Arsonist's Lullaby- Interativa
9 VIII- At Nightfall, Sinners Crawl
Notas iniciais
—Mais uma dose— a mulher pediu, batendo o copo contra a mesa de madeira escura do bar.
Aquele não era um local que ela tinha o costume de frequentar. Mas era exatamente ali onde ela deveria estar naquela noite.
O leitor logo descobrirá seus motivos, mas vosso humilde narrador pode adiantar que são sombrios.
O barman prontamente atendeu seu pedido, andando até sua mesa e enchendo novamente seu copo com o líquido dourado que ela vinha consumindo desde o início da noite. Afinal, a jovem tinha boa aparência, e, ao que parecia, uma carteira que fazia as moedas fluírem com generosidade. Aquele estabelecimento não costumava atender aos menos favorecidos, tudo ali tinha um preço bastante elevado, e a mulher parecia entender isso bem.
—Espero que esteja de seu agrado, Senhorita— o atendente disse, antes de se afastar, deixando a jovem sozinha novamente.
Ela se vestia de maneira estranha, na opinião de muitos ali presentes, mas não deixava de ser atraente. Calças masculinas, com uma estampa risca-giz, e uma camisa de botões com detalhes em babados, mas os cabelos escuros e cacheados estavam soltos pelas costas. Não parecia ter muito mais que vinte e cinco anos, e, apesar da expressão fechada, era inegável que seus traços tinham certa harmonia. Talvez fosse a amante de alguém endinheirado, e estivesse esperando o companheiro ali. Afinal, não era comum que mulheres frequentassem aquele pub sozinhas, elas quase sempre estavam acompanhadas de alguém que as pudesse financiar.
Mas não aquela jovem. Estava realmente sozinha, por enquanto, embora seu objetivo fosse sair daquele lugar acompanhada. E logo achou seu alvo quando um homem de meia idade esguio e bem vestido adentrou o ambiente.
—Minha querida— ele cumprimentou, andando diretamente até a mesa da mulher, com um sorriso receptivo no rosto— É muito bom finalmente conhecê-la. Peço perdão por fazê-la esperar.
A mulher o encarou, ainda sem nenhuma insinuação de sorriso no rosto, e apenas meneou com a cabeça.
—Assente-se, Aubert— ela disse, seca— Temos negócios a tratar.
O homem tentou não deixar-se abalar, apesar de não estar acostumado com uma postura tão direta por parte de seus clientes. Normalmente eles vinham até ele bastante solícitos, necessitados de seus favores. Mas não aquela mulher. Ela parecia saber muito bem que o poder da ganância era o suficiente para fazê-lo tolerar um tratamento menos que ideal. Ao menos por enquanto.
—Certo— ele obedeceu— Bem, se entendi corretamente, a Senhorita está necessitando de um feitiço de fertilidade. Se concordarmos em um preço, podemos concluir os negócios ainda hoje.
Joel Aubert era um feiticeiro de boa reputação naquela parte cidade, um que nunca havia encarado uma falta de clientes em toda sua carreira. Sempre havia alguém batendo à sua porta, requisitando sua magia, e pagando generosamente. Como era mais habilidoso com a Luz, com frequência realizava curas, adivinhações e outros rituais clássicos àquele elemento. Mas um outro serviço bastante requisitado eram suas poções e feitiços de fertilidade.
Aquela mulher à sua frente, por exemplo, precisava exatamente disto. Na carta que havia escrito a Joel marcando o encontro, não havia revelado muitos detalhes sobre si, exceto que precisava urgentemente de uma gravidez para garantir a lealdade de um amante inconstante. Joel não era um homem particularmente promíscuo, mas, encarando a jovem, admitiu para si mesmo que, caso tivesse uma amante como ela, dificilmente a trairia. Não apenas pela relativa beleza física da mulher, mas porque havia uma escuridão em seus olhos castanhos. O olhar de uma mulher que seria capaz de vingança terríveis, caso desprezada.
—O preço padrão me parece justo— a jovem foi curta e grossa— Podemos ir assim que eu terminar minha bebida. Onde planeja fazer o ritual?
—Minha casa não fica muito longe, Senhorita. Podemos ir à pé, ou podemos chamar uma carruagem. O que preferir.
A mulher virou o restante do whiskey garganta abaixo. Tinha modos bastante incultos, ele reparou. Mas talvez fosse exatamente isso o que seu amante endinheirado apreciasse, ela parecia completamente indomável.
—Não pareceu muito animado com a ideia de pagar uma carruagem, Aubert— a mulher zombou, arqueando uma sobrancelha— Mas podemos ir à pé, só vamos logo.
Ele teve a impressão de que ela resmungou alguma coisa (bruxo muquirana? Não, certamente havia ouvido errado.) enquanto se levantava e recolhia seu casaco. Não fez menção de pedir ajuda para vesti-lo, e, quando Joel pensou em oferecer-lhe o braço por educação, ela lhe lançou um olhar enfastiado que o impediu de fazê-lo.
Saíram para a rua juntos, e o ar frio fez um calafrio passar pela espinha de Joel. Talvez houvesse algo além do ar frio, também. Talvez aquela mulher estranha, que não revelava o próprio nome ou a própria procedência, e que parecia ter uma estranha escuridão em seus olhos, estivesse o deixando um pouco desconsertado.
Joel Aubert não costumava ignorar sua intuição. Ela surgia diretamente de sua magia de Luz, e portanto sempre lhe era útil. Contudo, a magia dele parecia estar estranhamente silenciosa naquela noite. Tudo cercando a mulher que caminhava ao seu lado parecia vago e indefinido, e ele se sentia apenas dançando conforme a música que ela tocava sem nem ao menos ouvir direito, embora fosse ela que o seguisse através das ruas e avenidas.
—Chegamos, Senhorita— ele anunciou, abrindo a porta de sua casa, apesar de levemente apreensivo.
A mulher encarou a porta de madeira clara e a pequena escadaria de mármore. Era uma casa bonita, Joel sabia, mas ela não parecia particularmente impressionada.
—Finalmente— ela murmurou, e Joel fechou a porta atrás de si quando ambos tinham entrado.
Ele decidiu ignorar o comentário pouco fortuito e guiá-la até a sala dos feitiços, contígua à sala de estar.
—Pode esperar aqui, Senhorita. Vou apenas recolher os suprimentos necessários e podemos começar— ele aconselhou, se retirando para a despensa e a deixando ali.
Não demorou muito para que Joel retornasse com algumas ervas medicinais e um livro de feitiços. A mulher estava em um divã, o observando trabalhar com pouco interesse.
Ele se assentou de frente a uma bancada, de costas para a jovem, e começou a confeccionar a poção, canalizando sua própria força vital para, junto com as ervas, aumentar a da mulher. Para tornar possível que ela criasse vida.
Pequenas faíscas luminosas se erguiam pelo ar do recinto enquanto ele fazia isso, e um cheiro suave e herbal começava a se espalhar.
Estava quase terminando a poção, quando sentiu um objeto frio e metálico tocando a parte de trás de seu pescoço.
—Muita calma nessa hora, Aubert— a voz da mulher aconselhou, com uma pontada de divertimento— Vire-se e ajoelhe-se. Devagar. E nem pense em tentar alguma gracinha. Essa arma dispara cinco balas por segundo, nem mesmo você poderia parar todas elas.
Joel obedeceu. Percebeu que sequer estava particularmente surpreso, apenas assustado. Deveria ter imaginado que algo não estava certo quando não conseguiu acessar nenhum tipo de intuição ou premonição sobre aquela mulher.
Agora, de joelhos de frente a ela, com uma arma grudada em sua testa, ele conseguia ver a obsidiana brilhando em um amuleto em seu peito, e percebeu que deveria ter desconfiado que tudo era uma armadilha logo de cara.
—O que você quer? Tenho dinheiro, mas também posso fazer qualquer feitiço que desejar, se me deixar livre— ele disse, ouvindo o desespero em sua própria voz.
A mulher se limitou a rir com deboche.
—Quero que estenda as mãos. Devagar— ela ordenou, e ele obedeceu.
Um par de algemas, semelhantes às usadas por policiais comuns, surgiu de dentro do bolso das calças da mulher. Ainda segurando a arma, com sua outra mão ela prendeu as de Joel juntas.
Uma fraqueza intensa se apossou do corpo do homem imediatamente. Em todos os seus quarenta anos como feiticeiro, nunca havia se sentido tão desconexo de seu poder, tão impotente. Imediatamente percebeu o motivo ao constatar vários amuletos de obsidiana cravejados às algemas.
—Agora podemos conversar de igual para igual, aberração— a mulher mais uma vez sorriu com deboche, se jogando ao divã, satisfeita, conforme observava o desespero no rosto do feiticeiro.
Joel percebeu que havia começado a tremer, mas ainda assim juntou o restante de sua coragem para questionar:
—Quem é você? Por que está fazendo isso?
A mulher o encarou, o sorriso zombeteiro desaparecendo, uma expressão intensa de desprezo tomando seu lugar.
—Você ainda tem coragem de questionar o porquê de eu estar fazendo isso, bruxo? Tem a audácia de fingir que sua espécie não é a praga que destrói essa terra há milênios?— ela se levantou, e ele pôde ver a escuridão nos olhos dela a tomando completamente— Você perguntou quem sou eu. Pois bem, você terá uma resposta. Eu sou a justiça daqueles que nunca tiveram a chance de lutar contra seus poderes inaturais e profanos. Sou a vingança de todos aqueles que vocês oprimiram e enganaram por se acharem deuses. Sou a força que vai limpar essa cidade de toda espécie de aberração e monstro. Mas, para você, nesta noite, eu sou mais que isso. Para você, eu sou a morte.
Nesse momento, Joel tentou se levantar e correr. Suas mãos poderiam estar atadas, e ele poderia levar um tiro em sua tentativa, mas não se importava. Queria ter ao menos a chance de sobreviver.
Contudo, a mulher reagiu rápido. Assim que ele se levantou, ela abriu fogo, acertando ambas as suas pernas com uma quantidade copiosa de balas.
Joel soltou um grito de pura agonia, caindo novamente no chão, sentindo seu sangue e o último resquício de esperança se esvaindo.
—Se vai me matar, mate logo— ele conseguiu dizer, em meios aos gemidos de dor— Mas saiba que nunca vai conseguir nos derrotar. Muitos tentaram eliminar nosso povo antes de você, garota, mas nosso poder é imparável. Nós sempre nos ergueremos, não importa quantos de nós você mate.
Ela arqueou uma sobrancelha, engatilhando a arma novamente e a apontando para a testa do homem.
—Veremos— ela disse, e disparou. O sangue aspergido pelo ar e o estrondo da arma trouxeram uma sensação familiar de vitória, e Charlotte Griffin se pegou sorrindo— Quando chegar ao inferno, pergunte aos outros que mandei para lá se estão tão esperançosos assim. Eu duvido pra caralho, coroa.
Ela limpou um pequeno respingo de sangue em seu rosto na frente de um espelho usando a manga da camisa, e então chutou o corpo de Joel para o lado, indo até a sala de estar.
Não foi difícil achar o cofre, embora ela pretendesse perguntar para o homem onde ele ficava antes de atirar. Claro que não o havia matado por causa do dinheiro, mas seria uma pena deixar uma fortuna daquelas queimar. Seus dedos ágeis e experientes não encontraram grandes dificuldades em arrombar o cofre, e logo Charlotte estava com os bolsos cheios de dinheiro e joias, e um sorriso satisfeito no rosto.
Saiu da casa tranquilamente, e caminhou alguns quarteirões até encontrar um veículo estacionado. Não foi difícil roubar a gasolina e voltar para a casa de Joel se esgueirando por ruas paralelas. Aquilo deveria ser o suficiente para começar um incêndio, e o dono do automóvel certamente demoraria ao menos algumas horas para dar falta do combustível.
Charlotte estava satisfeita com a maneira como as coisas começavam a dar certo para ela. Embora não fosse ainda oficialmente uma agente, poder acompanhar algumas das missões e investigações da Ordem a havia permitido descobrir o nome e paradeiro de diversos usuários de magia. E, com todo o alvoroço que o tal Incendiário andava causando, dificilmente qualquer um dos crimes seria atribuído a ela. Sinceramente, ela sequer se importava muito se a Ordem iria pegar o tal piromaníaco ou não. Enquanto ele continuasse matando usuários de magia, Charlotte o considerava um aliado involuntário, e as outras pessoas que acabavam morrendo por se meterem no caminho eram fatalidades que ela estava disposta a tolerar. Contanto que não fossem ela.
Seu ódio por feiticeiros já era antigo, mas matar Fred Wilson havia sido catártico ao ponto de ela perceber que aquela era sua missão no mundo: eliminar todas aquelas aberrações. Para que eles nunca mais pudessem usar seus poderes inaturais contra pessoas inocentes. Para impedir que eles dominassem tudo com sua maldade e prepotência. Principalmente aqueles como Fred Wilson e Joel Aubert, que tinham um histórico de enganar, oprimir e machucar as pessoas normais que não possuíam magia.
Conforme ela espalhava o combustível cuidadosamente pela casa de Joel Aubert, ela se sentia satisfeita em estar tornando o mundo um lugar mais seguro.
Quando o galão se esvaziou, ela saiu da casa, e, com um suspiro contente, acendeu um fósforo, jogando-o na trilha de líquido inflamável. O fogo ergueu-se em labaredas vivas e exuberantes, quase artístico contra o fundo branco da casa de pedra clara, que logo começou a se escurecer e cair aos pedaços.
Mas Charlotte não ficou para ver o espetáculo. Estava tarde, mas, para ela, a noite ainda era uma criança, e ela tinha os bolsos cheios de dinheiro e muito a comemorar. Sem dúvidas mais algumas doses de whiskey não lhe fariam mal.
Aquela noite parecia determinada a induzir a mais diversa gama de situações sinistras, caro leitor. Pois até mesmo pessoas cujo espírito era luminoso e resiliente breve se encontrariam em situações desafiadoras.
—Gus? Augustus? Augustus Waldford, acorde! Agora!
Augustus acordou, assustado, conforme ouvia a voz apreensiva e meio sussurrada de Adelaide chegando aos seus ouvidos.
Sua gêmea estava de pé ao lado de sua cama, o sacudindo pelos ombros energicamente, tentando despertá-lo.
—Adel?— ele disse, confuso, bocejando e se assentando na cama— É o meio da madrugada. O que aconteceu?
Adelaide parecia preocupada. Usava suas roupas de dormir, e tinha um aspecto terrivelmente cansado.
—Lá fora. Não quero acordar Anne— ela respondeu, o pegando pelo braço e o começando a arrastá-lo para fora do quarto.
Anne, ainda deitada na cama, murmurou alguma coisa. Felizmente, a esposa de Augustus tinha um sono pesado, e apenas se virou para o outro lado e voltou a dormir, sequer notando a ausência do marido.
—Tudo bem, aqui estamos— Augustus disse, quando ambos os irmãos já estavam no corredor— Diga logo, Adel. Está me deixando preocupado.
Adelaide o encarou, ainda apreensiva. Parecia relutante em falar o que quer que a afligisse, mas ao mesmo tempo havia uma certa urgência em sua postura.
—Eu não te acordaria se não achasse que era importante, e Ed não está em casa. Mas tive um sonho muito estranho. Com toda essa história de premonições ligadas a usuários de Luz, mesmo que não praticantes, achei melhor te contar— ela disse, por fim.
Augustus franziu o cenho. Ele próprio não praticava magia com tanta frequência quanto costumava fazer quando mais jovem, mas de qualquer forma tinha afinidade com Sombras, e não Luz, então não o surpreendia que Adel tivesse sonhos premonitórios e ele não, por mais que ela se mantivesse longe de magia. Sem dúvidas gostaria de chamar Edward para ajudar com a situação, ele era bem melhor confortando e acalmando os ânimos, mas ele raramente passava as noites em casa, então Gus suspirou, cansado, mas decidido a lidar com aquilo o melhor que pudesse.
—Antes de tudo, respire e se acalme. E então me conte o que sonhou— ele aconselhou, e Adel revirou os olhos.
—Estou calma, paspalho. Queria ver se você estaria tão sereno quanto eu se tivesse esse tipo de pesadelo horrível— ela resmungou— De qualquer forma… eu sonhei com um incêndio.
Augustus engoliu em seco, mas fez seu melhor para manter uma expressão calma.
—Um incêndio?— ele repetiu, e Adel assentiu— Você conseguiu alguma pista de onde? Ou quando?
Adelaide pareceu pensativa por um segundo.
—Era noite. Madrugada, talvez. Então, se for mesmo acontecer, pode ser que seja ainda hoje— ela respondeu— Era em um bairro bonito, a casa tinha detalhes em mármore e janelas grandes. E acho que também vi a vítima. Era um feiticeiro de meia idade, cabelos castanhos e olhos azuis. Parecia ter afinidade com Luz, pelos materiais que vi dentro da casa.
Augustus sequer precisou pensar muito, logo o nome do homem já estava na ponta de sua língua:
—Joel Aubert. Ele mora em um bairro bonito, tem a idade certa, e afinidade por Luz. Precisamos chegar lá antes que seja tarde.
Adel arregalou os olhos.
—Acha mesmo que conseguiríamos impedir o Incendiário sozinhos?— ela perguntou.
Augustus negou com a cabeça.
—Não. Seria perigoso demais. Precisamos avisar a Ordem antes, e chamar Antigone— ele concluiu.
Adel pareceu concordar.
Ambos se vestiram e pegaram seus casacos o mais rápido que conseguiriam, e logo estavam a caminho da Ordem. Augustus decidiu usar o sistema subterrâneo de túneis. Embora não o conhecesse perfeitamente, sabia o caminho de sua casa até a Ordem, e logo ele e Adelaide conseguiram chegar em segurança.
—Como vamos explicar para Antigone que sabemos do futuro?— Adel se virou para ele e perguntou, antes que chegassem ao escritório da Marquesa Lascelle— Ficaria bem óbvio que um de nós dois tem magia.
Augustus pensou por alguns segundos, e logo uma luz se acendeu em sua mente.
—Roubo de combustível. Você mesma disse que deu a ideia de monitorarem furtos de líquidos inflamáveis como indicativo do próximo crime— ele disse— Podemos dizer que vimos alguém suspeito mexendo em um tanque de gasolina de um automóvel naquela região.
—E o que estávamos fazendo em um bairro caro na calada da noite?— Adel questionou, ainda pouco convencida.
—A casa de Ottis Wilson fica bem próxima à de Aubert. Podemos dizer que estávamos indo até lá fazer alguma investigação extra.
Adelaide pareceu menos hesitante.
—Realmente, do jeito que eles te obrigam a trabalhar, não me pareceria improvável que você tentasse uma palhaçada dessas para impressionar— ela provocou.
—Ei!— ele exclamou, ofendido.
—Espero que Antigone acredite nessa história toda. Hora de usar sua lábia, Gus.
Augustus, felizmente, tinha uma lábia infalível, e Antigone não pareceu particularmente desconfiada da história, apenas preocupada com o que ela implicava.
—Pode não ser nada, mas vocês fizeram bem em vir para cá e avisar— ela disse, guardando os papéis que estavam sobre sua mesa e se levantando, já pegando um casaco— Vou pedir que Henrietta libere uma das carruagens, precisamos chegar lá depressa.
Gus e Adel decidiram esperar na biblioteca. Subiram as escadas até a passagem secreta, e saíram dentre as estantes para o ambiente amplo e fracamente iluminado. Antigone chegou logo depois, acompanhada de um motorista para a carruagem, e, supreendentemente, de Henrietta. A Marquesa parecia bastante desgostosa que a Duquesa tivesse decidido participar da missão, inclusive.
Augustus já estava acostumado a ver a Líder durante as madrugadas de trabalho, e sabia que, mesmo nessas ocasiões, ela costumava se manter apresentável. Então foi uma surpresa vê-la com um aspecto tão cansado, ainda que fosse claro que ela fazia um esforço para manter a aparência minimamente composta.
Henrietta cumprimentou Augustus e Adelaide, e não pareceu particularmente incomodada com a presença de Adel, mesmo que ela não fosse uma agente. Augustus supunha que toda ajuda era bem-vinda, e a Líder sabia muito bem disso.
—Adel— Augustus chamou, antes de entrarem na carruagem— Quero que fique com isso. Não vai precisar, mas só por precaução.
Ele estendeu uma de suas pistolas para Adelaide, que o encarou com uma sobrancelha arqueada.
—Gus. Mesmo que fosse necessário, eu não sei atirar— ela respondeu, mas pegou a arma.
—Não tem mistério— ele respondeu— É só apontar e puxar o gatilho.
Ela ainda pareceu incerta, até que Antigone os interrompeu:
—Você nunca ensinou sua irmã a atirar, Lockhart? Negligente— ela abriu a porta da carruagem, e lhes lançou um último olhar antes de entrar:— Mas não se preocupem. Se o Incendiário estiver mesmo por lá, não vão precisar das armas. Eu mesma vou acabar com ele.
O trajeto foi rápido, uma vez que as ruas se encontravam vazias devido ao horário tardio, e o condutor da carruagem apressava os cavalos sem piedade. Quando estavam a alguns quarteirões do local, Gus sentiu o cheiro de fumaça. A princípio pensou que podia ser alguém fumando dentro da carruagem, ou até mesmo alguma chaminé na rua, então olhou ao seu redor, procurando a origem do odor pungente. Mas, ao colocar seus olhos em Adelaide e ver sua expressão de terror, ele teve certeza que o pior havia acontecido. A intuição de Adel não costumava falhar, e o cheiro de algo queimando apenas se intensificava conforme eles avançavam.
Ele pôde ver a expressão de absoluto terror no rosto de Henrietta quando as chamas de tornaram visíveis. Ainda estavam no final da rua, mas a violência do incêndio era tamanha que Augustus podia sentir o calor pinicando em sua própria pele mesmo àquela distância.
Antigone não esperou que o motorista da carruagem, que havia parado o veículo devido ao choque, se recompusesse. Abriu a porta e saiu caminhando em passos firmes na direção da bela casa em chamas. Augustus e Adelaide trocaram um olhar antes de segui-la. Henrietta, após um longo suspiro, foi logo atrás.
—Precisamos chamar os bombeiros— Antigone disse, em uma voz estável, apesar da situação aterradora— Evidências estão em chamas, devemos salvá-las.
—Talvez alguém ainda esteja vivo lá dentro— Henrietta murmurou— Precisamos entrar, não podemos esperar.
Antigone virou-se para ela, o rosto impassível.
—Sinta-se à vontade, Vossa Graça— ela disse, um tom afiado em sua voz— Mas eu garanto que nenhuma alma poderia sobreviver a essas chamas.
Henrietta parecia disposta a discutir, e foi então que Augustus decidiu interferir. Não seria produtivo que as duas discordassem em um momento tão crucial.
—Etta— ele pousou a mão no ombro da Líder, fazendo seu melhor para manter um timbre reconfortante— Ela tem razão. Aubert morava sozinho, e o Incendiário certamente não o deixaria vivo.
Ela baixou o olhar, mas então assentiu.
—Quero que pegue a carruagem e vá até a estação de bombeiros mais próxima, Gus. Não saia de lá até que mandem reforços— ela orientou, por fim— Pode levar sua irmã, se crê que ela será útil.
Augustus concordou, e pegou Adelaide pelo braço, voltando até o veículo.
Pensou em como era estranho ver Henrietta tão afetada, ela normalmente parecia calma e impassível. Mas sabia que ela tinha um lado empático e vulnerável, que muitas vezes nublava seu julgamento frio com emoções. E ela nunca havia presenciado um incêndio antes. Não teria como saber da brutalidade daquelas terríveis tragédias. Talvez Antigone estivesse correta em se sentir injustiçada pela decisão de Lorde Ephraim de deixar a liderança para Henrietta. Augustus detestava admitir, mas momentos como aquele exigiam uma frieza que a Duquesa não possuía.
—Eu poderia ter impedido— Adel murmurou, quando já estavam dentro da carruagem à caminho do socorro— Se eu ao menos tivesse acordado alguns minutos antes. Ou confiado mais em minha intuição…
Gus pousou a mão sobre a da irmã, apertando-a suavemente para ofertar consolo.
— Não é culpa sua, Adel— ele disse, em um tom suave— Você não tem como controlar seus sonhos, e não é culpa de ninguém que a premonição chegou tarde demais.
Falavam em tom baixo, para que o cocheiro, que conduzia a carruagem do lado de fora, não os ouvisse. Além disso, o barulho alto dos cascos do cavalo batendo ritmadamente contra o chão abafaria quaisquer trechos que pudessem chegar aos seus ouvidos.
Adelaide ergueu o olhar dos próprios sapatos para ele.
—Não posso continuar vivendo com esses instintos terríveis se eles não vão fazer nada além de me assombrar— ela lamentou— Tudo o que eu queria era não ter de lidar com essa magia maldita ou com a Ordem sanguinária que destroçou nossa família. É pedir demais? Um pouco de paz?
Augustus a puxou para um abraço, mas não disse nada. Não havia nada que ele pudesse falar que lhe traria consolo. Afinal, podia apenas imaginar o quão doloroso era carregar um fardo como aquele.
—Eu sei que você não confia na Ordem, Adel— ele disse, a soltando após um longo silêncio— E eu também odeio ter que confiar neles. Mas não podemos nos proteger desse perigo sozinhos.
Adelaide franziu as sobrancelhas.
—O que você espera que eu faça, então?— ela perguntou, um leve tom de irritação em sua voz— Coopere com as pessoas que destruíram nossa família? Finja que eles não nos matariam imediatamente se soubessem da verdade?
Augustus respirou fundo, não em busca de paciência, mas de forças para o que estava prestes a dizer.
—É apenas temporário, Adel. Assim como minha atual posição na Ordem. Apenas até termos certeza que é seguro para nós novamente— ele disse, mal acreditando no quão complacente havia se tornado para com aqueles que costumavam ser seu maior pesadelo.
—Eu sei que essa é a coisa mais sensata a se fazer, Gus, não tenho como discutir com você. Mas não posso deixar de sentir que estamos vendendo a alma e traindo nossos pais— ela admitiu, desviando o olhar do dele com pesar.
—Ei— ele disse, tocando gentilmente o ombro dela— Eu tenho certeza que papai e mamãe entenderiam nossas escolhas. Eles iriam querer que ficássemos seguros, independente de orgulhos bobos e rixas antigas.
—Pode até ser— ela respondeu— Mas não me peça para ficar em paz com isso. Se vou cooperar com a Ordem, será em meus termos.
Augustus quase teve de reprimir um sorriso. É claro que poderia ser terrivelmente irritante quando direcionado a ele, mas aquele lado impassível de sua irmã sempre lhe causava alguma admiração. Alguns chamariam de teimosia ou orgulho, mas ele chamava de coragem.
—Eu não esperaria nada diferente de você, maninha. A Ordem que se cuide.
A manhã seguinte chegou cinzenta e ligeiramente desagradável para Cecily Campbell.
A fumaça do incêndio havia se espalhado, apesar da rápida resposta dos bombeiros, e isso havia causado nuvens pesadas e ar demasiadamente seco, o que fazia seu nariz sangrar. Ouviu alguns dos criados comentando sobre o incêndio, mas não deu muita atenção, apenas lamentou que tivesse que ter acontecido em um bairro tão próximo do palácio.
Foi enquanto tentava estancar um pequeno sangramento nasal que viu Polly entrando no quarto, apressada. Já havia reparado que a outra garota andava se atrasando mais que o normal nos últimos tempos, mas resolveu não perguntar a respeito, até mesmo porque não havia acabado nada bem da última vez em que tentara se envolver na vida pessoal de Pollyanna.
—Meu Deus, Cee— Polly disse, ao perceber a quantidade considerável de sangue no lenço que ela segurava contra o nariz— Pobrezinha. Me deixe te ajudar.
Polly se ajoelhou em frente à cama, onde Cecily estava assentada, e pegou o lenço. Limpou o sangue com delicadeza e paciência, e então pressionou de leve até que o sangramento parasse.
—Obrigada— Cecily sorriu, ainda que um pouco desanimada— Odeio quando isso acontecesse, já sei que hoje será um dia difícil.
Polly colocou o lenço junto às outras roupas sujas, e então se assentou ao lado de Cecily.
—Bem, acho que é minha obrigação tentar melhorar o seu dia, então— Polly disse, mexendo nos bolsos— Sei que não é muito, mas espero que te faça sorrir.
Polly colocou em sua mão um pequeno anel de prata e quartzo rosa. A pedra tinha um formato delicado de gota, e a joia encaixou perfeitamente no dedo de Cecily.
—Eu adorei. Muito obrigada, Polly— Cecily abriu um sorriso, e puxou a outra garota para um rápido beijo, mesmo que a porta do quarto estivesse aberta.
Polly corou, o que fez Cecily rir.
Polly era mesmo adorável, Cecily pensou. Já havia feito mais por ela que qualquer um de seus pretendentes, e era mais bonita que a maioria deles. Uma pena que fosse tão ingênua, mas Cecily ainda planejava ajudá-la a subir na vida como pudesse. Não podia deixar de perceber que muitos rapazes do castelo pareciam compartilhar deu sua opinião sobre a aparência de Polly, não seria impossível conseguir um bom casamento para ela.
—Não precisa agradecer, você já me deu muitos presentes, e eu nunca tinha te dado nenhum— a criada respondeu, ainda levemente corada.
Cecily passou seu braço ao redor dos ombros de Polly, beijando sua testa carinhosamente.
—Você já me deu muito mais do que eu precisava, meu bem. Nunca se esqueça disso.
Cecily realmente sentia muito por sua doce Polly ter presenciado tantas agruras simplesmente por estar ao seu lado. E se sentia mal por continuar alimentando suas esperanças quanto a um futuro que jamais chegaria.
Mas havia vivido toda sua vida para os outros. Decidiu se permitir esse pequeno ato de egoísmo.
Se ao menos a jovem Condessa soubesse da escuridão que cercava sua doce criada, e que a decisão de mantê-la por perto logo a puxaria para as sombras também; ela talvez tivesse tomado uma decisão diferente. Talvez isso tivesse sido o melhor para ambas. Mas não se pode exigir altruísmo ou razão de jovens mentes apaixonadas. Afinal, leitor, desejar e deixar-se ser desejado é um ato essencialmente arriscado e egoísta.
E talvez esses pequenos egoísmos sejam fatalmente inevitáveis.
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