Arquivo de Crônicas
13 Rossi e a Dicotomia da Vida - Dia 09/12/20
Notas iniciais
Ser brasileiro é ser trabalhador. É ser guerreiro. É ser rico, pobre, branco, preto, índio, o que vocês quiserem imaginar. Somos todos humanos. Independente de segregações que fazem questão de impor por aí. Mas crescemos apaixonados por um esporte. O futebol. É a maior paixão, a maior alegria, a maior emoção de todo um país. Crescemos tendo nossos ídolos. Imaginando ser como eles. Sonhando como crianças. Porque apesar de todas as obrigações da vida adulta, muitos de nós preferem guardar suas memórias de quando eram felizes sem saber.
A Copa do Mundo sempre foi um momento de união, onde todos os povos se encontram. Inúmeras pessoas guardam com carinho suas lembranças desse evento mágico. Lembram-se de pintar as ruas, de vestir a camisa do Brasil, de ver os jogos com os amigos, ou com os familiares, entre tantas situações... O futebol, de certa maneira, reflete a vida. Nos seus maiores extremos como alegria e tristeza, vitória e derrota, sonho e pesadelo.
Todos nós desejamos sempre ser vitoriosos, mas nem sempre isso é possível. A história de 1982 me ensinou isso. Naquele ano, a seleção brasileira era conhecida por praticar um “futebol de outra galáxia”. Com estrelas como Falcão, Sócrates, Éder, entre tantos. Os resultados adquiridos pelo selecionado era, de certa maneira, um sonho acordado para os torcedores. Todos se viam como crianças, só imaginando um final feliz. Diferente da Itália, que era duramente criticada pela imprensa e torcedores. Jogando mal, o público acostumado a ver seus jogadores como pintores, cantores de ópera, que davam verdadeiros espetáculos em campo, parecia viver um pesadelo.
Durante a primeira fase, se de um lado, o Brasil massacrava seus adversários, aplicando sonoras goleadas, como 4x0 na Nova Zelândia e 4x1 na Escócia, fazendo todo o mundo sambar, a Itália ainda vivia esperando dias melhores. Com três empates nas três primeiras rodadas, eliminou Camarões e se classificou pelo saldo de gols, e ia enfrentar na segunda fase duas seleções sul-americanas: a Argentina, de Maradona e o Brasil de Zico.
Não era uma tarefa das mais fáceis. Era como dar de cara com a morte. Os dois melhores times da América do Sul, no momento. Contra Maradona, o conjunto se valeu ao talento. Vitória dura por 2x1. Dois dias depois, veio o confronto entre Brasil x Argentina. Se a Itália recebeu vaias, os canarinhos foram aplaudidos de pé. Vitória brasileira por 3x1 e a vantagem do empate. Para a Itália, não havia dúvidas: era vencer ou vencer. E não só o Brasil. A crise italiana se estendia a imprensa, que escrevia inúmeras mentiras sobre a equipe.
De todos os jogadores, havia um entre os mais criticados. Paolo Rossi. Convocado por ter a confiança do técnico Enzo Bearzot, tinha sido considerado culpado por participar de um escândalo de manipulação de resultados. Sem encantar no mundial, e sendo substituído em todas as partidas, ele esperava alcançar o topo do mundo como redenção pessoal. A partida contra o Brasil podia ser a última chance.
Ele deslanchou justamente nesse momento (infelizmente, para nós, brasileiros). Parecia um filme infanto-juvenil. Logo aos cinco minutos, após receber um cruzamento de Cabrini, Rossi cabeceou pra redes. Itália 1x0. O Brasil não desanimou. Ao contrário, foi buscar o empate, e conseguiu pouco tempo depois, em toque de Sócrates, após um passe magistral de Zico. Jogo empatado, com dez do primeiro tempo. Rossi, porém, estava num dia iluminado. De forma inteligente, cortou um passe de Cerezo pro meio e, ao invadir a área, fuzilou. Itália 2x1, aos 25 minutos.
No segundo tempo, o que, para uma equipe, era pra ser um filme de suspense virou uma epopéia dramática. Mesmo assim, a certeza de final feliz dos brasileiros aumentou nos mesmos 25 minutos do segundo gol italiano. Após boa jogada de Júnior pela esquerda, Falcão recebeu, dominou e mandou a bola com toda a força. Só faltou furar a rede, tamanho o impacto. O principal era o resultado. Jogo empatado novamente, 2x2.
Creio eu, que, se todos os torcedores pudessem, teriam escolhido esse momento para congelar o tempo. Resultado positivo, seleção classificada, tudo dando certo. Porém, como diria o filósofo, a realidade é a única coisa que é real. Mesmo que busquemos vários artifícios, não se pode mudar o passado. E talvez pelo resultado ser tão inesperado, o futebol sempre mexe com as emoções, independente da época.
Seis minutos após o gol brasileiro, Rossi, adquiriu para sempre a alcunha de “carrasco”, ao marcar seu último gol na partida, aproveitando uma bola lançada na frente. O Brasil ainda buscou desesperadamente o empate, e conseguiu uma cabeçada incrível de Oscar, aos 43 minutos, mas o goleiro Zoff defendeu em cima da linha. Não havia mais nada a fazer. Ao final da partida, os torcedores brasileiros, incrédulos, choravam pela eliminação. Os torcedores italianos, chocados, choravam de alegria pela classificação.
Era a mais perfeita dicotomia do que é a vida. Vitória e derrota, alegria e tristeza, sonho e pesadelo. Rossi levaria a Itália ao título mundial de 1982 ao derrotar Polônia na semifinal e Alemanha na decisão. Fez gols nas duas partidas. Para mim, que sempre fui um obcecado pela história esportiva, só fui conhecer essa história em 2006. E só em 2020 fui ver o jogo completo pela primeira vez. Demorei 38 anos. Mesmo conhecendo a história, foi impossível não sentir um vazio no peito. Por tristeza, por estar com meu pai ao meu lado e entendendo essa emoção ao lado dele, por entender que a vida nem sempre é como desejamos.
Rossi infelizmente nos deixou hoje. Sua morte é notícia no mundo todo, mesmo com as causas ainda desconhecidas. Já há comoção em seu país. O mundo do futebol volta a entrar em choque. Paolo se vai como herói italiano e um homem respeitado no Brasil. Seu carisma e carinho ajudaram a limpar sua imagem por aqui. E principalmente, ajudou a dar um exemplo de que o tempo cura todas as feridas.
Descanse em paz, carrasco. E obrigado por me ensinar um pouco sobre a vida. Talvez um dia, nós brasileiros, tenhamos a tão sonhada revanche contra você aí no céu.
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