Arsonist's Lullaby- Interativa
6 V- Good Grief
Notas iniciais
Já era quase tarde quando Digory Pembrook finalmente teve forças para se levantar da cama.
O leitor não deve se enganar e pensar que, embora a situação do jovem rapaz fosse bastante deplorável, ao menos uma boa noite de sono conseguiu lhe devolver o mínimo de ânimo, pois não foi isso o que aconteceu. Digory dormiu pouco e dormiu mal, as únicas horas de descanso verdadeiro que teve chegaram quando a exaustão finalmente falou mais alto que suas agruras, o que se deu tão somente quando o sol já estava bem alto no céu.
Ele se levantou à contragosto, quando já não aguentava mais observar o teto, e saiu do quarto para encontrar uma casa completamente vazia. Seus pais e Polly já haviam saído para trabalhar, de modo que ele estava totalmente sozinho. Ao menos sua mãe havia deixado algum café da manhã na cozinha, e ele comeu desanimadamente. Já estava farto da solidão, farto da tristeza, farto de não conseguir sorrir ou sentir qualquer emoção além daquela melancolia terrível.
Não conseguia parar de pensar em Ronald. E no fato de que ele não estava mais lá, e nunca mais estaria. As memórias eram vívidas, e tão dolorosas quanto a ausência dele. Lembrava-se perfeitamente do som de sua risada, do jeito confiante e levemente atrapalhado com que ele costumava andar pelas ruas, das piadas impertinentes e da coragem sem fim. Como era possível que ele tivesse simplesmente se esvanecido, e passado daquele estado tão vivaz para uma inexistência total? Digory não entendia, e sequer queria entender. Tudo o que ele queria era seu amigo de volta.
“Você tem que ficar grato por não ter visto”- Polly havia dito, quando ele lhe perguntou sobre os últimos momentos de Ronald- “Eu sei que eu gostaria de esquecer. Aproveite ao menos a pequena benção de não ter que viver com essa memória”
Sua irmã também não estava dormindo, Digory sabia. Havia visto uma vela acesa na sala durante a madrugada, quando ele mesmo estava acordado e tremendo em sua própria cama. E ela estava calada, taciturna, arisca, sempre se isolando de qualquer um que buscasse ajudar. Ele sabia que não estava muito melhor, e que por isso seus pais estavam tão desesperados, mas também sabia que teria de ser o apoio de Polly, e ela, o dele, ou jamais superariam aquela perda.
Ele lavou os pratos e contemplou as possibilidades desanimadoras para aquele dia cinzento. Poderia passar o dia inteiro sozinho, se afundando em autocomiseração na casa fria e isolada; ou poderia ao menos tentar fazer alguma coisa, qualquer coisa que o distraísse da melancolia. Ele decidiu que a segunda opção era menos insuportável, até porque o dia anterior sozinho em casa havia lhe provado que a solidão era a pior coisa para uma pessoa de luto.
Digory pegou um casaco e saiu de casa no mesmo momento em que uma chuva fina e insistente começou a cair. Ele se sentia caindo junto com a chuva, mas apenas subiu a gola para tampar o rosto e continuou andando para a relojoaria, torcendo para não pegar um resfriado.
A loja estava vazia, mas o sino da entrada tocou uma nota alta e insistente quando ele passou pela porta.
—Pai?- Digory chamou, olhando ao redor e procurando pelo Sr. Pembrook— Você está aqui?
A porta dos fundos, que dava para a oficina, se abriu em resposta. Mas a pessoa que saiu de lá não era o pai de Digory, para a sua supresa.
O rapaz era jovem, no máximo um ou dois anos mais velho do que Digory, e tinha um sorriso tímido, mas gentil. Sua pele era morena, e ele tinha cabelos escuros e suavemente ondulados, que mantinha levemente compridos, quase tocando os ombros. Ele não era muito alto, mas Digory era um pouco baixo, de modo que teve de erguer os olhos discretamente para encontrar os dele: brilhantes, e em um tom gentil de castanho.
—Boa tarde!— o desconhecido cumprimentou, andando em sua direção e sustentando o sorriso— Bem-vindo à Relojoaria Pembrook. Em que posso ajudá-lo?
Ele tinha um tom receptivo, ainda que sua voz fosse baixa e comedida.
—Estou procurando meu pai— Digory respondeu, um pouco incerto— A pessoa que te contratou, eu suponho. Ele está por aqui?
O rapaz o encarou por um segundo, e então balançou a cabeça.
—O Sr. Pembrook precisou sair para comprar algumas peças, mas não deve demorar a voltar— o jovem respondeu— Você é o Digory, certo?
Digory assentiu.
—Sim, sou eu mesmo— ele disse— E qual o seu nome?
O garoto estendeu a mão para ele, abrindo mais um sorriso tímido.
—Mihai. Mihai Beswick— ele respondeu— É um prazer finalmente te conhecer.
—Igualmente.
—Você deveria esperar por aqui, a chuva está forte, e seu pai certamente não iria querer que você pegasse um resfriado— Mihai comentou, abrindo a porta da oficina para Digory— Além do mais, eu acabei de fazer chá, e chá sempre fica melhor com alguma companhia.
Digory se pegou sorrindo, e então assentiu, aceitando o convite.
—Parece bom.
A oficina estava supreendentemente arrumada, o que não era comum. Peter Pembrook era um homem desorganizado, então aquilo só poderia ser trabalho de Mihai. As peças foram separadas em caixas, e as ferramentas, penduradas em seus devidos lugares. Digory percebeu que nunca havia visto a cor da madeira da mesa principal antes, pois ela estava sempre coberta de utensílios, e aquela era a primeira vez que ele via a superfície escura e envernizada.
—Você fez um milagre com esse lugar— Digory comentou, olhando ao seu redor, impressionado— É uma pena que meu pai seja tão caótico. Logo tudo voltará à desordem.
Mihai acabou rindo, um som baixo e melódico.
—Quanto pessimismo— ele comentou, puxando uma cadeira e se assentando— Mas eu sou uma pessoa paciente. Acho que não terei problemas em manter o lugar em ordem.
Digory se pegou rindo também. Talvez a primeira risada desde o fatídico dia de domingo.
—Você ainda não conhece meu pai direito, então. Um bagunceiro inveterado.
Mihai já estava servindo chá de um bule que havia deixado encima da mesa, o que espalhou um cheiro doce e agradável pelo ar. Digory se assentou também, de frente para o outro jovem.
—Já vi lugares piores, então duvido que o Sr. Pembrook esteja além da salvação— ele respondeu— Aceita chá? É de anis, bom para evitar resfriados. E você parece estar com bastante frio, seus lábios estão até roxos.
Digory corou ao constatar que ele estava certo, realmente estava tremendo de frio, e provavelmente tinha um tom arroxeado na boca. Talvez ele tenha corado mais ainda ao pensar que Mihai havia notado isso. Por fim, ele acabou assentindo.
—Obrigado— ele agradeceu quando Mihai lhe entregou uma xícara, e o calor que o líquido emanava imediatamente o fez parar de tremer. Depois de provar, sorriu e completou: —Está muito bom.
Mihai sorriu de volta.
—A receita é da minha mãe, e ela nunca brinca quando o assunto é chá— ele respondeu.
Digory não se sentia com energia o suficiente para puxar assunto, mas, ao mesmo tempo, não queria deixar um silêncio desconfortável se instalar. E, para ser bem honesto, leitor, o jovem estava gostando bastante de conversar com Mihai, o suficiente para se esquecer de todo o seu luto durante aquele momento. Então ele estendeu o assunto, se inclinando levemente para frente no tampo da mesa.
—Sua mãe parece ótima— Digory comentou— Ela e sua família trabalham com o que?
Mihai sorriu, um brilho devotado em seus olhos.
—Minha mãe é tudo para mim, ela realmente é ótima em todos os aspectos— ele concordou— Ela é parteira, e o resto da família trabalha nos empregos temporários que conseguimos achar. Estamos sempre peregrinando, então nunca pegamos nada muito fixo.
Digory ficou curioso com esse comentário. Não imaginaria que Mihai tinha um estilo de vida tão diferente.
—Peregrinar? Então vocês viajam bastante?— ele perguntou, não conseguindo conter sua própria curiosidade.
Mihai sorriu timidamente.
—Bem, somos romani, então é parte da nossa cultura ter hábitos nômades— ele explicou— Eu achei que seu pai teria comentado com você que minha família é cigana.
Digory negou com a cabeça.
—Eu não ando conversando muito com meu pai— ele respondeu, com um tom ligeiramente triste— Não ando conversando com quase ninguém nos últimos tempos, para ser franco. Esse é o primeiro diálogo decente que tenho em dias.
Mihai se inclinou para frente na mesa, tocando sua mão suavemente.
—Não sei o que está acontecendo com você, mas tenha certeza que tudo vai ficar bem. Até os tempos mais sombrios passam, e o sol chega, mais cedo ou mais tarde— ele sorriu, apertando suavemente a mão de Digory— Mas podemos falar sobre alguma outra coisa, para te distrair. Posso contar sobre a última viagem que minha família fez, aconteceram várias coisas malucas.
Digory sorriu.
—Eu gostaria disso.
Digory mal viu o tempo passando, mas, em algum ponto da conversa, a chuva parou, e um sol tímido, mas luminoso, saiu de entre as nuvens. Os raios mornos entravam pela pequena janela da oficina, fazendo o cabelo castanho de Mihai brilhar, assim como seus dentes brancos quando ele sorria gentilmente.
Em algum ponto da história sobre a viagem de Rochester até Londres que Mihai contava (que envolveu uma carroça quebrada atolada na lama e um encontro inusitado com um circo itinerante), o sino da porta de entrada tocou. O jovem imediatamente se atentou ao som, abrindo um sorriso apologético e interrompendo a história.
—Eu termino de contar depois— ele garantiu— Mas preciso atender o cliente, agora. Quer vir comigo?
Digory acabou assentindo. Por mais que não estivesse com muita energia para trabalhar, ainda queria acompanhar Mihai.
O “cliente” na verdade era Peter Pembrook, carregando enormes sacolas cheias de peças, que quase caíam de sua contenção conforme ele se esforçava para levantar o peso.
—Mihai, Digory, que bom que estão aqui!— ele disse, ainda lutando contra as sacolas— Venham rápido, antes que eu derrube tudo.
Digory conteve uma risada, mas correu para ajudar o pai, assim como Mihai.
—É bom te ver de volta à ativa, Dig— o seu pai disse, lhe entregando uma das sacolas— Vejo que o bom humor de Mihai te alcançou. Bom, muito bom.
Digory agradeceu por poder virar as costas para levar a pesada sacola até a oficina, pois sentiu seu rosto esquentar.
—Você bem que sentiu falta de seu escravo favorito— Digory provocou o pai, que soltou uma risada alta.
—Pode até ser, mas agora eu tenho dois. Nunca mais vou precisar trabalhar— ele respondeu, e Digory conteve um sorriso.
Ele havia sentindo falta daquilo. De ter o mínimo de desejo de viver, de respirar, de existir. E, principalmente, de sorrir. Digory achou que nunca mais ninguém o faria sorrir quando Ron se foi, mas percebeu naquele momento que seu amigo não gostaria disso. Ele não gostaria de vê-lo no fundo do poço.
Digory ainda não estava bem, e sabia que não ficaria verdadeiramente bem por um longo tempo, mas tinha que ao menos tentar ficar. Por Ron. Por si mesmo. Por seu pai, sua mãe e Polly. E até mesmo por Mihai, que, sem saber, havia feito com que ele percebesse que não estava tão quebrado a ponto de ser impossível consertá-lo.
A noite já começava a cair quando Charlotte terminou seus afazeres na delegacia.
A primeira coisa que ela fez ao findar seu expediente foi se livrar daquela horrível roupa de criada. Ela odiava o conjunto de vestido preto e avental branco por diversos motivos, o principal por ser desconfortável, mas também pelo que ele representava: uma tentativa ridícula e desnecessária de tentar manter as aparências. Os policiais se recusavam a assumir que todas as suas armas eram fabricadas por uma mulher, então dissimulavam sua presença na delegacia sob o pretexto dela ser uma empregada, quando na verdade era ela a grande responsável pelos índices altíssimos de aproveitamento que eles ostentavam em relação às outras delegacias da cidade. Charlotte não gostava da situação, mas sabia que era o único jeito dela realizar seu trabalho de armeira em paz, então acabava aceitando.
Ela colocou as roupas que usava normalmente: calças masculinas, uma blusa folgada de algodão branco, botas pesadas, blazer e uma quepe para esconder o cabelo. Daquela forma, chamaria bem menos atenção nas partes pouco seguras da cidade, as quais frequentava com uma certa regularidade.
O ar da noite estava frio, e, embora a caminhada até o bairro vizinho não fosse muito longa, Charlie decidiu se dependurar à traseira de um bonde que passava sem que o motorista visse. Assim iria mais depressa, e poderia evitar pegar friagem prolongada. Não tinha medo de andar pelas ruas, é claro- o peso constante da arma presa debaixo de seu casaco era um lembrete de que não tinha nada a temer- mas não negava que preferiria não ser incomodada em seu caminho.
O bar era uma construção mequetrefe e capenga, que mal merecia a alcunha “pub” que ostentava na placa posicionada na entrada. A melhor coisa sobre ele eram os preços que se encaixavam em seu orçamento, pois todo o resto era sofrível. O ar era denso e pesado, com um cheiro alcoólico forte encobrindo odores metálicos de sangue e pungentes de urina; e a clientela era toda mal encarada e briguenta. Mas tudo bem, na opinião de Charlie, ela se encaixava perfeitamente com eles.
—Uma dose de whisky— ela disse ao barman, que já estava familiarizado com suas feições.
—Tem certeza que não prefere a garrafa inteira?— ele perguntou, com uma certa dose de deboche, o que fez Charlotte revirar os olhos. Certamente era uma referência aos seus hábitos contumazes, mas ela não deixaria ninguém falar de tal forma com ela.
—Você faria bem em me poupar do som desagradável da sua voz e fazer a merda do seu trabalho em silêncio— ela replicou, o que fez o barman fechar a cara— E sirva a bebida na minha frente. Não confio em você, e, se cuspir no meu copo, eu vou saber.
O primeiro copo foi consumido em um gole longo, o que a fez se questionar se realmente não deveria ter comprado a garrafa inteira logo de uma vez. Quase não sentia a queimação da bebida descendo, e uma dose certamente nem lhe faria cócegas. Mas não tinha muito dinheiro nos bolsos, e a última coisa que precisava era de uma dívida. Seu trabalho não pagava mal: era o suficiente para viver, mas certamente não para viver com um vício. Talvez isso fosse bom. Jamais teria a grana o suficiente para encher a cara até morrer, o que vinha como um pequeno alívio.
Três copos se seguiram ao primeiro, e ela começou a sentir a cabeça um pouco mais leve. Talvez tivesse ido para casa depois disso, ébria e ligeiramente feliz, já que ninguém no bar havia lhe chamado a atenção o suficiente para acompanhá-la pela noite. E isso teria sido o melhor para Charlotte Griffin e todos os presentes, leitor, mas, infelizmente, aquela noite não estava destinada a ter um fim pacífico. Pois logo Charlie viu um rosto familiar, um rosto que ela esperava nunca mais ver em toda a sua vida.
Ela tinha duas opções naquele momento, leitor: se levantar e ir embora, ou fazer algo a respeito daquela presença. Charlotte, apesar do temperamento nada fácil, não era uma mulher impulsiva, e por isso se pegou totalmente sem reação perante àquela situação, tentando da melhor maneira tomar uma decisão. Talvez, se ela tivesse sofrido um pouco menos, ou até mesmo se aquele homem não tivesse cometido atos tão terríveis, ela pudesse ter tido a calma de deixar aquele lugar maldito antes que o pior acontecesse. Mas esse não era o caso. Pois alguns crimes jamais podem ser perdoados, e aquele homem estava coberto de pecados. E, por isso, Charlotte se levantou e caminhou em passos firmes em sua direção, o ódio brilhando forte em seus olhos.
—Fred Wilson?— ela chamou ao se aproximar da mesa, e o homem se virou para ela, um pouco confuso— Se lembra de mim?
Ele tinha cabelos em um tom escuro de loiro, e olhos azuis e pequenos, que não demonstravam qualquer reconhecimento ao se fixarem no rosto de Charlotte.
—Sinto muito, querida, mas não— ele disse, abrindo um sorriso cafajeste— Talvez sejam essas roupas estranhas que você usa. Tenho certeza que, se realmente chegamos a nos conhecer, você usava algo mais bonito, ou absolutamente nada.
Charlotte mordeu a língua. Suas mãos ameaçavam tremer, mas ela precisava se controlar. Precisava ser mais esperta do que ele, somente assim poderia obter o que desejava.
—Bem, se formos lá para fora, eu poderia refrescar a sua memória— ela respondeu, se inclinando para ficar mais próxima ao homem. O hálito fortemente alcoólico vindo dele foi a garantia que ela teve de que ele acreditaria em sua dissimulação, mesmo ela sendo uma péssima mentirosa.
Ele a seguiu para a parte de fora do bar, o que não surpreendeu nenhum dos presentes. Não era incomum que ela levasse homens para casa, e muito menos que eles fossem com ela após poucos segundos de diálogo.
Ela sentia seu coração disparado, não havia volta para o que estava prestes a fazer, mas sua alma gritava por vingança. Tudo o que ela queria naquele momento era ver sangue sendo derramado, custe o que custasse.
Assim que estavam em uma rua deserta o suficiente, e antes que Fred Wilson pudesse se aproximar demais dela, Charlotte Griffin sacou sua arma.
—Ainda não se lembra, não é mesmo?— ela perguntou, se deliciando com o medo no rosto do homem conforme ela segurava o mosquete apontado bem para o centro de sua testa— Vou ajudar a reavivar sua memória, assim como prometi. Acho difícil que se lembre de mim, eu estava escondida. Mas deve se lembrar bem do meu marido, Thomas Stuart.
Uma pontada de reconhecimento trespassou o rosto do homem. E então ele riu.
—Aquele verme era seu marido?— ele perguntou, com um tom debochado— Bem, então eu te fiz um favor, querida, você deveria abaixar essa arma e me agradecer. Ele era um bêbado, um trapaceiro e um ladrão. Você está melhor sem ele.
Charlotte deu de ombros.
—Pode até ser. Mas ele era meu. E você não tinha o menor direito de tirá-lo de mim. E muito menos de invadir minha casa, matar minha mãe e me assustar tanto durante minha gravidez que acabei perdendo meu filho— ela disse, sentindo a raiva enorme que guardava dentro de si há tantos anos finalmente tomando vazão— E agora é o momento do acerto de contas. Me diga, Wilson, você quer morrer de pé ou de joelhos?
O homem riu novamente. Caminhou para mais perto de Charlotte, até que o cano da arma estivesse encostado em seu rosto, e então a olhou no fundo dos olhos, com uma expressão vagamente ameaçadora.
—Vou te dar uma chance, minha querida. Eu normalmente não faço isso, mas gostei de você. Vá embora agora, e não vai se machucar. Mas, se decidir prosseguir com essa insensatez, morrerá gritando— Fred replicou, muito calmamente.
Foi a vez de Charlotte rir, com um tom seco e afiado.
—Ou o que, Wilson? Vai usar magia em mim?— ela perguntou, e ele pareceu surpreso— Sim, eu sei muito bem que tipo de aberração você é. Tive que incomodar bastante a Ordem para descobrir tudo, mas acredite quando eu digo que não está em posição de me ameaçar.
Ele arqueou uma sobrancelha.
—É o que vamos ver, querida.
Antes que ela pudesse reagir, ele pulou para o trás, erguendo os braços no ar, o que fez uma pedra que trazia presa ao seu pescoço começar a brilhar intensamente. As sombras ao seu redor tomaram vida, e começaram a avançar na direção de Charlotte, raivosas.
Ainda assim, ela não não se moveu. Se limitou a sorrir com deboche, conforme as sombras se dissipavam quando se aproximavam demais dela, perdendo completamente a força e a magia.
—Talvez você não tenha reparado, já que é um feiticeiro mequetrefe e um bêbado imprestável, mas eu estou cheia de amuletos de obsidiana. Incluindo dentro da arma. Sua magia não tem qualquer efeito sobre mim, e, sem ela, você não é nada— dito isso, Charlotte atirou.
Fred não foi rápido o suficiente para parar a bala. Mesmo se tivesse sido, provavelmente não teria conseguido, o cristal misturado à pólvora dificultaria qualquer tipo de controle mágico.
O projétil atingiu sua perna direita, o que o fez urrar de dor, e sentir a magia subitamente se esvaindo. Ele caiu de joelhos, ainda gemendo, e Charlie se aproximou lentamente.
—Como você fez isso?— o homem perguntou, aterrorizado— A minha magia…
—Ela se foi, Wilson. E não vai mais voltar — Charlotte respondeu, carregando a arma com uma bala comum, dessa vez— Eu ainda tentei te dar uma escolha, mas agora terá de morrer de joelhos mesmo… E eu até perguntaria se tem alguma última palavra, mas não me importo o suficiente para ouvir. Então é isso, eu acho. Vejo você no inferno.
Um tiro ressoou pela madrugada.
Charlotte sorriu. Os finos respingos de sangue por seu rosto eram tão suaves quanto água benta, e pareciam trazer a mesma redenção e clareza divinas.
Ela passara tanto tempo atrás da Ordem, e para que? No final, tudo o que ela precisara para alcançar sua justiça era de um pouco de sorte e de uma arma carregada. Aquela foi a primeira morte, mas, se dependesse dela, certamente não seria a última.
Aquela madrugada sangrenta se findou sem mais nenhuma intercorrência, e a manhã seguinte se ergueu tão cinzenta quanto a anterior, como se nada de estranho tivesse se passado durante as horas mais escuras.
Antigone Lascelle acordou cedo, e logo tratou de se arrumar para ir ao Palácio.
Como muitos dos nobres, ela tinha sua própria casa em Londres, além de propriedades extensas no interior do país; mas, diferente de muitos dos nobres, ela realmente usava sua residência na capital quando estava por lá. Uma grande parcela dos cortesãos preferia usar os minúsculos e escassos quartos do Palácio, por mais que fossem desconfortáveis, tão somente para ficar mais próximos à família real e às intrigas palacianas. Antigone não fazia questão nenhuma de se envolver em tais assuntos, mas os assuntos pareciam querer envolvê-la de qualquer forma. E por isso ela se dirigia ao Palácio naquela manhã de quarta-feira.
Uma coisa que o leitor já deve ter notado sobre a Marquesa Lascelle é que ela seria uma dama completamente adorável, se não fosse a língua afiada. Bonita, confiante, com modos polidos à perfeição, era de se imaginar que as pessoas ao seu redor a considerassem em altíssima estima. Mas o problema que impedia que ela desejasse se integrar à sociedade era antigo e complexo, e bastante público, também, em certos aspectos, o que sempre fazia com que a olhassem com desconfiança (e que recíproca também fosse verdadeira).
Mas, naquele dia em específico, não havia muito o que Antigone pudesse fazer para se ausentar de seu compromisso: o convite havia partido de uma Duquesa, e parecia ser importante.
O trajeto de carruagem da residência Lascelle até o Palácio era curto, o que deu a Antigone tempo o suficiente para se preparar mentalmente.
Henrietta provavelmente estaria no evento também, mas esse não era um alívio muito grande para ela, até mesmo pelo contrário. Era estranho ter de fingir que não a conhecia muito bem em público, e, mesmo se pudessem conversar livremente, não eram realmente próximas.
Antigone não se ressentia do quanto as pessoas da Corte pareciam amar Henrietta sem motivo aparente, mas certamente se ressentia do quanto Lorde Ephraim também parecia tê-la amado tanto que lhe deixou o cargo de Líder da Ordem, quando Antigone era claramente mais estável e melhor preparada. E ter de vê-la em público, rodeada de outros nobres sorridentes e ansiosos para conseguir seu favor, era um lembrete constante para Antigone que, não importava o quanto ela se dedicasse, o mundo sempre favorecia sorrisos falsos acima de esforço verdadeiro.
Ela se sentiu como Moisés abrindo o Mar Vermelho quando chegou ao salão reservado ao evento. Todos se afastavam dela conforme ela passava, deixando um corredor vazio, pelo qual ela desfilou com graça até seu lugar reservado à mesa.
A pequena reunião se tratava de um assunto fútil, como ela havia imaginado: as senhoras nobres estavam pensando em organizar um baile para as debutantes, mesmo que não fosse a temporada social apropriada para tal evento. Por algum motivo, Antigone achou engraçado que tivessem a chamado, mesmo que fosse apenas por obrigação.
A manhã teria sido completamente entediante e imemorável, se Henrietta não tivesse chegado de repente e atrasada à reunião, e feito um sinal para Antigone para que se encontrassem do lado de fora após alguns minutos.
O sinal em si era bastante incipiente, algo que apenas um agente da Ordem reconheceria como qualquer outra coisa se não um gesto aleatório, mas Antigone era atenta, e logo entendeu o código. Henrietta levou dois dedos à têmpora, e bateu duas vezes discretamente. Parecia meramente pensativa para olhos desinformados, mas Antigone reconheceu o que aquilo queria dizer, e se levantou de seu lugar poucos minutos depois, indo para o corredor e aguardando que Henrietta a seguisse, o que aconteceu dentro de alguns segundos.
—O que aconteceu?— Antigone foi direto ao ponto, acompanhando Henrietta conforme as duas caminhavam até um corredor mais deserto.
—Outro incêndio, acabaram de me informar— ela respondeu. Tinha olheiras escuras, e uma expressão exausta, apesar do cabelo e vestido perfeitos— A vítima foi Fred Wilson, o filho de Ottis Wilson. Acharam seus restos carbonizados em um beco algumas horas atrás.
Antigone não deveria mais ficar supresa àquela altura, mas as notícias a chocaram de qualquer forma. Os crimes pareciam ter um padrão cada vez mais complexo e incompreensível, e os métodos agora também apresentavam aquela variação estranha.
—Quais agentes devo chamar?— ela perguntou, rapidamente se recompondo.
Henrietta pensou por um segundo.
—Já contatei Augustus, mas seria bom ter mais alguma ajuda— ela respondeu— Chame aquela garota que trabalha no Palácio, Polly. Não devem ralhar com ela se você inventar uma desculpa boa o suficiente. Vou tentar contatar o irmão dela, e talvez a Armeira também.
Antigone assentiu, e as duas se despediram com um curto aceno de cabeça.
Antigone se embrenhou Palácio adentro, procurando por Pollyanna Pembrook, mas sua mente já estava longe, focada no mistério. Ela estava deixando passar algo, o ponto central que unia todas aquelas mortes, de uma maneira ou de outra. E ela estava determinada a ser a pessoa que descobriria toda a verdade. Henrietta estava perdida, mas ela se recusava a se perder também. Podia não ter um sorriso tão brilhante, uma fala tão mansa, uma postura tão amável, mas era a que estava disposta a ir mais fundo naquela investigação, e a pagar o preço necessário para obter a verdade, não importando o quão alto ele fosse.
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