Arquivo de Crônicas

16 Memórias de Uma Conquista - Dia 01/06/21


Notas iniciais
Crônica especial de 10 anos do Título do Vasco na Copa do Brasil em 2011

As grandes dúvidas que pairavam nas cabeças de muitos vascaínos sobre a final da Copa do Brasil de 2011 eram: “E se chegamos até aqui pra nada?” e “Depois de tanto lutar, vamos ser vices de novo?” Não era fácil pensar de forma otimista. Derrotas, eliminações para equipes mais fracas e a famosa fama construída pelos vices para os rivais faziam com que desconfiássemos da equipe. Se havia algum torcedor confiante no título após o jogo de ida em São Januário, tudo isso se dissipou após a goleada sofrida para o mesmo Coritiba, pelo Brasileiro, alguns dias antes da grande decisão. A tensão não acabou até o começo da partida.

Minha história como torcedor do Vasco se inicia em 2001, na final do Carioca. Talvez o jeito mais antagônico de virar torcedor. Com uma derrota na final estadual pro maior rival. Dois anos depois, acompanhei o título Carioca ao lado do meu pai, mas não tenho lembranças fortes. Em 2004, o choro mais triste. Por perder o mesmo estadual. Já em 2006, a única recaída: frustrado com a perda da Copa do Brasil pro Flamengo, comentei com meu pai que iria ser flamenguista. “O Vasco sempre perde. Por que vou torcer pra esse time que nunca vence?” A resposta foi a maior lição de minha vida esportiva: “Você pode torcer pelo time que quiser. Mas lembre que torcedor verdadeiro fica do lado do time nos momentos bons e ruins.” Ele calou minha raiva e minha alma. Desde então, nunca mais ousei pensar em querer virar a casaca.

Quarta-Feira, 08 de Junho de 2011. Acordo em meu quarto com o barulho do despertador do meu celular. Era mais um dia de aula que teria. As matérias não ajudavam. Química, Matemática e Biologia. Aulas de exatas quase nunca me animavam. A única diversão era na científica, mais pelas conversas que eu tinha com o professor que pela dinâmica da aula em si.

Tomo banho, como meu café e começo a caminhar para a escola. Minha mente vai direto para a grande decisão. Lembro-me de todos os sentimentos que tive com o Vasco naquele ano. Empolgação. Desilusão. Expectativa. Cautela. O erro de acreditar que o time não seria tão bom. As polêmicas de bastidores que ajudaram o time a encaixar. A derrota na decisão da Taça Rio para o Flamengo. As goleadas que devolveram a alegria de torcer...

Chego na escola. Diferente de várias situações que fiquei acompanhado dos meus amigos, dessa vez, preferi me isolar na sala. Pensando no jogo. Não demorou muito até a aula começar. Como o trajeto da minha casa a escola demorava 25 minutos a pé, me ajeitei para chegar antes de 07:30, o horário de início das aulas. Verdade seja dita: mesmo que digam que estudar de manhã seja bom pois o cérebro está mais relaxado, é um saco acordar cedo.

O sinal toca. Volto minha atenção para os professores, mas nós intervalos de aula, acesso a internet do celular para checar novidades. Os times não tem ninguém contundido. Ouço o rádio na sala pelos meus fones. Várias emissoras reprisam os gols da campanha vascaína em suas chamadas para a partida. 6x1 no Comercial. 2x1 no ABC. 3x0 no Náutico. Um início que não foi arrasador mas ajudou a chegar nas quartas de final com poucos sustos.

Passo pelo resto das aulas pensando nas matérias para não surtar com toda a questão do jogo. Ao voltar pra casa, caminhando como sempre, volto a pensar na campanha do clube. O primeiro empate com o Atlético Paranaense em 2x2 na Arena da Baixada. Fora complicado. Recordo-me de achar que a volta reservaria mais uma eliminação. Mas o drama ficou reservado para a partida de São Januário. No segundo tempo, quando Madson lançou Nieto, aumentou meu sentimento de frustração. Ele chutou por baixo de Fernando Prass e colocou na rede, fazendo o coração de quem vos escreve, ter o primeiro grande susto na competição. Voltava o fantasma das eliminações como Sport em 2008, Corinthians em 2009 e Vitória em 2010.

Eu estava assistindo à partida de um bar, perto da escola, com alguns amigos, e deixei o local para voltar pra casa. Caminhei bem rápido, sonhando com um empate. Bastou chegar e entrar no quarto dos meus pais para assistir o resto do jogo, que a sorte pareceu virar a favor do cruzmaltino. Eram 34 minutos. Fágner cruzou da direita e Elton, substituto de Diego Souza, subiu mais alto do que a zaga rubro-negra pra meter no ângulo esquerdo e empatar a partida. O nervosismo se afastou do peito. Com a classificação consumada, veio a tranquilidade. O time estava nas semifinais, fato celebrado na sexta, com meu professor de Educação Física.

Chego em casa e cumprimento meu pai. Depois de descansar do sol forte das 13:00 e almoçar, reafirmo o convite do dia anterior: “Chegou o dia. Vamos ver a final?” Ele me respondeu da forma mais serena possível. “Com certeza. Mas na sala. Não vamos atrapalhar o sono da sua mãe.” Típico de pai. Mas entendia. Até hoje acordo de madrugada para acompanhar eventos esportivos e, se ele não faz questão de assistir comigo, respeito a escolha dele.

Depois de lavar a louça, cada um foi pro seu canto. Eu, mexendo no computador em meu quarto. Ele trabalhando em seu notebook na sala. Me inteirei de mais novidades da final. O Coritiba não teria Tcheco e Geraldo, porém Rafinha, Davi e Bill eram jogadores perigosos. Mesmo que Dedé e Anderson Martins passassem confiança do lado cruzmaltino. Logo depois, passei o dia tentando me distrair. Algumas estórias originais e edições de vídeos ajudaram, mas quando voltei a deitar na cama, minha mente voltou pra semifinal.

O jogo menos tenso de toda a campanha foi a volta na Ressacada, contra o Avaí. Após um empate de 1x1, em São Januário, o Machão da Gama jogou a partida mais espetacular de todo o campeonato. Com gols no primeiro tempo, aos três minutos, contra de Revson, e aos 34, de Diego Souza, só foi preciso segurar o resultado. Essa vitória deu tanta confiança na equipe que faço aqui uma confissão: não assisti o segundo tempo, tamanha a certeza de que a final era questão de tempo.

Voltei a realidade quando escutei minha mãe me chamar pra lanchar. Coisa simples, um hambúrguer caseiro. Depois, lavei a louça de novo e troquei de roupa. E um detalhe importante: sem a camisa do Vasco. Sempre me considerei pé-frio. Todas as vezes que usei uma camisa, o clube perdeu. Por precaução, e imaginando que o time venceria, resolvi levar a camisa pro sofá e a deixei pendurada lá. Não usaria pra dar azar. Mas queria-a junto pra beijar o escudo quando vencesse.

A partir das 21:30, depois de dar boa noite pra minha mãe, chamei meu pai. O olhei nos olhos e senti que ele estava mais neutro do que eu. Ele já tinha vivido tudo do Vasco. Títulos Brasileiros, Estaduais, Libertadores, Mercosul... Eu só tinha acompanhado o Carioca de 2003, e tinha um trauma forte: aquela final de 2001, que chorei a derrota nos ombros do meu pai. Analisando hoje, talvez tenha sido ali que se iniciou minha pé-frieza. Porque depois de 2003, houve vice carioca em 2004, vice da mesma Copa do Brasil em 2006, eliminações para Baraúnas e Gama em 2005 e 2007, rebaixamento de 2008... Muitas derrotas. Me faltava um título com meu pai e aquela decisão poderia ser uma oportunidade de “consertar” a memória de dez anos antes.

Os 20 minutos de espera até o início da partida não foram tão lentos. A vitória de 1x0 no jogo de ida, como dito, dava confiança. Aliás, deu até o domingo anterior. Coritiba x Vasco se enfrentaram pelo Brasileiro e, a equipe coxa branca deu um sopapo de 5x1. Se antes, eu dizia: “O Vasco vai ganhar, é certeza. Seremos campeões.” Depois daquilo, vivia me repetindo “calma, calma, vai dar certo.”

O apito soou e a decisão começou. Minhas emoções ficaram incontroláveis a partir daí. Creio que, se Spielberg fizesse o roteiro da decisão, não seria tão incrível. Talvez isso seja mais uma prova do porque o futebol é tão apaixonante. Logo aos 12 minutos, em uma jogada rápida de Diego Souza, e após cruzamento de Éder Luis, Alecsandro já chutava rasteiro para abrir o placar. Na minha casa, vibração silenciosa. Mas efusiva. Vasco 1x0.

A reação do Coritiba foi cruel. Aos 28 minutos, Davi lançou Jonas, que cabeceou para Bill. O atacante chutou com força e estufou as redes, empatando o jogo. Suspirei. O empate ainda dava o título pro Vasco. Já aos 44, a virada coxa branca veio com um chute forte de Léo Gago, que Fernando Prass deu rebote e Davi empurrou pro gol. Coritiba 2x1 e fim de primeiro tempo. Dei um tempo pra ir no banheiro e beber água. Talvez, percebendo que aquela partida era importante pra mim, meu pai me acalmou e disse que acreditava que reempataríamos. Significou muito pra mim, pois mostrou que ele também queria esse momento comigo.

Melhor premonição que essa, não dava. Se eu sempre me considerei pé-frio, ele era o sortudo da família. No campo esportivo, pelo menos. Com 10 minutos do segundo tempo, Éder Luis chutou de longe. A bola fez uma curva à lá Roberto Carlos, enganou o goleiro e entrou. 2x2. Meu pai esticou a mão pra nos cumprimentarmos e seus olhos me diziam o mesmo que seu sorriso: “Acabou, é nosso.” Queria eu que fosse fácil como ele pensava. Mas não era. Aos 21 minutos, William incendiou o jogo metendo uma bomba no ângulo do Vasco. 3x2 e mais uma vez, o nervosismo se fez presente na minha cabeça. A cada ataque adversário, meu coração ia até a boca e voltava.

Aos 41 minutos, veio o lance que me enlouqueceu de vez. Em um cruzamento pra área, Fernando Prass soltou uma bola fácil e Bill se aproximava. Naquele instante, mandei a razão pra outro lugar e falei: “pega, pega, pega, pega...” O goleiro vascaíno conseguiu segurar antes do adversário. Logo depois, as câmeras de TV registraram uma imagem impactante. Felipe e Diego Souza, já substituídos, estavam no banco do Vasco sem querer ver o jogo e rezando muito. Eu também fiz isso. Se o Coritiba ia pra frente, eu fechava os olhos. E orava muito pra bola não entrar. Pedia a proteção divina para que viesse a conquista. E só assistia os lances do Vasco.

A cada instante que se passava, quando observava a tela, eu olhava pro relógio e imaginava que sairia outro gol do Coritiba. 43... 44... 45... “Cinco minutos de acréscimo, é muita coisa.” Pensei quando vi a placa. 46... 47... “Tira daí. Chuta pra frente” Em um ataque perdido pelo Coritiba. 48... “Agora. Faz que acaba, Bernardo!” Chance desperdiçada pelo Vasco. 49... Estou com as mãos em posição de reza e querendo fechar os olhos de novo. Falta para o Coritiba. Até o goleiro vai pra área. Vejo o lance com o coração batendo forte. Após confusão na mesma, Rômulo dá um chutão pra frente e afasta o perigo. O relógio bate 50... No que vejo o árbitro apitar, sinto um alívio que rapidamente é substituído pela alegria. Pego a camisa que estava estendida no sofá, e, segurando-a, falo “É campeão. É campeão.” Ao lado de meu pai, que também ficara satisfeito com o título. Juntos, pulamos e festejamos a vitória. Era um momento que precisávamos ter como pai e filho. Uma festa relacionada com o futebol. Uma alegria genuína que ficou evidente no nosso abraço. Mesmo que ele dissesse que não se importasse, que não torcesse de forma fanática, o sentimento que tive nesse abraço foi o que mais guardei desse dia. A alegria que tivemos eu jamais me esqueci. Foi especialmente honesto.

Após ver a entrega da taça, pude dormir feliz. Já no dia seguinte, nem esperei chegar na escola que comprei o pôster da conquista. Já a camisa do Vasco ficou embaixo da blusa da escola. Até brinquei com alguns amigos que zoações não eram permitidas. Era o meu momento. O sorriso ficou até o fim do dia. Pois era merecido. Não há sensação melhor que ver seu time conquistar um título. Sensação essa que espero ter de novo um dia, apesar de considerar pouco provável. O Vasco é um time que me orgulho em ser torcedor, e espero que esses dez anos da conquista da Copa do Brasil, sirvam como exemplo de que ainda somos grandes. Que ainda podemos voltar ao topo. E que ainda não desistimos de torcer.