Arkhé - Perseguidos
2 Uma pequena pausa para pechinchar um livro
Notas iniciais
Chegamos a frente do colégio e saímos de lá rapidinho.
Agora seria a hora em que eu normalmente falaria “Tudo bem, eu fico por aqui, você segue seu caminho, a gente se separa e todo mundo fica bem. Não foi um prazer conhece-lo e espero nunca mais te ver". Por que eu não fiz isso? Tinha um problema. Qual era o problema? Havia homens de terno na esquina, não sei exatamente como perseguidores se vestem, mas acho que eram eles. Tive certeza disso quando o garoto parou bruscamente e voltou pelo mesmo caminho, quase me derrubando.
—Ei!
—Vamos! Por aqui! – Ele pegou a minha mão e me puxou.
—Para onde estamos indo?
—Não tenho a menor ideia.
—O que?!
—Relaxa, nós vamos escapar.
—Como você tem tanta certeza?
Ele não respondeu, percebi que ele estava com tanto medo quanto eu. Ah dane-se, eu tinha que ajudar ele, mas era por um motivo totalmente egoísta que fique claro, eu queria escapar, mas ele estava comigo, então se salvaria também, eu não podia fazer nada quanto isso. Era hora de assumir o controle.
—Por aqui! – Viramos uma esquina a esquerda. Pessoas estavam vindo pela direita – Vamos entrar aqui!
—O que? Mas...
—Confia em mim!
Entramos em uma loja de velharias. Tinha centenas de teias de aranha lá, não sei se fazia parte da decoração, ou se o velho que estava no caixa é que não limpava mesmo.
Uma pausa para uma breve descrição do velho: Devia estar na casa dos 60, 70 anos; cabelos brancos, usava óculos de grau retangulares e tinha os olhos azuis mais vivos que eu já vi na vida, pareciam os olhos de uma cobra. Não gostei dele. Tudo bem, voltando.
—Querem alguma coisa meus jovens?
—Não obrigada – Respondi.
—Tem certeza? Parece que andaram se “exercitando” bastante não? Ham... cof cof. Não se preocupem, eu sou velho mas entendo das coisas.
Eu e o garoto nos entreolhamos, do que exatamente aquele velho estava falando? Meu olhar baixou para nossas mãos e percebi que ainda estavam juntas, e devíamos estar bem corados e suados por causa da luta e da corrida/fuga... Ai meu deus, o que exatamente aquele velho estava achando que tínhamos feito?
—Ahn, taa legal. – Ele soltou minha mão. Deve ter percebido o que o velho estava imaginando.
Era melhor eu voltar a me concentrar em nos salvar, seria um melhor uso da minha concentração do que... aquele garoto.
—Seguinte, vamos esperar aqui por uns cinco minutos, eles estão passando agora do outro lado da rua nos procurando, quando saírem nós nos mandamos, até lá é só não ficar perto das janelas nem da porta.
—Certo. Você é muito boa nisso não é?
—Em que? Como assim?
—Em fugir eu digo, você conta o tempo, posição do inimigo, deve até ter uma estratégia de fuga eu aposto.
—Você não?
—Sim, mas, é que eu não esperava isso de uma garota como você. E eu estou um pouco em desvantagem já que não conheço essa área mas...
—Uma garota como eu? Você nem me conhece! Não sabe nem sabe meu nome! Aliás, eu também não sei o seu!
—Ah. Eu sou....
—Então meus queridos, não vão comprar nada? Que tal esse livro? Filosofia fundamental! Esse é um livro de qualidade!
—Sério? – Honestamente? O livro estava caindo aos pedaços. O garoto pegou o livro e o folheou. Caramba, se esse velho tivesse chegado só um pouquinho depois eu não precisaria mais ficar me referindo a ele como “o garoto”.
—Quanto custa? – Eu não acredito que “o garoto” estava realmente pensando em comprar aquele livro, será que ele era cego? Ou então tão burro que caiu naquela propaganda barata do velho?
—50 Reais.
—Ah, tinha achado até interessante, mas pelo preço não vai dar para eu comprar.
Pelo menos o preço do livro tinha aberto os olhos daquele idiota. Isso! Achei um apelido melhor que “o garoto”, “idiota” combinava muito mais com ele.
—Mas você não gostaria de ver alguns outros produtos, deve gostar de mais algum.
—Desculpe, tinha me interessado somente por esse.
Espera, ele estava....
—Posso fazer por um preço menor então, 40 reais.
—Ah não, continua muito caro.
Ele estava sim, o idiota estava pechinchando por aquele livro velho!
—35 reais e não se fala mais nisso.
Não, é sério isso? Eu não ia muito com a cara do “idiota”, mas precisava livrar ele dessa. Olhei para o meu relógio.
—5 minutos, vamos.
—20 reais e negócio fechado.
O que? Aquilo estava realmente acontecendo?
—Não sei...
—Bom então é melhor eu já ir andando, como minha amiga disse temos que ir.
—Eu vendo! Eu vendo! Negócio fechado meu jovem!
O velho entregou o livro ao “idiota”, agora idiota ao quadrado, ele guardou na mochila e deu o dinheiro. Saímos da loja em seguida.
—É sério que você comprou esse livro velho?
—Gosto de filosofia. E achei que negociei bem, aliás obrigado, o fato de pressionar ele para irmos embora foi uma boa jogada.
—Eu não falei aquilo como jogada nenhuma, ainda acho que você fez burrice, eu falei aquilo porque realmente tínhamos que ir, agora estamos atrasados.
—Relaxa, um tempinho a mais não vai ter problema.
—Não, cada segundo conta e.... Pare.
—O que?
—Estão vindo na nossa direção.
—Como você sabe disso?
—Vamos por ali. – Atravessamos a rua na direção oposta aos perseguidores e começamos a correr.
—Aonde estamos indo?
—Tanto faz, desde que seja longe deles.
Ele assentiu.
—Volta. Volta, volta, volta. Eles estão a nossa frente!
—O que mas...
—Vem!
Viramos outra esquina, mas não tinha mais jeito, eles estavam por todo lado, tinham nos cercado. Parei de correr.
—O que foi? Já cansou garota? – Ele falou debochando.
—Não – Arreganhei os dentes.
—Então vamos, temos que continuar.
—Não adianta, eles já nos cercaram.
—O que? Não, nós podemos...
—Não perca seu tempo, acredite em mim quando eu digo: sem saída – Podia sentir todos eles vindo na nossa direção, nunca imaginei que fossem tantos.
— Ok então. – Ele começou a arrombar a porta do que, ao que parecia era um prédio abandonado.
—O que você está fazendo?
—Já que não podemos fugir, vamos enfrentá-los.
—Olha eu não tenho certeza disso, você pode não saber, mas eles são muitos e....
—Acredite, eu sei que são muitos, mas já passei por coisa pior.
—Não sei não...
—O que foi? A menininha ficou com medo?
Ah agora ele tinha ido longe demais.
—O que? – Dei um tapa na nuca dele, o idiota teve a audácia de sorrir — Eu estava me preocupando com você, todo fracote, enfrentando esse pessoal.
—Ah sério? – Ele arqueou as sobrancelhas – Então façamos uma aposta, quem derrubar mais ganha.
—Feito! E como exatamente planeja ataca-los? Você está em desvantagem numérica para sair dando golpes de kung-fu por aí, sem falar que eles provavelmente tem armas.
—Nós também temos. – Ele abriu a mochila e mostrou uma arma preta enorme, nunca liguei muito para armas, não sei modelo, série ou calibre, então a descrição da arma será essa mesmo: uma grande arma preta.
—Essa é uma carabina semiautomática M4 feita sob encomenda, tiros precisos e rápidos, roubei da empresa do meu pai.
Então ele também era um ladrão! E pelo visto sabia mais sobre armas do que eu.
—E a minha?
Ele fez uma careta misturada com um sorriso, droga, não podia ser coisa boa.
—Bom, eu tenho essa. Uma pistola Taurus PT 100, bom, ao menos parece ser, eu nunca usei e não tem balas, funciona totalmente por circuitos, e boa parte está danificado. Mas você ainda tem a minha arma de choque, pode usá-la!
Agarrei a pistola branca que ele me estendia, assim que a toquei percebi que havia vários fios soltos, alguns cortados, talvez eu pudesse conserta-la. Ou não.
—Haha, armas de choque são para pequenas distâncias, até eu conseguir atingir alguém, já estarei morta. E a arma de choque não é mais sua, é minha agora.
—Bom, então não use-a e perca a aposta. – Ele sorriu, idiota.
—Eu dou um jeito. Vamos, é melhor bolarmos um plano, temos 7 minutos.
Então fomos arrombar a porta do prédio.
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