Arsonist's Lullaby- Interativa
3 II- Dark Designs
Notas iniciais
Mesmo com todas essas tragédias se desenrolando nas redondezas do Hyde Park, aquela tarde de domingo não foi trágica para todos os personagens de nossa história, leitor.
Adelaide Waldford estava tendo um dia absolutamente agradável. Domingo era quando ela tinha menos alunos para ensinar, e, portanto, mais tempo para dedicar a si mesma, e ela estava aproveitando seu pequeno descanso ao máximo.
Jesper Lockhart estava na cozinha, preparando um chá, quando Adel saiu de perto do piano para passar um tempo com seu velho tutor.
—O garoto dos Harrington já teve sua lição hoje?- o homem questionou, conforme observava Adelaide puxar um pequeno banco de madeira e se assentar à mesa da cozinha.
—Foi no início da tarde, agora tenho o restante do dia livre- ela respondeu, alongando as costas- De que é o chá?
Jesper sorriu com a pergunta.
—Seu preferido, milady- ele respondeu, e Adelaide também sorriu.
—Lady Grey?- ela perguntou, e ele assentiu- Não estou vendo os limões.
Jesper fez uma careta.
—Eu me esqueci- ele admitiu- Colhi as laranjas, mas esqueci dos limões. Estou mesmo ficando velho, todo esquecido.
Adelaide riu.
—Não se preocupe, eu colho os limões, tio- ela se ofereceu, já levantando de sua cadeira e abrindo a porta dos fundos, que dava para o jardim- De quantos precisa?
—Uns três devem bastar- ele respondeu, e ela assentiu antes de sair para o quintal da casa.
Era o final do inverno, então estava frio, embora não tanto quanto no auge da estação. Adelaide se arrependeu de não ter pegado um casaco, de qualquer forma, e decidiu que não demoraria muito no jardim, apesar de apreciar aquela parte da casa.
Ela e os irmãos moravam naquela casa há quase vinte anos, mas o jardim era algo mais recente, com menos de uma década. Havia sido obra de Edward, e lembrava imensamente o da casa de infância dos irmãos, motivo pelo qual Adel gostava tanto de lá. Havia muitas árvores e arbustos, mas sobretudo flores, que sempre a faziam pensar em sua mãe. Adelaide já passara tempo demais de sua vida fugindo das memórias, mas, após tantos anos de sofrimento, ela havia aprendido a abraçá-las. Por isso ela tocava piano e passava tanto tempo nos jardins, era assim que ela se sentia conectada à sua mãe.
Adelaide Waldford era bastante parecida com seus irmãos, Augustus e Edward. Todos tinham estatura mediana, pele morena, cabelos escuros e traços marcantes; a maior diferença é que Ed havia herdado os olhos claros do pai, e Gus e Adel, os olhos castanhos e calorosos da mãe. No momento, Adel se vestia com relativa simplicidade, embora em geral gostasse de se manter apresentável. Seus cabelos haviam sido cacheados perto das pontas e ao redor do rosto, e estavam soltos pelas costas; e ela vestia um vestido escuro de mangas compridas e tecido grosso.
Não se demorou muito no jardim, foi direto até o limoeiro e pegou as frutas necessárias. O cheiro do chá preto com laranja já começava a emanar de dentro da casa, o que a fez sorrir levemente. Ficaria perfeito com os limões que colhera, frescos e levemente cítricos. Ed quase não aparecia em casa naqueles dias, mas fora ele quem escolhera a muda daquela árvore, e Adel apreciava que ele tivesse tanto cuidado com tudo o que cultivava. Tudo naquele jardim parecia tão perfeito e familiar devido ao esforço dele.
Ela voltou para dentro da casa carregando os limões, e logo tratou de ajudar Jesper a colocá-los no bule fumegante.
—Acha que Gus e Anne chegam à tempo de tomar o chá conosco?- Adel perguntou, a faca pairando delicadamente sobre as frutas, removendo a casca.
—Anne talvez vá passar a noite na casa de Margaret, ajudando com o resfriado de Eliza, e Augustus comentou que iria demorar um pouco — Jesper respondeu- Mas tudo bem, podemos fazer mais chá quando chegarem.
Adelaide assentiu, ligeiramente distraída.
—Não entendo porque Gus faz tanta coisa para essa Ordem- ela resmungou, pensando no irmão- Hoje é domingo, ele deveria poder descansar.
Gus se juntar à Ordem foi algo inesperado para Adel na época, e uma ação que tinha diversas consequência para a família até os dias presentes. Desde que Augustus se tornara um agente, Edward aparecia com cada vez menos frequência na casa, e Jesper também precisara ajustar diversos detalhes de seu estilo de vida para uma maior discrição. Adelaide não usava magia, e muito menos pretendia usar, mas desgostava imensamente da Ordem, e ver seu irmão gêmeo trabalhando para eles era especialmente desagradável para ela, por mais que ele tivesse seus motivos.
Adelaide e Jesper já estavam acabando de tomar o chá, e a noite começava a se adensar sobre a cidade, quando ela ouviu a porta de entrada da casa se abrindo.
—Gus?- ela chamou, largando sua xícara sobre a mesa e caminhando até a sala- Você chegou cedo, achei que fosse demorar a chegar.
O que Adelaide viu ao chegar à sala não foi seu irmão Augustus, e sim uma grande surpresa.
—E eu achava que eu já tinha demorado mais do que o suficiente para voltar para casa- Edward Waldford disse, fechando a porta atrás de si e abrindo um sorriso para a irmã- Mas, se quiser, posso ir embora e voltar mais tarde. Como preferir.
—Ed!- Adelaide exclamou, supresa e com um sorriso enorme no rosto, e então se jogou em seus braços. Ele a girou no ar como se ela fosse uma criancinha, a abraçando com firmeza contra seu corpo- O que está fazendo aqui? Pensei que não fosse chegar de viagem tão cedo!
O homem riu.
—Não está feliz em me ver, Adel?- ele provocou, e Adelaide lhe deu um leve soquinho no peito, se desvencilhando do abraço.
—Claro que estou, bobo, não te vejo desde o Natal- ela respondeu, ainda imensamente animada com a agradável supresa- Mas você disse que só voltaria na Páscoa, aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?
Ed tirou seu sobretudo escuro, o pendurando no armário da entrada, e então abriu outro sorriso.
—Claro que está tudo bem, eu só fiquei com saudades- ele respondeu, afagando os cabelos de Adel. O ato fez seus fios escuros se bagunçarem, o que tipicamente a irritaria um pouco, e ele sabia muito bem disso, mas ela ainda estava feliz demais por ver o irmão para retribuir a provocação à altura.
É importante notar, leitor, que, apesar de Edward Waldford não estar mentindo ao dizer que sentira saudades dos seus irmãos, o motivo de seu retorno não era tão simples. E haviam ainda outras omissões em sua explicação. Adelaide não ficaria sabendo que seu irmão não retornara a Londres naquele mesmo dia, ou sequer naquela mesma semana, e sim alguns meses antes. E não saberia que a viagem, já envolta em mistérios por si só, ia muito além de estudos ou trabalho, que eram os pretextos habituais. Mas Adel, apesar de ser uma moça em geral inteligente e afiada, não tinha motivo algum para desconfiar de seu irmão, ao menos não ainda. Ela só estava feliz em vê-lo de volta ao lar, e animada em ter a família reunida, ainda que por pouco tempo.
—Bem, eu também senti saudades- ela replicou, com um sorriso- Agora vamos, Jesper está lavando a louça, e deve estar se perguntando o que diabos é essa barulheira toda.
—Eu sinto o cheiro de chá- Edward comentou, seguindo sua irmã até a cozinha- Será que sobrou um pouco para mim?
Adelaide riu.
—Você deveria saber que nunca falta chá nessa casa, Ed.
Mais ao centro da cidade, Leonard Midgar Cohen também estava aproveitando imensamente sua tarde de domingo, embora de uma maneira radicalmente diferente e mais agitada do que Adelaide Waldford.
—Sabe, Cohen, eu não achava que gostaria tanto de um plebeu- o Lorde à sua frente, já ligeiramente inebriado, comentou- Muito menos de um irlandês. Mas eu gosto de você, garoto. Você tem futuro.
Leonard abriu um sorriso brilhante e simpático. Forrest Douglas, o Lorde em questão, era um dos integrantes do Parlamento, do qual Leonard também fazia parte, ainda que na Câmara dos Comuns, e não dos Lordes, como o outro. Um plebeu, como o Lorde fizera questão de ressaltar. Um plebeu e um irlandês. Deveria estar se sentindo deslocado naquela festa de nobres ingleses, mas todos pareciam valorizar e almejar a sua companhia.
Forrest era um homem corpulento, com um rosto corado pela bebida, e cabelos loiros que raleavam progressivamente, apesar de ele ainda estar na casa dos quarenta. Já Leonard era um indivíduo bastante bem-apessoado, e que se portava com a elegância de alguém que sabia muito bem disso. Tinha estatura mediana, cabelos escuros e olhos castanho-claros, mas o que costumava chamar a atenção de todos eram seus modos distintos e seu sorriso muito branco e brilhante. No momento, sustentava justamente esse sorriso, enquanto mantinha o diálogo fluindo com o homem ébrio à sua frente.
—É certamente um prazer possuir o favor de um senhor tão distinto, Lorde Forrest- Leonard respondeu, com simpatia, apesar de não ter convicção verdadeira em nenhuma destas palavras- Admito que estava apreensivo quanto à recepção que eu teria em minha carreira política aqui em Londres. Minha família não tem grande tradição na área, e eu temia que isso pesasse contra mim.
Leonard não estava sendo totalmente sincero ao dizer isto. A bem da verdade, leitor, ele estava contando uma mentira deslavada. Deslavada, mas não mal calculada. Você logo descobrirá, meu caro, que esse é um dos métodos favoritos do Senhor Cohen para obter informações, e que ele costuma alcançar resultados bastante eficazes.
—Não seja por isso, garoto. Eu ficaria feliz em ser seu benfeitor- Forrest riu, dando um tapinha no ombro de Leonard, que sorriu ao constatar que o Lorde havia mordido a isca- Eu estava mesmo precisando de mais contatos na Câmara dos Comuns.
“Então é verdade o que dizem”- Leonard pensou, satisfeito em ver sua pequena mentira gerando grandes resultados- “Lorde Forrest e seus aliados estão desmoralizados desde que o projeto de lei foi derrubado pelos outros Lordes, e estão precisando recorrer à Câmara dos Comuns. Interessante”
Leonard estava analisando e buscando alianças em Londres. Por ter chegado há apenas alguns meses, ele ainda estava se adaptando, mas já tinha um panorama quase completo da atual situação política da cidade. E a situação era ruim para alguns, mas por isso mesmo excelente para ele. As recentes discórdias geravam uma maior flexibilidade das dinâmicas pré-estabelecidas, e era esse pequeno caos que permitiria que ele se tornasse uma peça fundamental e cobiçada naquele estranho jogo de xadrez que era o Parlamento.
—Tenho certeza que iremos trabalhar maravilhosamente bem juntos, Lorde Forrest- Leonard respondeu, por fim, abrindo mais um sorriso- Ou pelo menos enquanto você me for útil.
Lorde Forrest não ouviu essa última parte, pois logo um outro homem se aproximou para participar do diálogo, e até porque Leonard havia dito a frase não mais alto que um murmúrio, intencionalmente inaudível.
—Lorde Basil!- Forrest cumprimentou o recém-chegado, um homem que tinha aproximadamente a sua idade, mas que era magro como uma vareta e que tinha cabelos escuros.
—Meu caro Lorde Forrest!- Basil apertou a mão do outro, e então se virou para Leonard- Creio que ainda não fomos apresentados. Sou Basil Beauclerk, é um prazer te conhecer, senhor…
—Leonard Cohen- o homem abriu um sorriso, conforme apertava a mão do nobre- É um prazer.
Basil e Forrest eram aliados no Parlamento, dois nobres que pensavam bem parecido e tinham interesses em comum. Ambos haviam recentemente investido quantias consideráveis de suas fortunas na indústria automobilística, em franca ascensão devido ao surgimento de cada vez mais fábricas em território inglês, o que seria um negócio muito lucrativo, se ao menos os outros nobres não estivessem tentando sabotá-los.
Não era exatamente uma sabotagem no sentido clássico da palavra, mas, ainda assim, uma parte considerável da nobreza tinha interesses diametralmente opostos aos deles, uma vez que estavam envolvidos com a indústria carbonífera, mais tradicional e antiga, e dependente de exportações. Portanto, para vender seu carvão para fábricas estrangeiras, era do interesse dos outros nobres que as tarifas alfandegárias fossem baixas tanto para exportar quanto para importar, mantendo a demanda e escoamento de carvão no exterior altos e constantes; enquanto investidores como os Lordes Forrest e Basil se interessavam por um maior protecionismo que lhes garantisse um mercado interno próspero. Enfim, leitor, chatices capitalistas, nas quais não precisamos nos aprofundar. Entretanto, Leonard Cohen entendia as minúcias daquele impasse político, e planejava explorá-lo como pudesse.
—Lorde Forrest, como estão os negócios?- Basil perguntou, após mais algumas taças de vinho e champagne, conforme Leonard sabia que ele faria- Desde que o projeto de lei falhou em ser promulgado, meus lucros estão cada vez mais sofríveis.
Forrest fez uma careta, emborcando o resto de líquido vermelho-escuro em sua taça.
—Digo o mesmo- ele resmungou, claramente descontente- Mas não se preocupe com isso, Basil. Tenho a sensação de que o jogo logo irá virar.
Ambos lançaram um olhar para Leonard, que esboçou mais um sorriso.
—Seria uma honra poder ajudar os senhores, caso necessário- ele disse- Apenas digam como, e será feito.
Claro que Leonard não pretendia realmente ser subserviente àqueles homens pouco diligentes, mas as palavras saíram de seus lábios tão docemente que era impossível não acreditar.
Lorde Basil sorriu.
—Bem, eu suponho que devamos te convidar para nossa próxima reunião, então- ele disse, dando um tapinha no ombro de Leonard- Temos que te apresentar a algumas pessoas bem importantes, meu jovem. Mas, agora, vamos aproveitar a festa.
Os homens estavam claramente bêbados demais para conspirarem apropriadamente, mas Leonard não se incomodou. Se deu por satisfeito com o convite para a próxima reunião. O assunto rapidamente mudou para esportes, mulheres e vinhos, e Leonard não teve grande dificuldade de acompanhar e continuar sendo agradável e risonho. Os Lordes pareciam apreciar imensamente sua companhia, e começaram a ficar cada vez mais confortáveis e falantes.
—Ouviram falar que Cecily Campbell talvez fique noiva novamente?- Lorde Forrest segredou, quando o alvo da fofoca passou perto dos três homens, acompanhada por um rapaz de cabelos castanhos. Leonard se virou para encarar a garota, que ria timidamente de algo que seu acompanhante havia dito.
Cecily Campbell era uma jovem supremamente adorável, e, apesar de ser um pouco mais velha do que as outras debutantes daquela temporada, não perdia em questões de graça e beleza. Tinha cabelos loiros, que no momento se encontravam presos em tranças complexas, deixando seu rosto delicado e suavemente corado em evidência. Seus olhos vivamente azuis brilhavam contra o vestido de mesma cor, e ela tinha o porte miúdo que todas as outras damas procuravam copiar com o uso de espartilhos e cintas.
Para Leonard, ela parecia extremamente desinteressante. Para o resto da Corte, contudo, ela era o principal alvo de fofocas e mexericos, e todos pareciam levemente obcecados com a garota. Talvez porque ela fosse muito bonita. Talvez porque ela soubesse tirar vantagem disso. Talvez porque coisas misteriosas tivessem acontecido ao seu redor, e, ainda assim, ela parecesse tão adorável como sempre.
—É uma tragédia o que aconteceu com o Conde de Derbyshire, não acham? Estranho como ela pareceu superar tão rápido- Basil comentou, sorvendo mais um pouco de sua taça.
—Ouçam o que eu estou dizendo, aquela ali é ambiciosa. Não estava contente com um Conde, é claro que ficaria feliz com a oportunidade de conseguir um marido ainda mais importante- Forrest respondeu- Meu filho mais velho é louco com ela, mas eu já lhe disse para tirar o cavalinho da chuva. Ela jamais se contentaria com um mero Barão.
Leonard observou a garota por mais alguns segundos. Não parecia ter muito mais do que vinte anos, definitivamente nova demais para o gosto dele, apesar de ser bonita. E também não parecia esperta ou ambiciosa, como os nobres insinuavam. Apenas uma menininha ingênua e boba, como a maior parte das debutantes.
—Não posso culpar seu filho, ela parece o tipo de esposa que qualquer homem iria querer- Leonard mentiu, encarando Forrest de esguelha para medir sua reação.
Forrest riu, com uma pontada de desprezo.
—Pois pode tirar os olhos, garoto- ele respondeu, um pouco amargo- Você pode até ter um rostinho bonito, mas o que aquela ali quer é status. Não algum plebeu irlandês.
Leonard reprimiu sua expressão de raiva. Aquela era exatamente a reação que ele esperava ao fazer seu comentário aparentemente inofensivo, mas o sútil ataque ao seu orgulho não deixava de ser desagradável. Talvez colocasse algumas gotas de laxante no vinho de Lorde Forrest mais tarde, como um pequeno acerto de contas. Mas ali estava a confirmação do que ele já suspeitava: aqueles homens não o consideravam como igual, apenas um “plebeu irlandês” que se provaria momentaneamente útil. Leonard não poderia confiar neles, ou sequer naquela aliança por um longo período de tempo. Ele poderia estar naquela festa luxuosa naquele Palácio luxuoso, mas seu lugar de honras lhe pertenceria tão somente enquanto ainda tivesse serventia.
Mal sabiam os Lordes que Leonard não deixaria que o usassem tão facilmente, e que seus objetivos iam muito além de uma simples ascensão social. Leonard não estava ali tão somente para fazer politicagens e sorrir. Ele estava ali para alcançar o objetivo firme e impassível que ganhara no momento que descobriu os segredos terríveis que se escondiam por detrás da felicidade de sua família, para conseguir sua justiça.
E aquela aliança inusitada era apenas sua primeira jogada.
De volta à residência dos Waldford, Edward estava assentado à mesa da cozinha, com um sorriso agradável em seu rosto enquanto ouvia Adelaide reclamar sobre a Ordem e a carga de trabalho abusiva que eles colocavam em cima de Augustus. Ed tinha certeza de que ela entendia os motivos de Gus, afinal, aquele fora um dos segredos que puderam ser compartilhados com ela; mas ele também entendia o desgosto da irmã. Ele já se sentia mal por passar tanto tempo longe de casa, e agora com Augustus ocupado com seus próprios objetivos, Ed certamente entendia de onde vinha a insatisfação de Adelaide.
—De qualquer maneira, não adianta reclamar, não é mesmo? É até bom que Lady Raycraft aprecie tanto os serviços de Gus, mas ela poderia ter um pouco mais de noção ao exigir dele- ela finalizou, se levantando da mesa e começando a recolher a louça suja.
Edward se atentou ao ouvir o nome de Lady Raycraft. Augustus estar tão próximo da Líder da Ordem era uma coisa boa, mas também perigosa. E Edward sabia que Henrietta Raycraft poderia se tornar uma peça fundamental de seus planos, a depender de fatores que ele, por enquanto, ainda desconhecia.
—Então nosso querido Gus é um dos favoritos da Líder? Ele está mesmo ficando todo importante- Edward comentou, e Adelaide riu.
—Bem, ele com certeza é uma das pessoas com quem ela tem mais afinidade. E eu diria que ele tem bastante comando naquela hierarquia doida deles. Mas tem uma outra agente, Antigone Lascelle, que acaba desempenhando o papel de segunda no comando- Adel explicou- E olhe que ele já comentou que as duas não se dão bem, mas é uma questão mais antiga. Por mais que se odeiem, se Henrietta caísse morta hoje, quem a sucederia provavelmente seria Antigone.
Edward assentiu, pensando que, por mais estranho que aquilo fosse, fazia sentido. A Ordem tinha o costume de valorizar eficiência acima de afinidades pessoais, o que poderia ser muito bom ou muito ruim para Ed. Ele ainda precisava analisar as atuais estruturas de poder com mais cuidado antes de agir, agora que já sabia o que precisava fazer.
—Isso tem a ver com o Líder anterior, não é? Lembro de ouvir Gus comentando sobre isso- ele disse, e Adelaide assentiu, colocando as louças na pia.
Ele se sentia mal por estar tirando informações de Adel daquela maneira, mas era necessário. Não poderia perguntar aquele tipo de coisa diretamente a Gus sem levantar suspeitas, e Adelaide mal parecia perceber que seu interesse naquele assunto tinha segundas intenções, de modo que respondeu com o mesmo tom despreocupado:
—Isso. Lorde Ephraim tinha as duas, Henrietta e Antigone, como favoritas quando ainda estava vivo. Mas quando morreu, no mês passado, o seu testamento deixava bem claro que ele desejava que o comando passasse para Henrietta, não Antigone.
Edward tinha suas suspeitas quanto ao porquê, mas decidiu estender mais um pouco o assunto para ter certeza.
—Por que será que ele fez isso? Pelo que Augustus fala, essa Antigone parece mais eficiente do que a outra- ele comentou, e Adel pareceu pensativa com a indagação.
—Bem, não posso afirmar sobre os motivos de um homem morto com certeza. Mas, se eu tivesse que chutar, diria que foi por uma questão de crenças. Henrietta é mais como Ephraim, ligeiramente mais tolerante, enquanto Antigone tem uma abordagem mais tradicionalista quanto aos usuários de magia- ela respondeu, e Edward imediatamente soube o que tinha de fazer. Já tinha todas as informações de que precisava para planejar seu próximo movimento.
—Não acho que exista isso de “ser mais tolerante” com Líderes da Ordem- ele desconversou- Há os piores e os minimamente menos horríveis, mas todos parecem determinados a infernizar nossas vidas.
Adelaide riu sonoramente, e Edward sorriu também.
—Eu concordo com você. E todos também tiram o couro dos agentes, independente das crenças. Nomes novos, mas as mesmas práticas velhas de sempre- ela anuiu- Mas já basta de falar sobre aqueles chatos da Ordem! Me conte sobre sua viagem, estou curiosa para saber o que você aprontou.
Ed riu, se levantando da mesa para ajudar a irmã a secar as louças.
—O que você quer saber?- ele perguntou.
—Está fazendo esse frio castigante por lá também? Ouvi falar que na Grécia faz muito sol, mesmo no inverno.
Edward, a bem da verdade, não havia passado tanto tempo debaixo do sol, por mais que o clima de lá de fato fosse bem mais agradável que o de Londres.
—É verdade sim- ele assentiu- Um sol brilhante e um mar da cor de turquesa. Uma das paisagens mais bonitas que já vi, acho que você gostaria de lá.
Adel sorriu, um pouco sonhadora.
—Um dia você ainda tem que me levar em uma de suas viagens, Ed- ela comentou- Eu passarei o dia inteiro na praia enquanto você fica estudando seus pergaminhos velhos.
Edward riu. O desinteresse de Adelaide por magia era algo que ele, em geral, apreciava, pois a manteria fora de perigo. Ao mesmo tempo, ele gostaria de poder contar a verdade sobre o que vinha fazendo para ela, mas sabia que ela não entenderia.
—Nesse caso, nós deveríamos esperar até o Verão- ele disse, com um sorrisinho- Podemos levar Gus e Anne também, se eles quiserem.
Adelaide arqueou uma sobrancelha, ligeiramente descrente.
—Seria ótimo, se ao menos o Gus tivesse férias- ela ironizou, e Edward riu- Os agentes da Ordem deveriam fazer um sindicato ou algo do tipo.
Se os planos de Edward obtivessem sucesso, Augustus não precisaria se submeter àquelas regras por muito mais tempo. E Ed poderia levar seus irmãos para onde quer que eles desejassem ir, sem medo e sem receio de nada nem ninguém. Ele sabia que tinha um caminho tortuoso à sua frente, mas todas as peças começavam a cair em seus devidos lugares, e ele faria tudo em seu alcance para conseguir o que queria.
Diferente de Leonard, que tinha um objetivo mais pessoal, Edward Waldford não visava qualquer tipo de vingança ou justiça, leitor, não mais. Já era tarde demais para isso agora. Ambos estavam dispostos a ultrapassar limites obscuros e cruéis para alcançar seus objetivos, e não parariam até terem a vitória em suas mãos, mas, para Edward, havia uma dimensão a mais.
Enquanto secava as louças e contava os detalhes agradáveis de sua viagem para a irmã, ele pensava em algo que seu pai havia lhe dito anos antes, quando ele ainda estava vivo, quando eles ainda eram felizes. “O que for fazer, faça com perfeição”. E era exatamente isso o que ele planejava. Ele alcançaria a perfeição, não importava o quão alto fosse o preço a ser pago.
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