Arquivo de Crônicas

15 A História Escrita nas 500 Milhas - Dia 31/05/21


Notas iniciais
Crônica escrita em homenagem a quarta vitória de Hélio Cadtroneves em Indianápolis

Diz a lenda que, em Indianápolis, é a pista, não o piloto que decide a vitória. Hoje, mais uma vez, se provou que é uma verdade. Ao vencer pela quarta vez, Hélio Castroneves entrou no panteão dos grandes do automobilismo mundial, junto de referências como AJ Foyt, Rick Mears e Al Unser. O beijo recebido de Mário Andretti e os cumprimentos de mecânicos, pilotos e familiares mostraram que o brasileiro de fato havia consolidado sua referência no automobilismo americano.

Quando chegou na antiga CART, em 1998, Hélio tinha uma trajetória de sucesso nas categorias de base. Após passagem pelo Kart, foi vice-campeão da Fórmula 3 Sul-Americana em 1993, rumou para a Europa, onde foi terceiro colocado na Fórmula 3 Britânica por dois anos consecutivos. A passagem para os Estados Unidos se deu para a Indy Lights, onde chegou ao vice-campeonato em 1997, perdendo para o compatriota e amigo Tony Kanaan.

Contratado pela Bettenhausen para o ano seguinte, já mostrou seu cartão de visitas com um segundo lugar em Milwaukee e um sétimo em St. Louis. Em 1999, a mudança foi para a equipe Hogan, onde conseguiu uma pole em Miami, um segundo lugar na mesma St. Louis e um quinto em Chicago. A sorte resolveu sorrir para o brasileiro, um ano depois. Contratado pela equipe Penske após a morte do canadense Greg Moore na última corrida do ano em Fontana, o brasileiro estreou em 2000 com vitórias em Detroit, Mid-Ohio e Laguna Seca.

Da primeira vitória, uma imagem marcou pra sempre sua carreira. Ao celebrar a primeira posição, Hélio subiu no alambrado para comemorar com a torcida. Por ser a época de lançamento do filme Homem Aranha, o apelido foi inevitável. E não só o piloto assumiu, como a torcida passou a chamá-lo pelo personagem. Mesmo que a CART quisesse coibir, o bom-senso prevaleceu e o brasileiro serviu de escudo pro companheiro Gil de Ferran ganhar o campeonato duas vezes.

2001 foi um ano de poucas vitórias na CART, onde mais uma vez, serviu como escudo para Gil, mas em compensação, veio a primeira vitória em Indianápolis, com direito a pódio triplo do Brasil, com Gil em segundo e Kanaan em terceiro. Foi uma corrida bem tensa, com parada de 50 minutos por causa de chuva e tudo. Foi preciso muito controle emocional para esvaziar a mente e correr depois.

Hélio provou que sabia agir como um piloto experiente. Administrou sua vantagem para Gil com brilhantismo e venceu. A subida no alambrado de Indianápolis ficou eternizada na narração de Luciano do Valle, na Band.

“Esse é o seu momento, olha aí... E ele sobe... É de encher os olhos...”

Um ano depois, a Penske estava migrada em definitivo para a IRL. E Hélio era um dos favoritos, com a imprensa perguntando se ele venceria duas seguidas. A corrida foi estratégica, com momentos de tensão e poucas paradas nos pits. Buscando economizar combustível, o brasileiro era atacado por Paul Tracy, da Andretti/Green quando houve um acidente. O brasileiro reduziu a velocidade e foi ultrapassado. Polêmicas a parte, a bandeirada foi dada para Hélio. E veio o bi em Indianápolis. Mesmo se esquivando de todas as perguntas da imprensa sobre a polêmica, o brasileiro tinha a orientação de sua equipe que sabia que tudo daria certo. Nem mesmo uma investigação de três meses foi suficiente. A vitória foi confirmada.

Mesmo que as vitórias se sucedessem, o brasileiro não tinha a regularidade necessária para ganhar o título da Indy. Em 2002 e 2008, vieram dois vices, com derrotas para Sam Hornish Jr e Scott Dixon. Veio 2009 e a história que merece um filme: campeão da Dancing With The Stars em Los Angeles, Hélio é acusado de sonegação fiscal e é preso em Miami. Algemado, muitos chegaram a dizer que era o fim. Foram 40 dias de sofrimento até o veredicto que lhe declarava inocente.

Após chorar no retorno à Indy, em Long Beach, chegou Indianápolis. Pole-position, o brasileiro não tinha o melhor carro. Não tinha a maior velocidade. Mas tinha o coração dos grandes campeões. Mesmo caindo para sexto até à volta 150, foi ganhando posições nos boxes e em relargadas, para acelerar rumo à terceira vitória. Ao chegar no pódio, veio tudo. A tensão, as emoções negativas até desabar no segundo grande choro do ano. Tudo ficara pra trás. Era a terceira vitória nas 500 milhas.

Mesmo que não fosse vencedor do campeonato, Hélio chegou perto de uma quarta vitória em outros anos: 2014, perdeu para Ryan Hunter-Reay e 2017, para Takuma Sato, que estava de motor Honda, o mesmo motor que lhe deu a vitória hoje. Não era uma corrida onde havia favoritismo do piloto como em outras ocasiões. Depois de vencer em Iowa 2017, o brasileiro rumou para outros desafios, como a IMSA pela Penske e seguiu tentando vencer em Indianápolis.

Após a dispensa no começo do ano, Hélio assinou com a Meyer Racing para seis corridas. Eram apenas os ovais. Teoricamente, faria figuração, mas nunca deve-se subestimar o destino. Largando entre os dez primeiros, o brasileiro soube usar a estratégia e unir com sua experiência para vencer pela quarta vez. Ao sair do carro, foi cumprimentado por todos. Não só pelos integrantes de sua equipe, mas de várias adversárias. Pilotos como Power e Pageneud, mecânicos, chefes de equipe como Tim Cindric e Mário Andretti reverenciavam-no.

A festa lembrou um pouco a vitória de André Ribeiro no Brasil em 1996, apesar de serem situações totalmente diferentes. Hélio agora entra definitivamente para o Panteão dos heróis da Indy, e das lendas do automobilismo mundial. No Brasil, torna-se definitivamente o maior pós-Senna. Suas quatro vitórias o credenciam ao rol das lendas nacionais e o principal modelo de sucesso para quem decidir escolher o automobilismo americano ao invés do europeu.

Diz a lenda que, em Indianápolis, é a pista, e não o piloto quem decide a vitória. Hélio Castroneves provou hoje, mais uma vez, que é uma grande verdade. Se havia perdido antes, quando tinha mais chances, hoje, quando teoricamente não tinha nenhuma, faturou. Entrou para a história. E marcou seu nome para sempre no automobilismo.