Notas iniciais
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Enquanto tentava fazer uma maquiagem borrada em frente ao espelho de uma lanchonete perto do complexo, coloquei meu celular para tocar no aleatório. Não sei se era o melhor momento para ouvir música já que eu deveria estar me concentrando, revisando o plano e tal, mas eu simplesmente não funciono sem música.

Baguncei um pouco a peruca, rasguei uma alça do vestido... faltava alguma coisa. Olhei ao redor do banheiro minúsculo sem procurar nada em particular. Embaixo da pia, dei de cara com um hidrocor roxo, alguma criança deveria ter esquecido ali, e era exatamente do que eu precisava.

Pintei uma parte do minha bochecha direita de roxo e então passei alguns pingos de água e usei um pouco de papel higiênico para tirar o excesso, parecia que alguém tinha me dado um soco forte no rosto. Perfeito.

Quando estava desligando a música do celular começou a tocar Skydiving da trilha sonora de Kingsman, sorri, podia muito bem ser a música de fundo para o que íamos fazer.

Saí do banheiro e passei quase correndo pela lanchonete até a porta. Alex me esperava na esquina. Franziu a testa quando eu apareci e se aproximou.

—Mas o que... – Pegou meu queixo delicadamente e virou um pouco a minha cabeça para olhar melhor o meu “machucado”.

—Aqui é profissional. – Disse sorrindo.

—Uau. Irreconhecível.

—10 horas da noite em ponto, — disse olhando o relógio de Alex – está na hora. Espere 3 minutos e então vá. Nada mais, nada menos. Onde está o sensor?

—Aqui – Disse e me entregou a pequena placa retangular que eu tinha consertado mais cedo – Vai reprogramar as imagens, as câmeras vão ficar desativadas e só vai mostrar as imagens de ontem à noite, mas você tem que colocar perto do PC, no mínimo, ou então embaixo da bancada.

—Entendido.

Olhei para o alto prédio depois da esquina.

—Tem certeza que vai dar certo?

—Não se preocupe. – Disse ele segurando meus braços por trás e encostando o queixo no meu ombro, meu corpo se arrepiou involuntariamente. – Qualquer coisa eu estou aqui para te proteger. – Sussurrou no meu ouvido.

Revirei os olhos, mais por hábito na verdade.

—Te vejo em três minutos.

Meus saltos batiam na calçada fazendo barulho enquanto eu ia confiante (mais ou menos) em direção ao complexo.

Música de fundo ON.

*

Abri as portas de vidro violentamente.

—Ladrão! – Gritei alto.

—O que?! – Disse o segurança, atrás da mesa.

—Senhor por favor, fui assaltada agora a pouco, não sei o que fazer!

—Mas como... Ah meu deus! – Disse ele ao ver a minha bochecha roxa, sorri triunfante por dentro. – Você está bem? O que te fizeram moça?

—Roubaram tudo, tudo.

—Eu vou... vou pegar um copo d’água para você, espera aqui.

Coloquei o sensor embaixo da mesa, 30 segundos para reprogramar. Estreitei os olhos, alguém estava vindo, o segurança já estava voltando? Cara rápido.

Ou não. A pessoa que estava vindo na minha direção tinha cara de bravo, no crachá dizia que era o supervisor geral, não contava com essa, droga.

—O que você está fazendo aqui senhorita? Estamos fechados.

—Sim, sim, imagino que sim. É que eu fui assaltada aqui na frente, vi as portas abertas e só queria sair da rua e...

—Emocionante. Agora devo pedir que se retire.

—Não, não por favor senhor! Olhe para mim, estou acabada.

—Estou olhando, e dizendo para você sair daqui.

1 minuto, tenho que enganar ele por mais 1 minuto.

—Por favor senhor. Deixe-me ficar aqui mais um pouco. Recuperar a calma, e então eu saio.

—Não, terá que ir agora. Regras da empresa.

—Mas... olhe! – Apontei minha bochecha – Estou acabada, machucada, não tenho condições de voltar para aquela rua escura. Se eu morrer a empresa se responsabilizará por não ter oferecido ajuda?

Atrás do supervisor, no longo corredor que dava para os elevadores um quadrado do chão se moveu. Alex saiu do buraco embaixo e colocou a lajota de volta no lugar. Isso! Ele saiu correndo corredor a fundo e eu respirei.

—Ok então, eu saio. Posso pelo menos ir ao banheiro antes?

O homem grisalho estreitou os olhos para mim.

—Final do corredor a esquerda.

—Obrigada.

Assim que virei a esquerda, tirei o salto e disparei a correr. Pega a esquerda, a direita, direita, porta da escada de incêndio, sobe três andares, direita, esquerda.

Parei em frente a uma porta de metal, o detector de movimento desativado por spray de silicone. Abri a porta, o detector de luz já inutilizado com fita. Encontrei Alex tentando abrir a segunda porta.

—Alex! Já era para você estar lá dentro! – Sussurrei.

—Eu não contava que teria outra porta! – Ele sussurrou de volta.

—O que tem essa?

—Tem um alarme por imã. Assim que a gente abrir a porta os imãs não vão mais se tocar e vai soltar o alarme.

—Ah por favor. Então é só cortar os imãs e deixar eles juntos.

Habilidosamente separei o imã da porta e o deixei junto ao outro que ficava na parede. Eu ia ser uma ótima engenheira futuramente, fala sério. Espera, isso envolve física e matemática não é? Então esqueça, vou para humanas.

Entramos na sala de arquivos. E era enorme. Pense em uma biblioteca, agora pense em uma fábrica de carros, junte os dois e multiplique por três e você tem ideia do tamanho do lugar.

—Como vamos achar os arquivos no meio de tudo isso?

—Em um lugar tão grande eles devem ser organizados. Deve estar em ordem alfabética.

Fomos ao corredor C. E então começamos a abrir gavetas e mais gavetas, procurando Castilho. Achei Fundição CAC, Caso CEPEC, Cancoc, Casta etc, etc, etc. Nada de Castilho.

—Nina, já perdemos tempo de mais aqui.

—Mas eu tenho certeza que tem aqui, absoluta.

—Mas não estamos achando, e não temos todo o tempo do mundo.

—Vamos procurar o seu então.

Corredor A. Pastas Antra, Caso Avista, Admina, até Inc. Água e blá, blá, blá. Nada de Aguiar também.

—Como assim? O que deixamos passar?

—Não sei.

—Droga, fizemos tudo isso para nada. Temos somente 5 minutos agora.

—Nina...

—Oi

—Você já reparou que as pastas que encontramos também terminam com a letra C e A?

—O que isso tem a ver?

—Vá para a última gaveta, abra e me diga o caso.

Corri até lá e abri.

—Caso Zena? Sit. Lanca? Arquivaram errado essa gaveta aqui.

—Não. Não arquivaram não. Nós é que estávamos procurando no lugar errado! Temos que ir aos corredores O e R.

—Alex, temos 4 minutos não vai dar tempo.

—Vai sim. Nós vamos conseguir. Vem. – Disse ele já virando a esquerda para o corredor R.

—Você vai para esquerda, eu vou para a direita. Pegamos as pastas e saímos daqui a tempo. Combinado?

—Olha eu não sei se...

Não parei para ouvir o resto. Estava correndo na direção do corredor O.

*

Castilho. Castilho. Castilho. Onde diabos estava aquela pasta?

Alerta.

Alguém tinha entrado no cômodo, eu conseguia ouvir os passos. Alex ainda devia estar procurando a pasta. Era outra pessoa.

Castilho. Castilho. Rápido. Onde você...

—Está. – Sussurrei enquanto pegava a pasta com um sorriso no rosto.

Agora vamos ir embora daq...

Mais perto. Mais perto...

Corri para o corredor ao lado. De modo que a pessoa não pudesse me ver. Inclinei a cabeça só uma pouco. Era o supervisor. Odiava ainda mais aquele cara agora. Corri para o corredor R, não tinha ninguém lá, Alex já devia ter ido embora.

Estava pensando em uma maneira de ir para a porta sem que o supervisor me visse, quando ouvi um barulho que doeu meus ouvidos. Metal arranhando o chão, o que aquele cara estava fazendo? Arrastando as estantes de gavetas?

Arregalei os olhos. Arrastando não. Derrubando. Efeito dominó. Eu no final. Comecei a juntar as peças e não gostei do resultado final do quebra-cabeça. Eu tinha que sair dali. AGORA.

Tarde demais. A primeira estante foi derrubada. Eu tinha 45 segundos. O supervisor estava vindo para cá, mas, para meu grande alívio, pelo outro lado. Disparei em direção a porta. Percebi que estava prendendo a respiração quando passei por ela e olhei para trás, e então voltei a prender de novo. Não era o supervisor o homem que eu tinha visto, era Dante, o meu professor de história.

Cambaleei para trás e esbarrei em Alex. Ele agarrou minha mão com força, como que para ter certeza que era eu ali e estava bem.

E então começamos a correr.

Nem tentei entender para onde estávamos indo, simplesmente segui Alex enquanto virávamos corredores, descíamos escadas e parávamos e voltávamos indo por outro caminho. Só sei que chegamos a uma porta no subsolo e saímos por ela.

Música de Fundo OFF.

Na rua, corremos mais alguns quarteirões até pararmos e entrarmos em um mercadinho 24h.

Minhas pernas estavam dormentes e eu nem tinha percebido. Assim que parei de correr pude senti-las latejando, além da minha respiração, que estava um horror, ofegante é pouco para como eu estava.

Olhei para Alex. Os olhos verdes dele encontraram os meus. Do nada ele veio na minha direção e me abraçou forte. Após a surpresa inicial, relaxei e coloquei meu queixo em seu ombro e o abracei também. Podia ouvir as batidas rápidas e descompassadas do seu coração. Ele cheirava a colônia e suor, era uma mistura agradável (Eca. Não acredito que pensei nisso). Pisquei os olhos. O que diabos estava acontecendo comigo?

—Conseguimos. – Disse ele quando nos desgrudamos.

Sorri.

—Tudo bem, admito. Seu plano era infalível. Bom falível talvez até fosse. Mas você conseguiu fazer funcionar.

—Não disse que ia dar certo? E você ainda tinha dúvidas? – Disse ele, a cabeça balançando em negação – Eu sou Alexandre, O Grande é claro que ia dar certo.

Eu comecei a rir.

—Ah então você aceita o título?

—Claro. Você é a rainha e eu sou o rei.

Começamos a rir. E eu me perguntei se aquilo também não queria dizer que, talvez, ele quisesse que eu fosse a rainha dele e ele fosse o meu rei... Calma. Essa sou eu? Não reconheço mais.

Notas finais
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