Arkhé - Perseguidos

15 Quem precisa de vídeos quando se tem "substância"?


Notas iniciais
Não sei muito bem o que dizer sobre esse capítulo, acho que reação vai ter que vir de vocês.

Passos suaves faziam barulho no chão de madeira. Tentei sentir e ver como ele era mas uma pontada na cabeça me impediu. Ouvi o barulho das molas quando ele sentou na cama. Podia sentir a respiração dele quando chegou mais perto de mim. E eu estava total e completamente apavorada.

Senti a venda sendo tirada de mim e arregalei os olhos quando vi quem as tinha tirado. Era Alex. Fiquei paralisada. Não era exatamente essa para ser a minha reação a julgar que eu precisava de ajuda para sair dali e tudo mais, mas acho que não pensei bem nisso por que na hora em que o vi lembrei de como eu estava vestida e.... Isso não ia acabar bem.

—Ahn, eu... Será que... Enfim – Disse ele todo desconcertado e eu franzi as sobrancelhas.

Ele tirou a mordaça meio sem jeito. Tudo bem. Vejamos as opções: Eu estou com uma “roupa” (Isso pode ser considerado roupa?) ridícula, estava como uma completa inútil amarrada nessa cama, e o Alex teve que vir me ajudar, mas... bom... eu ainda tenho meu orgulho.

—Se você der um riso sequer.

Ele comprimiu os lábios em um sorriso.

—Sério? Que eu saiba não sou eu que estou amarrado a uma cama. Mas se quiser eu posso ir embora.

—Primeiro: Eu estou acorrentada, não amarrada como você estava – Ele franziu a sobrancelhas quando disse isso mas ignorei – e caso não saiba é bem mais difícil tirar. Mas vá em frente quero ver.

Ele pegou uma chave suíça no bolso e ficou de joelhos na cama para alcançar a ponta da cabeceira onde estavam as correntes, um tempo depois eu já estava livre.

—Sério? Nem um obrigado?

Revirei os olhos.

—Espera. Mas então você era o comprador?

—Comprador? Ah, você deve estar falando do cara inconsciente do lado de fora.

—Como você sabia que eu estava aqui?

—Não sabia. Fui pego por uns caras da máfia que trabalha nesse restaurante, eles iam me entregar para o Complexo mas eu escapei antes, e o homem que estava do lado de fora me viu então eu dei um soco na cara dele e entrei nesse quarto e achei você que... – Ele me olhou de cima a baixo – Aliás, o que aconteceu com você?

Ruborizei. Procurei olhar para qualquer lugar que não para ele.

-Ahn. É que... Nem eu sei direito para falar a verdade. Eu voltei para a mesa como tínhamos combinado e então só lembro de acordar aqui com essa roupa e acorrentada na cama, e uma mulher dizendo que eu tinha que fazer o que o comprador mandasse, tentei sair daqui e ai ela me amordaçou e me vendou e então você chegou. Basicamente. Foi isso.

—Você chama isso de roupa? – Foi a única coisa que ele disse.

—Não. Para falar a verdade, se for considerar quantidade eu tenho mais agora do que antes. Mas isso com certeza não pode ser considerado como roupa. – Disse envergonhada. – Eu sou uma inútil, simplesmente.

—Como assim? Você não é...

—Sou sim. Eu pensava que sabia me cuidar sozinha, mas não sei. Me sequestraram na rua com uma facilidade impressionante. Eu não faço a menor ideia de como vim parar aqui e ainda preciso da sua ajuda para sair.

—Ei. Tudo bem que convenhamos que a parte de não saber como veio parar aqui é um pouco para amadores. – Dei um soco no ombro dele – Agora vem a parte em que eu te elogio, calma. Não foi com facilidade que te sequestraram na rua como acha, você deu um trabalhinho pro cara acredite em mim.

Dei um meio sorriso.

—Então como saímos daqui? – Disse ele saindo da cama.

—Então onde tem uma roupa decente para eu vestir, por que eu não vou sair por aí assim?

—Por que não? Eu estou adorando ver você vestida assim pra variar, nunca imaginei que fosse o tipo de garota que curtisse essas coisas, mas quem sou eu para julgar.

Olhei acusatoriamente para ele e fui procurar alguma coisa para vestir. Devia ter em algum lugar. Os saltos ficavam fazendo barulho no chão, depois de um tempo aquele tuc, tuc, tuc começou a irritar e eu tirei os sapatos e joguei para longe. Juro que não vi onde estava mirando, mas quase acertaram em Alex.

—O que eu fiz agora?

—Existe. Desisto. É incrível, não tem nada mais para vestir aqui.

—Aqui pode pegar o meu blazer.

—Você não tinha perdido quando os caras te deixaram inconsciente?

—Como você sabe... Deixa para lá. Eu roubei de um cara qualquer aí, ele não deve nem notar. – Disse me estendendo o blazer.

—Preferia outra coisa, mas isso é melhor que nada.

—Certo. Vamos sair daqui. – Disse ele indo em direção a porta, girou a maçaneta mas ela não abriu, tentou mais algumas vezes até conseguir quebrar e o puxador cair no chão.

—Ótimo. Muito bem.

—O que mais você queria que eu fizesse?

—Deixa para lá. Tem como arrombar a porta?

—Não. É de metal, sei que não parece, mas não sou tão forte a esse ponto. Só se você abrir a tranca.

—Como eu... Ah certo. – Me concentrei e tentei sentir a tranca e abri-la. Mas tudo o que senti no lugar foi uma dor de cabeça tão forte que me deixou tonta. Cambaleei para trás e Alex pós a mão nas minhas costas para me apoiar.

—Tudo bem?

—Sem condições de abrir a tranca também – Disse recuperando o equilíbrio e indo para longe dele. – Alguma opção para o seu lado avatar?

—Não. Meus poderes estão falhando. O que? – Disse ele quando o encarei — Não é tão simples assim controlar os elementos.

—Certo. Então como saímos daqui?

—Eu vou pensar em alguma coisa.

Enquanto Alex ficava indo de um lado pro outro tentando pensar, eu andava pelo quarto olhando melhor as coisas, parei em um canto curiosa com um pedaço de metal que tinha na parede quase no teto.

—Ah meu deus.

—O que?

—Tem uma câmera aqui!

—Como?

—É!

Puxei uma cadeira e subi em cima para ver melhor. Mas era uma câmera, 100% de certeza que era.

—Ok. Tudo bem. Não tem microfone. Então a partir de agora só temos que ter cuidado com o que fazemos, não é tão complicado.

—Certo nós...

—Boa noite. Agradecemos a sua escolha comprador! Eu sou a supervisora e estou ao seu dispor. O senhor gostaria de alguma coisa para melhorar a noite? A garota está fazendo tudo o que o senhor manda? – Uma voz ressoou pelo quarto, eu conhecia aquela voz, era a daquela mulher assustadora da prancheta.

Alex olhou para mim sem saber o que fazer.

—Visando a privacidade não temos como ouvir o que falam então se precisar de alguma coisa disque zero no telefone na parede, ele tem um linha direta com o atendimento e somente isso. – Eu juro que só reparei naquele telefone agora, como eu não tinha visto aquilo antes? — Se fazer um vídeo, informe ao atendimento e ativaremos o som e gravaremos tudo. — Eu e Alex só ficamos olhando um para o outro depois dessa, não sabíamos bem o que dizer. – Vimos o pequeno incidente com a maçaneta mas não se preocupe as portas são trancadas por timer, elas vão se abrir quando o seu tempo com a garota acabar, claro que nós sempre damos um tempo extra caso ela relute um pouco. E se estiver com pressa nós também temos como abrir manualmente quando você tiver terminado. Gostaríamos de avisar que temos proteção em cima da mesa e desejamos uma ótima noite.

Pisquei algumas vezes para processar o que tinha ouvido.

E se a gente ligar para esse atendimento e pedir para eles liberarem as portas? – Disse.

Alex pegou o telefone e fez o pedido, isso foi o que atendente falou:

—Senhor, você quebrou a maçaneta, então só tem duas opções: pode esperar o timing da porta, que deve durar um pouco mais de duas horas, dependendo do seu pedido. Deixe-me ver, foi Premium, então estendemos o horário padrão de duas horas para quatro ou cinco, isso depende do quarto também. Ou então podemos passar o seu caso para a supervisora, mas, de um amigo para outro, ela gosta de um pouco de safadeza, entende? Substância. Duvido que vá deixar você sair se não tiver um pouco de diversão nesse quarto para ela assistir. Eu vi a garota que tá nesse quarto, aproveita cara.

—Eu... Não tenho palavras para isso. – Disse.

—Então... Basicamente, ou nós fazemos daqui a duas horas ou talvez até cinco e saímos ou nós fazemos agora e saímos agora. – Alex disse atônito.

Dei um passo para trás.

—Você só pode estar de brincadeira se acha que...

—Relaxa. Eu nunca... Eu e você... Não acho que...

—Certo. Concordamos em algo então. Como vamos fazer?

—Poderíamos fingir. – Disse ele depois de um tempo.

—E como, exatamente, você acha que faremos isso?

—Não deve ser difícil. A gente vai para baixo do lençol, joga algumas roupas no chão e sei lá.

—Essa é realmente sua brilhante ideia? Nenhuma outra? Estou aceitando sugestões.

—Olha, aqui não tem janelas. Tampouco tubos de ventilação como nos filmes. A não ser que queira sair pela privada no banheiro, a única saída é a porta e só tem uma forma de faze-la abrir.

Suspirei. Isso não ia, repito, não ia, dar certo.

—Pense em tudo como uma grande atuação. E o melhor de tudo, só nós dois vamos saber que ela existiu. – Disse sorrindo, ele realmente achava que aquela era uma boa ideia?

—Nós dois e a mulher assustadora você quer dizer.

—Bom, ela é o público a que queremos agradar.

—Meu deus. Agora virou filme pornô.

—Não seria nada mal na verdade.

No ímpeto, peguei um travesseiro e joguei na cara dele.

—Calma é brincadeira. – Disse vindo mais para perto de mim.

—É bom que seja.

—Muito bem. Preparada para sair daqui? O filme começa em 3, 2, 1 – E então ele sussurrou no meu ouvido – Ação.

Ele me deitou na cama gentilmente, mas eu continuava olhando feio para ele. Quando puxamos as cobertas acima de nossas cabeças, ele falou:

—Sério. Realmente não dá. Eu aqui tentando fazer o meu papel e você me olhando desse jeito sexy tá difícil. Eu mereço um aumento de salário. – Disse sorrindo.

—Idiota! – Dei um soco fraco nele mas começamos a rir mesmo assim. — Ok, e agora?

—O que agora?

—A ideia foi sua gênio. O que fazemos agora?

—Sei lá. A gente pode jogar algumas roupas para fora da cama, algo do tipo.

—Alex. A coisa está meio complicada para o meu lado se você ainda não percebeu.

—Eu hein, se esse é o problema eu tiro. – Disse ele e tirou a camisa, ainda que com um pouco de dificuldade já que estávamos deitados.

Eu sei que eu não deveria ter olhado, mas enfim, ninguém é de ferro. Ele tem tanquinho! Sério. Tudo bem definido. Mas. Enfim. Esquece. Ele é um idiota.

Alex jogou a blusa para fora da cama de modo teatral.

—Pronto. Resolvido.

Revirei os olhos.

—Então agora... Nós só esperamos?

—Acho que sim.

—Como assim “acho que sim”? O plano é seu.

—E o que você espera que eu faça?

—E eu que tenho que saber? Sei lá, a ideia foi sua e a gente tem que fingir bem, por que eu estou a fim de sair daqui!

—Todos queremos, queridinha.

Ficamos calados por um tempo.

—Você acha que dá para ver a diferença? Sei lá que a gente só está deitado um do lado do outro? Acha que dá para reparar?

Ele ponderou por um minuto.

—Talvez se eu..,

Ele se apoiou na cama com um cotovelo e então se jogou em cima de mim, ele se apoiando com as mãos na cama. Era como se ele estivesse fazendo flexão, mas eu estivesse em baixo. E eu não sabia ao certo se aquilo era bom ou ruim.

—Me pergunto agora por que eu fui falar aquilo. Ia ser tão melhor se eu tivesse ficado calada...

—Mas você estava certa, temos que fazer isso direito para conseguirmos sair daqui.

—Ok então essa é uma boa hora para você treinar sua resistência, você inventou isso agora aguente. Se você flexionar esse braço um milímetro sequer....

—Ah é? – Ele levantou as sobrancelhas – Deu para me ameaçar agora? O que você vai fazer então?

—Eu estou com a vantagem caro amigo.

—Que é qual exatamente?

—A posição perfeita para te chutar em um lugar critico caso você não siga os meus termos.

—Ok me convenceu. Nem um milímetro sequer mais baixo.

Ficamos um tempo só olhando um para o outro, sem dizer nada. Aqueles olhos verdes perseguindo os meus. Me peguei pensando como seria se ele... Me livrei do pensamento antes de terminar. Idiota, idiota, idiota. Repeti para mim mesma só para lembrar.

—Acha que já deu? – Eu perguntei.

—Ah ainda bem – Disse ele e se jogou de lado, deitando na cama esparramado.

—Tá, e agora?

Alex olhou ao redor e seus olhos pararam-no telefone. Ele se levantou e discou zero no telefone e começou a falar com o atendente:

—Ei cara, você tinha razão, essa garota é incrível viu? – Revirei os olhos – Mas eu acabei de me lembrar que tenho um compromisso e preciso sair agora, agora mesmo. Estou muito satisfeito com o serviço e tudo mais, mas será que tem como ver se pode abrir a porta?

—Você é aquele tipo que faz tudo em seis minutos e com as próximas esperando né? Conheço bem esse tipo, garanhão. A supervisora tá reclamando aqui no grupo do whats que vocês fizeram tudo embaixo do lençol e ela não teve nem como dublar os gemidos. – Alex se segurava para não rir — Mas ela vai abrir as portas, tem outros casais querendo usar esse quarto.

—Novamente, eu não tenho palavras para isso. – Disse atordoada. – Ah, fala que eu preciso de roupas também!

Ele revirou os olhos .

—Obrigado cara. Ei, manda trazerem umas roupas aqui pra garota também.

—Pode deixar meu chapa. Espero que tenha gostado, volte sempre!

—Ah, com certeza... – Disse desligando o telefone.

—Que não vai voltar nunca mais. – Completei. — O atendente virou seu novo melhor amigo, foi? Quando vão começar a compartilhar segredos e traumas de infância?

—A gente tava combinando de fazer isso da próxima vez que eu vier aqui. – Disse ele rindo.

—Ah claro.

Esperamos alguns segundos e então ouvimos um clic. Alex foi na frente e só fez empurrar a porta que ela abriu e no chão tinha um pacote, ele pegou e abriu.

—Para você – Disse jogando para mim e indo pegar a camisa no chão.

—Finalmente! Roupas!

Era um vestido florido simples, vesti por cima do corpete, e tirei todo o resto, calcei uma pantufa que tinha no banheiro e saímos de lá, talvez um pouco mais apressados do que o normal.

Quando já estávamos na rua, começamos a rir, muito, muito mesmo.

—Com tantas outras formas da gente sair daquele lugar, é sério que a gente foi escolher aquilo? – Alex falou rindo.

—A ideia foi sua. Você que ficou todo animado em fingir fazer um filme e blá blá blá. Eu acho que colocar alguma coisa em cima da câmera poderia ter dado certo do mesmo jeito.

—Ei mas funcionou, não funcionou? E com aquela mulher maluca que parece ter enjoado de red tube, ansiosa por “substância”, quem sabe se ia dar certo ou não?

Revirei os olhos.

—No final das contas eu ainda fiquei sem jantar.

—Bom. Sempre deve ter uma lanchonete aberta 24h em algum lugar por aí.

—Alex.

—Oi?

—Aquilo nunca aconteceu. Foi um sonho. Um devaneio maluco seu. E se você contar para alguém eu vou negar até a morte e antes disso mato você primeiro.

—Vai ser nosso segredinho – Disse rindo e eu acabei rindo também, não consegui resistir.

Notas finais
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