Arsonist's Lullaby- Interativa
8 VII- Daddy Issues
Notas iniciais
Esse capítulo começa com o tédio de Mihai Beswick, e, em grande parte, acompanha as consequências dessa emoção perigosa.
O tédio, leitor, como você deve saber muito bem, é uma força caótica e perniciosa. Como dizem os mais velhos, mente vazia é oficina do diabo. E, embora Mihai normalmente tivesse uma mente bem cheia, aquela manhã tediosa de quinta-feira se provaria um terreno terrivelmente fértil para ideias pouco prudentes.
O leitor já deve ter reparado que alguns personagens, embora estejam, sem dúvidas, terrivelmente embrenhados nas tramas maléficas do Incendiário, não buscam ativamente a identidade dele. Seja porque estão envolvidos demais nos seus próprios negócios, ou porque ainda não notaram o quão imprescíndivel é a resposta desse mistério para que consigam alcançar o desfecho de seus próprios, alguns de nossos heróis trilham caminhos paralelos, mas ainda assim igualmente relevantes.
Mihai é um desses personagens. Atrás do balcão da Relojoaria Pembrook, revisando os recibos, o jovem desfrutava de uma manhã parada e tranquila, embora, no fundo da sua mente, diversas perguntas perigosas fervilhassem.
A única cliente havia sido uma senhora que chegara no início da manhã e deixado um relógio de bolso, que costumava pertencer ao seu marido, mas nenhuma outra pessoa havia chegado à loja desde então. Digory e Peter só costumavam aparecer pela tarde em dias como aquele, sem grande movimento, de modo que a primeira metade do dia começava a parecer terrivelmente longa para Mihai.
Depois de terminar de organizar os recibos e pedidos, o garoto se viu sem muitas tarefas para fazer. Já havia reorganizado a bagunça que Peter havia feito no dia anterior, e passado um pano sobre o balcão da loja, de modo que não haviam mais muitas tarefas restantes, mesmo se quisesse executá-las.
O jovem se assentou em um banquinho no canto do ambiente, relaxando as costas conforme apoiava seu peso contra a parede. Pensou em tirar uma soneca curta, afinal, havia acordado cedo e não havia muito a se fazer por ali, mas logo seus olhos se fixaram em um pequeno detalhe, que chamou sua atenção, como sempre.
O detalhe em questão era o livro que sua mãe havia lhe entregado, presenteado a ele pelo tal Barão Blackburn. Conseguia enxergar uma beira dele saindo de dentro de sua bolsa, jogada em um canto atrás do balcão.
Olhando ao redor para se certificar de que ninguém estava olhando, Mihai se concentrou no livro. Mentalizou o feitiço de telecinese, as runas e símbolos que havia estudado com tanto afinco para ajudá-lo a canalizar sua energia, e logo sentiu a realidade se distorcendo milimetricamente, apenas o suficiente para permitir que ele quebrasse temporariamente uma de suas leis: a gravidade.
O livro flutuou com graça de dentro da bolsa até as mãos de Mihai, caindo sobre seu colo com um baque surdo. Aquele era um feitiço simples, de modo que ele sequer ficou cansado, mas ainda conseguia sentir as pontas de seus dedos formigando devido à pequena demonstração de poder.
A capa de couro e a encadernação antiga e pesada davam uma certa beleza ao antigo volume, mas as páginas estavam um pouco amareladas, ainda que legíveis. Ou melhor, parcialmente legíveis. Um detalhe estranho sobre aquele livro, um detalhe que Mihai ainda penava para entender, é que suas páginas estavam em diferentes linguagens, e pareciam variar levemente em estado de conservação, embora todas sem dúvidas parecessem antigas.
As línguas que ele havia sido capaz de identificar por enquanto variavam de grego antigo, latim, sumério, sânscrito, e até inglês medieval e hieróglifos, que descreviam mantras e encantos. E também haviam símbolos, muitos símbolos. Alguns eram simples, e ele sabia intuitivamente para que tipo de feitiço serviam, em linhas gerais. Mas outros eram tão complexos e poderosos que ele podia sentir sua cabeça doendo apenas por pousar os olhos sobre eles. Se se concentrasse neles e os conjurasse, então, não conseguia sequer imaginar o que aconteceria consigo ou com a realidade ao seu redor.
Mihai em geral não gostava de mexer com forças que iam muito além do que era prático e seguro. Sabia os mais diversos feitiços de Luz, sua afinidade pessoal, e um repertório limitado, porém útil, de feitiços de Sombras. Não possuía vontade ou ambição alguma de dominar magias mais complexas e escabrosas, principalmente sabendo o preço que isso poderia custar.
“Você deve conhecer seus próprios limites, meu filho”- Mihai se recordou do que sua mãe costumava dizer, quando ele ainda era uma criança e ela estava lhe ensinando seus primeiros feitiços de cura- “Mesmo nós, que fomos abençoados com uma afinidade pelos conhecimentos ocultos, não devemos ultrapassar certos limiares. Se algum dia ver algo que vá muito além do seu conhecimento, não ouse tentar conjurar antes de entender verdadeiramente a natureza do que está prestes a fazer”
Quanto mais ele praticava e se aprimorava, mais ele entendia o conselho da mãe. Mesmo feitiços simples exigiam um conhecimento complexo e firme para serem realizados. Acessar os conhecimentos sobrenaturais nunca era um processo simples, e distorcer as leis da realidade sempre vinha com certo elemento compulsivo. Apenas levitar um livro fazia suas mãos formigarem, implorando por mais. Quando fazia algo mais complexo, então, como curar uma pessoa, sentia um êxtase perigosamente forte. Era como se o plano sobrenatural o estivesse atraindo, o convidando a esquecer das leis naturais e viver em uma completa anarquia dos sentidos. A preço de sua própria sanidade.
Mihai encarou as folhas por mais alguns segundos. Ele nunca havia realmente sentido qualquer tipo de tentação quanto a explorar o proibido. Mas isso estava começando a mudar. E o motivo eram as anotações espalhadas no canto de algumas das páginas, que deveriam sem dúvidas pertencer ao tal Barão Blackburn.
A letra pequena, rabiscada em tinta escura, dissertava as mais diversas observações. A maioria apenas falava sobre os feitiços, e detalhes sobre sua natureza e técnicas. Isso por si só não seria uma grande surpresa- livros de feitiço, sobretudo os mais antigos, costumavam ter anotações de seus donos anteriores- mas aquelas notas em específico diziam coisas que intrigavam Mihai.
“Fonte de energia: Luz + Sombras”, algumas diziam.
Outras proclamavam: “Técnica usada por H. em 530 a.C.”
O mais estranho é que o tal H., quem quer que ele fosse, parecia estar usando feitiços desde antes de Cristo até poucas décadas atrás. A última data era 1867. A primeira, dezenas de milhares de anos antes. Mihai não poderia estar mais confuso.
Feitiços que usavam mais de uma das duas fontes de energia, misturando Luz e Sombras. Uma figura misteriosa, que parecia ser mais antiga que o tempo, e que dominava as mais complexas magias como se elas não fossem nada. E o mais estranho: Mihai se sentia estranhamente atraído pelos feitiços naquelas páginas. Eles eram obviamente perigosos, e complexos demais para ele. Então por que se sentia tão tentado?
Mihai correu os dedos lentamente por uma das páginas. Aquela em específico estava em latim, o que queria dizer que ele entendia vagamente algumas das palavras, por ter estudado a língua muitos anos atrás. Latim era uma dos idiomas mais comuns para invocar feitiços, assim como outras línguas mortas, em geral, e por isso era muito estudado por feiticeiros.
As palavras naquela página eram complicadas, e Mihai não conseguia entender muito. O que ele conseguia entender, contudo, já era o suficiente para deixá-lo irremediavelmente curioso.
“Encantamento de memória”— a página proclamava- “Permite acessar as lembranças atreladas a um objeto”
Mihai imaginou o quanto aquele feitiço facilitaria sua vida. Apenas tocar naquele mesmo livro que tinha em mãos, e descobrir onde estava o Barão, e porque ele havia deixado aquele livro para ele. Descobrir todos os segredos que espreitavam e assombravam sua vida desde que se entedia por gente.
O garoto encarou o símbolo no centro da página, e começou a sentir sua cabeça girando, sua mente quase se perdendo em meio às espirais complexas. Piscou algumas vezes, e passou a página antes que pudesse realmente conjurar o feitiço, sentindo suas mãos tremendo. Ele quase havia passado dos limites. O que sua mãe pensaria?
Ele estava prestes a largar o livro, mas a página em que ele ficou aberto novamente chamou sua atenção. Dessa vez, não por algum símbolo ou feitiço. Mas porque a página estava coberta de anotações do Barão Blackburn.
“Espero algum dia poder explicar ao garoto o que aconteceu. Espero poder confiar os segredos do Hierofante a ele. Alguém deve saber sobre tudo o que aconteceu. Alguém deve saber da verdade.”
“O garoto” só poderia ser ele mesmo, Mihai supôs. Ler aquelas páginas lhe passava uma sensação estranha, proibida. Como se ele estivesse prestes a descobrir algo do qual não havia volta. Algo que ele não deveria estar lendo, mesmo que o Barão tenha dito à sua mãe que lhe entregasse aquele livro, por algum motivo.
“O Hierofante”- Mihai pensou, estranhando a palavra- “Do que diabos esse homem está falando? Será o tal H.?”
Ele se sentia cada vez mais confuso. Havia chegado em Londres com a única missão de conversar com aquele Barão, mas agora tudo parecia ficar mais e mais complexo.
“Espero que Mihai e Leoni me perdoem por tudo que tive de fazer para que eles ficassem seguros. Espero que um dia eles entendam.”
Mihai encarou a página por alguns segundos, completamente em choque. Já havia presumido que “o garoto” era ele, mas ver seu nome e o nome de sua mãe escritos com todas as letras foi estranho, de qualquer forma.
Leoni até podia não querer contar toda a verdade ao filho, mas Mihai era inteligente o suficiente para entender o que estava acontecendo.
“Cabe a ele te contar toda a verdade, meu querido”- Leoni havia dito quando lhe entregou o livro- “Logo você saberá tudo o que precisa saber”
Mihai podia não saber toda a verdade, mas já sabia tudo o que precisava saber para chegar até ela. Quem quer que ele fosse, o Barão Blackburn era seu pai. E ele precisava encontrá-lo.
Mihai abriu o livro novamente na página que continha o feitiço de memória. Podia não ser capaz de entendê-lo, por enquanto, mas tinha certeza que, se se esforçasse o suficiente, poderia dominá-lo. E ele seria necessário, se planejava descobrir o paradeiro do Barão.
Vosso humilde narrador, caro leitor, considera essa ideia em mais baixa estima. O jovem Mihai certamente não deveria estar se arriscando de tal maneira, e portanto possui minha completa desaprovação por essa escolha. O tédio, como eu disse, é uma emoção perigosa, que leva a escolhas perigosas.
Mas não estou aqui para julgar. Estou aqui para contar o que se passou. E, embora preocupado, em retrospecto, compreendo os motivos que levariam o jovem a passar o resto de sua manhã estudando aquele traiçoeiro feitiço.
De certa maneira, Mihai Beswick estava certo. Aquele encantamento ainda seria necessário. E talvez ele viesse a descobrir isso mais cedo do que gostaria.
Outra pessoa que andava maquinando ideias perigosas era Leonard Cohen. Mas retornaremos às suas peripécias duvidosas mais tarde nesse capítulo. Por enquanto, voltemos nossas atenções para mais uma personagem que, apesar de ligeiramente afastada das investigações, logo se veria envolvida em todos seus desenrolares: Adelaide Waldford.
Adelaide havia acabado de dar uma aula de piano, e já estava a caminho da casa de sua “tia” Margaret para ajudá-la com a filha doente, Eliza.
Adel sabia que Anne, a esposa de Gus, devia estar exausta, afinal, passara o dia inteiro cuidando da jovem. Sendo assim, mesmo que não estivesse tão bem descansada assim, decidiu ajudar ao menos durante o turno da tarde, tendo em vista que havia acabado suas responsabilidades pelo período.
A casa estava quieta quando Adelaide chegou. Todas as cortinas estavam fechadas, e um clima fúnebre infestava o ar frio.
Anne e Margaret estavam na cozinha, e ambas pareciam exaustas. Anne foi a primeira a notar sua chegada, e se levantou para cumprimentá-la com um abraço afetuoso.
—Adel— ela disse, sorrindo— Fico feliz que tenha vindo.
Margaret a saudou com um aceno de cabeça.
—Então, como ela está?— Adel perguntou, tomando um assento ao lado do delas.
Margaret soltou um suspiro.
—Está dormindo, mas logo acorda. Sempre que cai a noite, chega uma febre terrível— ela respondeu.
Adel se lembrava de folhear alguns dos livros de Edward quando era mais nova, e achar uma sessão sobre a consumpção em um sobre magia de cura. As páginas falavam sobre febre vespertina e tosse com sangue, e de como um dos únicos remédios naturais para abaixar a temperatura era a casca de salgueiro. Mas a única cura definitiva para aquele male era um feitiço poderoso, que atingisse todas as partes mais profundas do pulmão da vítima.
—Quando ela acordar, lhe deem um pouco daquele chá que deixei aqui ontem. Deve ajudar a baixar a temperatura— Adel aconselhou, apontando uma jarra com as cascas de salgueiro no canto da cozinha— Charles não está em casa, está?
Anne negou com a cabeça.
—Ele saiu para trabalhar.
Adelaide olhou ao redor brevemente, apenas para ter certeza, e então se inclinou em direção à cunhada e à tia de criação.
—Precisamos falar sobre trazer Edward aqui, então— ela disse, por fim— Sabem que também não sou uma grande fã de usar magia, mas é a única solução. Eliza piora a cada dia que se passa.
Margaret suspirou, mas não discordou.
—Bem, Charles não costuma estar aqui das nove da manhã às cinco da tarde— ela disse, em um tom neutro— Se Edward decidir mesmo ajudar, Charles dificilmente poderia interferir.
Adelaide assentiu, um pouco aliviada em ter ao menos o apoio da tia.
—Até o fim da semana o trarei aqui— Adel disse, por fim— Eliza não pode esperar muito mais tempo.
Depois disso, Anne dormiu um pouco enquanto Margaret e Adelaide preparavam os remédios de Eliza. A jovem realmente acordou no final da tarde, mas o chá funcionou bem o suficiente para fazê-la dormir novamente.
—Céus, ela está tão magra— Adel comentou, saindo do quarto de Eliza junto com Margaret e abaixando o pedaço de pano que antes cobria a metade inferior do seu rosto— E a tosse piorou. A coitadinha mal consegue falar.
Margaret baixou os olhos.
—E, ainda assim, Charles acha que ela é capaz de melhorar sem magia— a mulher abriu um sorriso amargo— Ele sempre fala que a magia cobra um preço. E sempre parece assustado demais com isso. Me pergunto se ele não ama nossa filha o suficiente, porque eu pagaria qualquer preço para vê-la bem novamente.
Adelaide sabia que Charles estava certo nesse aspecto. Magia realmente sempre cobrava um preço. Com frequência, um preço alto demais. Talvez por isso Adelaide se mantivesse longe dela, mesmo com os sonhos proféticos, as intuições fortes demais para serem coincidência e a tentação quase insuportável sempre que abria um livro de feitiços. Ela sem dúvidas havia herdado o dom da mãe. Mas já havia perdido coisas demais para continuar se sacrificando, seja pelos outros, seja por poder. Por mais que o conhecimento de que seria capaz de reduzir todos aqueles que machucaram sua família às cinzas fosse quase tentador demais às vezes.
—Magia de Luz usa a energia do próprio feiticeiro, tia— Adelaide procurou tranquilizar Margaret, por mais que ela mesma não se sentisse tranquila— A magia que Ed usará não é como a de Jesper. Não costuma cobrar preços ou exigir sacrifícios.
Margaret deu de ombros.
—Eu sei— ela disse— Mas você não pode esperar que uma pessoa que não possui tais dons entenda totalmente o que eles implicam. E por mais que eu nunca tenha visto nenhum feitiço saindo dos seus lábios, você parece entender muito melhor do que eu, Adel.
Adelaide deu de ombros.
—Eu entendo tanto quanto a senhora. Tudo o que sabemos vem dos nossos tempos de garota, folheando os livros dos nossos irmãos mais velhos— ela replicou, mas não sentiu tanta convicção na própria voz.
Margaret não parecia estar disposta a criar caso, embora as duas soubessem que um abismo as separava, e que Adel tinha uma inclinação que ela não tinha, uma que estaria sempre com ela.
—Já que está aqui, fique para jantar— Margaret mudou de assunto— Você pode levar as sobras para Augustus. Imagino que ele esteja trabalhando até tarde novamente.
Adelaide riu.
—Está, apesar dos meus melhores esforços para libertá-lo— ela respondeu— Mas obrigada pelo convite. Será ótimo.
Anne acordou após algum tempo, e ajudou as outras duas a preparar a comida. Quando Charles chegou do trabalho, a torta de legumes havia acabado de sair do forno, perfumando a casa com um cheiro indutor de roncos no estômago.
Jantaram todos juntos, e Charles, apesar de um pouco desconfiado com a presença de Adel, não criou caso. Ele ajudou a retirar a mesa e lavar a louça, e depois foi para seu quarto, mas não sem antes entrar no quarto de Eliza para passar um tempo com ela.
Apesar de toda a desconfiança, ele era um bom pai, Adel refletiu. A outra filha de Charles e Margaret, Sarah, também sempre parecia bem tratada, e ver aquela família unida trazia uma sensação de nostalgia para Adelaide. Ainda conseguia se lembrar dos tempos de ouro de quando ela e os irmãos tinham os pais. Mas as memórias, ao mesmo tempo que belas, eram também dolorosas.
Adelaide decidiu ir levar o jantar para Augustus antes que ficasse tarde demais para andar na rua sozinha. Por sorte, a Ordem não era muito longe dali, e ela conhecia um atalho.
É importante que o leitor mantenha em mente que todas as escolhas que os personagens tomam tem consequências. E tomar atalhos, como Polly e Digory Pembrook poderiam testemunhar, não costuma causar bons acontecimentos. Muito pelo contrário.
Entretanto, felizmente para Adelaide, tomar aquele atalho não geraria consequências tão dramáticas assim. Ao menos não imediatamente. Mas, sem dúvidas, a colocaria em um caminho deveras… interessante.
Como dito mais cedo nesse capítulo, Leonard Midgar Cohen também estava maquinando ideias perigosas naquela tarde.
Então voltemos nossas atenções para as atitudes questionáveis dele, por hora.
O leitor, sem dúvidas, deve ter reparado que Leonard era um homem com um objetivo fixo. Fixo e pessoal. E era esse objetivo que o levaria a uma visita pouco ortodoxa a uma das fábricas automobilísticas dos Lordes Forrest e Basil durante a tarde daquele dia.
Após a reunião para qual fora chamado alguns dias antes, ficara claro que os Lordes esperavam que Leonard conseguisse o apoio da Câmara dos Comuns para o projeto de lei que pretendiam tramitar. E, embora ele sem dúvidas não fosse uma figura fraca no cenário político, ainda assim era um recém chegado a Londres. Portanto, precisaria de ajuda para influenciar o resto da Câmara dos Comuns. E, para isso, era essencial que caísse nas graças do atual líder: Emery Hare.
—É uma fábrica muito eficiente, Senhor Cohen— o homem comentou— Mas imagino que não tenha me trazido até aqui puramente para glorificar os negócios dos Lordes que te protegem.
Leonard abriu um sorriso amigável, escondendo a pontada de irritação que sentiu com a assertiva.
—Eu não sabia que aqui em Londres um passeio agradável com um amigo e aliado querido sempre vinha com implicações comerciais— ele respondeu, plácido— O trouxe aqui apenas para apreciar a fábrica e tudo o que ela representa, Senhor Hare. Não lhe parece cheia de oportunidades?
Emery Hare não era muito mais velho do que Leonard, estando no final da casa dos trinta, contudo era muito mais curto e grosso. Até mesmo em aparência, uma vez que era um homem baixo e musculoso, com olhos escuros e sérios e uma barba bem aparada no rosto quadrado.
—Cheia de oportunidades, certamente. Mas para quem, Senhor Cohen?— ele replicou, seco.
Leonard arqueou uma sobrancelha.
—Para quem quer que souber tomá-las para si, Senhor Hare— ele respondeu— Oportunidades não surgem espontaneamente, meu caro. São construídas. E eu planejo tirar dessa fábrica tudo o que ela puder me oferecer.
Emery deu de ombros.
—Se for direto ao ponto, posso decidir se compartilharei dessa suposta oportunidade ou não, Senhor Cohen.
Leonard soltou uma risadinha seca.
—Pois bem. Direto ao ponto, então. Acho que os negócios automobilísticos podem ser um ótimo investimento para os excelentíssimos parlamentares da Câmara dos Comuns— ele disse, fazendo um gesto vago em direção à fábrica ao seu redor— É uma indústria em franca ascensão, e bem menos tradicionalista que a indústria carbonífera. Podemos ganhar muito lucro com os investimentos certos, mas tudo depende das leis que tramitaremos quando às tarifas alfandegárias. Leis estas que, por sorte, estão à mercê de nossos votos, Senhor Hare.
Emery soltou um resmungo reflexivo, pousando os dedos atarracados no queixo.
—Não irei negar que parece uma oportunidade promissora, de fato, Senhor Cohen— ele disse— Mas não temos garantias que o aumento das tarifas alfandegárias nos beneficiaria em outras questões que não estejam relacionadas aos automóveis. Devo lembrá-lo que muitos dos nossos ainda são adeptos aos prepostos Iluministas?
Leonard já esperava certa resistência. A Câmara dos Comuns tradicionalmente era bastante liberal quanto às questões comerciais, adepta ao capitalismo pouco restrito e pouco regulado pelo governo que costumava agradar aos grandes comerciantes burgueses.
—Sei muito bem quais crenças nossa Câmara defende, Senhor Hare. Mas acredite quando digo que esse aumento das tarifas não viria com nenhuma outra regulação por parte do governo, e estaria restrito aos automóveis, posso garantir. E, com a industrialização cada vez mais hegemônica, é vantajoso proteger nosso mercado daquelas imitações baratas de carros que alguns outros países da Europa e América insistem em vender, antes que seja tarde.
Emery soltou uma risadinha debochada.
—Esses estrangeiros fariam bem mesmo em se ater às suas manufaturas, que são do que realmente entendem, e deixar as indústrias para nós, ingleses— ele concordou— Bem, Senhor Cohen, acho que posso tentar conversar com o restante dos parlamentares, você trouxe bons argumentos. Mas ainda há uma questão…
—Que seria…?— Leonard perguntou, se fingindo de desentendido, por mais que soubesse muito bem do que o homem estava prestes a falar.
—Bem, se vamos mesmo encabeçar essa empreitada juntos, seria positivo ter alguém com mais tradição política ao nosso lado. Alguém que já tenha sido um parlamentar bem estabelecido e sucedido…
—Alguém como o meu pai— Leonard completou, tentando fingir indiferença— Eu entendo, Senhor Hare. E ele realmente foi um dos grandes expoentes por trás das primeiras empreitadas industrialistas. É apenas natural que peçamos o auxílio dele.
Emery Hare deu um discreto sorriso aliviado.
—Fico feliz que reconheça isso, Leonard. Ouvi alguns rumores desagradáveis sobre a situação familiar de vocês, mas presumo que não sejam verdade— ele comentou, e Leonard novamente teve que se esforçar para manter o sorriso no rosto.
—Apenas um desentendimento bobo, mas já são águas passadas. Meu pai ficará feliz em nos ajudar, tenho certeza.
—Fico aliviado— Emery disse, assentindo— Se puder chamá-lo à capital, podemos fazer uma reunião ainda esse mês.
Leonard forçou mais um sorriso.
—Seria excelente— ele concordou— Estou ansioso para mostrar a fábrica a ele. Vai ficar muito orgulhoso ao descobrir que sou um dos acionistas, agora.
—Tenho certeza que vai— Hare concordou.
Leonard não via seu pai desde o dia que havia saído de casa, o dia em que ele descobrira toda a verdade. Toda a podridão que se escondia por detrás daquela família aparentemente perfeita. E finalmente havia chegado o dia de revisitar aquele passado sombrio.
Leonard poderia até ter se envolvido com as indústrias automobilísticas dos Lordes mais cedo ou mais tarde, e se tornado aliado deles eventualmente. Mas certamente o que lhe havia impelido a aceitar aquela parceria tão rápido, e a investir seu dinheiro em ações da fábrica mesmo sem garantia de retorno, era porque sabia que seu pai eventualmente acabaria envolvido. E rever o pai era tudo o que ele precisava, naquele momento.
Seus planos andavam cada vez mais depressa, e, conforme ele se despedia de Emery Hare e voltava para sua casa, não pôde evitar sorrir.
O sol já começava a se pôr, e Leonard teria uma noite agradável, embora corriqueira. Chamaria até sua casa Aaliyah, e eles dividiriam uma garrafa de vinho em comemoração aos sucessos de Leonard, embora a moça não soubesse exatamente de que se tratavam esses sucessos. O jantar seria farto, e regado a risadas e toques sugestivos. Acabariam no mesmo quarto onde sempre acabavam, mas Leonard não dormiria naquela noite. Sua cabeça estava a mil, e ele precisava planejar muito se planejava alcançar seus objetivos.
A última parte desse capítulo se trata sobre o caminho que Adelaide Waldford decidiu seguir, leitor.
Como dito anteriormente, todas as escolhas tomadas por nossos heróis tem consequências, e atalhos, sobretudo, não costumam se limitar a caminhos mais rápidos, e sim a caminhos novos e inexplorados que se abrem para aqueles que decidem trilhá-los.
Adelaide carregava uma cesta com o jantar de Augustus, e andava em direção à sede da Ordem, embora tivesse decidido cortar caminho pelo pátio de uma fábrica nas cercanias.
O céu já estava ligeiramente escuro, mas ela estava confiante de que chegaria à Ordem antes que anoitecesse completamente. Tinha apenas que passar pelo bairro dos operários até chegar à rua principal, onde poderia pagar para que uma carruagem a deixasse em seu destino.
Teria tudo corrido suavemente. Mas um barulho vindo da direção da fábrica, já fechada naquele horário, a sobressaltou.
—Quem está aí?— Adelaide perguntou, deixando a cesta no concreto e retesando a postura, pronta para correr ou lutar.
A figura, esguia e vestida de preto, soltou um riso debochado antes de sair dentre as sombras e andar na direção de Adel.
—Essa cidade está mesmo cada dia menor— disse Antigone Lascelle, arqueando uma sobrancelha— Eu não esperaria encontrar a irmãzinha de Augustus nessas redondezas
Adel relaxou a postura, aliviada por não estar realmente em perigo. Não sabia muito bem como se defenderia sem magia ou uma arma, provavelmente acabaria tendo que abandonar o jantar de Gus e correr.
—Eu estava visitando uma tia que mora no bairro— Adelaide explicou— E você, o que faz por aqui?
Antigone pulou graciosamente sobre uma pequena cerca e se aproximou de Adelaide.
—Investigando— ela respondeu, limpando a saia do vestido, embora não estivesse suja— Presumo que Augustus tenha lhe contado um pouco sobre o caso.
Adelaide assentiu.
—Apenas um pouco.
—Bem, no crime mais recente, foram encontrados resíduos de combustível inflamável no corpo. E essa é a fábrica mais próxima do local do crime— Antigone explicou.
—E você encontrou alguma coisa suspeita?— Adel perguntou, um pouco curiosa.
—Aham— Antigone concordou— Um dos tanques grandes de combustível está com a tampa quebrada. Bastante indicativo de que alguém possa ter surrupiado um pouco para fins escusos.
Adelaide assentiu, pensativa.
—Bem, talvez seja uma boa medida monitorar roubo de combustível pelas redondezas, então. O criminoso vai precisar de mais líquido inflamável, e assim vocês saberão quando ele planeja atacar novamente— ela comentou, ao que Antigone respondeu com um murmúrio.
—Não é um pensamento totalmente inútil, Lockhart. Você e seu irmão até que acertam alguma coisa de vez em quando— ela comentou— Mas agora você deveria se apressar em chegar em casa. Já está escuro.
—Eu poderia dizer o mesmo para você— Adel replicou.
—Eu tinha de vir depois do horário de fechamento da fábrica, para investigar bem. E tenho como me proteger, acredite— Antigone replicou— Está indo para casa? Podemos andar juntas até a rua principal, seria mais seguro.
—Estou indo para a Ordem— Adelaide respondeu.
—Levar o jantar de Augustus?— Antigone perguntou, e soltou um riso debochado ao ver Adelaide concordando— Bem, eu também estou indo para a Ordem. Apesar de eu em geral preferir ficar sozinha, eu poderia ser convencida a te dar uma carona em minha carruagem, caso você tenha mais alguma observação minimamente pertinente.
Adelaide arqueou uma sobrancelha.
—Jeito estranho de oferecer uma carona. Mas tudo bem, vamos lá. Afinal, todas as minhas observações são extremamente pertinentes.
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