Arrhythmia
2 002 - Bad Dreams Go Away
Notas iniciais
Chapter 002 – Bad Dreams Go Away — Scarlet’s POV
Amélia levantou junto comigo, então caminhamos até o banheiro. Enquanto ela escovava os dentes, eu tomava um banho quente para acordar. O céu ainda estava escuro, não que ele ficasse muito claro em Seattle, mas ainda era noite. O vidro estava embaçado e a chuva batia na janela, dando mais vontade de voltar para cama. Podia sentir meus olhos inchados, pedindo por mais horas de sono. A noite tinha sido difícil, acordando uma hora por causa de Meredith e Derek fazendo barulho e outra devido ao Bailey chorando com fome.
– Meredith e Derek são sempre assim barulhentos? – Perguntei escovando os cabelos.
– Se acostuma, aqui as paredes são bem finas. – Amy bateu em meu ombro antes de descer para cozinha.
Preparamos café e enchi uma grande xícara com o líquido preto. Enquanto comia um pouco de cereal, Derek apareceu com as crianças na cozinha. Ele parecia exausto, mas não era para menos, tinha passado a noite em claro.
– Você está com uma cara péssima. – Amelia disse ao irmão, entregando-lhe uma xícara de café.
– Conseguiu descansar Scar? – Derek ignorou o comentário da irmã.
– Bom, teria descansado mais se você e a Meredith não tivessem se divertido tanto essa noite. – Comentei e ele corou. Meredith apareceu na cozinha em seguida, não entendendo a confusão no rosto do marido.
– Bom dia. – Disse dando um beijo carinhoso que me fez soltar um suspiro involuntariamente. – Zola, termine de se arrumar.
– Eu e a Scar estamos indo, nos vemos depois. – Amy despediu-se das crianças, fiz o mesmo e fomos para o carro.
O hospital já estava um caos quando chegamos. Era só o volume de chuva aumentar um pouco mais do que o normal que os acidentes dobravam de número. Fiz algumas consultas na emergência, visitei os pacientes em pós-operatório e agora, tinha que me preparar para trocar uma válvula em um bebê de apenas três meses. Partia-me o coração ter que abrir o peito de uma criança tão pequena.
A cirurgia não demorou muito, eu poderia fazer aquele procedimento de olhos fechados se pudesse. ‘’Bem que o dia poderia continuar assim tranquilo’’. Assim que pensei nisso, meu celular gritou com uma mensagem da emergência. Vesti o jaleco e sai correndo pelos corredores. A emergência estava duas vezes mais lotada do que quando cheguei.
– Quem me chamou? – Perguntei atordoada, não sabendo para onde ir.
– Aqui Dra. Hills. – Uma das internas que cochichava sobre mim ontem disse, entregando-me um ‘’tablet’’ com o prontuário da paciente.
– Edwards, aqui diz que ela foi espancada. – Li novamente a frase, não podia ser.
– Sim doutora. – Edwards abriu a cortina.
Uma menina em seus quinze anos estava deitada desacordada na cama. Seu corpo estava todo ensanguentado, cheio de marcas, cortes, roxos. Em seus dois braços, marcas de dedos estavam fortes, como uma tatuagem. Seus lábios estavam inchados assim como um de seus olhos, que ela mal podia abrir. Um corte sangrava no topo da cabeça. Meu corpo parou, como se alguém tivesse me desligado. Senti o sangue evaporar de mim e minhas pernas ficarem moles. Meus dedos tremeram, derrubando o ‘’tablet’’ no chão.
– Dra. Hills, está tudo bem? – Edwards perguntou, juntando o aparelho do chão.
Não respondi, apenas sai correndo, queria sair logo dali. Procurei a sala de descanso mais próxima que poderia existir e me tranquei lá dentro. Apoiei-me na porta e deixei meu corpo deslizar até o chão, onde sentei. Sem eu perceber, já estava chorando e os soluços cortavam o silêncio da sala. Meu corpo todo tremia tentando controlar meu desespero e fazer meu coração bater normal novamente. Isso não podia estar acontecendo, não agora.
– Scar, abre a porta. – Amy deu duas batidas na porta. Ela é uma das únicas pessoas que sabe porque isso me afetou.
Levantei devagar, ainda tentando ter controle sobre minhas pernas novamente. Abri a porta e encontrei uma Amélia preocupada, me esperando.
– Eu sei. – Foi só o que ela disse antes de me por em seu abraço, confortando-me.
– Todos devem estar achando que eu sou louca. – Falei sem me separar dela.
– Nada que não seja verdade. – Brincou, conseguindo arrancar uma gargalhada minha. — Você precisa se recompor, aquela menina precisa de você. – Afagou minhas costas antes de me soltar.
– Tudo bem. Vamos voltar lá. – Sequei as lágrimas que ainda caiam, arrumei o jaleco e meu cabelo, em seguida, segui os passos de Amelia até a emergência.
Todos olharam brevemente para mim, mas ignorei, eles tinham um pouco de razão de encarar. Tentei ignorar o que tinha acontecido e foquei-me em examinar a paciente. Quando dei por mim, estávamos na sala de cirurgia. Eu, Owen, Derek e Bailey operávamos a garota que havia sido espancada.
O pulso dela havia sido perdido, o coração começava a parar. A hemorragia estava incontrolável e Derek estava tendo problemas em arrumar os danos no cérebro. Sem mais o que fazer, segurei seu coração com minha mão direita e comecei a massageá-lo, na esperança que seus batimentos voltassem. Nada acontecia. Todos já haviam desistido, eu continuava ali. Minha mão já estava com caibrã, eu sentia o suor frio escorrer da minha testa.
– Scarlet, ela está assim faz mais de trinta minutos. – Derek falou baixo, mantendo a voz calma.
– Não! – Respondi ainda com seu coração em minha mão.
– Hills, chega. – Hunt falou tentando me afastar da garota.
– Não! Não! NÃO! – Revoltei-me e todos se afastaram de mim.
Finalmente, soltei seu coração e deixei-a partir. Tirei toda minha roupa com seu sangue, colocando-a no lixo e sai marchando da sala de cirurgia. Isso não podia ter acontecido. Ela não podia ter morrido, não era justo, ela era apenas uma menina. Corri o mais rápido que eu podia, só queria sair dali. Quando sai do hospital, senti o ar gelado invadir meus pulmões, quase queimando. Respirei fundo, apoiando minhas mãos em meus joelhos, ficando assim por um tempo. Eu nem havia ficado tempo suficiente com a garota e havia me apegado pelo fato de ela ter uma história parecida com a minha. Respirei fundo mais algumas vezes, precisava voltar para meus outros pacientes, tinha que parar de surtar. As únicas pessoas que entendiam o que estava acontecendo comigo eram Derek, Amélia e Mark, o que já era o suficiente, eu só precisava deles.
Quando voltei para os corredores do hospital, encontrei Owen. Ele vinha em minha direção parecia um pouco alterado, eu não estava em condições de discutir. Mudei de direção, mas senti seu olhar nas minhas costas.
– Scarlet! – Chamou um pouco alto, segurando meu braço.
– Preciso ir Owen, tenho uma consulta. – Tentei evitar a conversa.
– O que aconteceu na cirurgia? – Perguntou antes que eu saísse.
– Não é da sua conta. – Só queria deixar aquilo para lá.
– Claro que é da minha conta. – Uma ruga se formou no meio da sua testa. – Eu sou seu chefe.
– AH CLARO, NÃO POSSO ME APEGAR A UMA PACIENTE QUE TEM ALGUMA COISA ERRADA? – Alterei minha voz mais alto do que deveria, fazendo com que todos nos encarassem.
– TEM ALGUMA COISA ERRADA SIM QUANDO VOCÊ IGNORA MAIS DE UMA ORDEM MINHA DURANTE A CIRURGIA! – Deu um passo para frente, ficando cada vez mais próximo. Uma veia saltava de seu pescoço, enquanto ele gritava. – ISSO É INACEITÁVEL!
– SE O QUE TIVESSE DITO ERA O CERTO A FAZER, EU TERIA FEITO, CHEFE. – Também dei um passo a frente, quase encostando nele.
– SE VOCÊ TIVESSE FEITO, ELA PODERIA ESTAR VIVA AGORA! – Gritou de volta, mas dois segundos depois, ficou arrependido. – Desculpa, eu não...
– Sim, você quis. – Respirei fundo. – Deve ter sido culpa minha mesmo, me envolvi demais com a história dessa garota.
– Me diz o porquê desse envolvimento então. – Colocou as mãos na cintura, não conseguia olhar diretamente para mim.
– Por acaso é mais uma ordem? – Rebati, o sangue fervendo em meu peito.
– Se for fazer você contar, sim. – Deu de ombros, tentando me fazer derreter com seu sorriso de lado.
– Então vou desobedecer mais uma vez. – Dei a volta nele, saindo na direção oposta do corredor.
Eu estava sem condições de realizar qualquer outra cirurgia hoje. Passei todas minhas consultas, procedimentos para o outro atendente e sai do hospital. Amelia havia me contado sobre um bar do outro lado da rua, que era frequentados por todos do hospital. Fui até lá, determinada a encher a cara. Sentei no balcão, e pedi logo uma dose de tequila.
– Joe, me dá mais uma dose. – Já estava ficando intima do dono do bar. Na última meia hora devia ter contado mais da metade dos meus problemas para ele, depois de tomar seis doses de tequila.
– Acho que por hoje chega. – Joe recusou-se a encher meu copo.
– Por favor, eu tive um dia péssimo. – Tentei fazer a cara bêbada mais fofa que eu tinha, ele riu, virando o líquido amargo em meu copo.
– Sabia que ia te encontrar aqui. – Alguém falou, sentando-se do meu lado. Era Amelia.
– Joe, uma dose para ela. – Pedi, quase caindo da banqueta.
– Não, obrigada Joe. Eu estou de plantão. – Amy recusou. – Eu soube o que aconteceu.
– Nosso chefe é um babaca. – Minha língua enrolada tentou falar.
– Ele só queria entender o que aconteceu, ele só não sabe que você nunca vai contar. – Afagou meu ombro. – Eu sei que isso é difícil para você. Deve ter sido horrível o dia de hoje.
– Foi um inferno Amy, como se eu tivesse vivendo meu passado de novo. – Olhei para ela, meus olhos se encheram de lágrimas.
– Joe, traz a garrafa, ela precisa. – Amy pediu e Joe riu botando a garrafa na minha frente. – Tenho que voltar para o hospital, eu volto para te buscar.
– Ok. – Falei virando mais um pouco da bebida na minha boca.
Amelia pegou a chave do carro em minha bolsa, saindo do bar em seguida. Continuei ali bebendo durante horas, e não queria parar, não iria parar. Quando ela veio me buscar, era um pouco mais de uma da manhã. Não tinha nem mais controle sobre minhas pernas. Mark estava junto, então colocou-me no colo e carregou-me até o carro.
– Fica bem. – Beijou minha testa.
– Promete que vai falar com a Lexie? – Falei grogue, segurando-o pela camiseta.
– Prometo. – Ele riu divertido.
– Hoje! – Fechou a porta, acenando para nós quando Amelia começou a dirigir.
Depois de um banho extremamente gelado, o efeito do álcool começou a passar um pouco e a sede começou a deixar minha garganta seca. Deitei embaixo das cobertas, puxando-as até meu pescoço. Amélia trouxe café e um analgésico para dor de cabeça. Deitou-se do meu lado, e começou a afagar meu cabelo até que eu pegasse no sono. Eu preferia que isso não tivesse acontecido. Teria passado a noite em claro se soubesse que voltaria a ter os pesadelos que eu havia superado alguns anos atrás.
– SCARLET ACORDA!!!! – Amy gritava quando eu abri os olhos. Encarei-a assustada, não sabia o que estava acontecendo.
Meu corpo estava todo suado, podia sentir isso devido ao meu cabelo grudado na testa. Amélia estava com as mãos em meus braços, segurando-me. Comecei a chorar desesperada, caindo em seu colo.
– Você estava gritando muito Scar. – Fez carinho nas minhas costas. – Não acredito que isso vai voltar a acontecer.
Eu não parava de tremer, não de frio, mas de pavor, de medo. Fechei os olhos e as mãos com força, querendo esquecer tudo aquilo, mas eu sabia que não iria desaparecer.
– Chama o Derek, por favor. – Pedi ainda de olhos fechados. Sempre que esses pesadelos aconteciam, era Derek que me acolhia e me acalmava. Ele era tudo que eu tinha na época.
– Claro. – Ela saiu do quarto apressada, deixando-me ali sozinha.
Abracei meus joelhos, ficando assim até Derek aparecer. Ele veio, desesperado. Acendeu as luzes e sentou do meu lado. Seus braços me envolveram, puxando-me para o aconchego do seu peito. Começou a me ninar, para frente e para trás, tentando me acalmar.
– Já passou, está tudo bem. – Sussurrou. – Eu estou aqui.
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