Arkhé - Perseguidos
16 Adoro levar banhos de tinta, tanto quanto amo me vingar de quem fez isso
Notas iniciais
Capítulo 16
Cheguei em casa por volta das 10 da manhã, meus pais não estavam nem aí para mim como sempre, mas ainda assim queria que eles tivessem brigado comigo, ou ao menos se importado. De qualquer forma subi as escadas e entrei no meu quarto, a primeira coisa que fiz foi fazer uma ligação de denúncia, fiquei com um certo trauma daquele “restaurante”, e queria denunciar assim que saímos de lá, mas Alex me lembrou que ninguém atenderia, mas agora a esse horário deveria ter ao menos uma pessoa lá.
Demoraram a atender, mas minha denúncia anônima foi feita. Alex achava que não iam fechar o restaurante por causa da máfia que trabalhava por lá, mas por mim aquele lugar seria demolido, completamente, e reduzido a pó. Claro que não pensei em qualquer outra circunstância ilícita que pudesse envolver a não destruição do local, mas dane-se, era puro pensamento positivo e raivoso.
Ao que parecia, depois de tudo o que aconteceu minha briga com Alex parecia não ter existido. Não falamos sobre isso e nem sobre o que aconteceu no restaurante também, mas estamos em uma linha de amizade que eu posso aguentar. Eu acho.
*
As provas finais estavam chegando, e eu não estava nem aí. Eu simplesmente não me interessava por nenhuma das aulas. Como tinha faltado o dia anterior por causa dos... acontecimentos, acabou que foi Camila quem me contou que o trabalho de física tinha sido cancelado, e iria ser uma prova normal mesmo, com os assuntos iniciais. Dei de ombros, eu sempre poderia colar da pessoa ao lado.
No dia seguinte, estávamos na aula de artes, Camila pintando o quadro na mesa ao meu lado, com uma mistura bizarra de linhas e cores. Na verdade, eu me enganei, havia sim uma aula da qual eu gostava: artes. O meu colégio era um dos únicos que dava aulas de arte para o segundo ano do ensino médio e eu adorava isso. O trabalho final da unidade era pintar um quadro abstrato com o tema liberdade. Ou seja, eu colocava os meus fones de ouvido e ficava ouvindo música enquanto pintava linhas aleatórias no quadro. Isso é que era vida.
—Cami o que é isso? – Perguntei ao olhar para o quadro dela.
—Um pássaro, claro.
—Um pássaro? Impossível. Isso nem um V é.
—Haha. Muito engraçado. O seu também não dá pra entender nada, são algumas bolhas de sabão esticadas artisticamente e com uns retângulos no meio.
—Camila fica aqui. – Posicionei ela de modo que ficasse de frente para o quadro e com alguns passos de distância.
—Continua a mesma coisa. Espera. Não. Isso são borboletas? Você fez borboletas de sabão?
—A ideia era só ser borboletas mesmo, mas gostei da sua ideia das bolhas de sabão em lugar das asas.
—Tá vendo? Você tem que começar a me escutar mais, eu sou praticamente uma crítica de arte, vejo até o que os próprios artistas não viram!
—Isso tudo para dizer depois que você tem moral para dizer que essas linhas são pássaros?
—Acertou em cheio.
Alguém bateu a porta e entrou. Era Dante. O que ele estava fazendo aqui? Foi em direção a professora de artes e ficaram sussurrando baixinho. O barulho na sala de aula diminuiu com a presença do professor de história, mas ainda assim não conseguia ouvir o que eles diziam. Olhei para Camila que deu de ombros. Fui então até a mesa de tintas fingir que iria fazer uma mistura, para poder ouvir a conversa dos dois. Passei silenciosamente pelas fileiras de mesas em que os outros desenhavam e pintavam. Cheguei lá e peguei algumas tintas, um pote e um pincel para fazer a mistura. Mexia o pincel bem devagar ao misturar as tintas e ia ouvindo partes do que eles conversavam.
—...quase.....mas... temos.....ele.... Descobriu…não…tempo…Não ligo para eles!
Dei um pulo ao ouvir Dante gritar, ele nem percebeu que eu estava ouvindo, mas ainda assim abaixou o tom de voz depois e então não consegui ouvir mais nada. Até tentei mas não deu, ele já estava se virando para ir embora seguido de Maura, a professora de artes, então eu decidi voltar para a minha mesa.
Enquanto estava voltando, Alex estava vindo com um pote de tinta vermelha nas mãos, Maura tinha pegado um atalho e já tinha saído da sala, e Dante estava passando por uma fileira que de uma forma ou outra teria de passar por Alex para chegar a porta. Bom, pelo menos ele não passaria por mim.
Dante passou e Alex passaria por mim em alguns segundos, só que um pouco depois tudo o que eu via era tinta vermelha vindo na minha direção, não tinha como desviar já que estava entre duas mesas, até pensei em parar a tinta no ar, mas não poderia com tanta gente olhando, ou mesmo por que eu não sabia como controlar na verdade. Nesse caso, só me restou a alternativa de ser atingida pela tinta. Estou falando isso simplesmente para ficar bonito, até parece que eu tinha outra alternativa.
Tirei a tinta dos meus olhos, e a primeira coisa que eu vi foi Dante indo direto para a porta sem se virar para olhar para trás, mas senti um sorriso se formando na boca dele. Depois olhei para frente e vi Alex recuperando o equilíbrio e todo mundo olhando fixamente para mim.
Tinha tinta no meu rosto, no meu cabelo (Vale lembrar que tinha muita, muita tinta mesmo no meu cabelo) e até na minha blusa. Ouvi algumas risadas mais ao fundo, mas ao meu redor todos continuavam sem fala e de boca aberta. Alex foi o primeiro a falar:
—Bom, acho que no final das contas vermelho combina com você. – Senti calafrios ao lembrar da última pessoa que disse isso – Olha só as mechas do seu cabelo! Estão... Sensacionais. Sério. Muito legal. Tá vendo? Um acidente pode não ser algo ruim.
Eu sei que ele só estava tentando amenizar as coisas do jeito “Alex” de ser, mas não sei se foi a lembrança daquela frase ou então o fato de eu estar suja de tinta dos pés a cabeça que eu simplesmente não me controlei. Peguei um pote cheio de tinta verde na mesa ao meu lado, abri a tampa e estendi para ele.
—Eu jogo ou você joga?
Ele franziu as sobrancelhas de modo irritante, irritantemente bonito.
—Como assim?
—Tá legal eu faço.
Derramei o pote de tinta todo na cabeça dele, tinta verde cobriu o cabelo dele, o rosto, e pingava na blusa e nos sapatos.
—Bom, acho que no final das contas verde combina com você. A tinta no seu cabelo dá um realce aos seus olhos. Está sensacional. Sério. Muito legal. Tá vendo? Um acidente pode sim ser algo ruim se você suja de tinta uma pessoa chamada Catarina, por que ela certamente te fará pagar por isso. – Dei um sorriso sarcástico e saí da sala pisando duro. Alex, infelizmente, me seguiu.
—Ok eu mereci essa. Tá legal. Mas foi um acidente! Eu tropecei e por acaso a tinta derramou em você, me explica o que eu poderia ter feito? – Disse ele enquanto me alcançava.
—Absolutamente nada. – Disse cuspindo as palavras e tentando impedir que ele me alcançasse, quase correndo.
—Ei! – Disse ele me alcançando e segurando o meu braço – Então porque você está brava comigo?
—Não com você é que... Vermelho combina muito bem com você.
Ele me olhou sem entender nada, mas aos poucos seu olhar foi mudando. Acho que ele entendeu que eu estava falando do corselete que eu queimei ontem quando cheguei e as lembranças a que ele remetia. Quando saímos de lá e as risadas acabaram, ele bem sabia como eu fiquei depois.
—Eu não... Eu não sabia, juro.
—Não tinha como saber. Mas agora que você entendeu... Foram essas as exatas palavras que ela falou.
Disse e saí andando. O sinal só iria tocar daqui a uma hora, mas eu não ligava. Não estava brava com Alex, não exatamente, mas... eu só queria ir para casa, tomar um banho e lavar meu cabelo.
E ainda tinha uma dor de cabeça que estava me incomodando demais.
*
Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto, entrei no banheiro, abri o chuveiro com água quente e entrei. A tinta demorou horas para sair do meu cabelo, tive que lavar umas 5 vezes. Quando enfim acabei, o sol já estava se pondo. Eu tinha passado a tarde toda lavando o cabelo. Tentei olhar as minhas milhares de mensagens que já tinham no celular, mas não conseguia me concentrar, a dor de cabeça só aumentava.
Desci até a cozinha para procurar um remédio, vi os pratos sujos na pia, meus pais tinham “esquecido” de me avisar para descer para o jantar. Eles simplesmente não se importavam comigo, sempre eu que tive de me virar sozinha. Eu tinha lembranças de quando era criança e eles brincavam comigo, mas com o passar do tempo isso foi diminuindo a frequência até se tornar uma lembrança distante. Eles se importavam mais com o Nataniel, que era um antissocial total e que só ficava no quarto escuro dele, do que comigo, eu basicamente não existia para eles.
Tomei o remédio e voltei para o meu quarto, como não conseguia me concentrar para fazer nada, fui dormir, mesmo que ainda estivesse cedo.
Bom, acho que é óbvio que eu não dormi. O que fiz foi ficar virando de um lado e para o outro na cama. Chegou uma hora que eu simplesmente fiquei de barriga para cima, olhando para o teto, e sentindo a dor de cabeça aumentar.
Não sei o que deu em mim, eu não conseguia dormir, não dava, eu sentia a dor na cabeça como se eu fosse explodir, pontadas cada vez mais fortes, e nos intervalos, eu sentia algo andando, mas era algo pequeno, muito pequeno, andando pela minha cabeça e tirando minha força, algo como... algo... algo como um parasita.
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