Arqueira perdida
16 Um dia especial.
Notas iniciais
Dois dias depois...
Will já estava de pé, queria acordar Hanna, mas a deixou dormir mais um pouco, afinal era seu aniversário. Passados mais ou menos uma hora Hanna acordara assustada.
— Will porque você não me acordou?! Já está tarde, temos que começar a andar.
— Não te acordei porque, bem, é seu aniversário, então pensei em te deixar dormir mais um pouco.
“Que lindo da sua parte” Pensou Hanna em um tom um pouco sarcástico pro seu gosto, tinha gostado de dormir mais um pouco, então lhe ocorreu que deveria agradecer o bom gesto do arqueiro, e também por que eu queria lhe fazer uma pergunta.
— Muito obrigada Will – tentava por pra fora seu tom mais sério possível.
— A não, lá vem...
— O que?! nem falei nada!
— Conheço esse tom de voz, vai logo pergunta.
“Hmm, foi mais fácil do que pensei.” Pensou por mais alguns instantes e finalmente conseguiu achar as palavras certas.
— Bem, você ainda não me disse onde estamos indo.
— Aah, claro, sabia que você iria perguntar mais cedo ou mais tarde... Sabe você me lembra um pouco a mim mesmo quando era mais novo, costumava encher meu mestre de perguntas e só agora percebi o quanto isso é chato.
— Mas você ainda não respondeu minha pergunta, ele costumava fazer isso também?!
Agora ela conseguira irritá-lo, conhecia como ninguém suas expressões convivendo apenas três meses com ele, se bem que ela nunca pensou nisso, já se fazia três meses que se conheciam, mas pra ela pareciam anos.
— Não, ele não costumava fazer isso.
— Então... Onde estamos indo?
— Você não conhece, já estamos quase lá praticamente, acho que mais dois dias de viajem bastam, é um lugar onde existem várias pessoas como você.
E agora uma expressão surgia no rosto de Hanna, Will também conhecia suas expressões, e sim o mesmo pensamento lhe ocorrera, parecia que se conheciam há anos.
— Como eu?
— Sim, quero dizer não exatamente, filhos de deuses também, mas nenhum com poderes que chegam ao seus pés. Olha, é um lugar maravilhoso, com várias pessoas diferentes umas boas outras nem tanto...
— E qual o nome desse lugar?
— Acampamento-meio-sangue, um lugar para pessoas com dons. E já que chegamos a esse assunto tão rápido, tenho que dizer-te algumas regrinhas
— Ah não, odeio regras.
Uma das coisas que Will adorava em Hanna era isso, seu certo desprezo pelas regras, assim podemos dizer, como ele mesmo também não gostava. Havia muita coisa para explicar e ele não sabia por onde começar, então lhe veio um aperto no coração, daqui a mais ou menos dois dias ele não poderia mais ver Hanna. Ficou tão absorto em seus pensamentos que esquecera que tinha uma pirralha esperando explicações então continuou.
— Desculpe-me, onde estávamos?
— Você me ditaria regras.
— Ah sim, pois é. Primeiro: você não deve em hipótese alguma contar de quem é filha, isso se resolverá no seu primeiro jantar. Segundo... Hanna escuta isto é importante.
— Desculpe passou uma mosca e me distraí.
— Isso não é brincadeira! Agora escute. Como ia dizendo, não diga de quem é filha, no jantar isso irá se esclarecer. Segundo: Fique sempre alerta a tudo e a todos, como sei que você é, e terceiro: você deve continuar sozinha quando chegarmos.
— O QUE?
— Isso mesmo, não posso penetrar nas barreiras mágicas do acampamento então você deve passar sozinha, não, não vou deixar você a deriva. Quero que pegue isto.
Ele lhe entregara uma pequena bolinha prata e quando encostou-a em sua mão uma escritura em latim apareceu: aperire clausurae que ela traduz imediatamente para:
— Abro no fecho. O que significa isso?
— É bastante simples, se você gira-lo duas vezes para esquerda ele se transforma em um arco, vamos lá experimente.
Fazendo o que o arqueiro pediu, Hanna gira o pomo em sua mão duas vezes para esquerda, no momento não acontece nada de interessante, mas então dois segundo se passam e duas asas transparentes aparecem em torno do pomo, com o tempo elas ganham tamanho e forma. então de repente em suas mãos um arco surge, mas era tão bonito que ela ficou maravilhada.
Era como qualquer arco recurvo comum, só que ao se puxar sua corda flechas feitas de ferro estígio se materializavam e no instante que a corda era solta levemente a flecha desaparecia.
— Mas... O que é isso?
— Um pequeno presente de seu tio. Ele gostou muito de sua habilidade com arco e flecha.
— Não isso, quero dizer isso.
Então novamente ela puxa a corda e a flecha de ferro estígio se materializou, Will observou por alguns instantes e falou.
— Ah, isso, é uma flecha especial, foi feita com ferro estígio, você deve conhecer esse rio, ele fica nos domínios de seu pai.
— Sim, sei que rio é. Agora, como isso volta a ser aquela bolinha? Por que prefiro usar o meu bom e velho arco.
— É simples. – Ele falou com um riso brincalhão no rosto, como se estivesse gostado do comentário. – é só dar um impulso pra frente que ele volta a forma de "bolinha"
Quando Hanna fez isso o arco e flecha tornou-se um pequeno pomo prateado. Suas pequenas asas se demoraram batendo um pouco, mas logo se encolheram.
— Tenho mais uma coisa pra te mostrar.
— O que? – Uma grande animação correu o peito de Hanna, se aquele era seu presente de aniversário do tio, imagine o do pai.
— Seu pai, pra poder deixar a arma mais poderosa ainda, acrescentou uma espada, sim é possível ter uma espada escondida ai. Basta você gira-lo duas vezes para a direita.
Novamente fazendo o que Will disse ela o gira duas vezes para a direita, as asas tornam a se abrir, então em um único movimento se unem uma com a outra e vão aumentando de tamanho.
Onde deveria estar às asas vê-se uma lâmina completamente preta, sua empunhadura continha uma caveira envolta em flores e em baixo se via o pequeno pomo prateado, tão lindo quanto o arco, porém inútil nos olhos de Hanna, ela não sabia empunhar uma espada muito menos lutar com uma, ficou desapontada de seu pai lhe dar um presente daqueles, sabendo que sua filha prefere arco e flecha.
— Sei o que está pensando, seu pai não devia te dar uma espada, mas aonde você vai tem que saber manejar uma, é a arma preferencial, não que o arco não seja de grande ajuda, mas em um combate mano a mano você não teria a menor chance com um arco.
Hanna ainda olhava perplexa para a espada, não sabia como torná-la novamente em pomo, só que queria descobrir sozinha, uma ideia veio à cabeça ela segurou a haste da espada com firmeza, então com a outra mão procurou o pomo que ficava na ponta, quando tocou no mesmo a espada voltou ao normal, ainda estava desapontada com seu pai por aquilo, mas deixou de lado.
O fato de ter um arco e flecha tão lindo varreu a espada de sua cabeça.
— Vamos? Já é tarde, quero chegar nesse acampamento o quanto antes.
E dando um sorriso para Will montou e seu cavalo e o deixou lá sentado um pouco absorto em seus pensamentos, ela já tinha os seus para se preocupar.
“É acho que ela não se importa tanto assim que eu vá deixá-la quando chegarmos.” Então com esse triste pensamento montou em Puxão e começaram a andar. Ele tinha esquecido uma coisa, só não sabia o que era, até que um bom tempo de caminhada o lembrou.
— Hanna, ainda tem o meu presente.
Se virando espantada ela havia notado que o arqueiro ainda a acompanhava e se sentiu envergonhada por isso. Estava tão animada com seus presentes que se esquecera que Will a deixaria quando chegasse ao acampamento.
— Will não precisava.
Meio desapontada quando viu o que ganhara Hanna tentava dar o seu sorriso mais cativante pra ele, até que não aguentou mais e teve que perguntar.
— Ta desisto, pra que é isso?
Em sua mão havia um colar com uma folha de carvalho ouro, Hanna vira a mesma folha no pescoço de Will, porém a dele era prata.
— Você não é uma aprendiz reconhecida pelo reino de Araluen, então não pode ter uma folha de carvalho de bronze que é a marca de um aprendiz, tão pouco pode ter uma de prata que é para os arqueiros formados, então pedi a Gilan que fizesse uma de ouro, para que você se recordasse do tempo em que foi minha aprendiz.
— Uau. – Disse ela impressionada. – É o melhor presente do mundo Will!
Com um sorriso no rosto Hanna desce do cavalo e puxa Will e lhe dá um forte abraço, quando se distanciaram um do outro ela vê uma pequena e tímida lágrima escorrendo no rosto do arqueiro. Então ela olha pra ele com seus orbes cinza e diz finalmente tentando não chorar também.
— Fico feliz que tenha gostado tanto assim, achei que iria achar clichê da minha parte!
— Você está brincando né?! Vindo de você, isso não poderia ser clichê nunca.
E com aquelas ultimas palavras os dois montaram em seus cavalos e seguiram rumo ao acampamento.
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