Notas iniciais
GENTE GENTE GENTE LEIAM ISSO. Eu fiz uma espécie de 'CD' pra FanFic :3 Eu vou colocar o link nas notas finais. Quem estiver interessado em baixar, as músicas estão em ordem de capítulos. As últimas músicas são as dos últimos capítulos. Eu to conferindo aqui... Parece que a FanFic termina no capítulo 14. Pode ser no 15, dependendo do que eu vou planejar pros dois e_e HUEHUEHUE Por favor, olhem as músicas do CD *-* são tão bonitas (na minha opinião, é claaaro) E perdão por não postar antes do Natal, aconteceram coisas e no ano novo também, mas a fanfic segue fiel ao tempo dela, ok? Finjam que ainda é novembro do ano passado XD ANYWAY Boa leitura o/

Até mesmo esta noite está à beira de desaparecer

Luka tomou o pano molhado das mãos de Meiko e bateu no braço da enfermeira que vinha lhe trazer curativos, fazendo-a derrubar tudo.

– S-sumimasen Luka-sama. – a enfermeira prontamente se abaixou e recolheu os objetos médicos.

– Que droga, hein. Tentamos te ajudar e é assim que retribui, Megurine. – Meiko cruzou os braços. – Não esquenta não, tia. – disse olhando para a mulher agachada no chão. – Pode ir, deixa que eu seguro as contas aqui.

A enfermeira parecia ser novata de tanto medo que tinha de ficar perto das duas. Ela encolheu quando os grandes olhos castanhos a fitaram, e saiu correndo sem contestar.

– Eu hein. – Meiko se virou e bateu o pé. – Muito bem... Pode começar.

Luka passava o pano tão lentamente em seu rosto que sua mão nem parecia estar se movendo.

– ...

– Quem começou a briga?

– ...

Meiko suspirou e foi até um grande armário branco. Sacudiu tudo que tinha lá dentro e pegou agulhas. Apontou-as para Luka.

– Se não abrir o bico, eu enfio essa merda na sua cara!

– Aaaah. – Luka levou um susto e se afastou. Não gostava de objetos pontudos. – Que raiva toda é essa, garota?

– Eu? Raiva? Você e o sorvete estavam se esgoelando, você é rude comigo, bate na enfermeira e eu é que estou com raiva?

– Vira essa coisa pra lá. – Luka estava encolhida na cama. – Aí eu falo.

Meiko jogou as agulhas pela janela. Provavelmente haviam atingido a cabeça de alguém e matado, mas isso era o menos importante agora. Ela se perguntava como a vocaloid ao seu lado havia gravado Tailor Shop on Enbizaka se não gostava de tesouras também.

Luka endireitou-se e cruzou as pernas.

– Bom, o que importa é que Kaito teve o que merecia.

– É? E o que ele merecia?

– Uma surra, por ser tão burro e idiota. E... Se intrometer na vida dos outros.

– Kaito se intrometendo na vida dos outros? – Meiko riu alto. – Para ele se intrometer em algo que não é dele, dever ser algo que realmente o interesse. Kaito não consegue nem controlar a própria vida.

Luka sorriu de canto, e pegou um espelho para começar os curativos. Meiko puxou o fecho do seu sutiã e soltou-o de vez, um hábito que tinha quando estava esperando por algo. Olhava fixamente para a garota à sua frente.

– Você não respondeu minha pergunta.

– Qual?

Quem começou a briga? – ela repetiu pausadamente.

Luka revirou os olhos. Meiko era muito insistente e explosiva, se estivesse brigando com alguém no saguão da empresa era capaz de quem estivesse na cobertura ouvi-la. Era melhor não confrontá-la. E não adiantaria mentir, ela falaria com Kaito posteriormente.

– Eu. Comecei dizendo algumas coisas que ele não gostou de ouvir, — ela tentava esconder a felicidade ao lembrar-se das expressões dele – e ele partiu para cima de mim.

Pela expressão da outra, ela não tinha gostado nada disso.

– Kaito é emocional, mas ainda assim controlado. Que diabos você disse para ele?

– Coisas aí.

Meiko rosnou como um tigre.

– Tá, tá! Rebaixei-o a um verme e disse que ninguém o amava.

– Haaa? – gritou. – E só isso fez ele te bater?

– Como assim só isso? É algo que faria qualquer um se zangar.

– Você acha que só essas coisas bestas aí iam fazer o Kaito se desconcertar, chorar e tremer como um louco?

É. – pensou Luka.

– Megurine... – ela intensificou seu olhar, como se tentasse ler as reações de Luka. – Eu conheço aquele garoto desde que foi planejado. Ele respeita as mulheres como ninguém, e para ele ter te batido, foi porque você tocou em algum ponto fraco dele... O que é que você não está me dizendo?

Luka não podia contar. Não queria. Mas Meiko era esperta demais.

– Gakupo.

Meiko arregalou os olhos. Ela saiu de perto de Luka e começou a andar em círculos. O vento estridente entrava pela janela e balançava as cortinas com agressividade. O barulho das botas de Meiko ficava cada vez mais irritante de se ouvir. De repente, ela parou.

– Megurine... É o que estou pensando?

– Mas chegou a uma conclusão? – ela arqueou a sobrancelha.

Meiko direcionou seu olhar a ela, sua expressão dizia que não estava mais de brincadeira.

– Você gosta do Gakupo, não é?

O rosto de Luka ficou absurdamente rubro. Não que as pessoas não pudessem reparar, mas ouvir isso saindo tão casualmente da boca de alguém era, no mínimo, estranho.

– Q-quê? – ela forçou uma risada. – Ele é meu amigo... Eu g-gosto muito dele, sim.

– Tsc. Estou perguntando se você gosta dele como eu gosto do Kaito. – ela levantou o queixo e pendeu um pouco o pescoço.

Luka não sabia o que responder. Ela não sabia o que Meiko sentia por aquele idiota, afinal.

– E... Como é que você gosta do Kaito?

– Eu o amo.

Pronto. O queixo de Luka caiu. Como ela conseguia dizer aquilo tão naturalmente? Sua expressão nem havia se alterado, ela estava com os mesmos olhos energéticos de sempre. A mesma postura determinada e confiante, sem tremer nenhuma parte do corpo. Anormal.

– C-como...

– Já sei o que você vai perguntar. Acho isso de ficar tremendo e gaguejando ao dizer que gosta de alguém coisa de pessoas inseguras. Você confessar o que sente, independentemente de como os outros reajam, não vai alterar seus sentimentos. Se a pessoa te rejeitar, problema dela. Eu não tenho vergonha de falar o que sinto. Amar o Kaito não é um fardo para mim.

Luka já não conseguia nem se mover ao ouvir Meiko dizer aquilo. Definitivamente não há duas pessoas como Meiko neste mundo.

– Enfim... Respondendo a sua pergunta... – Luka disse, ainda se recuperando de um choque. – Eu... – Ela deu seu melhor para tentar não gaguejar, mas ao olhar nos olhos da mais velha seu rosto ruborizou novamente. – Aff, saco! Eu gosto dele, sim.

Gosta? – Meiko franziu o cenho.

– Amo! – Luka começou a maquiar seu rosto a fim de esconder as marcas da agressão e para esconder o nervosismo.

Meiko bateu com força nas costas dela, fazendo-a cair no chão.

– É assim que eu gosto, mulher! Bota pra fora!

– Ittaaaai. Botar pra fora o quê? – levantou-se, ouvindo a outra rir.

Por um momento. Num intervalo de segundos, enquanto Luka se levantava, Meiko sentiu um peso. Um peso na consciência. Algo estava fora do lugar. Estava feliz por sua melhor amiga gostar do samurai berinjelado, mas aquilo não parecia... certo. Diferentemente dos outros vocaloids, Meiko questionava sua própria mente. Ela não iria ignorar aquela dúvida: e o que Kaitotinha a ver com isso?

Iria ouvir a resposta para aquela pergunta dele, porque tinha certeza que Luka não era a pessoa certa para respondê-la.

Puxou a própria luva negra e fingiu olhar um relógio.

– Tá. Agora que está melhor, vou olhar o Kaito. Porque não tá fácil pra ninguém. – Ela abriu um sorriso largo e fez um ‘V’ com a mão. – Espero que fale para o Gakupo o quanto antes, Megurine. Ja ne!

Ela bateu a porta com força. Luka assumiu uma expressão fria. Continuava a olhar fixamente para a porta.

– Só quero ver de qual lado você vai ficar quando souber toda a verdade.

.....

Depois de deixarem Nikito com sua mãe no hall da empresa e terem ouvido as descrenças dela de que eles realmente existiam, VY2 e Miku ficaram um tempo observando os empregados correrem de um lado para o outro. A agitação estava grande entre os técnicos e os economistas. Verificavam a todo o momento se havia tido alguma alteração na construção dos vocaloids, e tentavam reconstruir os danos causados em Kaito e Luka por meio do próprio sistema. Pelo menos foi isso que VY2 conseguiu ouvir.

Ele olhou-a de soslaio e viu que seu rosto só mostrava tristeza e preocupação.

– Tudo bem? – Ele tocou em seu ombro.

– Ah... – Miku sorriu fracamente. – Tudo.

– Não parece.

Miku riu. VY2 era tão direto, ele não sabia driblar palavras. Ela gostava disso.

– Tem alguma coisa que posso fazer para ajudar?

Ela suspirou.

– Eu só queria entender o porquê dessas coisas estarem acontecendo. Por que Kaito está agindo assim?

– Ah... Quer que eu pergunte pra ele? – Ele pareceu se arrepiar ao sugerir isso.

– Não. – Miku riu graciosamente. – Não tem necessidade.

VY2 se aproximou um pouco mais do rosto dela, porém sem ficar ruborizado ou algo assim. A mão dele segurava o próprio queixo e fazia uma careta. Quando ela se deu conta, arregalou os olhos e ficou parada, olhando para ele.

– Yuu..ma...kun?

–..... Ah, eu gostei assim.

Subitamente, ele tirou os fones de ouvido dela, o que a fez ficar surpresa.

– Ei, Yuuma-kun. Me devolve. – Tentou alcançar o fone das mãos dele, mas ele os levantava muito alto.

– Vem pegar! – Pôs a língua para fora.

Os dois começaram a correr pelo saguão. Quando ele ia para a direita, ela ia para a esquerda e vice-versa. Desse jeito, ela nunca iria pegar.

– Ninguém mandou ser baixinha. – Ele rodava os fones com o dedo indicador. Ela estufou as bochechas e desceu de um sofá onde tinha subido, correndo atrás dele novamente.

Ele agarrou a cabeça dela enquanto ela “achava” que corria. Quando ele a soltou, Miku conseguiu agarrar a gravata dele e aproximar seus rostos. Ela estava com uma expressão de raiva falsa.

– Devolve!

Ele apontou para o próprio pescoço e sorriu de canto. Ela piscou e percebeu que os fones já estavam em seu pescoço. VY2 começou a rodar os próprios fones no dedo e começou uma espécie de atuação.

– Gata, eu passaria a ver televisão todos os dias se você passasse no meu canal.

Miku começou a rir. O que ele estava fazendo? Assim, do nada?

– As músicas mais bonitas das rádios estão perdendo é feio para o som da sua risada.

VY2 estava cantarolando, como se as cantadas fossem uma música. Miku entrou no jogo dele e sentou no chão, ainda rindo.

– Gata, eu escutaria a música mais chata do planeta se fosse você quem a estivesse cantando.

Ela já estava com dor no abdômen de tanto rir. Eram cantadas toscas, mas que pareciam cair bem quando ditas por ele.

– Nem o doce mais bem feito do mundo é mais doce que o som de sua voz. Gata, você vai me deixar com diabetes.

– Yuuma-kun. – Ela se levantou do chão, e enxugou o canto dos olhos. As risadas não a deixavam ficar de pé. – Já chega. Eu vou morrer.

– Gata, a vida imita a arte e a arte imita você.

Miku se esticou e pegou o gorro de VY2, só assim ele pararia e prestaria atenção. E foi o que fez. — Onde você aprendeu tudo isso?

– Eu li em alguns livros de piadas. Você gostou? – Ele sorriu em expectativa.

Ela havia gostado, sim. Mas não conseguiu falar nada quando o viu sorrir daquele jeito. Seus grandes olhos verdes estavam presos nos dourados de VY2.

– Miku-san? – Ele sacudiu a mão na frente do rosto dela.

Depois que ela se recompôs, deu um grito de susto e começou a coçar a nuca.

– Mas... Por que tirou meus fones? Todo mundo sabe que eu não gosto disso. – Ela desviou o olhar.

Ele fitou-a sem piscar por alguns segundos. Na visão de Miku, o olhar de VY2 era mais penetrante quando encarado de baixo.

– Eu tirei porque eles estavam te impedindo de sorrir.

Ela lentamente arregalou os olhos.

VY2 olhou para o relógio do hall e, calmamente, disse:

– Você não tem um encontro com os empresários agora?

Ela demorou um pouco para perceber do que ele estava falando. Ou que ele estava falando.

– Ah, sim! Eu tenho que marcar os shows de Natal. O-obrigada por me lembrar, Y-Yuuma-kun. Eu tenho que ir agora. – Ela arrumou a própria roupa e correu.

Parecia muito difícil virar-se e olhá-lo novamente nos olhos. E ela não sabia o porquê.

Ele permaneceu lá parado, olhando-a ir embora. A expressão em seu rosto era serena.

Todo mundo sabe que os fones dos vocaloids têm muitas utilidades. Eles refletem o coração e a alma de seus donos. Se ele está triste, os fones tocarão uma música triste. Se eles estiverem com raiva, eles brilharão. Se ele estiver feliz, então para que usá-los?

.....

Meiko dobrava a esquina entre os corredores para chegar ao quarto de Kaito, mas se escondeu ao ver o moleque visitante, VY2 e Miku saindo de lá. Ela esperou que os três estivessem dentro do elevador e se esgueirou de fininho para dentro. Já eram quase seis da tarde e esperava que ele estivesse dormindo, mas não importava, ela iria acordá-lo assim mesmo.

E foi como pensou.

Kaito estava deitado de lado na cama, de frente para a enorme janela e de costas para a porta. As cortinas azuis estavam fechadas – o que dava um ar sombrio ao ambiente –, e o ar-condicionado ligado. Estava coberto até a cintura e tinha trocado de roupa. Em cima de sua cabeça tinham colocado uma compressa para o olho esquerdo, que agora deveria estar roxo.

Meiko andou até o outro lado da cama para ver seu rosto.

A cabeça estava apoiada no braço direito e o cabelo desarrumado jogado de qualquer jeito pelo rosto o deixava ainda mais bonito. Perto dos olhos ela viu olheiras e um rastro que brilhava descendo pela bochecha, provavelmente ele havia chorado. Kaito não parecia ferido, parecia doente.

Ele começou a se mexer inquietantemente, como se estivesse sonhando, e a fazer expressões dolorosas. Foi aí que ela resolveu acordá-lo. Ela subiu na cama, deixou-o de barriga pra cima com o pé e subiu em sua barriga, colocando todo o seu peso. Kaito engasgou e abriu os olhos assustado.

– Bora, rapaz! Levanta dessa depressão e vai procurar vender suas músicas!

– Que diabos-? – ele tossiu e tentou tirar Meiko. – Sua gorda, sai de cima de mim!

– Não saio até você contar até 20. – cruzou os braços e sorriu largamente.

– O-o quê? – Ele estava sem ar.

– Tick tock você vai morreer~ tick tock Vou colocar seu estômago pra fora~ tick tock. – Cantarolou.

– Haah Haah – ele ofegou. – Saaai!

– Haaa? – Sorriu malvadamente. — Ainda não ouvi você contar! – Ela pisou com mais força.

– Aaaaah! Um, dois, três, quatrocincoseisdezquatorzequinzedezoitodezenovevinte!

Meiko pulou pro chão.

– Acho que – ofegou – nesse ritmo, vou desativar mais cedo que os outros. – Kaito sentou com a ajuda dela.

– Cruz credo, sorvete. Tá parecendo um humano velhote. Você aguentava mais de vinte segundos comigo em cima de você.

– Aaah, talvez seja porque você anda ganhando uns quilos a mais, não acha? – Ele segurou a compressa e fechou os olhos, irritado.

Meiko não pensou em implicar. Lembrou-se do porquê de estar ali. Ele percebeu o silêncio dela e fitou-a com seu olhar quase sem vida.

– O que foi? Por que está aqui?

Ela suspirou e sorriu levemente.

– Não posso mais nem ver o meu melhor amigo? – Meiko se inclinou e beijou a testa dele.

Kaito fechou os olhos novamente.

– É, mas você nunca vem sem ter uma pergunta na ponta da língua. Se for perguntar sobre a briga, saiba que eu-

– Shhh. – Ela tapou a boca dele. – Fala baixo. O que eu vim perguntar é um pouco mais sério.

Ele olhou-a curioso. Estava um pouco desanimado e cansado para responder as mesmas perguntas de novo, mas sabia que com Meiko seria diferente.

– Pode falar.

Ela tirou os fones e pousou-os no criado-mudo. Como eles possuíam o microfone anexado, qualquer pessoa conectada ao sistema poderia ouvir a conversa. E, dependendo das respostas, isso seria um desastre.

– Eu acabei de sair da enfermaria em que a Megurine estava.

Os olhos opacos de Kaito mostravam raiva. Ele suspirou pesadamente, e Meiko tentou contornar essa informação.

– Não se preocupe, ela não me mandou dizer nada para você. É só que... – Piscou várias vezes. – Ela me disse uma coisa relevante, e eu vou fazer uma pergunta direta, relacionada a isso, a você. Ok?

Ele prendeu a respiração.

– Ok.

Meiko sentou na cama de frente para ele e cruzou as pernas. Ele fez o mesmo para lhe dar espaço.

– Você sabia que ela é apaixonada pelo Gakupo?

Kaito levantou o olhar e começou a arfar. Ele sempre soube que uma hora todos iriam saber, que em algum momento ela iria confessar, e ele também seria descoberto, mas o problema não era todos saberem, e sim como Gakupo reagiria e qual dos dois escolheria.

Seu maior medo era esse: não ser escolhido. Não era só o seu medo, mas também o seu pesadelo. Porque ele simplesmente não conseguia mais ver sua vida sem que Gakupo estivesse lá para ele. Ele sequer lembrava como era antes de conhecê-lo. A ideia de ser deixado pela pessoa mais importante para ele era tão aterrorizante que lhe tirava o sono. Talvez seja esse o motivo de seus pesadelos quase todas as noites e de Gakupo ser o único que conseguia acalmá-lo. O que seria dele se ele não gostasse mais dele?

– Por que você está chorando, Kaito? – Meiko enxugou as lágrimas dele com o lençol. Ele continuou ofegante, nem havia percebido quando havia começado a chorar.

– Sim.

Meiko pendeu o pescoço.

– Eu sei disso. Sei que ela o ama. – Kaito respirou fundo, estava tentando tanto se controlar.

O rosto dela tornou-se doloroso.

– E... Foi isso? Esse o motivo da briga?

Kaito virou o rosto, e Meiko sorriu docemente. Por Kaito, Meiko assumia qualquer responsabilidade e personalidade.

– Você também gosta dele?

Ele mordeu o lábio inferior com tanta força que não só o canto estava roxo agora. As lágrimas começaram a cair mais rapidamente, e ele não conseguia mais escondê-las com a franja, já que toda hora tinha que limpá-las com o braço. Kaito se levantou.

Os olhos de Meiko o seguiam enquanto ele andava pelo quarto. Ele passava a mão nos cabelos nervosamente, puxava-os, alisava-os, bagunçava-os.

– Kaito... – ela chamou.

Alisava-os, bagunçava-os, puxava-os.

– Olha... Eu acho que... – Meiko levantou-se e moveu um passo para ir até ele.

Bagunçava-os, puxava-os, alisava-os, ofegava.

– Não pode ser tão mal assim gostar dele.

No mesmo momento, ela se arrependeu de dizer isso. Desviou rapidamente de uma pilha de livros que foram jogados em sua direção.

– Kaito!

– É porque não é você que está no meu lugar! – seu rosto estava uma mistura de risadas com choro. – Eu tento tudo para ele prestar atenção só em mim! Acreditar em mim! Mas ele continua defendendo aquela... – Ele cuspiu no chão.

Meiko estava com as mãos à sua frente para se defender de qualquer outro ataque.

– Eu não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo! – Ele puxou o abajur da tomada. – O que eu estou fazendo de errado? Por que isso está acontecendo comigo? Com a gente? Ele me trata como se todas as noites que passamos juntos não significassem tanto para ele!

– Peraí... Noites? – Meiko saiu de trás da suspensão da cama.

– É. – Ele riu estranhamente e se aproximou lentamente. – Nós temos um caso, isso aí. Ele é meu namorado, e eu o dele.

Meiko piscou várias vezes e não esboçou reação alguma para não irritá-lo.

Kaito olhou para o abajur.

– Meu peito dói tanto. Diga-me, isso é normal? É natural um vocaloid se sentir assim sempre? Principalmente quando olha para a pessoa que ama? Eu estou tão cansado! Cansado de chorar!

Meiko já não sabia dizer se ele falava com ela ou com o abajur. E, novamente, ele jogou o abajur em uma parede.

– Sim, Kaito. Você está cansado de chorar, eu já sei disso. – Ela tentou se aproximar.

– Você entende, ne? Eu poderia vomitar meu coração agora mesmo. Ele está sangrando aqui dentro – Ele ria insanamente, e arranhou seu peito com tanta força que agora saía sangue. – Se ele fizesse mais alguma coisa para me machucar acho que eu enlouqueceria. Você me entende, ne? Não foi culpa minha. Não foi culpa minha. Não foi culpa minha. Faça ele me perdoar! – ele jogou tudo que estava em sua mesa no chão, e começou a quebrar os vasos decorativos.

Quando não sobrou mais nada para quebrar, ela se aproximou hesitantemente.

Ele virou seu rosto para ela de repente, fazendo-a parar. Seus olhos azuis não mostravam raiva, e sim tristeza e desespero. Ela o puxou pelo braço e acariciou cautelosamente seu cabelo. Ele começou a chorar ainda mais e a abraçou.

– Shhh, tudo bem. – Ela fechou os olhos.

– Eu o amo tanto. Tanto, tanto, tanto, tanto. – Ele sussurrava com sua voz rouca pelos gritos, e agarrava a jaqueta dela.

– Sim, eu sei. Kaito, vai ficar tudo bem. Eu estou do seu lado. Vou sempre te apoiar, sabe disso, ne? – Ela sorriu honestamente.

Ele suspirou pesadamente e assentiu. Depois de um tempo, ele parou de chorar. Ela esperou ele estar mais são para fazer uma última pergunta.

– Há quanto tempo estão juntos?

Ele olhou em volta do quarto como se não acreditasse no que tinha acabado de fazer. Piscou várias vezes e seu rosto ficou vermelho de timidez. Meiko achou aquilo no mínimo estranho. Até alguns minutos atrás, ele estava fora de si. Será se Kaito era bipolar?

– Desde... Aquele acampamento.

– O quê? Aquele na América?

Kaito balançou a cabeça.

– Ah... Não tem nem 1 ano. – Ela mordeu o polegar.

Ele permaneceu olhando-a com aqueles grandes olhos brilhantes calorosos (?).

– Mas eles estavam sem brilho ainda agora. – Ela murmurou para si mesma.

– Disse alguma coisa, Meiko? – Ele se levantou e enxugou um pouco mais os olhos.

– Não, não. – Ela sorriu forçadamente. – Eu tenho que ir agora. Vou fazer umas budega ali, umas parada.

Kaito riu fracamente. Meiko ainda ajudou-o a recolher alguns vidros quebrados do chão e, claro, ele se cortou incontáveis vezes. Depois de colocar os band-aids nos dedos dele, ela estava pronta pra sair do quarto.

– Ah, Kaito. – Disse antes de fechar a porta.

– Hm? – Ele tirou sua atenção dos band-ais para olhá-la.

– Acho que você deveria falar com ele. Sei que ele está com raiva, mas às vezes é o jeito pedir desculpas. Mesmo que nada disso tenha sido sua culpa.

Ela não esperou resposta, apenas fechou a porta.

Assim que fechou a porta, Meiko escorregou pela parede até sentar no chão. Abraçou as pernas e escondeu o rosto nelas.

Você confessar o que sente, independentemente de como os outros reajam, não vai alterar seus sentimentos. Se a pessoa te rejeitar, problema dela.

Ela continuava pensando assim, seus sentimentos não iam mudar por saber a verdade agora. Porém, ninguém é feito de ferro e, naquele momento, ela precisava de um momento sozinha.

.....

Miku estava na reunião com os empresários, mas ao mesmo tempo não estava. Eles discutiam sobre os shows de Natal que aconteceriam não só no Japão, mas em vários continentes. Alguns vocaloids iriam para a América, outros para a Europa, Oceania, e a maior parte ficaria na Ásia. Ela estava lá para decidir as cidades e quem iria para onde. Porém, aquele assunto parecia não interessá-la agora.

As capitais modernas não brilhavam tanto quanto os olhos daquele garoto, nenhuma data marcada parecia mais importante do que o que aconteceu hoje, aqueles continentes juntos não eram maiores do que a sensação de bem-estar que o sorriso dele lhe passou, mas aquelas comparações não faziam sentido. Não para os empresários.

– Hatsune Miku-sama. – chamou um deles.

Ela sacudiu a cabeça e parou de brincar com a caneta da papelada.

– Está tudo bem, senhorita? – Uma assistente demonstrou real preocupação.

– Ah, sim. – Ela riu forçadamente. – É que estou um pouco aérea hoje.

Um dos homens ajeitou os óculos. Outro passou a mão em sua cabeça com poucos fios de cabelo e voltou a olhar para os papéis em sua mão.

– Muito bem... – Ele limpou a garganta. – Agora que decidimos as cidades, vamos decidir os vocaloids.

Ela prestou o máximo de atenção possível.

– Está decidido que Yamaha e Crypton devem ficar misturados. As outras empresas podem ou não estar com uma dessas duas. A maioria vai para países diferentes de Yamaha e Crypton.

– De fato, pois há muitos vocaloids. – Ela entrelaçou os dedos na frente do rosto.

– Muito bem, quem você deseja que lhe acompanhe na turnê pela América e pela Ásia?

Miku piscou algumas vezes e sorriu.

– H-hai?

– Senhorita, escolha três vocaloids para acompanhá-la. – A assistente sussurrou em seu ouvido.

– Só três? – Gritou. Os empresários fitaram-na surpresos. – S-Sumimasen.

– Ah, os Kagamine contam como um. – Disse um empresário próximo a ela.

– Eu sei que deve ser difícil, mas... Seja sábia em sua decisão, por favor. – O homem de óculos falou.

– M-mas eu queria cantar ao lado de Meiko-san, e os irmãos Kagamine tem vozes tão lindas e nossas parceiras são incríveis, Gakupo-san tem uma voz esplêndida, eu, simplesmente, não sou nada sem a voz de Luka-san, e também tem... Kaito-kun. – Ela ficou um pouco vermelha. – Os meus duetos com K-Kaito-kun são importantes para mim.

– Poderia deixar a intimidade um pouco de lado? Estou vendo que isso está atrapalhando em sua decisão. – O homem quase careca disse.

– Eu estou tentando! Mas é que todos realmente são talentosos. – Miku quase choramingou.

– Bom, posso sugerir uma combinação? – Uma acionista perguntou e todos se viraram para ela. – Você leva os Kagamine, a Luka e o Gakupo.

What? – Outro acionista escorregou para sua língua. – E Kaito fica aonde? Ele é importante. E Meiko?

Todos começaram a discutir em suas línguas nativas, ninguém mais estava se entendendo.

Miku pensou em várias combinações, mas faltava alguém. Alguém que ela queria levar. Aqueles pensamentos... Ela não conseguia controlá-los, mas a ideia de VY2 ir com ela lhe agradava tanto quanto a de Kaito. Talvez... Até um pouco mais.

– Ne! – Ela gritou e todos pararam de discutir. – O que acham de... Eu, os Kagamine, Kaito e... VY2?

Silêncio por alguns segundos.

– Yuuma? – Uma acionista francesa indagou.

– Roro 66? Ele está na lista dos vocaloids que vão? – O homem de óculos entortou a boca ao falar e começou a mexer nos papéis.

– VY2, Roro 66 e Yuuma são uma pessoa só? – Um empresário qualquer parecia confuso.

– Ah, eu acho ele muito desconhecido. – O acionista americano comentou. – Acho melhor colocá-lo para fazer um só show em Tóquio.

– Tóquio? Ninguém vai comprar ingressos o suficiente se ele não estiver com um famoso. Que tal deixá-lo com Gakupo?

– Não, Gakupo precisa estar com os garotos de Van’Ice. E os garotos de Van’Ice precisam estar com Miku, então...

– Vamos mandar Yuuma, Lily, IA e Gumi para Seoul, o que acham? – A acionista francesa pegou um dos papéis.

– Não! – O homem de óculos bateu na mesa. – Seoul é uma cidade muito importante para mandar esses vocaloids, IA pode ir e Gumi também, mas não traria capital o suficiente levar Roro 66 e Lily.

Miku estava com tanta raiva que se estivesse com seus fones, eles já teriam explodido. Aquelas pessoas ousavam falar daquele jeito de vocaloids tão bons? Lily cantava tão bem, por que estavam desprezando-a? E por que falavam bem de IA só por ser famosa? Essas pessoas só pensavam em dinheiro? E... Yuuma... Só de pensar que falavam assim dele o ódio subia pela sua cabeça e ia até a ponta dos fios de cabelo.

A energia do ambiente começou a oscilar. Todos pararam de falar e olharam para cima.

Miku bateu as mãos na mesa para chamar a atenção.

– Escutem aqui! Eu vou levar quem eu quiser para essa viagem! Eu vou fazer as combinações! Eu decido as melhores cidades! E o Diretor que me perdoe, mas eu demito todos vocês e os mando para o inferno de onde vieram se ousarem me contrariar! E se levantem e peçam desculpas agora mesmo por tudo que falaram dos meus amigos! – ela falou um pouco mais alto na última frase.

Uma lâmpada explodiu e os empresários e acionistas prontamente se levantaram e pediram perdão em uníssono. Depois a viram deixar a sala de reuniões com os papéis dos contratos nas mãos. Quando ela bateu a porta, outra lâmpada faiscou.

Ao sair da sala, deu de cara com VY2. Os papéis "escorregaram" de suas mãos. Ele estava com um sorriso de canto quase imperceptível no rosto. Ela ia começar a juntar os papéis, mas ele levantou a mão como se dissesse que faria isso sozinho. Miku encostou-se à parede.

Seu coração batia tão rápido só de estar ali o observando. Ela, às vezes, se perguntava... Por onde ele esteve todo esse tempo? Era tão estúpida que mal podia se lembrar do dia em que ele chegou à empresa ou o dia em que foi criado. E hoje, se puniu mentalmente por isso.

Ele já estava quase acabando. VY2 não era preguiçoso, embora gostasse muito de dormir. Geralmente, as pessoas ligam essas duas coisas. Ele parecia concentrado. Poderia passar o dia todo assim e não se sentiria cansada de observá-lo. Havia tantas coisas que queria lhe perguntar.

– Então... – Ele disse, de repente. Ela levou um susto e ele riu disso. – Essa parada aí foi você que fez?

– O-o quê? – Sua mão estava no peito.

Ele apontou para as lâmpadas.

– Elas estavam oscilando ainda agora enquanto você gritava com os velhos lá dentro.

– Ah. – Piscou. – Estavam mesmo. Eu nem me importei muito, estava zangada demais pra...

Ela parou para olhá-lo.

– Você ouviu tudo, não foi?

– Sim. – Ele não parecia com raiva ou triste. – Você estava defendendo seus amigos.

Miku ficou com vontade de chorar. Por que ele não se indignava com os insultos? Praticamente o chamaram de “inútil”. O aperto no peito e a vontade de defendê-lo que ela sentiu foram enormes naquele momento. Por que ela ficou mais chateada do que ele com aquilo?

Yuuma estendeu a mão e acariciou o rosto dela. E as lágrimas caíram.

– Obrigado. Por se esforçar por mim.

Ela levou a mão trêmula até a dele em seu rosto. As mãos dele eram muito frias, talvez por isso usasse luvas o tempo todo. Quando ele soltou-a, ela sentiu-se estranhamente sozinha.

– Você disse que queria ir comigo em sua turnê, não é? – Ele pôs as mãos nos bolsos.

Nossa turnê. — Corrigiu. — É a turnê dos vocaloids de Natal. – Pôs as mãos na cintura e sorriu.

Ele encolheu os ombros.

– Olha, talvez seja melhor assim. Eu vou a uma turnê com Lily, Prima e IA. Acho que daria certo essa combinação, IA ajudaria muito na divulgação.

Miku arregalou os olhos.

– Mas por quê?

– Você é mais famosa que nós, e mesmo que acredite que temos talento, os outros vocaloids tem mais a ver com você do que eu e as meninas que falei.

– Você está reafirmando o que eles falaram na sala. – Miku mordeu o lábio inferior.

– Não. Estou dizendo que não quero estragar sua turnê por falta de ingressos. Querendo ou não, há vocaloids que chamam mais atenção que os outros. E esse é o meu trabalho: trazer lucro para a empresa.

– O seu trabalho é cantar! – Disse em tom de sermão. – As pessoas querem ouvir a sua voz, querem vê-lo dançar, não saber se você dá lucro ou não!

VY2 arregalou os olhos.

– Não pense assim de si mesmo. Não deixe que façam a sua cabeça! Você não é uma mera mercadoria, Yuuma-kun. – Miku acabou chorando de novo.

if I hold out my hand

would I change where you're standing now?

just come back to me

Ele puxou-a gentilmente pelos ombros e abraçou-a. Ela não acreditou imediatamente que ele estava mesmo fazendo isso, a vontade que tinha de abraçá-lo era tão grande que não achou que ele faria isso mesmo. Ultimamente, as coisas não estavam indo como ela queria, mas parecia que Yuuma era uma surpresa.

Ela enterrou o rosto no casaco dele, e sentiu o seu aroma natural. Suas mãos procuravam um lugar nas costas dele que não a fizesse querer ficar ali para sempre. E mesmo por cima de tanto tecido, ele era gelado.

leave all you've found

that's keeping your heart on the ground

just come back to me

– Por que você está tão frio? – Ela perguntou sem se desvencilhar do abraço.

– Quando fui criado, houve um erro na incubação e a temperatura do meu corpo caiu para 34ºC. O sistema entendeu como algo normal e até hoje minha temperatura é essa. Como se estivesse com hipotermia o tempo inteiro – Ele riu brevemente. – Por não ser um humano, eu pude viver normalmente com ela. Mas, eu preciso estar sempre aquecido ou posso auto-desativar.

so afraid for love to come around your heart again

when it's the only thing you need

just come back to me

Miku abraçou-o mais forte. E pensar que por um pequeno erro de muito tempo atrás ele não poderia estar aqui hoje. Novamente, se afastaram e ela sentiu um vazio. O estranho é que sempre que pensava em outro homem, ela sentia que estava traindo seu amor por Kaito. Mas dessa vez, não.

– Obrigado de novo. – Ele pôs a mão atrás da cabeça.

– Então... Você vai comigo? – Miku olhou-o esperançosa.

Ele suspirou e olhou para todos os cantos, pensando. Um sorriso se abriu no canto da sua boca.

– Beleza.

Miku sorriu largamente, e os dois saíram dali.

calling out your name

wishing you could do the same

just come back to me

– Espero que goste de viajar de avião. — Ela comentou.

– Eu adoro avião. É maneiro. – Os olhos dele brilharam. – Só viajei uma vez, mas foi malzão que só eu curti. Ficou todo mundo rezando e tremendo.

– Eu não gosto de avião. – Miku apertou os olhos.

– Por que não? – VY2 parou para olhar a reação dela.

– Me sinto insegura. Eles vão muito rápido. E tem muita turbulência – Ela segurou as próprias mãos para não tremerem.

– Não se preocupe. É só você fechar os olhos. Acreditar.

Ela olhou para ele, e ele sorriu.

– E eu estarei sempre lá.

O rosto de Miku ficou rubro e ela não conseguiu dizer nada. Não havia mais nada a ser dito.

whatever it takes

I'll wait until my dying day

just come back to me

.....

21h da noite

Nunca foi tão difícil assim bater em uma porta. Nunca antes foi tão difícil olhar nos olhos de uma pessoa. Nunca foi tão difícil prever o que alguém fará ao te ver depois de uma discussão. Mesmo que talvez você seja a pessoa que mais sofre com tudo isso. Meiko tinha razão, mesmo que não tenha feito nada de errado, você deve pedir desculpas. Kaito ajeitou a roupa que estava usando várias vezes, engoliu em seco várias vezes. Não sabia por que estava tão nervoso, afinal ele poderia não estar no quarto. Respirou fundo e bateu na porta uma vez.

– Não tem ninguém aqui, vou embora. – E saiu correndo.

Porém, parou antes de virar a esquina e olhou novamente para o corredor do quarto dele. Provavelmente ele estava dormindo já que o ar frio saía por baixo da porta.

Voltou até a porta e bateu repetidamente. Alguém lá dentro falou alguma coisa, mas ele não conseguiu ouvir, então bateu mais vezes.

Já vai, caralho! – Gakupo gritou lá de dentro.

Kaito trincou os dentes de medo.

Ele não parecia muito bem-humorado. Péssima hora pra vir. Kaito deveria ter considerado falar com ele no dia em que ele estivesse de bem com o cabelo, abraçando seus ursos (lê-se berinjelas) de pelúcia e soltando arco-íris ao rir e falar. Olhou para baixo e percebeu que ele realmente havia trocado a tranca da porta. Era prata e combinava com a cor creme da porta. Ele tinha prometido lhe dar a chave, mas enquanto não se resolvessem não poderia mais nem olhar na cara dele. Tinha certeza disso.

Prendeu a respiração ao ouvir a porta sendo destrancada. Ela abriu-se lentamente. Kaito ficou um pouco afastado para o caso de ele sair com uma faca. Foi quase isso. Se olhares matassem, Kaito já estaria esquartejado naquele momento. Gakupo estava de cabelo solto. Não estavam bagunçados, mas a franja estava jogada desleixadamente sobre o rosto. Seus olhos estavam semicerrados por causa da luz do corredor e o lápis de olho, borrado. Kaito lutou para não olhar para nenhum lugar além do rosto dele, mas pôde perceber que ele estava sem camisa. Ele gostava de dormir assim.

Gakupo, ao vê-lo, passou a língua nos lábios para molhá-los, e se encostou à porta de braços cruzados. Ele não disse nada, mas Kaito viu em seus olhos que ele não o queria ali. O vocaloid azul não conseguiu encará-lo por tanto tempo, então permaneceu olhando para os próprios pés. Depois de alguns minutos, Gakupo virou-se, pronto para fechar a porta. Kaito rapidamente pôs o pé na entrada e segurou a porta com a mão.

– Não, espera! Me ouve, por favor! – Gritou.

– Ouvir o quê? Você ficou calado. – Ele entrou, e Kaito o seguiu. – Quem disse que você poderia entrar?

Kaito deu meia volta para a entrada do quarto. Uma gota saiu da testa de Gakupo.

– Aff, mas você já tinha... Tsc, esquece. O que você quer? – Ele começou a arrumar a cama.

– Er... – Sua voz tremulou. – Desculpa interromper a essa hora. Mas eu precisava falar com você ainda hoje.

Gakupo jogou as pelúcias com o pé para outro lado do quarto.

– Estou ouvindo.

– E-eu sei que você está com raiva de mim agora. É que ultimamente eu não consigo controlar minhas emoções. Como eu disse, está cada vez mais difícil de conter os meus sentimentos por você.

Gakupo virou de perfil para ele. O chão parecia o quadro mais interessante de todos.

– A-a Luka disse algumas coisas que... – Ele segurou a garganta. Era tão difícil lembrar-se daquelas palavras sem ter vontade de chorar. – Me fizeram sentir que não merecia você e que não gostava de mim de verdade. Ela fez eu me sentir sozinho, e me fez acreditar que nem você seria capaz de me amar. A única pessoa que não me faria me sentir um nada se todos me deixassem. Isso me deixou louco.

Kaito parou de segurar a garganta e soluçou algumas vezes.

– Kaito... – A voz do outro era reconfortante.

– Eu estou aqui para pedir desculpas. Eu sei que você admira a Luka e não toleraria um homem bater em uma mulher. Eu também não, mas eu simplesmente... Fiz isso. Eu traí minha própria honra e o mais importante, a sua opinião. Devo parecer um covarde agora. – Ele enxugou algumas lágrimas grossas que teimavam em atrapalhar a sua fala. – E-eu acho que você deve estar pensando “Não é pra mim que tem que pedir desculpas, é pra Luka”, e é isso que farei. Ja ne.

Ele ia correr dali, mas foi segurado pela camisa. Gakupo o puxou de volta e fechou a porta. Kaito sentiu os braços do outro lhe envolverem em um abraço quente.

– Idiota, não saia correndo assim do nada. Você nem me deixou falar. – Ele passou a mão carinhosamente pelo cabelo de Kaito.

Kaito continuou chorando­ e enterrou a cabeça na curva do pescoço do outro.

– Ah... Posso fazer uma pergunta? – Segurou-o pelos ombros.

– Pode. – Kaito enxugou as lágrimas.

Gakupo soltou-o e pôs as mãos na cintura.

– Por que diabos você está de terno?

– Ah. – Kaito piscou. – É que essa é uma ocasião especial, então eu tinha que vir arrumado e bonito.

– Sinceramente, o que se passa na sua cabeça? – Riu.

– Por quê? Você não gostou? – Choramingou e olhou para a própria roupa.

– Não, não, não. Eu gostei, sim. – Forçou um sorriso. – Mas acho que você fica melhor de roupa padrão.

– Ah, ok. – Sorriu timidamente.

Gakupo parou por um momento e olhou o mais baixo nos olhos com seriedade.

– Não está com raiva de mim? Olha o que eu fiz com seu rosto. – Passou a mão nas feridas e no olho roxo de Kaito.

O garoto estremeceu. Essa lembrança partia seu coração em incontáveis pedaços. Mas resolveu não deixar aquela pessoa preocupada.

– Está tudo bem. A culpa não foi sua pela minha burrice. – Riu fracamente. – E acho que esse roxo ficou estiloso.

– Você é doente, BaKaito. – Gakupo beijou sua testa.

Kaito puxou o rosto de Gakupo e tocou os narizes, quase o beijando.

– Me desculpe. – O mais velho disse.

– Não sei como consigo perdoar tudo que você faz. – Riu. – Acabo sempre pensando que é porque a culpa é minha por amá-lo demais.

Gakupo assumiu uma expressão estranha. Uma mistura de dor com preocupação.

– Não diga isso.

Kaito tomou essa expressão para si também.

– Por que você nunca me deixa dizer que te amo? Ou você me para na hora ou fica com essa cara.

– Ah... – Ele mordeu a bochecha internamente. – É que... É uma responsabilidade. Você chegou tão de repente com a sua declaração naquele dia do acampamento. Eu não estava preparado ainda para amar, e nunca tinha feito isso antes. Ainda não consigo lidar com essa frase.

Kaito sorriu, como forma de dizer que havia compreendido.

– Bom... Tenta dizer. – Ele segurou o rosto de Gakupo com ambas as mãos. — Eu vou esperar até você conseguir.

O outro arregalou os olhos.

Ambos ouviram um barulho baixo vindo de debaixo da porta e olharam para lá. Era um envelope.

Gakupo foi até ele e abriu-o com rapidez. Kaito sentou-se na cama e afrouxou a gravata, esperando curiosamente ouvir sobre o quê era.

– Aqui tá dizendo que os grupos de vocaloids para a turnê de dezembro já foram decididos e serão anunciados amanhã, na sala do Diretor.

– Mas já? Decidiram em uma reunião? – Kaito arregalou os olhos.

– Não foi uma reunião, BaKaito. Foram várias. — Rolou os olhos. — E já tava na hora, são muitos shows e já estamos no fim de Novembro. Temos que começar as viagens logo.

– Hai! – Bateu continência. – Ne, ne. Será se me colocaram com você? – Ele pulou no pescoço de Gakupo.

O outro riu.

– Espero que sim. Ne, ne – Falou, imitando a voz de Kaito. – Quer dormir comigo essa noite?

Kaito pensou por um momento e sorriu largamente.

– Sim! Vamos ficar a noite toda acordados jogando vídeo game. – Levantou os braços e comemorou, rolando pela cama.

Gakupo piscou algumas vezes e bateu no rosto com a mão. Será se a mente de Kaito estava regredindo?

Ele riu de si mesmo.

– Acho que vai ser uma looonga noite.

Com sentimentos deixados

E a crueldade rasgando minhas memórias

Notas finais
Aqui está, pessoas bonitas: http://www.mediafire.com/download/cq60qj78fm55hc7/%5BATM%5D+Arrest+The+Memory+CD.rar Sejam bonitas e ouçam as músicas UvU HEHE Eaí? O que acharam da relação YuumaxMiku? Quero muito saber DX Realmente não sei quando sai o próximo. Desculpem. Mas vou fazer o mais rápido possível.