Arsonist's Lullaby- Interativa
5 IV- Fatal Attractions
Notas iniciais
Às vezes eu me pergunto, leitor, quantas coisas poderiam ter acontecido de modo drasticamente diferente se não fosse aquele encontro não tão casual naquele espetáculo de ópera.
Nas horas mais escuras da madrugada, eu divago sobre todas as tragédias que poderiam ter sido evitadas caso Henrietta simplesmente não tivesse notado a presença de Edward no camarote bem de frente ao seu. Ou o que teria se passado caso ela tivesse decidido ficar em casa, apesar do burburinho que sua ausência geraria; ou até mesmo se tudo ficaria bem caso Augustus não tivesse deixado escapar que teria de cobrir para a Líder naquela noite pois ela seria obrigada a ir à ópera.
De qualquer maneira, minhas elocubrações são vãs. Pois não posso mudar o passado, por mais que seja isso o que eu desejo; e a verdade é que aquele encontro já estava predestinado a acontecer, de uma forma ou de outra. Edward Waldford não pararia até conseguir o que queria, e ele jamais conseguiria coisa alguma sem Henrietta Raycraft. Seus caminhos já estavam cruzados há muito, os dois apenas não sabiam disso ainda.
Mesmo à distância, Edward conseguia sentir a obsidiana no broche de Henrietta, preso com firmeza sobre o tecido de seu vestido verde-escuro. O amuleto não permitia que ele sentisse qualquer a emoção ou pensamento da Duquesa, mas ele não precisava de magia para ser um bom observador. Podia ver que, se antes ela estava tranquila, até mesmo ligeiramente distraída, agora que ela havia notado sua presença, estava atenta. Não chegava a estar tensa, o sorriso educado e levemente curioso que ela havia lhe dirigido deixava isso claro, mas definitivamente estava ciente de que ele queria algo, e que ela teria de lidar com ele mais tarde.
Edward já havia concluído há algumas semanas que eventualmente teria de se aproximar de Henrietta para conseguir o que precisava. Ela era uma peça central de seus planos, e nem mesmo a eventual ajuda que a presença de Augustus na Ordem poderia lhe conferir seria o suficiente para obter o que ele necessitava. Ela, e apenas ela, supriria as complexidades do plano; então ele tinha tão somente uma chance de executar uma aproximação bem sucedida.
As notas agudas e longas da soprano principal ecoavam pelo ar do teatro, anunciando que o último ato finalmente se aproximava de seu fim. Edward lançou mais um olhar para Henrietta. Ela não notou, a princípio, mas logo a sensação de estar sendo observada a fez voltar seus olhos para ele. Cinza e verde se chocaram em uma dança silenciosa, ambos se avaliando calmamente, sabendo que logo não poderiam mais evitar o diálogo que estava anunciado desde que Edward colocara seus pés naquele salão de ópera. Ele desviou o olhar primeiro, com um leve sorriso. Estava curioso para saber até quando aquela aparente serenidade dela iria durar.
Sob uma chuva de aplausos, as cortinas vermelhas e aveludadas se baixaram, e logo os presentes começaram a se dispersar. Edward achava engraçado como os nobres se comportavam, enxameando um ao redor do outro em conspirações corteses, que ficaram ainda mais visíveis quando todos chegaram ao salão principal do Opera House. Os cantores já estavam ali, para receber cumprimentos e elogios, e Edward notou que essa era a parte realmente importante da noite, e não a ópera em si, mas sim as conversas e interações que vinham à seguir. Ele esperava que aquela atmosfera pudesse permitir que se aproximasse de Henrietta sem grandes burburinhos, mas, no fundo, não se importava muito.
Ele a avistou conversando com uma senhora mais velha e muito bem vestida, mas logo que Henrietta notou sua presença, e se despediu da outra nobre, andando com passos firmes até onde ele estava. Edward observava uma das pinturas na parede com aparente despretensão, mas conseguia ver a aproximação da Duquesa em sua visão periférica.
Ela parou do seu lado, também usando como pretexto observar a pintura, mas Edward sentia seus olhos o avaliando calmamente. Daquela distância, ele podia reparar melhor nela, nunca havia a visto tão de perto antes.
Henrietta era alta para uma mulher, apenas alguns centímetros mais baixa do que ele, e tinha uma figura agradável; esguia, mas suavemente curvilínea. O rosto fino e delicado ganhava destaque com os cabelos castanhos presos para o alto, e os olhos verdes brilhavam, analíticos, conforme ela aguardava pacientemente que Edward fizesse a primeira jogada.
—É uma pintura muito bela, não acha, Milady?— ele perguntou, naquele tom ameno, mas firme, que lhe era tão característico.
Henrietta desviou seu olhar de Edward para a pintura, então deu um levíssimo sorriso antes de responder:
—Certamente, Senhor Waldford. Quase como se fosse um trabalho de magia, não acha?
Edward se pegou rindo sutilmente, um pouco surpreso com a resposta afiada. Augustus havia descrito Henrietta como uma mulher educada, calma, tolerante; mas lá estava um lado dela que ele não esperava encontrar.
“Eu sei quem você é. E o que você é. Não se deixe enganar pelo sorriso ou pela cortesia, eu ainda posso destruir você”- era a mensagem implícita daquela frase, e Edward captou alto e claro. Já esperava que ela soubesse quem ele era, certamente, mas tivera a errônea impressão de que ela talvez fosse adepta a joguinhos e mentiras brancas. Aparentemente, Henrietta Raycraft era uma discípula de verdades cortantes empunhadas com sutileza. Mas tudo bem. Disso Edward entendia muito bem, e até preferia jogar daquela maneira.
—Bem, Milady, eu não duvido que realmente seja— ele respondeu— Ficaria surpresa com quantos artistas possuem o dom da magia.
Henrietta arqueou uma sobrancelha.
—E o senhor ficaria surpreso com quantos deles já estão sob vigilância sem que sequer percebam— ela replicou, em um tom igualmente calmo.
Eles estavam em times opostos, mas certamente estavam no topo de suas respectivas atribuições. Um dos usuários de magia mais influentes e poderosos do país, e a Líder da Ordem que buscava parar todos como ele. Parecia irônico que estivessem conversando com tanta civilidade, mas Edward não se deixava enganar. Havia um tom perigoso, de ameaça velada, em cada palavra que ele ou Henrietta proferiam.
—Sob vigilância ou não, parece que a Ordem não é mais o maior perigo que os ronda, de qualquer forma— ele disse, medindo a reação dela conforme levava o assunto para o ponto crítico— Não quando esses incêndios parecem estar atrapalhando tanto o meu trabalho quanto o seu.
A postura de Henrietta se tensionou minimamente, e ele percebeu que havia tocado em um ponto delicado. Ela claramente estava preocupada com os incêndios, e, naquele momento, Edward teve certeza de que ele conseguiria o que queria.
—Os incêndios são mesmo episódios desafortunados, Senhor Waldford, mas garanto que a Ordem já está lidando com eles— ela respondeu rapidamente, e Edward abriu um sorrisinho entre complacente e afiado.
—Nós dois sabemos que isso não é verdade, não é mesmo?— ele se virou para ela, se inclinando levemente em sua direção e sustentando seu olhar— Você não faz ideia de quem esteja causando isso, faz?
Os olhos de Henrietta se demoraram no rosto de Edward, e a expressão dela ainda era calma, embora também carregasse uma pequena insinuação de irritação. As pupilas dela estavam levemente dilatadas, ele reparou. Talvez devido à penumbra do Salão? Ou talvez ela realmente estivesse de algum modo alterada, mas Edward não sabia dizer pelo que. Explicaria o sorriso, e porque o olhar dela nunca fugia do seu. A única coisa que Edward sabia era que poderia tocar a pele dela caso estendesse a mão, mas que ela ainda assim não parecia nenhum pouco intimidada por aquela proximidade repentina, talvez muito pelo contrário.
A irritação de Henrietta logo deu lugar a uma pontada de divertimento, mas seus olhos ainda tinham um brilho perigoso. Não parecia sentir-se ameaçada com o tom de Edward, ou sequer com a audácia que ele demonstrara ao se aproximar tanto dela. Mas definitivamente não deixaria aquele desafio implícito passar batido.
—Você está certo, querido. Eu não faço ideia de quem esteja ateando fogo em minha cidade— ela replicou, com um tom calmo— Mas você tampouco faz ideia alguma. Ou não estaria aqui, arriscando seu pescoço para tentar juntar migalhas de informação.
Edward conteve um sorrisinho. A mulher era inteligente, como ele esperava que seria. Ela havia juntado todas os pontinhos com uma velocidade notável, e poucas pessoas conseguiam decifrar Edward Waldford, mesmo que minimamente. E ele percebeu o quão perigoso era que agora ele estivesse diante de um desses raríssimos indivíduos. Seu plano jamais obteria qualquer tipo de sucesso se ela fosse inteligente de menos, mas também iria por terra se ela fosse inteligente demais. Estava dependendo de um equilíbrio tênue a partir daquele ponto.
— Aparentemente somos duas pessoas desesperadas, então— ele disse— Estão matando os meus protegidos e os seus. Seria lógico inferir que, apesar das diferenças, temos um interesse em comum nesse momento.
Ela riu.
—Pode até ser, Senhor Waldford, mas o que você sugere?— Henrietta replicou— Que a Líder da Ordem e um dos usuários de magia mais infames trabalhem juntos? Não me parece o tipo de coisa que seria bem vista.
Edward abriu um sorriso calmo.
—Certamente não seria bem visto, Milady. Mas ninguém viu coisa alguma. E ninguém precisa ver— ele respondeu— Por que acha que escolhi esse local para nossa conversa? Não há nenhum agente e nenhum feiticeiro aqui. Esse pode ser nosso segredo, se você escolher o caminho mais sábio.
Henrietta arqueou uma sobrancelha.
—Eu dificilmente chamaria essa conduta de “caminho mais sábio”, Senhor Waldford— ela replicou— E não sei como poderíamos ajudar um ao outro, já que ambos parecemos estar dolorosamente no escuro quanto ao assunto.
Edward mais uma vez sorriu calmamente.
—Poderíamos não estar mais, se juntássemos os fragmentos de informação que cada um tem— ele disse— Fique tranquila, Milady. Minha única intenção é salvar a mim e aos meus negócios. Depois que esse piromaníaco for detido, podemos voltar a nos odiar.
Henrietta pareceu refletir por um segundo. Seus olhos novamente se demoraram no rosto dele, como se ela de alguma maneira procurasse qualquer indício de mentira em sua expressão. Edward sabia que ela não acharia nada.
—Bem— ela disse, por fim, soltando um longo suspiro— Eu suponho que valha a tentativa. Mas se eu sequer sonhar que você está tramando algo, irei pessoalmente reduzir seu império a cinzas, Edward Waldford.
O homem sorriu com uma pontada de divertimento.
—É claro que vai, Milady. E eu não esperaria nada diferente.
Nada de bom poderia sair de um segredo como este, leitor. Nada de verdadeiro pode florescer de uma mentira. E talvez eles devessem saber disso desde o princípio. Mas eu não os culpo. É praticamente impossível se privar do pecado. Quase tão impossível quanto é escapar da danação que se segue.
Enquanto Edward e Henrietta discutiam seus malfadados planos, a maioria dos nossos outros personagens estava em casa, dormindo ou se preparando para descansar, com as notáveis exceções de Charlotte Griffin e de Augustus e Adelaide Waldford. Por essa noite, deixaremos a Senhorita Griffin desfrutar de um resto de privacidade (uma vez que teremos de nos intrometer em seus negócios em capítulos futuros), e nos foquemos nos afazeres dos irmãos.
Augustus, como já dito anteriormente, estava cobrindo para Henrietta, então estava na sede da Ordem, enterrado em meio a arquivos e evidências de crimes.
Naquele momento, repassava as provas do caso Ottis Wilson, pensando em toda a história que a Ordem tinha com aquele homem. Já haviam tentado impedi-lo diversas vezes, interceptando carregamentos, descobrindo localizações de bibliotecas e depósitos, mas nunca haviam conseguido pará-lo completamente. Nem mesmo Edward, um grande competidor de Ottis, havia conseguido ser uma ameaça à sua hegemonia, sendo relegado a comercializar mais artefatos e menos livros mágicos devido à competição intensa. O Incendiário havia feito o que todos eles tentavam há décadas em um único passe de magia, ateando fogo ao trabalho da vida de Wilson. E isso assustava Augustus mais do que ele gostaria de admitir.
Ele vacilou por um segundo, mas logo abriu uma das gavetas da mesa do escritório, alcançando o arquivo que continha algumas das evidências do incêndio do dia anterior. O que Clarence Lewis, um agente da Ordem, e Ronald Butler, um transeunte inocente, tinham a ver com Ottis Wilson? Por que todos eles haviam sido vítimas do mesmo criminoso cruel? Nada parecia fazer sentido algum.
—Eu já disse, estou aqui para ver Augustus— uma voz familiar soou no corredor, e Gus imediatamente se pegou sorrindo— E eu já disse meu nome para o cara da entrada. Sinceramente, acha que eu conseguiria entrar aqui sem autorização? Ah, está bem. Adelaide. Adelaide Lockhart. Anotem dessa vez, ou o jantar dele vai esfriar por culpa sua.
“Lockhart”- Augustus repetiu o sobrenome em pensamento, com uma pontada de estranheza. Já estava acostumado a usar o sobrenome de Jesper em público, mas ainda era um pouco desconcertante ouvir Adelaide o usando também, mesmo que só na frente da Ordem. Waldford era o sobrenome de seus pais, o sobrenome de Edward. E ele e Adel não poderiam ter nada a ver com eles. Era um pouco triste que tivessem que se esconder daquela maneira, mas, infelizmente, era necessário.
Augustus agitou a cabeça para expulsar esses pensamentos, e se levantou para abrir a porta, dando de cara com Adel antes mesmo que ela batesse.
—Smith te barrou de novo?— Gus perguntou para a irmã, abrindo um sorriso entretido.
—Como sempre— ela respondeu, sorrindo de volta— Vocês deveriam deixar o coitado se aposentar. A memória dele pede por socorro.
Augustus riu.
—Bem, nós já tentamos, mas ele ainda insiste em trabalhar— ele replicou, segurando a porta para que Adel passasse— O que trouxe? O cheiro está bom.
Adelaide colocou a sacola que trazia encima da mesa, e Augustus a ajudou a servir a comida adequadamente. Purê de batatas, carne assada e vegetais salteados na manteiga. Tudo ainda parecia quente e fresco, e ele sentiu seu estômago roncar. Estava com mais fome do que havia percebido.
—Eu sabia que você não iria comer se ninguém lhe trouxesse comida. Você é mesmo um bebezão- Adelaide provocou, se assentando à mesa no canto do escritório e servindo um prato— Vamos lá, coma antes que esfrie.
Ela não precisou falar duas vezes. Logo Gus se juntou a ela, montando uma refeição generosa para si.
—Não sou um bebezão, só estou muito ocupado- ele replicou, já enchendo a boca de purê— Nossa, isso está muito bom. Foi você quem fez?
Adelaide assentiu.
—Jesper me ajudou, mas ele foi levar comida para Anne, então não pôde vir— ela respondeu— A pobre Eliza piorou. Margaret acha que é tísica, e estava falando em pedir a ajuda de Ed.
Margaret era a irmã de Jesper, o antigo tutor dos irmãos Waldford, e Eliza era sua filha mais velha. A garota já andava adoentada há meses, ocupando grande parte do tempo da família , incluindo a esposa de Gus, Anne, que tinha algum treinamento em enfermagem. As notícias não surpreenderam Augustus, mas ele suspirou, preocupado.
—Bem, Ed certamente poderia curá-la, se Charles não se opor ao uso de magia nesse caso— Gus respondeu— Creio que seja a única alternativa, se Eliza realmente tiver a consumpção.
Adelaide assentiu gravemente.
—Ele costuma querer não se envolver com esse tipo de coisa— ela disse, se referindo a Charles, o marido de Margaret— Mas, nesse caso, se trata da vida da filha dele. Ele vai ter que entender.
—Ele vai- Gus disse, tentando soar esperançoso— E Ed vai conseguir ajudar. Ele sempre consegue.
Augustus mais uma vez pensou em seu irmão, Edward. Pensou na enorme facilidade que ele tinha com magia de todos os tipos. Ele curvava as sombras e a luz com graça ao seu redor, sem nunca parecer tocado pela corrupção ou ambição que vinham com o poder excessivo. A lembrança mais clara que ele tinha de Ed usando magia era de quando ele fizera uma rosa florescer enquanto eles conversavam sobre a mãe, e sobre perdão e redenção. Augustus se apegava àquela memória com todas as suas forças. Era ela que não o deixava se afundar em suas mágoas mesmo em seus momentos mais obscuros. Porque ele sabia que seu irmão era bondoso, assim como a mãe deles costumava ser, e assim como ela gostaria que Augustus fosse, também. Mesmo com todo aquele poder, Ed nunca machucaria ninguém, e isso fazia Gus ter fé de que ele também conseguiria superar tudo o que acontecera.
Gus sabia que Adel não ligava para o sobrenatural, mas para ele sempre houvera uma espécie de encantamento com o que os conhecimentos ocultos poderiam oferecer. E talvez exatamente por isso ele estivesse tão fixado em entender o Incendiário e suas motivações. Não conseguia entender como alguém se corrompera tanto. Mesmo com todos os avisos da Ordem sobre a magia ser perigosa, capaz de levar à loucura e à vilania, ele sempre acabava pensando em Edward, e concluindo que ela não poderia ser tão ruim assim, afinal. E uma parte dele ainda parecia se recusar a acreditar em toda a dor que a magia poderia causar nas mãos erradas.
—Você ficou calado— Adelaide disse, após alguns segundos de silêncio— Você geralmente adora tagarelar sobre o seu dia, está tudo bem?
Augustus forçou um sorriso.
—Sim, claro— ele respondeu— Só estou um pouco pensativo. Evidências estranhas e conflitantes nesse caso, sabe?
Adelaide assentiu, parecendo ligeiramente preocupada.
—Quer conversar sobre isso?- ela perguntou, e Gus se sentiu grato. Por mais que não tivesse nada a ver com a magia ou a Ordem, ela sempre estava lá para ouvi-lo, e ter esse tipo de apoio não tinha preço.
—Bem, não sei se há muito o que ser dito— ele respondeu— Estou perdido. Todos estamos. O Incendiário atacou usuários de magia, agentes da Ordem, e até mesmo pessoas que simplesmente pareciam ter algum tipo de conhecimento a respeito do oculto. Aparentemente, ninguém está seguro, e nós não fazemos fazemos ideia de quem está fazendo isso ou porquê. Só sabemos que esse é um feiticeiro extremamente poderoso, e que nada do que façamos parece ser capaz de impedi-lo.
Adel pareceu ainda mais preocupada. Ela parou de comer, e segurou a mão de Gus por sobre a mesa, tentando transmitir um olhar gentil e tranquilo. Augustus sabia que ele estava agindo de modo estranho, ele normalmente era bem mais otimista do que aquilo, e que portanto Adel tinha motivos para a preocupação. Mas não podia evitar de se sentir absolutamente frustrado com todos os acontecimentos dos últimos meses.
—Ei— Adelaide disse, o olhando com um sorrisinho maternal— Se tem alguém capaz de descobrir o que está acontecendo, esse alguém é você. E assim que vocês descobrirem um padrão, vocês vão conseguir impedir esse criminoso. Tenho certeza que vão.
Augustus sorriu de volta.
—Obrigado, Adel— ele disse, apertando a mão dela de leve antes de soltá-la e voltar a comer— Agora pode parar de ser tão melosa e voltar a me maltratar. Eu sei muito bem que você não é boazinha assim.
Adel revirou os olhos, mas soltou uma risada.
—Da próxima vez, não vou trazer seu jantar, se for para ser difamada assim.
—Você sabe que eu te amo, não sabe?
—Eu também te amo, seu idiota.
Augustus passou o resto da noite estudando as evidências, procurando uma conexão entre aqueles nomes mortos, qualquer coisa que pudesse unir aquela sucessão de tragédias. Adelaide ficou lendo um romance no sofá enquanto ele trabalhava, mas acabou caindo no sono depois de algumas horas. Gus tirou seu casaco e a cobriu, mas ele logo voltou a se concentrar nos arquivos e provas.
A primeira morte: o Líder da Ordem, Lorde Ephraim.
A segunda morte: um usuário de magia, Dean Wickham.
A terceira e a quarta: dois agentes da Ordem, Benjamin Ferguson e Violet Atkins.
A quinta: uma conhecedora do oculto, Sophia Rodaki.
A sexta: outro usuário de magia, Nathan McGuire.
A sétima: Ottis Wilson, mais um feiticeiro.
A oitava e a nona: Clarence Lewis, um agente da Ordem e Ronald Butler, um transeunte e feiticeiro que tivera o azar de cruzar com a cena.
Todas essas nove mortes terríveis em menos de quatro meses. Qual o fio invisível que unia todas? O que havia condenado todas aquelas pessoas à uma morte tão repentina e violenta?
Como muitas das dúvidas nessa história, essa é uma pergunta que seria melhor se deixada sem resposta, leitor. Mas o problema da verdade é que ela sempre vem à tona, mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra.
Mas não naquela noite. Por enquanto, Augustus permaneceria seguro. Embora não por muito tempo.
A manhã seguinte chegou mais cedo do que qualquer um dos nossos heróis gostaria, trazendo mais um dia cinzento e ligeiramente frio.
Leonard Cohen acordou com os primeiros raios estéreis de sol, e logo iniciou o planejamento agitado que tinha para aquela terça-feira. A reunião com os Lordes, para qual tinha sido convidado no domingo, começaria às sete e meia, e logo depois ele tinha seus próprios afazeres para concluir.
Se vestiu elegantemente, com calças sociais e um sobretudo novo, sem falar da cartola da última moda que havia adquirido na semana anterior, e chamou a carruagem para que ela o levasse até a residência de Lorde Forrest.
A casa de Leonard era grande e arejada, uma construção bonita, sobretudo para um plebeu. Rivalizava com facilidade com muitas moradas de famílias nobres, e ele mantinha tudo arrumado com rigorosidade e perfeição. Enquanto esperava que o criado arrumasse sua carruagem, ouviu um som agradável vindo da sala de estar, e se pegou sorrindo conforme seus pés o levavam em direção à música.
Aaliyah Najjar estava assentada ao piano, seus dedos longos e elegantes pairando sobre as teclas de marfim, seu cabelo negro e comprido solto pelas costas, embalado suavemente pela brisa que entrava pela janela entreaberta. Mesmo sob a luz tímida e esmaecida do Sol, ela parecia resplandescente, a pele morena e brilhante, os olhos negros e intensos focados em sua tarefa, até que ela notou a presença de Leonard, desviando seu foco do piano para ele, mas ainda assim continuando a canção.
—Bom dia, ya helo— ela disse, com um sorrisinho ligeiramente provocativo— Ia sair sem sequer se despedir de mim?
Ela tinha uma leve o insinuação de sotaque, embora não fosse carregado. “Ya helo” queria dizer “minha beleza” em árabe, e, embora Leonard em geral odiasse apelidos, aquele soava bem nos lábios de Aaliyah.
—Bom dia— ele se aproximou do piano e segurou o queixo da mulher delicadamente entre seus dedos, capturando seus lábios em um beijo. Ela acabou parando a canção para enrolar os braços ao redor de seu pescoço e puxá-lo para mais perto, embora eles tenham se separando rapidamente— Você estava dormindo tão serenamente… não tive coragem de te acordar.
Aaliyah riu, se levantando para continuar o diálogo. Ela era uma mulher pequena, mas certamente não era frágil, seu corpo tinha músculos gentilmente esculpidos, e pernas longas e ágeis. O corpo de uma acrobata ou de uma dançarina, não de uma Lady, e que ostentava a mesma angulosidade suave de seu rosto vagamente felino. Definitivamente uma mulher bonita, mas de um jeito que a maior parte dos londrinos consideraria exótica.
—Não estou dormindo agora- ela replicou, se alçando com facilidade na ponta dos pés para aproximar seu rosto do de Leonard— E você ainda tem alguns minutos antes de precisar sair.
—Aaliyah… eu vou me atrasar…
—Eu não me importo. Aqueles velhos nobres entediantes vão ter de entender que uma dama tem suas necessidades.
Leonard riu, mas cedeu às vontades de sua dama. Como sempre.
Acho que o leitor pode imaginar o que aconteceu nos próximos minutos, e pode imaginar também que Leonard certamente acabou se atrasando. Vou poupá-lo dos detalhes sórdidos.
Leonard Cohen era, além de um homem de muitos artifícios, um homem de muitos amores. Aaliyah Najjar não era a única mulher em sua vida, embora certamente fosse a mais constante. Antes também havia Jennie Callan, loira e sorridente, mas ela finalmente arranjara um marido, e assim dado um fim ao caso dos dois. Então, naquele momento, a única pessoa a frequentar os aposentos de Leonard (além dos eventuais amores de uma noite) era a Senhorita Najjar.
Aaliyah era egípcia, mas havia emigrado para a Inglaterra ainda jovem. Trabalhou como artista de circo por um tempo, mas logo achou o emprego que mantinha até o momento: dançarina. E foi assim que ela conheceu Leonard e diversos de seus antigos amantes, que a mantiveram vivendo como uma Lady pela maior parte do tempo. Ela provavelmente deveria manter algumas outras companhias além de Leonard, mas ele eventualmente também mantinha, então lhe parecia um arranjo justo. Só sabia que a mulher tinha histórias interessantes, tocava piano belamente, e o mantinha entretido em seus momentos de solidão, então não planejava deixá-la tão cedo.
A grande questão, leitor, era que Leonard nunca contava nada para Aaliyah. E ela também nunca contava nada para ele, para ser justo, então haviam incomensuráveis aspectos daquela relação que estavam completamente imersos em mistérios e escuridão. E, uma hora ou outra, os segredos que cada um guardava viriam à tona das maneiras mais sombrias o possível.
A caminho da reunião, os pensamentos de Leonard estava cheio de fogo, e de chamas poderosas e cruéis. Ele pensava em como conseguiria chegar até a fábrica para conseguir o que queria, em como ele poderia causar o maior caos que aquela cidade já havia visto. E Aaliyah, de volta ao piano, pensava em como ela poderia se proteger do fogo que certamente estava cada vez mais próximo de si.
E, talvez, depois desse capítulo longo e sofrível, o leitor já tenha conseguido captar uma das lições mais importantes que essa história longa e sofrível pode passar: nada de bom pode surgir entre uma pessoa que quer começar incêndios e uma outra que quer apagá-los; e, por mais que elas costumem gravitar uma em direção à outra com um magnetismo irrefreável, essas atrações fatais podem até ter começos belos, mas seus fins sempre são violentos.
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