Nos sentamos, e enquanto Ale foi até balcão fazer o pedido de nossos vinhos, li a mensagem que não gostaria de receber.

“Minha cara Mel, desculpe não ter retornado antes. Surgiu um trabalho para realizar na Sicília e retorno em 3 ou 4 dias, espero que nos desculpe e voltamos a contatá-la assim que retornarmos”. Abraços Enzo.

P.S. Luca também está comigo.

É agora está consumado, jamais voltarei a vê-los. – Pensei, em meio a vontade de chorar, ao invés disso, engoli o choro e resolvi esquecer essa história.

Do balcão minha irmã me observava e percebeu que a mensagem não tinha sido legal.

— To contigo mana, seja lá o que tenha acontecido – disse ela, com uma garrafinha de água.

Logo nosso pedido chegou, vinho e pizza, logo que tomei o primeiro gole de vinho, contei tudo que estava acontecendo para Ale, ela não conseguia acreditar e mostrei a mensagem no celular.

— Mel, não fique assim, estamos neste lugar maravilhoso, teremos dias mais lindos ainda pela frente, e você merece mais que isso! — Disse ela num tom animado.

— Ale, você sabe que dificilmente me abro, que sempre espero o pior resultado das coisas, mais dessa vez acabei me empolgando e achando que tudo ia dar certo, mas você tem razão, ficarei bem. – Disse eu com voz firme, na tentativa de me fazer acreditar que não estava desapontada.

Tomamos mais duas taças de vinho, e resolvemos voltar para o hotel, a Ale estava cansada e o vinho realmente ajudou para que o sono batesse forte.

Tomei banho e a Ale logo estava roncando loucamente ao meu lado. — Por Deus, vai ser difícil dormir esta noite! Eu disse, cutucando a Ale, mas foi em vão.

O banho me fez despertar e resolvi descer para o bar do hotel e pedi mais uma taça de vinho, já eram onze meia, e logo o bar fecharia, mais precisava acalmar meus pensamentos que se formava como um turbilhão fervilhando ao ponto de eu imaginar que teria um colapso.

Levei o celular, li e reli várias e várias vezes a mensagem e cada vez que lia me sentia uma completa idiota, com muita raiva desses dois imbecis e então resolvi respondê-lo, virei a taça e pedi a segunda.

“Olá, meu caro! Já imaginava que algo inesperado fosse acontecer, mais agradeço por você ter perdido seu tempo em pelo menos me avisar, nos próximos dias curtirei outros lugares, retornarei pra Roma apenas para voltar ao Brasil. Seja Feliz, Sucesso e Adeus! Melissa”

P.S. Estenda essa mensagem também para o Luca.

Desliguei meu celular, sentei me numa poltrona e finalizei a segunda taça mais aliviada e determinada e esquecer tudo, subi e dormi quase que imediatamente.

Acordei num sobressalto, com minha irmã aos berros.

— Mel, acorda! Estamos atrasadas! – grita Ale do banheiro, enquanto escovava os dentes.

— Ai minha cabeça, tenho tempo para um banho?

— Sim, cinco minutos ou perderemos o café.

Olhei no relógio eram quase dez horas da manhã, e o café finalizava às dez horas, pulei da cama e voei para banheiro, ainda tonta, durante o banho de cinco minutos comecei a repassar tudo que havia acontecido na noite anterior, até ser despertada de meus pensamentos pelas batidas na porta da Ale, avisando que estava descendo sem mim.

— Inferno! Que merda que eu fiz! Não acredito que mandei a mensagem, as coisas fogem um pouco do planejado e eu já chuto o balde!

Acelerei o passo, me troquei rápido e desci, na esperança de conseguir comer algo antes de sair, chegando na mesa minha irmã conseguiu pegar pra mim um pedaço de bolo e uma maçã, peguei um xicara de café e tomei, minha irmã também já tinha pegado a aspirina e água para mim.

Subimos escovar os dentes e pegar as coisas, enquanto aguardávamos o carro que alugamos chegar, logo estávamos com gps ligado e seguimos para nosso itinerário.

Somente no carro tive coragem de ligar meu celular e constatar que a mensagem havia sido visualizada, decidi então bloquear o contato de Luca, minha ressaca era mais moral e meu mal humor permaneceu durante todo o dia, nenhum museu, nenhum jardim, nenhuma paisagem, aplacava minha indignação, mais tentei não transparecer para Ale, não queria estragar o entusiasmo dela de dirigir pelas estradas da Itália.

Saímos de Roma e fizemos uma parada em Assis, é incrível a energia que tem aquele lugar, as ruas de pedras que levam a basílica é um chamariz para se comprar lembranças, várias lojas, de vários tipos de artesanato, mas confesso que o que me encantou foi a loja de produtos a base de lavanda, desde aromatizantes, perfumes, balas, entre outros.

Após rezarmos e renovarmos as energias, seguimos para Genova, onde passaríamos a noite, mais vinho e muita comida boa, para esquentar o frio e aplacar a vergonha que estava sentindo de mim, por me deixar levar por uma conversa que não daria em nada, dessa vez não pegamos pesado, já que Ale estava dirigindo, então fomo logo dormir para pegar estrada logo cedo.

Na manhã seguinte, acordei mais disposta e menos arrependida, estava animada para aproveitar minha viagem, tomamos café e seguimos para Nice – França, eram duas horas de viagem e chegamos antes do almoço, confesso que me surpreendi com a cidade, mas não com a comida, os franceses comem muito mal, a tarde seguimos para uma visita na fábrica de perfumes Fragonard e pelos deuses, em matéria de perfume os franceses realmente arrasam, deixei quase todo meu dinheiro lá.

Cada local era único e tentei aproveitar o que podia, mesmo em alguns momentos batia uma certa tristeza em meu coração, disfarçava o quanto possível para Ale não perceber, então debaixo do chuveiro era o momento que deixava as lágrimas escorrerem.

Foram dias maravilhosos na Riviera Francesa, se encantar com a riqueza de Monaco e se sentir uma rainha no cassino de Monte Carlo – claro que apenas para olhar, a viagem foi regada a muito vinho todos os dias a ponto de Ale me advertir para diminuir ou voltaria para Brasil sem um fígado, aproveitei como pude cada dia, cada instante.

Nestes dias o celular era apenas para fotos e conversar com minha família, não ousei ver redes sociais.

Após 8 dias de França, retornamos para Itália e nossa próxima parada era para Capri, o trajeto seria longo, fomos até Milão e deixamos o carro e pegamos um voo até Nápoles, de Nápoles seguimos de barco até Capri, onde ficaríamos três dias , e seguir novamente para Roma e voltar para Brasil.

— Anime-se Mel, a viagem está incrível e muita coisa ainda pode rolar não acha? – Disse Ale, percebendo meu semblante.

— Acho difícil Ale, afinal a sorte não bate duas vezes na mesma porta. – Disse enquanto embarcávamos para Nápoles.

— Você acha que não percebo os momentos em que está triste? Onde está a garota forte e que segue em frente diante das adversidades? A irmã que me encheu de orgulho quando decidiu fazer direito, sendo única aluna negra na sala, ou quando assumiu cargo para chefiar vários homens advogados? Disse Ale, tentando me animar.

Ela tinha razão por mais que eu tentasse disfarçar o que realmente estava sentindo era tristeza por ter sido tão iludida, eu uma mulher feita, independente e madura me deixando levar por um sentimento tão juvenil e por vários momentos cheguei a me sentir ridícula e infantil.

Mais logo estávamos em Nápoles, uma cidade encantadora e agitada, me lembrava um pouco do Brasil, diferente das outras cidades até então. Fomos direto pegar o barco que ia para Capri, geralmente era para estar lotado, porém, como estamos no inverno tem poucos turistas e podemos aproveitar cada lugar tranquilamente, sem os empurrões.

São 50 minutos até Capri, sentamo-nos na frente da embarcação, já eram três da tarde, mais os dias são curtos, e o vento que batia em nosso rosto, era de cortar, mais ainda sim, o azul cristalino daquele mar era simplesmente lindo demais.

Passamos pela famosa pedra furada de Capri e entramos na gruta azul envolvida por um intenso azul a converte praticamente em um lugar mágico e em um dos lugares mais bonitos de Capri, passamos também pelas Faraglionia, três enormes rochas de mais de 100 metros de altura que emergem do mar oferecendo um maravilhoso espetáculo natural, foi simplesmente incrível e depois de 20 minutos de passeio, desembarcamos em Capri, pegamos um taxi e fomos para o hotel.

Foi verdadeiro alívio deixar as malas e tomar um banho quente, estávamos exaustas e decidimos pedir o jantar no quarto mesmo, jantamos, conversamos um pouco sobre os últimos lugares que visitamos e confesso que apaguei no meio da nossa conversa.