subjugado. E então veio o sangue, e o fogo, e a minha casa inteira caindo aos pedaços. Tudo o que eu construí! Todos os anos, todo o trabalho, todo o sacrifício! E tudo queimou em segundos. Até mesmo aquele meu corpo inútil foi consumido pelas cinzas, meus ossos se derreteram como uma vela de cera. Mas não, isso não foi o suficiente, foi? Vocês precisavam perturbar o meu descanso! Vocês PRECISAVAM me acordar!!! E EU SINTO O FOGO ME CONSUMINDO DE NOVO E DE NOVO E EU ESTOU PRESO NESSA CASA MALDITA PARA SEMPRE!!! POR QUE NÃO ME DEIXARAM DESCANSAR EM PAZ??? POR QUE???
Os gritos desesperados fizeram uma dor lancinante e aguda trespassar o crânio de Adelaide. Augustus, que estava ainda mais perto do fantasma, caiu de joelhos, segurando a cabeça entre as mãos, o rosto retorcido de dor. Os gritos continuaram, ecoando diretamente na mente de Adel, e ela podia sentir sua consciência vacilando. Estava ficando cada vez mais atordoada, se não reagisse rápido, tanto ela quanto Gus poderiam apagar. E o fantasma parecia cada vez mais próximo de romper a contenção do círculo de sal, batendo tão violentamente contra a barreira mágica que ela estava prestes a ceder.
Não havia outra opção. Se Adel não agisse, o fantasma ficaria livre, e só Deus sabia o que ele seria capaz de fazer naquele estado de ira e confusão.
Naquele momento, Adelaide Waldford não pensou por nem mais um segundo. Ela agiu. Era a filha de seus pais, afinal, e faria qualquer coisa para proteger sua família.
Ela ergueu ambas as mãos, e então ela gritou. Ela não sabia o que estava gritando, mas sabia o porquê. Ela tinha que gritar, ela tinha que colocar toda aquela energia para fora. A mesma energia que ela continha e escondia há tantos anos, a mesma energia da qual ela tão desesperadamente fugia. A energia que havia sido responsável pela morte dos seus pais nas mãos da Ordem. A energia que naquele momento seria responsável por salvar a si e ao seu irmão.
O poder fluiu para fora de seu ser na forma de uma aura luminosa tão fulgurante que ela momentaneamente foi cegada pelo brilho. Adelaide sentiu suas pernas fracas, e teve que abaixar a cabeça para se recompor, a respiração pesada por alguns segundos. Havia sido um grande esforço, mas, ao erguer o rosto, ela viu que o fantasma havia desaparecido, e que Augustus andava em sua direção com uma expressão preocupada.
—Adel— ele colocou as mãos nos ombros dela, a apoiando gentilmente— Você está bem?
Ela olhou para o irmão, sem muita certeza se deveria ficar brava pelo que ele a havia obrigado a fazer ou aliviada que havia funcionado.
—Estou— ela disse, por fim— Só me tire daqui, Gus. Eu só quero voltar para casa.
O caminho de volta foi feito em um silêncio parcialmente tenso, parcialmente assombrado. Augustus segurou o seu braço o tempo todo, como se ainda temesse que ela pudesse desfalecer.
—Adel?— ele chamou quando já estavam entrando na rua de casa.
—Sim, Gus?— ela respondeu.
—Obrigado. Eu sei que foi difícil para você, mas eu não teria conseguido sem a sua ajuda. Muito obrigado.
Adel respirou fundo. Estava exaurida e talvez ainda um pouco atordoada. Mas ela não conseguiu se impedir de sorrir, e puxar Augustus para mais perto, passando o braço por seus ombros.
—Eu sempre vou estar aqui para você, Gus. Mesmo se eu tiver que usar esses dons bizarros para te ajudar, eu sempre irei, se eu puder— ela disse.
Gus soltou uma risada.
—Eu te amo, Adel.
—Eu também te amo, seu idiota.
Adelaide ainda não sabia, mas as pistas reveladas pela alma penada de Joel Aubert ainda seriam úteis, não apenas para seu irmão, mas também para ela mesma. E talvez até mesmo fossem, a longo prazo, representar um passo para mais perto da resolução daquele grande mistério, mesmo que por labirintos de caminhos tortuosos e incompreensíveis.
Se o dia havia sido corrido para os dois Waldford mais novos, ele da mesma forma não havia sido fácil para o Waldford mais velho.
Edward acordou cedo na manhã seguinte, ainda um pouco sonolento por ter ido dormir tão tarde, e talvez um pouco desanimado com a sucessão de tarefas que o aguardavam naquele dia.
Ele estava preparando uma xícara de chá bem forte para ajudá-lo a acordar, quando ouviu a campainha tocando.
Era o carteiro.
Aquele não era o seu único esconderijo, mas era o único sobre o qual a sua mais recente aliada sabia. E era justamente ela a remetente da carta.
“E.,
Precisamos nos encontrar. Urgentemente.
—H. R.”
Henrietta Raycraft, bem mais curta e grossa do que ele esperaria.
Acabou sorrindo. Após os eventos atípicos do último incêndio, aquele certamente seria um encontro interessante. Ele mal podia esperar para ouvir as teorias errôneas e as meias verdades que ela sem dúvidas lhe ofereceria.
Talvez ele não devesse estar se divertindo tanto com aquilo. Havia se aproximado de Henrietta com um objetivo claro, e estava longe de desviar-se dele. Mas, ao mesmo tempo, sempre lhe gerava um misto de entretenimento e pena vê-la procurando tão desesperadamente pela verdade e sempre passando tão longe de alcançá-la. Talvez fosse até ligeiramente adorável.
Ele pegou papel e pena, e redigiu a resposta, tão breve e objetivo quanto ela haja sido:
“H.,
Mesmo horário, mesmo local. Amanhã.
—E.W.”
Fale com o autor