Notas iniciais
Hello! Estou de volta, dessa vez com a introdução dos dois últimos personagens de leitor. Espero que gostem, boa leitura ♥

A manhã de segunda-feira chegou cinzenta e impassível, sem trazer qualquer alívio ou redenção após todas as tragédias que se desenrolaram no domingo. A maioria dos personagens de nossa história se encontrava exausta, leitor, até mesmo aqueles que não passaram por grandes emoções no dia anterior. Talvez esse fosse apenas o efeito natural das segundas-feiras. Ou talvez houvesse algo estranho e sombrio os rondando, cada vez mais próximo.

Mihai Beswick estava perdido.

Não apenas literalmente, uma vez que não conhecia a cidade de Londres muito bem, mas também no sentido figurado. Enquanto encarava o prédio vazio, ele tentava não ser consumido pela enorme decepção que acabara de encontrar em seu caminho, e refletia sobre o que faria agora que havia perdido todas as esperanças.

—Você está bem, garoto?- uma voz que vinha da esquerda de Mihai perguntou. O jovem se virou, ainda um pouco confuso, para encarar seu interlocutor, um homem de meia idade e aparência simpática.

O indivíduo era um pouco baixo, alguns dedos menor que Mihai, e tinha cabelos loiro-escuros. Seus olhos eram grandes, e de um castanho-claro gentil, ressaltados pelas rugas em seu rosto que indicavam que ele sorria com bastante frequência. Ele parecia ligeiramente preocupado, encarando o jovem com o cenho franzido, ainda que sua expressão em geral fosse receptiva.

—Estou, senhor- Mihai respondeu, tentando forçar um sorriso em sua feição entristecida- Mas acho que estou perdido. É aqui que mora o Barão Blackburn?

O homem se aproximou um pouco mais de Mihai. Ele acabara de sair de dentro de uma loja a algumas portas de distância, e usava um avental e óculos redondos.

—Bem, não acho que esteja perdido, meu jovem, apenas atrasado- o homem respondeu, parando de frente ao portão de entrada do suntuoso do casarão- O Barão Blackburn costumava morar aqui sim, morou por anos. Mas ele se mudou no mês passado.

Mihai sentiu como se seu coração se partisse um pouco mais, o que ele achava que era impossível, uma vez que ele já estava em frangalhos. Mas, se havia algo que aquela sombria temporada em Londres ensinaria ao rapaz, é que nada é tão ruim que não possa piorar, leitor.

Mihai tinha dezenove anos, um jovem em plena flor da idade, mas, apesar de tão novo, já havia passado por maus bocados em sua vida. Desde seu nascimento, ele era julgado e menosprezado, sem ter sequer um pingo de culpa quanto aos fatores que o levariam a ser tão cruelmente excluído, então, por pior que a presente situação parecesse, ele conseguiu se recompor com uma rapidez notável, como sempre fazia.

—É uma pena- o garoto comentou- Eu precisava urgentemente falar com ele.

O homem encarou Mihai. Havia uma pontada de confusão, mas ao menos não havia nenhuma desconfiança. Mihai tinha consciência de que ele não parecia alguém que tinha negócios a tratar com um Barão, mas esperou que o outro não questionasse demais.

—Ah, era sobre a vaga de emprego? Ouvi dizer que estavam contratando novos criados, mas, agora que ele sumiu, duvido que elas continuem abertas- o homem disse, e Mihai acabou assentindo. Qualquer outro pretexto pareceria um pouco estranho, e ele queria manter em privado seus assuntos com o Barão.

“Quando vierem a Londres, peça para que ele me procure nesse endereço”- dizia o bilhete assinado na última página do livro que a mãe de Mihai havia lhe entregado na noite anterior, mas o Barão não estava naquele endereço. Onde é que ele estaria?

—Sim, é sobre a vaga de emprego- Mihai concordou, torcendo para soar convincente o suficiente- Bem, eu suponho que eu deva ir procurar em algum outro lugar, então. Obrigado pela ajuda, e um bom dia para o senhor.

Mihai estava prestes a voltar pelo caminho de onde tinha vindo, quando o homem o chamou novamente, no momento em que ele ia atravessar a rua.

—Garoto!- ele disse, e Mihai novamente virou-se para encará-lo- Você sabe ler e escrever?

Mihai achou a pergunta estranha, mas acabou concordando, curioso:

—Sim, senhor. Sei sim.

—Bem, talvez eu tenha uma vaga de emprego a lhe oferecer, então- o homem disse, com um sorriso simpático- O que acha de cuidar do balcão da minha loja? Meu filho costuma fazer isso, mas ele está passando por um período difícil, então talvez precise de ajuda nos próximos meses.

Mihai refletiu por um segundo. Por mais que não estivesse realmente procurando por emprego naquele momento, seria bom ter alguma ocupação pelos meses que ele e sua comunidade passariam em Londres. Sabia que os outros homens haviam ido procurar empregos em fábricas e construções, e que ele seria tratado ainda pior caso não conseguisse nenhum trabalho dentro de um certo prazo. Além do mais, o fato da loja ficar tão próxima da antiga residência do Barão Blackburn era uma excelente brecha para investigar e descobrir mais sobre ele e seu paradeiro antes de tomar qualquer outra atitude.

—É uma oferta excelente, muito obrigado, senhor!- Mihai disse, abrindo um sorriso tímido- Eu ficaria muito feliz com a vaga, caso o senhor realmente decida me contratar.

O homem sorriu de volta.

—Ótimo! Vamos entrar, então, e eu te mostro a loja e te passo suas atribuições. Se tudo correr bem por hoje, pode se considerar oficialmente empregado!

Mihai seguiu o homem para dentro da loja. Era uma relojoaria, o jovem reparou. Pequena, mas muito bem organizada, com um balcão de madeira e vidro, e uma porta que dava para os fundos, onde Mihai supôs que os consertos fossem realizados. As atribuições que o homem lhe passou eram simples, basicamente atender as pessoas que chegassem ao balcão, escrever recibos, e entregar algumas peças nas casas de pessoas que morassem próximas à relojoaria. Mihai se perguntou o porquê do filho do dono precisar de ajuda com essas tarefas tão corriqueiras, mas não questionou em voz alta. Deveria ter acontecido algo bem ruim, e ele não queria ser invasivo.

—Bem, acho que é isso, garoto- o homem disse, após terminar seu pequeno tour- Qual é mesmo o seu nome? Não posso te chamar de garoto para sempre, se vamos mesmo trabalhar juntos.

Mihai riu.

—Meu nome é Mihai, senhor. Mihai Beswick.

—É um prazer te conhecer, Mihai Beswick. Eu sou Peter. Peter Pembrook.

E é assim, leitor, que a história de mais um de nossos personagens se cruza com a dos outros. Porque, com aquela oferta de emprego, Mihai ficaria ainda mais próximo dos perigos e mistérios que rondavam os irmãos Pembrook e todos os outros agentes da Ordem. E, por ironia do destino, aquela também seria sua maior chance de chegar perto da verdade que seu coração tanto almejava.

Mas ele ainda não sabia disso. Para ele, aquele era apenas mais um emprego temporário em uma cidade temporária. E ele só perceberia que estava começando a se envolver em algo muito maior quando já fosse tarde demais.

Já era início da tarde quando Charlotte Antoine Griffin viu Antigone Lascelle entrando na delegacia na qual trabalhava. Ela riu, debochada, ao perceber que, dessa vez, a agente havia vindo sozinha. Na última ocasião, um moreno bonitinho e simpático a acompanhava (August? Augustine? Algo assim), mas aparentemente ele não tinha colhões o suficiente para aguentar o temperamento de Charlie. Antigone, por outro lado, era casca grossa. Charlotte estava determinada a fazê-la quebrar também.

—O que você quer dessa vez?- Charlie perguntou, ao ver a outra se aproximando- Não vê que estou ocupada?

Charlotte estava pendurando algumas fardas que acabara de passar, e não interrompeu sua tarefa para receber Antigone.

—Eu certamente estou vendo que está em horário de trabalho, Senhorita Griffin. Mas algo me leva a crer que o seu emprego também inclui ofícios mais… condizentes com seu temperamento adorável.

Charlotte arqueou uma sobrancelha.

—Não me venha com cinismo, dona. Você também é uma cuzona, só é mais chique quanto a isso- ela respondeu, e Antigone se limitou a sorrir com uma pontada de desprezo- Venha logo, antes que alguém te veja. Os policiais vão ficar putos se souberem que está pegando as armas deles.

Charlotte guiou Antigone para os fundos da delegacia, que por sorte também se encontravam vazios. Os policiais estavam todos em ronda naquele horário, e Charlie suspeitava que era precisamente por isso que Antigone escolhera aparecer naquele momento. Logo chegaram à saleta reservada ao ofício paralelo, contudo mais valoroso, de Charlotte: a fabricação de armas. Peças e canos metálicos se espalhavam sobre mesas e dentro de armários, e Charlie fechou a porta atrás de si assim que ela e Antigone entraram.

—Olhe, não pense que vai me levar no papo tão fácil assim- Charlotte disse, ao ver Antigone analisando as armas mais próximas- Não vou dar merda nenhuma para vocês de graça. Preciso saber se vão finalmente me deixar entrar nessa porcaria de Ordem ou não. Se não, nada feito.

Charlie havia tido algum tempo para pensar sobre o assunto desde que a oferta de suprir a Ordem com armas aparecera pela primeira vez, no início da semana anterior, quando Antigone e o outro agente haviam aparecido para falar com ela. Charlie gostava de ponderar antes de tomar decisões, e era esperta, apesar de pouco polida, como o leitor claramente já deve ter notado, e por isso estava tão certa do que queria.

—Foi difícil convencer a Líder, mas ela acabou concordando quando eu lhe contei do que você era capaz- Antigone disse, pegando uma das pistolas sobre a mesa e a analisando- Você pode nos acompanhar nessa missão, se for isso o que deseja. Mas vai ficar em probatória até provar que entrega o que promete. Se tudo der certo, poderá se juntar à Ordem.

Charlotte reprimiu um sorriso. Fora mais fácil do que ela pensava. É claro que ela conseguia ser muito convincente quando queria, mas esperava um pouco mais de resistência. Afinal, ela passara os últimos anos tentando entrar e sendo rejeitada, então eles deveriam estar mesmo muito desesperados para aceitarem suas condições daquela vez.

Como o leitor já sabe, eles realmente estavam desesperados. Sobretudo depois do ataque brutal do dia anterior, a Ordem não poderia se dar ao luxo de dispensar recursos por picuinhas ou orgulho. Então, após anos de insistência por parte da instável Charlotte, eles finalmente se viram obrigados a ceder e deixá-la participar.

—É claro que entrego o que prometo- Charlie respondeu, ríspida- Mas agora desembuche. O que exatamente vocês precisam tanto matar para ficarem nesse desespero todo?

Antigone pareceu hesitar por um segundo.

—Bem, eu suponho que mais cedo ou mais tarde você vá ficar sabendo- ela falou, por fim- Talvez você tenha reparado nos incêndios estranhos que estão acontecendo ultimamente. Já suspeitávamos que estariam sendo causados por um usuário de magia, mas ontem finalmente tivemos a confirmação. E é isso o que precisamos deter: o usuário de magia mais forte desse século.

Charlotte fez uma expressão pouco impressionada.

—Bem, dona, se tem uma coisa que eu aprendi em todos esses anos foi que nada é poderoso quando está cravejado de balas- a mulher respondeu, com um sorriso convencido- Esse desgraçado usa magia de Sombras ou Luz? O armamento mais efetivo pode variar conforme as habilidades que ele demonstra.

Charlie já havia aprendido na prática que magia de Sombras era mais lenta, mas com um dano ofensivo extremamente elevado, e por isso precisava de armas de grande calibre e poder de fogo; e que a de Luz era mais rápida, porém menos forte, então precisava de armas que disparassem depressa e repetidamente. Para a sorte de Antigone, ela tinha uma variedade de armamentos de ambos os tipos.

Antigone arqueou uma sobrancelha, abrindo mais um sorrisinho debochado.

—Eu pensei que eu já tivesse deixado claro que esse é possivelmente o usuário mais poderoso das últimas décadas- ela respondeu- Ele é capaz de usar ambas com habilidade notável e igualmente alta. Se tem alguma inclinação, não demonstrou até hoje. Já que parece tão entendida do assunto, suponho que tenha a solução para esse impasse, Senhorita Griffin.

Charlotte revirou os olhos.

—Até onde eu sei, a agente é você, então a responsabilidade de ter as soluções é sua- ela replicou- Mas, de qualquer jeito, eu posso ter sim algumas coisas úteis. Eu sei, sou incrível. Pode me agradecer depois.

Antigone se limitou a observá-la com leve descrença enquanto a mulher sacava de um repertório diverso e vasto de armas, dispondo-as todas sobre uma mesa de frente à agente.

—Essa belezinha é uma espingarda de caça. Capaz de explodir a cabeça de um elefante com um único tiro. Agora quero que imagine o estrago que faria no corpo de um humano- Charlotte disse, pegando uma arma comprida e pesada de cima da mesa- O problema dela é que precisa ser recarregada a cada tiro disparado. Felizmente para vocês, eu e meu brilhantismo consertamos esse defeito, e ela foi adaptada para disparar sete tiros consecutivos antes de precisar ser recarregada.

Charlotte entregou a arma para Antigone, que a empunhou, testando o peso e a mira.

—Um pouco extravagante para o meu gosto- a agente decretou, por fim- Mas definitivamente parece efetiva. Pode incluí-la na lista.

Charlie assentiu, sorrindo, convencida, e pegando a arma de volta.

—Agora temos essa belíssima carabina, que foi adaptada para disparar cinco tiros por segundo- Charlotte pegou outra arma, ligeiramente menor que a primeira, mas ainda assim longa- Nenhum usuário de Luz seria capaz de parar tantas balas. Garanto que ao menos uma atingirá o alvo.

Antigone mais uma vez pegou a arma. Essa se encaixou com mais facilidade nas mãos da agente, que deu um pequeno sorrisinho antes de colocá-la de volta na mesa.

—É um mecanismo bem útil- Antigone concedeu- Acha que conseguiria fazer o mesmo em uma pistola menor?

Charlotte revirou os olhos.

—E você ainda pergunta? Acha que está falando com quem, alguma catadora de sucata mequetrefe?- a armeira respondeu, mostrando uma grande variedade de pistolas dispostas sobre a mesa- Todas elas foram adaptadas. Algumas delas têm carga extra de balas, algumas têm o sistema de disparos rápidos. E algumas tem ambos. Escolha seu veneno. Ou talvez você devesse chamar a Líder para escolher por você, já que não parece poder fazer nada sem o aval dela…

Antigone não esboçou reação perante à tentativa de tirá-la do sério que a outra havia executado, permanecendo com o mesmo olhar frio e distante de sempre. Charlotte estava longe de desistir de ver a agente fora de si, mas estava começando a suspeitar que Antigone era mesmo tão fria quanto aparentava.

—Bem, espero que você produza as armas com o mesmo afinco com que tira vantagem, armeira- a agente respondeu, em um tom de voz neutro- E eu sei que alguém de sua procedência dificilmente terá algum conhecimento mais avançado sobre o assunto, mas saiba que essas armas comuns podem sequer fazer cócegas em um feiticeiro realmente poderoso, por mais fortes que sejam. Não estamos atirando em marginais quaisquer, então espero que você faça jus à sua fama e tenha algo que realmente contenha a magia.

Charlotte arqueou uma sobrancelha.

—Eu sei que a madame se acha mais importante que os outros, mas alguém de “minha procedência” já teve bastante contato com usuários de magia. Talvez até mais do que você- Charlie replicou, pegando uma das pistolas e retirando do tambor uma única bala- Se não ficasse me questionando o tempo todo, talvez eu já tivesse mostrado a melhor parte de todas essas armas: nenhuma delas tem balas comuns.

Charlotte pegou a bala e, com o auxílio de uma chave de fenda, abriu o contêiner de metal, espalhando o conteúdo do projétil sobre a mesa. Além da pólvora fina e cinzenta, pequenos pedaços de pedra negra e brilhante podiam ser vistos, o que fez Antigone se inclinar levemente para ver de mais perto a criação da armeira.

—Isso é…?

—Sim, agente. Isso é obsidiana- Charlie respondeu, claramente satisfeita consigo mesma- Basta que um único tiro atinja o alvo, e a bala se abre como uma flor dentro de seu corpo. Não importa o tanto que o sujeito tente, sempre haverá estilhaços de obsidiana dentro de sua carne, e eles são praticamente impossíveis de remover. Então, adeus, magia.

Antigone parecia, pela primeira vez na conversa, realmente atenta.

—Quantas dessas balas você consegue produzir?- ela perguntou, ainda encarando os pequenos pedaços do mineral escuro espalhados em meio à pólvora.

—Caso me forneçam material o suficiente, o bastante para carregar todas as armas que encomendarem- Charlie respondeu, e Antigone assentiu.

—Tem uma caneta? Vou anotar o pedido.

Após alguma discussão quanto ao preço, Antigone e Charlotte finalmente chegaram em um acordo. Era um lote grande, e portanto a armeira seria muito bem paga, o que a deixava em um humor ligeiramente melhor. Imaginou o quanto daquele whisky caro ela poderia comprar no pub.

—Vou precisar de um endereço de entrega- Charlotte disse, por fim, quando Antigone já se preparava para ir embora.

—Eu posso vir aqui buscar- a agente replicou, um pouco desconfiada.

Charlotte revirou os olhos.

—Eu não vou explodir a sede da Ordem, se essa é sua preocupação- ela ironizou- Além disso, vou acabar precisando ir lá um hora ou outra, se realmente vou participar da missão.

Antigone respirou fundo, um pouco contrariada, mas acabou estendendo um cartão com um endereço para Charlotte.

—Não preciso nem falar que, se essa informação vazar, haverão consequências graves para você, não é mesmo?

—Eu não sou estúpida o suficiente para desafiar vocês, acredite- Charlie resmungou, e então, ao ver o endereço, soltou uma risada- Uma biblioteca, sério? Vou supor que haja alguma passagem secreta ou algo assim, mas é uma escolha pretensiosa.

Antigone a encarou com descrença.

—Não é pretensão, Senhorita Griffin, embora seja bem ilustrativo de seu caráter que você pense assim- ela replicou- E não se preocupe com a passagem. Nós saberemos quando você chegar.

Charlotte deu de ombros.

—Ótimo. Agora saia daqui antes que os policiais voltem. Ainda estou no meu expediente.

Charlotte passaria o resto da tarde dobrando e passando fardas e limpando a delegacia, mas sua mente estava longe. Ela finalmente havia conseguido o que queria, finalmente teria uma chance de se juntar à Ordem. Era o único objetivo que ela realmente ainda tinha, a única coisa que poderia lhe dar o mínimo de senso de propósito. Depois de tudo pelo que ela havia passado, sentia que aquele era o único caminho possível.

Ela acabou indo para a sala paralela trabalhar em suas armas mais cedo do que deveria. Sabia que os policiais não implicariam, afinal, seu trabalho como criada era apenas para disfarçar seu verdadeiro ofício como armeira. Enquanto ela montava dezenas de balas capazes de obliterar a magia, em meio a pequenos goles de whisky, ela pensava em tudo o que ela havia perdido, em como sua frágil felicidade havia escapado como névoa por entre os seus dedos. Mas agora ela tinha a certeza de que aquilo não se repetiria. Porque, quando ela fosse encarar o sobrenatural novamente, não seria no meio da noite, assustada e perdida, com medo demais para impedir que o pior acontecesse; mas sim armada até os dentes, com todo o ódio que tinha queimando em seus olhos, e com a certeza de que não tinha mais nada a perder.

Mas Charlotte ainda não havia conhecido o Incendiário, caros leitores. Se nossa querida armeira tivesse testemunhado o horror que aquele terrível vilão era capaz de causar, toda sua tênue ousadia se desfaria em cinzas tão facilmente quanto todas as vítimas dos Incêndios também se desfizeram. Pois nenhuma alma, por mais dura e amarga, permanece incólume sob a mirada sanguinária da própria morte encarnada. E talvez Charlotte fosse descobrir isso mais cedo do que gostaria.

Como Antigone Lascelle disse para Charlotte Griffin mais cedo nesse capítulo, Henrietta Raycraft havia realmente aprovado a entrada da armeira na Ordem, caso suas criações demonstrassem sucesso durante a missão. Contudo, se alguém perguntasse à Líder sobre tudo o que ela havia feito naquele dia, essa decerto seria uma das últimas coisas das quais ela se lembraria.

Henrietta havia tido um dia cheio, terrivelmente cheio, e seu dia sequer chegava a ser realmente um dia, mas sim uma madrugada longa e estendida. Estava de pé desde que Antigone havia lhe acordado de sua soneca, no final da tarde anterior, e não tinha perspectiva alguma quanto à próxima vez em que realmente conseguiria dormir. Sua cabeça doía terrivelmente, mas ela sabia que, se tomasse seus remédios, talvez acabasse adormecendo, e ainda havia muito a ser feito.

Ela tentava se concentrar no arquivo que tinha em mãos enquanto uma criada arrumava seu cabelo, o que piorava um pouco mais sua dor de cabeça. Henrietta desviou o olhar do papel para seu próprio braço: as veias azuladas estavam em péssimo estado, e ela decidiu que não tentaria introduzir uma seringa ali a não ser que fosse absolutamente necessário. Por isso, respirou fundo e tentou se esquecer da dor, conforme seus olhos verdes voltavam a analisar as palavras da página que tinha em mãos.

Ela havia finalmente conseguido acionar seu contato da Scotland Yard para permitir que os agentes da Ordem tivessem acesso aos dois corpos encontrados na tarde anterior; assim como havia visitado a cena do crime, ajudado Augustus com as evidências do caso Ottis Wilson, e conduzido o processo de ingresso de Polly e Digory Pembrook na Ordem.

Esta última parte, sobretudo, havia sido difícil: a conversa fora tensa e triste. O garoto havia chorado ao descobrir que seu amigo estava morto, e a moça, assim que saiu de seu estado catatônico, começou a se comportar com uma estranha desconfiança vagamente hostil. Ela já estava acostumada a ter de lidar com pessoas em situações emocionalmente difíceis, mas sem dúvidas aquele diálogo fora um dos grandes responsáveis por deixá-la com um humor levemente melancólico pelo reto do dia.

Naquele momento, Henrietta tinha em mãos um dos diários que Lorde Ephraim, o antigo Líder, havia deixado para ela. Era estranho ler as palavras de seu velho mentor sabendo que ele não estava mais lá, e a perda ainda era recente, de modo que ela quase não conseguia continuar a ler sem desabar completamente. A única coisa que a fazia continuar era o desejo de descobrir como impedir o Incendiário, pois Ephraim deixava registradas todas as suas experiências com magia, e muito provavelmente haveria algo de útil naquele diário. Henrietta sabia que, em sua juventude, Ephraim havia lidado com um usuário de magia tão poderoso quanto o que eles estavam enfrentando naquele momento, e, portanto, não poderia se dar ao luxo de não ler os diários por sua fraqueza emocional, uma vez que precisava desesperadamente do conhecimento que eles tinham a ofertar.

Entretanto, apesar de todos os seus esforços para se manter forte, Henrietta percebeu que seus olhos começavam a se encher de água, e que suas mãos começavam a tremer. O diário caiu no chão, e ela soluçou baixinho, sentindo que sua cabeça estava prestes a explodir. Por sorte, a criada já havia terminado seu cabelo e ido embora, ela não poderia se dar ao luxo de chorar na frente de outra pessoa, não poderia se dar ao luxo de desabar assim.

Henrietta se levantou, secando suas lágrimas, e então caminhou até a penteadeira, abrindo a fatídica gaveta, a mesma a qual ela sempre acabava recorrendo. A seringa furou a última veia inteira do seu braço conforme a morfina inundava seu sangue, e a dor imediatamente parou, assim como o choro e os soluços. Sabia que tinha algumas horas antes da sonolência chegar e a derrubar completamente, mas, por hora, ela se sentia invencível, até mesmo levemente eufórica. Saiu de seu quarto de cabeça erguida, e entrou na carruagem que a levaria até o Royal Opera House.

Henrietta em geral não gostava de todos os eventos ao quais se via obrigada a comparecer devido ao seu título nobiliárquico, mas era inevitável que levasse uma vida dupla tendo que equilibrar suas atribuições como Duquesa e como Líder da Ordem. Entretanto, ir à ópera sem dúvidas era uma das atribuições menos sofridas, embora ela talvez tivesse que se retirar mais cedo naquela noite devido aos efeitos da morfina.

O espetáculo da noite era “Don Giovanni”, e, após cumprimentar e forçar simpatia para com inúmeros nobres, Henrietta conseguiu aproveitar minimamente a peça. Os cantores eram bons, e, embora ela já conhecesse a história, ela conseguiu ficar entretida o suficiente. Isso até ela ver uma figura que lhe chamou a atenção.

Edward Waldford era um conhecido praticante de magia, um no qual a Ordem já se mantinha de olho há décadas. Ele em geral não causava problemas, tocando seus negócios nas sombras e com discrição, até mesmo evitando ser visto com outros usuários de magia. Mas ali estava ele, na Ópera, em um camarote bem de frente ao da Líder da Ordem. Aquilo não poderia ser uma coincidência.

Quando seus olhos se encontraram com os dela, ele sorriu. Henrietta não sabia bem se era a incerteza, a tensão, ou até mesmo a morfina, mas, por algum motivo, ela sorriu de volta.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Acho que vou fechar as vagas para personagens em breve, caso não apareça mais nenhuma ficha. O enredo já está praticamente pronto, então, se alguém quiser enviar mais alguma ficha, esse é o momento. Vale destacar que, caso qualquer coisa (qualquer coisinha mesmo) esteja errada sobre a retratação dos seus persongens, sinta-se à vontade para me corrigir por comentário ou MP. Até o próximo, vejo vocês nos comentários. XOXO —Venus ♥