Arquivo de Crônicas
14 O Preço da Soberba e Arrogância Palmeirense – Dia 07/02/21
Notas iniciais
Soberba. De acordo com o Dicionário Aurélio, a palavra é um substantivo feminino que significa um comportamento excessivamente orgulhoso. E tem como sinônimos: arrogância e presunção.
Arrogância. Pelo mesmo Aurélio, qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros ou orgulho ostensivo. Sinônimo de ofensividade e soberba.
Para todos os times do futebol brasileiro, essas palavras sempre surgiram como um grande sentimento de dirigentes, jogadores e torcedores do Palmeiras. A certeza de vitória em vários jogos, a atitude de olhar inúmeros adversários com nariz empinado sempre foi motivo de inveja. E a forma maior de se mostrar superior, era com o sarcasmo e a ironia. Piadas como “O Corinthians não tem Libertadores” e “Copa Toyota não é Mundial” foram caindo pouco a pouco. O tempo e as conquistas foram determinando o tempo de validade. Mas ainda existem algumas dessas, como “O São Paulo não tem Copa do Brasil” e “O Palmeiras não tem Mundial”.
Essa segunda frase é utilizada em comemorações de vários clubes. São Paulo, Flamengo, Santos, Corinthians, Atlético-MG, Internacional, Grêmio... Tudo isso para alfinetar um dos times grandes do país, e também demonstrar o protesto pela escolha de grandes multinacionais, como Parmalat e Crefisa, que historicamente sempre fizeram questão de escolher o alviverde como clube-propaganda.
A tradição do Palmeiras sempre foi grande. Não é a toa que é o maior campeão do Brasil, com dez Campeonatos Nacionais, três Copas do Brasil, inúmeros Campeonatos Paulistas e duas Libertadores. Isso sem contar os vários torneios amistosos, destacando-se a Copa Rio de 1951.
Disputada um ano após a Copa do Mundo perdida pelo Brasil frente ao Uruguai, a Copa Rio foi um torneio que prometia encerrar a ressaca brasileira pela derrota. Tendo como participantes os clubes do Vasco da Gama, Nacional-URU, Nice-FRA, Sporting-POR, Áustria Viena, Juventus-ITA e Estrela Vermelha, o Palmeiras se sagrou campeão e, pela imprensa na época, foi consagrado campeão do mundo. Fato que jamais foi confirmado pela FIFA.
Com os títulos de Santos em 1962 e 1963 e São Paulo em 1992 e 1993, as piadas iniciaram. O alviverde lutou. E buscou inúmeras vezes ganhar a Libertadores. Depois de uma dolorosa derrota em 1961, a segunda decisão veio somente 38 anos depois, em 1999. Comandado por Luiz Felipe Scolari, já campeão em 1995 com o Grêmio, e tendo o aporte da Parmalat, o Palmeiras foi derrotando seus adversários com raça e determinação. E muito suor. A facilidade veio só nas oitavas, com duas vitórias tranquilas sobre o então campeão Vasco da Gama.
Nas quartas, um clássico estadual. Dois jogos contra o Corinthians. Vitória por 2x0 na ida. E derrota por 2x0 na volta. Nos pênaltis, brilhou a estrela de “São” Marcos, que defendeu duas cobranças e classificou sua equipe. A fase semifinal teve um clássico continental. Brasil x Argentina. Palmeiras x River Plate. Após uma derrota de 1x0 na ida, uma atuação de gala de Alex rendeu o 3x0 e a classificação. Classificado para a decisão, e tendo uma final de Campeonato Paulista no meio da Libertadores, fizeram o óbvio. Priorizaram a decisão continental, e abdicaram do estadual.
Derrotado por 1x0 pelo Deportivo Cáli na ida, a volta teve ares dramáticos, ao estilo dos grandes campeões. O placar foi aberto por Evair, aos 20 do segundo tempo. Zapata, aos 25, empatou, também de pênalti. Com 31, Oséas voltou a marcar, para a alegria do torcedor alviverde. Nos pênaltis, a vitória por 4x2 credenciou o Palmeiras pra Copa Toyota, contra o Manchester United. O jogo inteiro foi para o alviverde. Com muitas oportunidades perdidas. Mas o futebol sempre teve seus caprichos. Aos 38 do primeiro tempo, num cruzamento de Giggs, que Marcos falhou, Keane estava na segunda trave pra marcar. Os 45 restantes não foram suficientes. Derrotado na final para a alegria dos rivais.
Foram 21 anos a mais tendo que aturar a piada. “O Palmeiras não tem Mundial!”. Gritavam torcedores e jogadores de vários rivais. Os torcedores tinham coragem de responder. E respondiam com xingamentos, para provocar brigas ainda maiores. Mas os dirigentes alviverdes sentiam na alma essa brincadeira. Com isso, veio uma briga diplomática com a FIFA e seus presidentes. A do reconhecimento da Copa Rio. Nem Joseph Blatter, nem Gianni Infantino, fizeram questão de atender. Pra entidade máxima do futebol mundial, torneios como a Copas Intercontinental e Toyota, mereciam tal chancela. Já outros, como a mesma Copa Rio e os Torneios de Paris e da Venezuela, por serem amistosos, merecem o selo de Intercontinental.
Vendo que não haveria solução, era buscar mais uma vez a conquista da América para tentar o Mundial de novo. Vale enumerar vários fracassos: 2000, derrotado na final. 2001, derrotado na semifinal. 2009, derrotado nas quartas de final. 2013, derrotado nas oitavas. 2017, derrotado nas oitavas. 2018, derrotado na semifinal. 2019, derrotado nas quartas.
Precisou que um técnico português, como já ocorrera com o Flamengo em 2019, chegasse para que o time encaixasse. O trabalho de Abel Ferreira é incrível. Na Libertadores, a garra e determinação, davam mostras de que algo estava por vir. Delfín-EQU e Libertad-PAR foram atropelados. As semifinais repetiram 1999. River Plate. Diferente do primeiro título, o Palmeiras atropelou no primeiro jogo. 3x0 e cabia mais. Na volta, a surpresa. Com a certeza da classificação, e o nariz empinado, o time recuou. Resultado: um sufoco que quase eliminou o alviverde. 2x0 para o River.
Os adversários prefeririam muito mais que fosse uma final argentina. Mas, se o Papa é argentino, Deus é brasileiro, já declamado por João Paulo II e Francisco I. E se de um lado o Palmeiras venceu, do outro, o Santos derrotou o Boca. E tinha confiança de sobra e a torcida de basicamente todo o estado de São Paulo. Era o Palmeiras contra todos, já dizia seu técnico. E, com inteligência, malandragem e esperteza, aproveitando-se da expulsão do comandante santista, o Palmeiras marcou o gol que todos os torcedores desejavam ser o gol da salvação. O gol que levaria a tentativa bem-sucedida da conquista do mundo. O gol que mudaria a história alviverde.
Com o título consumado, a decisão do Mundial contra o Bayern de Munique, era uma questão de tempo. Infelizmente, a soberba contra River Plate já estava de volta. Ao olhar o adversário mexicano, todos os jogadores já pensavam: “Fácil. A final é questão de tempo.” Não foi bem assim. O Tigres conhecia o esquema, havia estudado e sabia o que fazer. Neutralizando as jogadas palmeirenses, a eliminação foi consumada com uma bobagem de Luan, que cometeu um pênalti infantil. Gignac, artilheiro máximo do clube mexicano, que já havia brilhado em 2015, ao derrotar o Internacional da semifinal da Libertadores, fez mais uma vítima brasileira.
Até o fim da partida, o Palmeiras até tentou alguma coisa, mas quase nunca levou perigo. E com a linha de impedimento bem treinada, os mexicanos souberam usar a pressa dos brasileiros a seu favor. Com faltas, fazendo cera e se defendendo em bloco, conseguiram segurar o resultado. E se classificaram para a decisão do Mundial. Após a partida, vieram junto dos memes, a famosa piada: “O Palmeiras não tem Mundial!” Gritam alegres os torcedores rivais. Para os palmeirenses, ainda não chegou a data de validade dessa brincadeira. Talvez chegue um dia, talvez nunca.
Mas a verdade anunciada, é que, desde a Libertadores, o Palmeiras não se preparou para essa eliminação. Não é um vezame. Mas a soberba e a arrogância foram fundamentais para a derrota. Que seja uma lição a equipe. Sem humildade, não se ganha campeonatos mundiais.
Fale com o autor