Arrest the Memory
7 Distorcendo
Notas iniciais
Uma distorcida vida comum. Um amor proibido. Um coração sincero.
Ao perceber a intenção do outro, Gakupo puxou as mãos de Kaito de debaixo da própria camisa e levantou-o. Em seguida, segurou no pulso do outro e puxou-o para o seu quarto, que estava logo no fim do corredor. Chegando lá, Gakupo tirou a camisa e pôs-se a beijar intensamente o mais novo, pressionando-o contra a parede e levantando-o no colo. Kaito abraçou-o e passou a arranhar seus ombros, que logo ficaram com marcas vermelhas. O mais velho empurrou o outro bruscamente na cama, arrancando um sorriso malicioso de Kaito.
Gakupo engatinhou lentamente por cima do corpo do mais novo e fitou-o nos olhos. Os lábios entreabertos dele provocaram Kaito, que os tomou com voracidade. Abraçaram-se novamente e passaram a arranhar o corpo um do outro, Gakupo marcava o pescoço de Kaito com chupões e arrancava-lhe gemidos, enquanto este puxava seu cabelo com força.
Inverteram as posições e o vocaloid de cabelos azuis sentou-se sobre o abdômen do outro, admirando sua tatuagem. Gakupo levantou o corpo, fazendo com que Kaito sentasse em seu colo, e suspendeu uma perna para roçar a ereção dele.
– Hmmn... Por que você sempre faz isso? – Kaito arfou.
– Porque eu adoro ver você submisso à mim.
Kaito corou violentamente e Gakupo lambeu seu pescoço. O mais velho levou a mão do outro até o próprio zíper, e sussurrou em seu ouvido.
– Tira pra mim?
O vocaloid de cabelos azulados paralisou e seu rosto atingiu um tom vermelho intenso. Gakupo riu e abraçou-o.
– Você ainda se envergonha com isso?
Kaito retribuiu o abraço e sussurrou, mordendo o lóbulo de sua orelha.
– Acho que não.
Logo, o mais velho foi empurrado na cama e teve seu zíper aberto pela boca do outro. Apressadamente, Kaito tirou a própria calça. Percebendo sua intenção, Gakupo inverteu a posição e riu brevemente. Lambeu e mordeu a região do tórax e fez um caminho com a língua até o cós da boxer de Kaito. Este arqueou as costas e gemeu baixo. Insatisfeito, Gakupo mordeu o membro dele por cima da peça, e recebeu um gemido mais alto em resposta. Kaito puxou o cabelo do mais velho e jogou a cabeça para trás. Gakupo abaixou a boxer preta do outro, e subiu para aproveitar seu pescoço à mostra. Ele segurou o membro de Kaito e apertou-o com força. O garoto se contorcia nas mãos do outro e tentava abafar os gemidos enterrando a cabeça no travesseiro. Gakupo subia e descia a língua pelo pescoço de Kaito, enquanto masturbava seu membro. O outro arfou.
– Ahh... Eu vou...
Gakupo aumentou o ritmo das mãos, e o corpo de Kaito estremeceu de prazer. Ele segurou-se nos braços do outro, e gozou no tórax de Gakupo. Ia deitar-se novamente, mas o outro sorriu cinicamente.
– O... O que foi?
– Ah. Você não vai me deixar nessa situação, vai? – apontou para o próprio membro que pulsava de excitação.
Kaito inclinou-se pra frente e terminou de tirar o resto da roupa do mais velho. Abocanhou o membro e começou a enterrá-lo fundo na garganta, engasgando de vez em quando. Gakupo gemeu alto e agarrou os cabelos de Kaito, ajudando-o com os movimentos. Kaito sugava, mordia e lambia levando o outro à loucura. Então, as pernas de Gakupo estremeceram e ele gozou. Kaito engoliu parte e o resto ficou em seu rosto, já que foi pego de surpresa. Gakupo passou o polegar em sua bochecha e sorriu.
– Agora-
Ouviram batidas na porta. Ambos empalideceram e olharam para a mesma direção.
– Ei, Gakupo-onii-san. Eu me esqueci de entregar uma coisa.
Era Rin cantarolando e sacudindo algo que parecia estar em uma caixa.
Gakupo virou para Kaito, que fez um sinal de silêncio.
– Se ficarmos calados, ela vai embora. – sussurrou Kaito.
– Não vai não.
– Eu sei que está aí dentroooo. Não adianta me enganaaar. – gargalhou.
– Viu? – Gakupo estava suando frio.
– E-er... Ri-! – Kaito se levantou e tentou gritar, mas o outro tapou sua boca.
– Tá maluco? O que ela vai pensar se souber que está aqui?
– Ah, é! – correu pra fora da cama.
Gakupo se levantou e juntou as roupas do chão, jogando-as em cima de Kaito.
– Seu idiota! Não joga em mim, joga embaixo da cama! – forçou o tom baixo.
– Mas é você que vai botar lá!
Kaito brisou por um momento.
– Rápido, BaKaito!
O outro piscou os olhos e correu com as roupas no rosto para o armário.
– Gakupo-onii-san? – Rin estava impaciente.
– Já vou! – disse se vestindo. – Kaito, limpa esse rosto!
O mais novo pegou desesperadamente uma das blusas no monte e dirigiu ao rosto.
– Com a minha camisa não! – Gakupo gritou.
– Sua camisa o que, onii-san? – Rin chamou.
– Com a minha camisa não podem mexer! – Gakupo inventou.
– Essa não foi sua melhor ideia. – Kaito riu baixinho, fechando a porta.
– Tsc. Cala a boca. – e bateu a porta, se dirigindo à outra.
Quando Rin viu Gakupo, sentiu o queixo cair. Parecia ele que tinha tomado um choque na tomada, o rosto estava vermelho e a sobrancelha arqueada de preocupação, tinha a enorme tatuagem no peito que ela nunca havia visto e... Um líquido branco no tórax.
– Que diabos é isso? – apontou ela para o peito dele.
Ele olhou na direção do dedo e gritou. Correu pra dentro do quarto e se limpou com o lençol da cama. Rin entrou, observando o quarto atentamente.
– Que cheiro... Azedo. – fez uma careta.
– É que deixei umas bananas apodrecerem debaixo da cama. – ele ia se apoiar na cama, mas errou a direção e caiu.
– Onii-san, você não gosta de bananas. – Rin estreitou os olhos.
– Passei a gostar. – ele se levantou e bateu a poeira da calça. – O que faz aqui?
– Não. Primeiro responde minhas perguntas: o que houve com seu cabelo? De onde veio essa tatuagem? Por que a cama está tão bagunçada que parece que tinha alguém dançando em cima dela? O que era aquele líquido em você? Por que seu rosto está tão vermelho? E... Você gosta de banana split?
– Não. Não gosto de banana split. — cruzou os braços. – Agora fala o que a traz aqui?
Rin resmungou irritada e entregou-lhes uma caixa.
– Chegou pra você do correio.
– Eu não pedi nada. E... Por que você veio entregar?
– Quem geralmente entrega as correspondências é o Kaito-onii-chan, mas eu não o achei depois que nos separamos.
Gakupo não disse nada.
– Você sabe onde ele está? Ele não estava com você quando eu saí?
– Ele... Não sei.
Rin franziu o cenho.
– Tabom... Eu já vou. Tchau, onii-san. – fechou a porta.
Kaito esperou alguns segundos até sair do armário. Gakupo riu da ideia que lhe passou pela cabeça.
– Eu vou te matar. – Kaito ficou vermelho de raiva.
– Ah, mas você nem sabe o que eu pensei. – ele continuou rindo.
– Eu sei exatamente. – vestiu a camisa. – E por que não limpou o peito?
A expressão de Gakupo endureceu. Kaito se sentou na cama e olhou para o pacote. Estreitou os olhos.
– Abre.
– Mas... Você não vai... Sair?
Kaito franziu rigidamente as sobrancelhas. Depois sua expressão entristeceu. Depois ficou com raiva. Gakupo se assustou com o tanto de caretas que ele assumiu.
– Quer que eu vá embora? – nesse momento, a expressão já era de confusão.
– Ah... Não. – ele sentou-se na cama ao lado do outro.
Kaito ficou esperando Gakupo abrir o pacote. Quando viu o que tinha dentro, arregalou levemente os olhos.
– Quem mandou isso?
– Eu não sei. – Gakupo suspendeu um urso de pelúcia roxo e com uma berinjela na pata. – Mas eu gostei.
– Tem mais alguma coisa? – Kaito pegou a caixa e vasculhou o fundo, encontrando um bilhete. Começou a ler.
"Querido Gackpoid,
Meu nome é Nikito. Tenho 8 anos e gosto muito de Vocaloid.
A minha mãe me deixou mandar uma carta para vocês depois de muito chorar e gritar."
Kaito fez uma careta e Gakupo riu graciosamente.
"Eu acho incrível a voz da Miku-san, as danças da Meiko-san, a maturidade de Luka-san, a sincronização dos Kagamine e as caras de lerdo do Kaito."
– Mas o que.... – Kaito fez uma cara de indignação. Gakupo riu mais ainda e tomou a carta de suas mãos.
"Mas o meu favorito é você, Gackpoid-san. Você faz tudo perfeitamente e canta bem. Tenho vários pôsteres seu e comprei 12 cópias do Gakupo V3 (se caso algum parar de rodar). Pedi que minha irmã costurasse um ursinho baseado em você e resolvi lhe dá-lo."
Kaito massageava as têmporas e batia nervosamente o pé no chão. Gakupo olhou-o pelo canto dos olhos e cutucou seu ombro com o cotovelo.
– Está com ciúmes?
– Não.
– Meu deus, BaKaito. Está com ciúmes de um menino de 8 anos?
– Você é surdo? Acabei de dizer que não! – pegou a carta das mãos do outro e voltou a ler.
"Finalmente, pedi para a sua empresa que me deixassem visitá-los. Eu estou indo aí semana que vem e vou passar somente 1 dia, o que é uma pena. Mas vou me divertir muito.
Até lá."
Gakupo se levantou e espreguiçou-se, o que estalou alguns ossos de seu corpo. Olhou para o rosto de Kaito, que parecia confuso. Bagunçou o cabelo dele e sorriu.
– É só uma visita. O que pode acontecer de anormal?
– Gakupo, você sabe que nada nessa empresa é normal. No mínimo, alguém vai tocar fogo na empresa com essa visita.
– Você quer dizer você, né?
Kaito se levantou. Ele olhou para Gakupo por um momento. Ele estava com um sorriso acolhedor nos lábios, de braços cruzados sobre o peito musculoso e com alguns fios suados caindo na testa. Seu olhar permanecia o mesmo para Kaito, não importava quantas expressões ele fizesse, mas ele nunca conseguia decifrá-lo. Arregalou os olhos e virou o rosto. Gakupo estranhou e se inclinou para olhar a expressão de Kaito. Suspirou pesadamente.
– Você está chorando de novo? É só um garotinho, Kaito.
Ele virou de novo para Gakupo e depois para o chão. Sentiu vontade de correr, mas... De quê? Não havia acontecido nada de mais. E aquela sensação estranha não tinha nada haver com o futuro visitante. O que estava acontecendo?
Kaito começou a soluçar cada vez mais alto. Mordia os dedos ao invés das unhas e apertava os olhos fortemente.
– Você não vai... – sussurrou o mais novo.
O outro franziu as sobrancelhas de preocupação.
– Me pedir pra ir embora? – pôs a mão no rosto e não se preocupou em reprimir os soluços que se seguiram.
Gakupo puxou o ombro de Kaito e abraçou-o um pouco mais forte que o normal. O mais novo se esqueceu de retribuir com o susto que levou.
– Nós já conversamos sobre isso, não foi?
O outro não respondeu.
– Quantas vezes tenho que dizer que não vou deixá-lo, Kaito? E quantas vezes vou ter que pedir para não chorar por coisas banais?
– M-m-mas... E-eu não... – soluçou várias vezes seguidas.
– Ei, me responde uma coisa. – soltou-o e olhou-o nos olhos. – Tem alguma coisa lhe incomodando?
– Bom... – Kaito já ia citar mil e uma coisas, mas Gakupo levantou o dedo.
– Eu tenho a sensação de que não está chorando por causa do menino.
Kaito arqueou uma sobrancelha. Gakupo leu seus pensamentos? Ele não respondeu, até porque não sabia.
– Ainda tem aqueles pesadelos? – insistiu.
O outro mordeu o lábio inferior e virou o rosto. Gakupo desistiu e pegou uma camisa em cima da cama.
– Venha, vou lhe levar no seu quarto.
.....
Depois que Gakupo o levou no quarto, Kaito tomou banho e caiu quase que imediatamente na cama. Embora exausto, não queria dormir. Iria ter aqueles sonhos novamente. Eles ficavam cada vez mais assustadores e vinham agora toda vez que dormia. Nem sempre Gakupo estaria lá para acalmá-lo, então optava por ficar um bom tempo acordado. Porém, foi com esses pensamentos que ele adormeceu.
19h da noite
Acordou assustado. Por sorte, despertou bem na hora em que o pesadelo estava começando. Olhou para suas roupas e viu que estavam encharcadas de suor, como se tivesse acabado de correr quilômetros. Kaito é calorento e transpira muito em locais úmidos, principalmente se não ligar a porcaria do ar-condicionado.
– Tsc. Ainda fui inventar de dormir com o lençol em cima. – bateu na própria testa.
Correu até o banheiro e ligou a ducha de água fria. Estava observando a água escorrendo até o ralo, quando ouviu a voz tão irritantemente conhecida.
– Vermelhinhos! Azuizinhos! Verdinhos! Amarelinhos! Enfim, o arco-íris inteiro. É hora do jantar, cambada! O primeiro que chegar ganha 1 semana inteira de limpeza do quarto por conta do Shion-kun. Valendo! 5 minutos, hein?!
Kaito virou indignado para a porta.
– Esse pessoal pensa que eu sou o quê?
Correu para se vestir. O banho teria que ficar pra depois. Enxugou o corpo suado com uma toalha, pegou um mini-ventilador na escrivaninha e penteou os cabelos. Tudo ao mesmo tempo. Quando terminou, saiu em disparada até o refeitório que ficava um andar acima do seu. Chegando lá, segurou na parede para frear a corrida e arfou.
– Cheguei!
Ninguém havia chegado ainda. Do outro lado, ouviu palmas irônicas e revirou os olhos.
– Parabéns, Shion-kun. Foi o primeiro a chegar. – o Diretor sorriu.
– Eu não vou fazer limpeza de quarto pra ninguém!
– Hmmn... – ele coçou a barba rala. – Acho que isso não foi tão inteligente da sua parte.
Kaito puxou mais ar e liberou pesadamente.
– Por que não?
O Diretor mudou o peso de uma perna para a outra e sorriu cinicamente.
– Ninguém limpa o quarto aqui. Só os empregados. Mas, pelo visto, você vai passar a limpar o seu. Por uma semana
E com essa conversa feliz, saiu rindo como um rei.
– Mas que povo troll. – Kaito mal podia acreditar. – Eu ainda vou me...
Ele sentiu o chão tremer. Olhou de um lado pro outro aterrorizado, e segurou-se na parede.
– É terremoto! Fujam do Japão! – gritou um dos cozinheiros.
– Parece mais uma manada de elefantes! – Kaito caiu no chão.
Um dos empregados que estava limpando corria de um lado pro outro. Derrubando vassouras e água no chão.
Então, Kaito viu vários vocaloids correndo na direção do refeitório. Todos eles com uma expressão determinada, quase irritada, no rosto. Eles pararam abruptamente ao chegarem à porta, caindo uns por cima dos outros.
– Mas que demônios é isso? – o Diretor segurava o óculos quebrado, e estava encolhido atrás de uma mesa.
– Aaah! – lamentou. — Ele já está aqui! Deixei até de pentear o cabelo! – VY1 se levantou do colo de Kaito, onde havia caído. De fato, ela parecia ter acabado de acordar.
Len gritou por ar, saindo de debaixo de Kiyoteru e VY2. O sapato de coelhinho de Miku tinha ido parar no colo de Kaito também, junto da tiara de Luka. Kaito segurou os acessórios e procurou seus donos.
– Ah, você virou ímã de gente e coisa agora, Kaito? – Prima riu.
– Não enche. – ele ajeitou o cabelo e ficou na ponta dos pés, procurando algo. Ou alguém.
– Ai ai, Julieta. Tá procurando Romeu?
Kaitou virou-se com uma expressão de ódio.
– Sai daqui. – falou pausadamente.
Len riu com o jeito furioso do outro.
– Ele ainda não chegou.
– Te perguntei? — Kaito grunhiu.
– Se eu não dissesse isso, de tão imbecil que é, ia ficar aqui procurando ele parecendo um palhaço.
O mais velho virou-se para Len com o rosto vermelho de raiva, tentando se controlar.
– Ah. Sou eu quem vai jantar com ele hoje. – Len cruzou os braços.
– E por acaso...
– Eu pedi. Ele deixou. – Len se virou e foi embora sambando.
Kaito ficou com cara de taxo e continuou indignado.
– Esse só pode ser o pior dia da minha vida. – coçou o cabelo. – Não, pera... O sexto pior dia da minha vida.
Entrou no refeitório e pegou uma bandeja. O serviçal olhou-o com uma careta e depois começou a oferecer as refeições. Kaito pediu sobá quente com chá gelado e dirigiu-se à mesa dos fundos. De repente, 5 pessoas caíram do céu e sentaram-se lá, ocupando seu lugar. Ele apertou os lábios e dirigiu-se a uma mesa com meninas. Elas suspiraram e o chamaram animadamente. Ele saiu correndo e tentou desviar da mesa de Meiko. Mas ela foi mais rápida e o puxou pela gola, quase o fazendo derrubar a comida.
– Senta aqui, sorvete. Você vai ficar mesmo perambulando por aí que nem barata tonta? – ela sugou o canudo do achocolatado de caixinha.
– ... – Ele sentou-se do lado de Miku, que engasgou ao perceber sua presença.
– Kaitoooo~ — IA segurou suas mãos e sorriu abertamente. – É uma honra tê-lo perto de mim.
– O que você faz nessa mesa? – ele arqueou uma sobrancelha. – Sem querer ser rude.
– Aaah~ É que eu decidi pular de mesa. É muito monótono ficar longe de você. – ela sorriu mais ainda.
– Desliga isso, IA. – Meiko pôs a mão sobre os olhos como se o sorriso da outra a incomodasse. – Está quase me cegando.
Miku remexeu-se inquieta e virou-se para Luka. Ela estranhou a expressão de ódio da amiga lançada a Kaito.
– Algum problema, Luka-san?
Kaito pareceu notar a presença da garota só agora. Ele lançou-lhe o mesmo olhar.
– Uoou. – IA engrossou a voz. – O que tá acontecendo aqui?
– É uma guerra de olhares sinistros. – Meiko estava animada, como se assistisse a um jogo. – Não é demais?
Miku suspirou. De repente, ouviram uma música animada começar e olharam para cima.
– Legal! É pra dançar? V’mbora dançar! – VY2 subiu em cima da mesa e rodou o gorro.
– O que deu nele? – Kaito franziu o cenho.
– Sei lá. – Meiko subiu também e começou a dançar. – Mas eu entendo.
Logo todo mundo começou a dançar. Alguém perguntou o nome da música, e outra pessoa respondeu.
– É Pump It!
E todos começaram a dançar mais ainda, parecendo um bando de loucos amadores.
– Isso não é uma discoteca! É um refeitório! – Len tapou os ouvidos.
– Tem razão. – Meiko parou por um instante e coçou o queixo. – Guerra de comida!
Uma bagunça com mistura de dança e comida voando pra todo lado começou. Logicamente, todos cantavam bem a música. Mas quanto às danças...
Kaito saiu do refeitório. Estava interessado, mas estava esperando aquela pessoa aparecer até agora. Ele sentou-se no chão e esperou alguns minutos. Gumi saiu da bagunça e cutucou-o. Ele assustou-se com a visão. Ela estava coberta de bolo e macarrão, e ele podia jurar que tinha visto algo se mexer naquela gosma no cabelo dela.
– Entra. Vem se divertir um pouco. – ela ofereceu-lhes a mão.
Ele sentiu um aperto no peito por não ver Gakupo chegar. Deu mais uma olhada para o corredor, e então entrou com a amiga. Os vocaloids ainda tinham a noite inteira pela frente, afinal o jantar só terminava 22h.
.....
No outro dia
Kaito acordou com as pálpebras ainda pesando. Tinha ficado a noite inteira na diversão com os outros. Lavou o cabelo várias vezes depois que chegou, mas ainda podia senti-lo grudento. Passou a mão no rosto e massageou as têmporas. Seu ouvido ainda zumbia pelo som alto da música. Sentou-se na cama e olhou para os raios de sol invadindo algumas frestas na sua cortina azul-marinho.
– Parece até que saí de uma festa com bebida alcoólica. – coçou a cabeça. – Me sinto exausto.
Ele tomou um banho e saiu para andar no corredor. Não estava com fome. Já havia comido coisas demais na bagunça do dia anterior. Depois que o café havia acabado para os outros, Miku apareceu e convidou-o para assistir um filme. Eles foram até a sala nova que todos haviam pintado. Fecharam as cortinas e ligaram o ar-condicionado. Kaito pegou seu fone de borboletas no bolso, que também servia para a comunicação com os outros, e apertou um botão. Ele abriu-se e reluziu em azul. Os dois chamaram Meiko, VY2, Prima, Rin, Luka e Gumi.
Kaito também tentou chamar Gakupo, mas o dele estava fora de alcance. Como se não estivesse no prédio.
O filme que ele escolheu foi “Procurando Nemo”, mas Meiko queria “O Massacre da Serra Elétrica”.
– Que tal “Querido John”? — sugeriu Miku.
– Mas eu odeio romance e terror. – Rin choramingou. – Quero assistir Barbie!
– Ah, não! – Luka e Gumi disseram em uníssono.
– “A órfã!” – Gumi levantou a mão.
– “O grito 2.” – Prima bocejou e ajeitou-se no chão.
Kaito começou a gritar, puxando os outros. Todos ficaram brigando durante minutos por um filme. Já cansado, VY2 se levantou. Olharam para ele e ficaram em silêncio. Ele passou o indicador pela pilha de filmes. Indiferentemente puxou um e colocou na grande TV. Logo, o nome que brilhava na tela era “Harry Potter: e o cálice de fogo”. Ninguém protestou.
.....
10h da manhã
Assim que o filme terminou, Rin estava chorando. Os outros tiveram que consolá-la e convencê-la de que era apenas ficção e que os atores não haviam morrido de verdade, apesar de VY2 não ter gostado muito da parte de ficção. Eles andaram juntos até algumas escadarias e encontraram outros vocaloids andando pelos corredores. Durante o caminho inteiro Kaito e Luka fuzilaram um ao outro com os olhos. As caretas eram tão feias que Rin teve que tirar foto para rir depois quando estivesse deprimida. Eles pararam no começo de uma escada quando Luka resolveu se despedir para ir a outro lugar. A empresa tem elevadores com portas de vidro. E as escadas são transparentes também, possibilitando a visão de quem quer que esteja no andar de baixo. Às vezes, era bem mais divertido subir as escadas e falar com os amigos que passavam do que simplesmente subir os elevadores.
– Eu já vou indo. – ela sorriu levemente para os outros.
– Já vai tarde. – Kaito murmurou para si mesmo.
– Como é? – ela endureceu a face, e o rosto sério lhe fez parecer uma estátua.
– Nada, não. – ele virou pro outro lado e sorriu malvadamente.
– Por que você não se manda também, espertinho? – ela se aproximou de Kaito.
– É você que está indo embora, senhora. Por que eu que tenho que “me mandar”?
– Iria fazer um favor para seus amigos.
– Ei, ei. – Meiko tentou separar os dois. – O que há com vocês dois? Por que estão sempre brigando?
– É como se você trocasse de papel com o Gakupo-onii-san, Luka-onee-chan. – Rin franziu as sobrancelhas.
Ao ouvir o nome de Gakupo, os dois mais velhos estremeceram e a tensão pareceu aumentar.
– Eu não suporto essa garota! – Kaito disse alto.
– Que bom. Porque esse sentimento é recíproco. – Luka intensificou o olhar.
– Sai logo da minha frente!
– É você que está atrapalhando minha visão, seu idiota.
– Você não ia embora, sua imbecil?
– Eu vou por esse lado, então faz algo útil pelo menos uma vez na vida, e sai você daqui!
Kaito levantou a mão para a garota a sua frente.
– Isso, me bate! Seu covarde! – ela gritou, fazendo os outros se assustarem.
Miku tentou parar o braço do mais velho, mas VY2 segurou delicadamente os ombros da garota, puxando-a para longe da briga. Kaito respirou fundo e abriu os olhos cheios de ódio.
– Eu vou me fazer o favor de não gastar meu tempo com você.
Ele se dirigiu para a escada que levava para o andar de baixo, onde algumas pessoas observavam a briga. Luka virou-se e sorriu sadicamente.
– Pode ir fugindo, garoto. Porque eu já lhe tirei o que nunca foi seu.
Kaito paralisou e arregalou os olhos. Nesse mesmo momento, tropeçou em um degrau e rolou escada abaixo. Alguns vocaloids riram e o resto do grupo gritou de susto. A queda não foi muito grande, mas ele se sentia machucado. Não só fisicamente. Tentou se levantar em meio às risadas, mas seu tornozelo doía muito. Ele grunhiu e jogou o cachecol no chão de raiva.
– Cara, como é que você perde uma briga e ainda tropeça em si mesmo? – riu um vocaloid. – Que idiota!
– Patético. – Luka estava de braços cruzados no mesmo lugar.
Os outros riram mais ainda, e Kaito sentiu-se envergonhando. Ia esconder seu rosto nas mãos quando sentiu seu cachecol cobrir sua visão. Jogaram em cima dele. Ele já estava com lágrimas nos olhos, quando sentiu alguém tapar seus ouvidos levemente. As risadas cessaram.
– Não ouça esses idiotas. – disse a pessoa perto de si.
Ele virou-se bruscamente e arregalou os olhos. De onde ele veio? E como sempre conseguia chegar a tempo de impedir que ele se machucasse mais?
– E-ei. Gakupo... Olha, cara... É que... – disse um dos vocaloids perto deles.
Gakupo lançou seu pior olhar e os outros estremeceram. Alguns saíram correndo. Luka e o os outros, no andar de cima, olhavam atônitos para a cena. Por fim, ele voltou-se para Kaito com um sorriso.
– Você consegue se levantar?
Kaito sacudiu a cabeça nervosamente e seu rosto ficou vermelho. O outro suspirou vitorioso.
– Ai ai, não tem jeito. Eu tenho sempre que resgatar você.
Gakupo se abaixou. Ajeitou o cachecol no pescoço de Kaito e piscou para ele. O mais novo corou mais ainda. Ele ajeitou um braço por baixo dos joelhos dele, e o outro foi até a costa.
– Um, dois e... – Gakupo fez um esforço e suspendeu Kaito no colo. – Opa.
As outras pessoas gritaram de animação, e os queixos de Luka e de Miku caíram.
– E-e-ei! M-me... Me põe no chão! – Kaito se debateu.
– Shhh, princesa! Eu vou levá-la na enfermaria agora. – Gakupo riu gostosamente.
– Eu vou te matar! – Kaito empurrou-o, tentando se soltar, mas não pareceu muito confiante no que disse.
– Depois você faz isso, donzela. Avante! – ele começou a andar em direção a enfermaria com Kaito ainda protestando.
Quando estavam um pouco mais longe e num corredor vazio, Kaito já havia parado de se debater e estava de braços cruzados.
– Você... – Gakupo começou.
– Hã? – virou-se na direção do rosto dele.
–... É muito leve. – disse distraidamente. Kaito achou que ele poderia estar pensando alto.
Eles chegaram à enfermaria, e a enfermeira buscou compressa de água quente para o tornozelo de Kaito. Ela teve que sair logo depois, deixando-os sozinhos.
– Por que... Você não foi jantar ontem? – Kaito desenhava formas geométricas na cama com o indicador.
Gakupo estava agachado em frente a ele. Usava uma camisa preta sem mangas – que exibia seus músculos, tênis brancos da Adidas, e calça esporte também da Adidas. Ele mais parecia uma propaganda ambulante.
– Eu estava ocupado. – deu de ombros.
– Com o quê?
– Com uma coisa. – estreitou os olhos.
– Mas com o quê?
Gakupo sorriu levemente com a curiosidade de Kaito.
– Depois eu mostro.
O outro não insistiu. Sabia que ele estava fazendo uma surpresa e Kaito gostava muito delas.
– Bom, tenho que ir agora. – ele levantou e ajeitou a roupa.
– Mas já? – Kaito segurou sua mão. Ao perceber o que tinha feito, ficou vermelho.
– Já. – Gakupo pôs a mesma mão na cabeça dele. – Tenho coisas a fazer.
– Mas você vai me deixar aqui sozinho?
Gakupo virou o rosto na direção da porta e sorriu.
– Pode entrar, Miku-dono. Já estou de saída.
A garota de olhos verdes entrou timidamente na sala e acenou para Kaito.
– Vim ver como estava, Kaito-kun. – ela se pronunciou com um fio de voz.
Kaito olhou para Gakupo como se ele fosse um mutante. Como ele...?
– Nos vemos depois. – o mais velho saiu sem mais despedidas.
.....
O “depois” de Gakupo durou cerca de 2 dias. Ele havia, praticamente, sumido do mapa. Kaito não o encontrava em lugar algum. Perguntava aos funcionários que ficavam no corredor, mas ou eles fugiam ou não sabiam do paradeiro do seu amigo. Ele chegou a reunir o grupo de amigos para procurarem juntos, até mesmo Miku estava preocupada. Algumas pessoas os confundiam dizendo que tinham visto Gakupo subindo as escadas correndo, depois iam para as escadas e as pessoas de lá nem o tinham visto passar por ali.
– Acho que ele tem teletransporte. – comentou Gumi com o queixo entre o polegar e o indicador.
– Esse cara fez foi evaporar. – VY2 se encostou à enorme janela de vidro e fechou os olhos.
– Ah, não fala assim dele! – Luka rosnou, ainda irritada com o incidente de 2 dias atrás.
– Mas ele não falou nada de mais. – Gumi virou-se para a amiga.
Luka virou o corpo na direção oposta. Miku observava o rosto preocupado de Kaito.
– Será se ele foi morar fora da empresa? – disse Prima.
– Assim... Do nada? – VY2 perguntou.
– Acho que ele foi pra rua, acabou abordado por um grupo de homens maus e foi levado pra um beco sem saída. – Rin tremeu.
– Mas o beco sem saída não seria onde ele foi abordado? – Len comentou.
– Ah, é! – Rin riu.
– Acho que ele deve estar encomendando berinjelas da Oceania. – Meiko sorriu.
– A Oceania produz berinjelas? – Miku virou-se espantada.
– Quem sabe ele não saiu para comprar gatinhos? – os olhos de Kiyoteru brilharam.
– Mas aí ele vai demorar 2 dias pra- — Prima começou.
– Ah, que gênios! Eu só arranjei intelejumentos pra me ajudar? – Kaito se irritou.
Todos olharam para ele. Não pareciam surpresos, porque as ideias eram realmente ruins.
– Já sei! – Rin gritou, e todos viraram em sua direção. – Vamos fazer uma ONG para procurar o Gakupo-onii-san.
Ninguém falou nada por um instante. Pareciam paralisados.
– Er, Rin... – Len forçou um sorriso. – Acho que isso não...
– Nós vamos procurar por ele até aparecer seu corpo vivo. – Rin cortou Len. – Ou morto.
Alguns do grupo caíram na gargalhada.
– Vamos lá! Vistam suas roupas de Love is War, peguem binóculos e walkie-talkies. – Rin ordenou.
– Por que Love is War? – Prima arqueou uma sobrancelha.
– É que é mais dramático. – Rin sorriu, sentindo-se superior. – E parece mais com uma organização.
Todos se entreolharam.
.....
Kaito suspirou. Por que estava fazendo isso mesmo? Ajeitou o cinto azul de seu uniforme preto e calçou as luvas. Ele viu alguns vocaloids com os uniformes de Love Is War correndo pelas escadas e falando nos walkie-talkies. Como a notícia tinha se espalhado tão rápido? Fazia apenas 4 minutos que tinha acabado de se arrumar. Levou um susto quando o seu meio de comunicação começou a falar sozinho, parecia Meiko gritando com ele. Sua voz chiava.
– Sorvete! Onde você tá?
– Er... Ao lado do meu quarto.
– Sai daí e anda logo! Você ficou no meu grupo! Estou no andar 13.
– Que grupo? – ele ficou nervoso.
– Tsc. Mas que lerdo! A Rin dividiu todos em 10 grupos para cada 3 andares. Nós ficamos com 11, 12 e 13.
– Nossa... Somos tantos assim?
– Você é um anti-social. – ela riu.
Ele pensou por um momento e finalmente entendeu. Riu também.
– Estou indo.
Apertou o botão de pausa do walkie-talkie e correu pelas escadas, esbarrando em algumas pessoas. Parou abruptamente quando chegou perto de Meiko e recuperou a respiração. Ela cantarolava uma música enquanto usava os binóculos para olhar a cidade lá embaixo. A música parecia ser em inglês, porque Kaito sabia que Meiko não estava habilitada para cantar nessa língua. Por fim, ele pôs uma mão no ouvido.
– Que música é essa?
Ela olhou-o como se ele tivesse caído do espaço.
– É a que tá tocando no recinto.
Ele parou para ouvir melhor e só então notou que, realmente, havia uma música tocando pela empresa. Meiko ajeitou o chapéu e riu, continuando o que estava fazendo. Kaito passou a fazer o mesmo, embora mal soubesse mexer em um binóculo e estivesse vendo tudo embaçado. Sentiu o walkie-talkie falar novamente e derrubou-o no chão.
– Kaito! Acorda! – Meiko gritou.
– Tô acordado! – ele ligou o dispositivo e apertou o botão de fala.
– Parece que ainda está no País das Maravilhas, Alice. – ela sorriu e voltou ao que fazia.
Ele franziu o lábio e falou.
– Quem é?
– Quem é? – a voz masculina falou do outro lado. Kaito não a reconheceu.
– Você me contatou, fala quem é!
– Mas eu não sei quem é. Essa budega aqui só localizou a outra budega mais próxima.
– Você quer falar com quem? – Kaito pôs a mão na cintura.
Meiko olhou-o como se não acreditasse no que ouvia.
– Com quem quer que esteja falando! Fala quem é, mano!
– Só se você falar primeiro!
– Kaito! – Meiko gritou. – Isso não é um telefone! Fala logo seu nome!
– Ah... – a outra voz chiou. – É o Kaito?
O vocaloid azul só então pareceu reconhecer a voz. Era VY2.
– Sim. O que você quer, Yuuma?
– Ah... É que... Deixa eu falar com a Meiko-san. – ele parecia nervoso.
Ele passou o aparelho para a amiga.
– Que foi, Yuuma? – ela cruzou os braços.
– Eu só ia perguntar se já o encontrou nesse andar aí.
– O Gakupo? – Kaito perguntou.
– Claro! Se é ele que estamos procurando, sorvete! – ela gritou, então normalizou a expressão. – Yuuma, tem algum sinal dele?
– Ahh, não. – Yuuma estava de cócoras em cima de um banco. Olhava com o binóculo para as ruas assim como Meiko. – Ele não parece estar lá em baixo e ninguém iria achá-lo daqui com... Cara! Aquela loja de doces abriu de novo!
Meiko e Kaito reviraram os olhos.
– Nossa, legal cara. – Kaito riu.
O outro não respondeu.
– Tá, obrigada. Desligando, Yuuma. – Meiko apertou um botão.
Os dois voltaram ao que faziam até que Kaito sentiu fome. Não havia almoçado e só percebeu isso agora. Sua barriga roncou alto. A amiga percebeu e riu, deixando-o vermelho.
– Vai tomar seus sorvetes, azulzinho. – ela não desviou a atenção.
Ele não protestou e saiu correndo em direção à cozinha. No caminho, algumas pessoas perguntaram sobre Gakupo para ele. Outras dançavam com as músicas e nem pareciam estar prestando atenção na busca, talvez nem soubessem dela. Ele viu aglomerados de gente na cozinha e no corredor do quarto de Gakupo. Alguma coisa ainda ia sumir dali e ele ainda seria o culpado. Pegou um suco de maçã e uma barra de chocolate e se dirigiu ao andar 11, onde Meiko não estava para patrulhar.
O local estava vazio. Podia ouvir risadas e passos pesados vindos de andares acima, mas não daquele. Estava passando pelas salas de gravação dos CDs, quando parou abruptamente. Virou-se para todas e procurou uma por uma. Abriu a 9 e viu uma berinjela de pelúcia ali em cima. Ao lado tinha uma xícara de café vazia. Não estavam em tempo de gravação, por isso quase ninguém ia lá. Gakupo já estivera ali antes – a julgar pela berinjela, mas se não estava agora poderia estar na...
– Cobertura! – estalou os dedos.
A ideia passou pela sua mente porque Gakupo disse-lhes que gostava de ir lá para sentir-se sossegado. E havia também aquele dia... Sentiu o rosto vermelho e levou suas mãos até as bochechas. Estavam queimando. Foi até o elevador e apertou no último botão. Esperou alguns minutos e já se sentia enjoado com a velocidade com que subia. Mal as portas se abriram, e ele já disparou em direção às escadas de puro cimento no meio do corredor. Chegou até o andar escuro e sem janelas da última vez. Ele correu até o final e subiu dois lances de escadas.
Respirou fundo. O ar estaria rarefeito novamente. Empurrou a pequena porta, e esta rangeu.
Fazia tanto frio lá em cima que ele teve que assoprar as mãos, mesmo estando de luvas. Notou que ainda estava com os binóculos e o walkie-talkie, e deixou-os de lado.
Lá estava ele. Gakupo estava com as pernas cruzadas em forma de asas. Tinha 3 xícaras de café do seu lado, uma pela metade e as outras vazias. Ele segurava uma planilha de madeira, e em cima desta havia várias folhas. Alguns papéis amassados estavam no chão ao seu redor. Kaito se inclinou para vê-lo melhor. Seus olhos tinham olheiras e pareciam quase fechar. Ele batia o lápis como se estivesse pensando e seus lábios se moviam como se cantassem para si mesmos. Usava também headphones. Ele estava compondo.
Kaito sentou-se no chão e observou-o por alguns minutos, que mais pareceram segundos. Gakupo voltou a escrever como se agora suas ideias estivessem crescendo. Ele sorriu, e Kaito sentiu um calor preencher seu peito. De repente, o mais velho levantou-se deixando tudo cair, menos os papéis que segurava. Ele ia correr até a porta, mas espantou-se ao ver Kaito.
Só então derrubou os que segurava.
– Ba-BaKaito? – ele ficou nervoso.
Kaito quase pulou de alegria. Era raro ver Gakupo gaguejar e ficar vermelho. Levantou-se e ajudou o mais velho a recolher o que tinha derrubado. Ele olhou Kaito de cima a baixo e franziu as sobrancelhas.
– O que faz com essa roupa?
– Ah. – ele se animou. – Nós estamos procurando você há 2 dias! Você esteve aqui o tempo todo?
– Sim. Mas isso não explica a roupa.
– Ah. Longa história de ONG.
– Mas o que...? – Gakupo riu.
– O que importa é que achei você. Anda, vamos voltar. – Kaito ia puxar o pulso do outro, mas ele esquivou-se.
– Eu estou ocupado. – coçou a nuca. Seu cabelo já batia abaixo do ombro. Que rapidez!
– Então eu fico aqui com você. – Kaito sorriu vitoriosamente.
– Na verdade... – Gakupo murmurou. – Eu estava indo para outro lugar.
– Que?
– Queijo? Não tenho, não. – riu.
– ... Ham? – Kaito entortou o pescoço.
– ...Burguer.
Gakupo desatou a rir, e Kaito bateu nele, envergonhado. O mais velho puxou o outro e eles desceram de volta para o prédio. No meio do caminho, ele virou-se para Kaito e sorriu.
– Lembra que eu disse que ia te mostrar uma coisa?
Kaito franziu o cenho.
– Está me fazendo surpresas demais.
O outro riu.
– Então tá, BaKaito. Não faço mais. Agora vamos. – ele puxou-o mais depressa.
Agora estavam de volta às salas de gravação. Entraram na 9, e lá estava a berinjela e a xícara. Gakupo pegou um teclado enorme preso à parede e arrumou para tocar. Ele ajustou alguns fios e pegou seu fone de asas de borboleta. Os olhos de Kaito brilharam.
– Você vai cantar?
– Não. Vou cacarejar. – riu gostosamente.
Kaito não sabia se ficava com raiva, envergonhado ou ria também.
– Eu estava compondo uma música...
Olhou para o mais novo com o rosto sério.
– ...Para você.
Kaito ficou tão atônito que se esqueceu de ficar vermelho.
– E você não dormiu direito por causa disso? – se referia às enormes olheiras no rosto do amigo.
Gakupo tocou-as e sorriu.
– É. Acho que sim.
Agora o mais novo ficou vermelho. Gakupo ajustou o microfone, apertou alguns botões e teclas e a música começou. A princípio, parecia triste, mas logo foi ficando um pouco animada. Ela foi feita para passar o tempo escutando, não importando seu estado de espírito. Tristeza. Felicidade. Raiva. Você não se importaria de escutá-la por um momento. O mais velho cantava com entusiasmo, como se estivesse gravando para um CD. Kaito pegou, sem tirar os olhos do outro, os papéis da letra digitalizada. Broken Heart era seu nome.
Pelo tamanho, já parecia estar trabalhando nela há dias. Mais ou menos para o final da música, Gakupo fechou os olhos e sorriu.
Depois que a música acabou, Kaito levantou e abraçou-o. Gakupo puxou um pequeno CD e entregou para o outro.
– Isso é a música?
– Eu já gravei Broken Heart. Estava só acertando uns detalhes para ver se era isso mesmo. Não alterei nada, felizmente.
Kaito pegou e guardou no bolso. Gakupo arqueou uma sobrancelha.
– Tira essa roupa.
O outro corou violentamente e deu um passo para trás.
– M-mas... Aqui?
– O que você está pensando, hein? – Gakupo sorriu maliciosamente e se aproximou.
Ele chegou tão perto que as respirações se misturaram. Gakupo pôs a mão no rosto de Kaito e passou uma mecha de seu cabelo para trás da orelha. Ele depositou um beijo cálido em seus lábios e sorriu em meio a este. Kaito puxou-o pela nuca para aprofundar o contato. Logo, os dois ouviram passos pesados no corredor vindo em direção a eles. Gakupo se afastou rapidamente e pegou um casaco para cobrir o próprio corpo. Não gostava quando alguém o olhava tão à vontade. Quando Kaito torceu o tornozelo havia sido a última vez.
Uma carrada de gente entrou na sala e algumas meninas pularam em Gakupo. Kaito ficou pensando seriamente em como os encontraram ali. Olhou para o relógio e viu um GPS implantado secretamente por Meiko. Mas como ela...?
– Gakupo-sama! – gritou IA, e pulou no pescoço dele. – Por onde esteve?
– Gackpoid-sama! – surgiu Luka, sorrindo aliviada, no meio dos outros.
– Gakupo-onii-saaaan~! – Rin se abaixou por entre as pernas de um vocaloid adulto e foi até ele.
Kaito virou o rosto na direção do que estava acontecendo. IA estava trançando o cabelo de Gakupo e colocando fitinhas. Gumi e Rin estavam tentando tirar seu casaco para ver a tatuagem de que tanto tinham gostado. Lily puxava o fio de sua calça e ria que nem uma rainha. Meiko e Miku brincavam com os sapatos dele, desenhando corações. E Luka enchia seu rosto de beijos, que ficavam marcados pelo batom. Mas que diabos era aquilo? Kaito cerrou o punho e rangeu os dentes.
Ele foi até as meninas e puxou a orelha de Gakupo. Logo, estavam lutando pelo mais velho, puxando seus membros, seu cabelo e gritando.
– Aaaaah! Soltaaa! – Kaito gritava a plenos pulmões.
– É meeeu! – Meiko o puxava pelo pescoço.
– Mas fui eu quem encomendou! – o Diretor surgiu embaixo dos outros e puxou a perna de Gakupo.
– Até você, Diretor? – Gakupo gritou – ou pelo menos tentou — com a voz rouca. Seu rosto estava azul.
– Vamos parar com esse cabaré aqui? – Lola elevou a voz.
Todos a olharam e soltaram Gakupo, que caiu para trás sem ar. Nunca mais sumiria daquele jeito de novo.
.....
19h da noite do mesmo dia
Okay. Dessa vez, Kaito tinha certeza que iria ter bagunça novamente. Estavam no refeitório, e as músicas ocidentais tocavam quase toda hora. Ele percebia o quanto as pessoas enlouqueciam com elas. Principalmente os vocaloids. Porém, Gakupo não pareceu impressionado com nenhuma delas. Kaito estava ao seu lado e segurava sua mão por baixo da mesa. Às vezes, o mais velho tentava soltar, mas ele não deixava. As pessoas vinham a toda hora fazer perguntas ou simplesmente olhar a beleza de Miku, que por sua vez estava no lado oposto da mesa, ao lado dos Kagamine. Len olhava para Kaito como se fosse uma mistura de lixo com sopa de bruxo. Depois dirigia um olhar sonhador a Gakupo. E ele não gostava nada disso.
– Ei! – IA apareceu atrás dos dois, que pularam de susto. Gakupo quase engasga com a comida.
– Ôh quxi fui? – Kaito falava com a boca cheia. Rin o repreendeu com o olhar.
– Por que não estão dançando? – ela cruzou os braços.
– Porque a gente quer comer. – Len fez o mesmo.
– Mas olha lá! Tá todo mundo se divertindo, bando de aziados! – ela apontou para VY2 fazendo break dance no meio do refeitório.
Miku e Rin começaram a aplaudir. Ele olhou para elas e sorriu docemente.
– Eu não vou me levantar daqui. – Gakupo fez um bico fofo e Kaito reprimiu um sorriso apaixonado.
IA sorriu com uma maníaca e todos a olharam com medo. Ela saiu correndo até a caixa de som e começou a olhar a lista de músicas. Faria o pessoal mudar de ideia. De repente, a música parou tirando protestos dos vocaloids. Miku arqueou uma sobrancelha para a multidão indo até IA. Ela então sorriu para a mesa de Kaito e Gakupo e colocou uma eletrônica. Era Glide.
Os olhos de Gakupo se arregalaram.
Len olhou extasiado para ele e sorriu abertamente. Logo todos estavam dançando novamente no refeitório. Kaito virou seu rosto e viu o companheiro suando frio e remexendo-se inquietamente.
Por fim, Gakupo não aguentou mais e subiu em cima da mesa. Começou a cantar alto e dançar perfeitamente a coreografia, com toques de sensualidade.
kowarete iru kioku kazoete
omoidaseba nani o tonaeru?
Os outros se reuniram em torno da mesa. Kaito estava espantado com a ação repentina, mas não se sentia mal em ver o corpo do outro de baixo. Ainda mais de costas e dançando.
otogi no kuni mata egaite
fukai mori ni mayoikonde iku... aa
fushigi na mahou kakete yogoreta DRESS kisete
amai namida nagaseba subete ga uso ni naru
Kaito sempre o via cantarolando aquela música. Mas não sabia que ele gostava tanto dela. Bom, a cena que via já era prova disso. Gakupo mexia o corpo sem pudor, e sua voz, combinada com o ritmo eletrônico, ficavam em uma perfeita sincronia.
motomete iru kioku wasurete
sawagidaseba kuroku somareru
IA surgiu de trás da multidão e empurrou Kaito. Ele tropeçou em uma cadeira e olhou irritado para ela. A garota piscou e o ajudou a subir na mesa. Logo, ele estava seguindo a coreografia de Gakupo com o mesmo ritmo.
kodomo-damashi mata egaite
nagai yoru ni mayoikonde iku... aa
kotoba no mahou kakete otona no jijou nuki de
amai namida nagaseba subete ga oto ni naru
Era algo diferente ver Gakupo dançar. Era mais diferente ainda dançar ao lado dele. Meiko chamou Kaito enquanto e ele inclinou-se para ela.
– Sabe o que isso tá parecendo? – gritou.
– O quê? – ele perguntou.
– High School Musical.
Kaito riu tanto que quase despencou da mesa, mas Gakupo o segurou pelo braço. Então ele puxou-o para dançar uma espécie de tango com a mistura da coreografia. Todos os vocaloids riram e fizeram a mesma coisa.
subete ga uso ni naru
fushigi na mahou kakete yogoreta yume o misete
kuroi namida nagaseba otogibanashi ni naru
Até Miku entrou na bagunça, levando Luka, Len, Rin, Meiko e Gumi pra cima da mesa. Ficou tão apertado que ninguém mais conseguia dançar sem estapear o outro. Então eles, simplesmente, mexiam o corpo.
fushigi no kuni koborete akai sora ni koborete
kuroi namida nagaseba subete ga yume de owaru...
.....
Ao final da música, todos caíram – literalmente – no chão. O espaço era pequeno demais. Riram que nem condenados e, então, voltaram para seus dormitórios.
Kaito acompanhou Gakupo – ou melhor, o seguiu. Ele insinuava algo sobre irem tomar sorvete mesmo sendo tarde da noite. Miku apareceu e correu até os dois.
– Kaito-kun, posso falar com você? – ela disse, timidamente.
– Ah, eu não- — Kaito ia falar, mas Gakupo pisou no seu pé.
Ele fitou-o e viu que o mais velho não queria levantar suspeitas sobre os dois. Não mais do que já tinham.
– Eu não... Não tenho mais nada para fazer. – Kaito sorriu.
– Gakupo-san, você dança muito bem. – os olhos dela brilharam.
O mais alto coçou a bochecha.
– Obrigado.
Kaito foi para o lado de Miku, ficando os dois de frente para Gakupo.
– Para onde vamos?
– Ah, er... Lá para fora. Quero conversar com você sobre algumas coisas.
– Ah... Então tabom. Vamos.
Miku ia sair, mas Kaito foi para trás dela e passou o braço ao redor de seu pescoço como se fosse abraçá-la. Porém, ele apenas tapou seus olhos com ambas as mãos. Ele, então olhou para Gakupo – que estava de olhos arregalados. Desenhou um Até depois com os lábios e inclinou-se para beijá-lo, certificando-se que Miku não estava vendo.
Gakupo quase caiu para trás com a surpresa. Kaito retirou as mãos, deixando Miku desnorteada e a puxou para longe dali.
O mais velho deu meia-volta e dirigiu-se com uma expressão séria até o dormitório.
.....
Gakupo chegou ao corredor que levava até o último quarto. O seu quarto. E viu uma figura parada de braços cruzados e encostada na parede do lado de fora. Quando já estava mais perto, pode reconhecê-lo. Era Kagamine Len.
Um frio estranho percorreu sua espinha. Não tinha um bom pressentimento sobre o olhar que o garoto lhe lançava. Pensou em passar sem falar com ele, mas não havia como. Ele estava bem em frente à porta.
– Gakupo... – ele chamou.
Ah, não. Ele nunca o chamava sem acrescentar algum apelido.
– O que foi, Len-dono? Por que está aqui há essa hora?
Len virou o rosto, agora vermelho. Chegou mais perto de Gakupo e puxou sua camisa para baixo, como se quisesse fazê-lo se abaixar.
– Eu vim terminar o que começamos.
– Começamos alguma coisa? – retirou a mão do menino de si.
– Sim. Naquele dia.
– Len-dono... Olha... – suspirou pesadamente.
A expressão do menino tornou-se irritada. Ele já sabia o que Gakupo ia falar.
– Eu acho que você-
– Gakupo, por que não dá uma chance para nós?
– Não... Não existe “nós”, Len.
O garoto estremeceu ao ver seu nome sem o tratamento especial. Ele começou a chorar.
– Você não se importa, não é?
Gakupo olhou-o com uma expressão triste e preocupada.
– Não consegue entender que... Eu... E-eu... Amo você!?
– ...
– Você nem mesmo chegou a pensar no que poderia fazer por mim, não é? Como pode deixar que alguém se sinta dessa forma?
O mais velho coçou a cabeça nervosamente. Não sabia o que dizer. Len cerrou o punho.
– Não importa o que eu faça. Você nunca vai olhar para mim.
– Eu sei o quanto você está tentando... Eu reconheço, mas...
Len olhou para ele com irritação no olhar.
– Talvez não seja para ficarmos juntos...
– O que foi que você viu nele? – gritou com todas as forças. Gakupo olhou-o assustado.
– Em qu-
– No Kaito! Vocês só vivem juntos! Você acha mesmo que eu não sei!?
A expressão de Gakupo tornou-se mais séria que o normal. Ele não desviou os olhos.
– Aonde você quer chegar?
– Eu posso ser muito melhor que ele! Não iria forçá-lo a nada, Gakupo!
– ...
– Por que ele? Por que não eu? – as lágrimas caíram com mais força.
– Você... Você não entende...
– Claro que eu entendo! Pare de me tratar como uma criança!
– ...
– Me responda! Por que tem que ser ele?
Gakupo saiu de perto de Len e abriu a porta. O garoto pensou que ele não iria responder e já ia gritar novamente, porém o mais velho virou-se. Uma expressão diferente estava em seu rosto. Como se lamentasse muito pelo o que iria dizer agora.
– Você não entende. Não tem que ser ele.
Os olhos de Len se arregalaram. Gakupo bateu a porta, deixando o garoto do lado de fora com uma expressão tão confusa quanto antes.
O que ele quis dizer com isso?
Tingido de preto: um amor incompleto. O mundo negro como azeviche.

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