Arkhé - Perseguidos
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Fiz o caminho de casa e fui para o meu quarto mecanicamente, minha cabeça estava em outro universo, fervilhando de pensamentos, teorias e... Coisas que eu não tinha como provar se eram verdade ou não.
Deitei na cama e puxei a pasta de dentro do casaco, e percebi que estava com a do Alex também. Olhei pensativamente para a pasta cheia com o nome Aguiar, abro ou não abro? Minha curiosidade na verdade acabou me convencendo a abrir a minha.
Eu realmente pensei que ali iria estar escrito alguma coisa sobre mim, sério, qualquer coisa. Pensa no susto que eu levei quando percebi que aquela pasta era só dos meus pais. Sendo mais exata, da minha mãe.
Helena Côrrea
13/04/1998
A personalidade do indivíduo continua temperamental, não aceita ouvir o que temos a dizer e recusa qualquer tipo de ajuda. É bastante impertinente quanto a ironia.
20/04/1998
O indivíduo tentou fugir de sua liberdade controlada, não tivemos opção a não ser prende-la.
23/04/1998
O indivíduo não está com uma boa saúde, por vezes vomita na própria cela.
26/04/1998
Nota: Para manter a boa índole do indivíduo, ameace-o com jejum.
28/04/1998
Devido as razões acima e todas as outras anteriores, contidas na ficha do indivíduo, declaro que este terá que ser injetado.
30/04/1998
Com um pouco de relutância, fico feliz em informar que a injeção foi bem sucedida. O indivíduo 234HC31 não nos trará mais problemas e voltará para sua vida em sociedade sem lembranças de suas anormalidades e de tudo o que passou. Periodicamente irá se tornar um cidadão comum.
Terminei de ler e procurei por mais folhas, mas não havia, devia ter mais coisas sobre a minha mãe tinha que ter! Mas... então eu lembrei. Na hora em que estava tudo caindo na sala eu corri, me esbarrando nas coisas pelo caminho, e o resto das folhas deve ter caído. Neste momento devem estar lá, no chão da sala. Não havia como voltar lá outra vez, com toda a confusão que deu, aposto que teriam dobrado a segurança.
Frustrada, li e reli a folha de relatório sobre a minha mãe. Outro pensamento me veio na cabeça, e o meu pai? Será que ele fazia parte de tudo isso? E foi aí que a ficha caiu e o que eu li começou a fazer sentido.
Minha mãe era uma Arkhé! Quase gritei. É um pensamento um pouco estúpido para se entender somente agora, mas eu sou lerda mesmo. Era... Agora já não é mais, aquela estúpida organização havia feito alguma coisa com ela, uma injeção ou algo do tipo. Senti calafrios pelo meu corpo, aquilo não ia acontecer comigo em hipótese alguma.
Voltei os olhos para o papel, me concentrei nas datas dessa vez. Nasci em 98, mas em dezembro, 2 de dezembro. Eu não existia naquela época, ou talvez... Fiz as contas, meus pais deveriam ter tido alguma atividade em março, por que em 9 meses, tcharam! Eu nasceria.
Então... Eu já existia, mal tinha um corpo, mas já existia. O complexo sabia que eu existia? Será que eles faziam exames? Raio-x? Ultrassom? Provavelmente não. Eles injetaram minha mãe comigo lá dentro, e de alguma forma aquilo não me afetou, pelo menos no quesito poderes eu acho.
Já imaginava as cenas, minha mãe descobrindo que estava grávida e tentando fugir porque queria o melhor para mim, sendo pega e presa, passando mal dentro da cela, mas comendo porque eu precisava crescer, e então resistindo quando o soro era injetado, não sabendo como aquilo iria ir para mim, e no final foi injetada e esqueceu de tudo.
E a partir daí já não era mais imaginação, eram lembranças minhas, antigas... Minha mãe me colocando em seu colo, dizendo:
—Minha querida Catarina, você é uma pessoa especial sabia disso? Eu não sei porque, mas algo aqui dentro tem absoluta certeza. – Conseguia ouvir a voz doce dela dizendo isso.
Meus pais brincando de esconde-esconde comigo quando eu devia ter os meus 4 ou 5 anos, era a primeira vez que eu lembrava assim do meu pai, e da minha antiga casa (Já contei que antes do meu irmão idiota nascer nós morávamos em uma casa?) Eles estavam me procurando, mas nunca me achavam, sorri ao me lembrar disso.
—Helena você tem certeza de que ela saiu de casa? Eu desisto, ela não está no jardim. – Disse ele indo para baixo da sombra de uma árvore.
Assobiei de cima da árvore e meu pai olhou para mim, estava sentada em alguns galhos mais para cima.
—Como você foi chegar aí pequena? – Ele me pegou e me colocou no chão – Você é muito boa nesse jogo, tenho que admitir. Você parece saber os lugares onde nunca vamos te procurar.
Sorri. Memórias como essa foram diminuindo ao longo do tempo, lembro que dois anos depois de eu nascer minha mãe já começava a se esquecer da minha existência, talvez, agora eu sabia, por conta do efeito da injeção, que deveria faze-la esquecer tudo o que tinha acontecido antes de toma-la, e bem... eu devo ter sido “produzida” pelo menos um mês antes da minha mãe ser injetada.
Lembro que teve uma época em que meu pai sumiu, minha mãe dizia que ele estava passando mal, mas eu sempre tinha pesadelos de que ele estava sofrendo. Só sei que quando ele voltou, não era o mesmo, e já começava a esquecer de mim também. E aí vinha a pergunta, ele tinha sido injetado também?
Quando meu irmão nasceu eu tinha sete anos, e foi aí que eu fui esquecida de vez, tinha que começar a ficar lembrando meus pais de eu existia, e aquilo era muito desgastante. Quando eu fiz 13 eu desisti, que eles ficassem com o queridinho Nataniel, assim que eu fizesse 18 sairia daquela casa, não ia fazer a menor diferença, eles nunca foram presentes na minha vida mesmo, só isso já era uma mera lembrança.
—Ei, eu acho que meu arquivo ficou com você... – Disse alguém abrindo a porta, nem levantei a cabeça para ver quem era, ou mesmo processei o que a pessoa disse, já estava perdida em pensamentos – Não vai nem reparar que eu entrei pela porta ao invés de vir pela janela? Acho que da próxima vez eu entro pelo teto, talvez seja mais dramático assim. É sério? Vai me ignorar? O que...
Era Alex que estava ali, percebi depois de um tempo. Ele veio em minha direção e sentou ao meu lado na cama, uma das mãos enxugando lágrimas que eu nem tinha percebido que começaram a cair.
—O que houve?
—Nada. – Disse me ajeitando e secando a lágrimas com as costas das mãos. Ele ergueu uma sobrancelha.
—Não me parece nada.
—Lembranças do passado. Não muito boas se não deu para perceber. – Alfinetei, ele levantou as mãos acima da cabeça como se rendesse.
Levantei da cama e peguei a pasta de Alex em cima da mesa, joguei para ele.
—Seu arquivo ficou comigo.
—Eu sei disso, é por isso que estava aqui na verdade. Mas acho que você não está em condições de ficar sozinha no momento.
—Quem disse isso?
—Eu. Ou não é verdade que assim que eu saísse você iria voltar a remoer essas lembranças ruins e começar a chorar de novo? Estou errado?
Mordi o lábio e desviei o olhar.
—Achei que não. Vem vamos sair, você precisa espairecer. – Disse, levantando da cama e vindo na minha direção.
—Não quero sair, vou ficar aqui.
—Nina...
—Já disse que vou ficar aqui.
—Ok então. Eu fico aqui com você. – Disse pulando na minha cama.
—Não tem coisas melhores para fazer não Alexandre?
—No momento tenho que olhar essa pasta e posso fazer isso muito bem no seu quarto Catarina.
—Argh, como você me irrita!
Rapidamente peguei a pasta com minhas poucas folhas, fui para o banheiro e me tranquei lá dentro. Sentei na tampa fechada do vaso sanitário e fiquei olhando para os papeis a minha frente: Um tinha dados sobre a minha mãe, aparência, idade, e tal; o outro era uma pequena coletânea de fotos dela fazendo coisas do dia-a-dia; e por fim eu tinha o relatório. Coloquei tudo de volta da pasta. Eu não queria ver aquilo nunca mais. Selei a pasta com fita adesiva que achei no armário, e então a colei atrás do espelho. Ninguém iria pensar em procurar ali, e eu, esperava com o tempo, fosse esquecendo também que aquilo estava lá.
—Achou alguma coisa interessante? – Perguntei quando sai do banheiro.
—Na verdade não, nada que eu já não saiba. Algumas coisas sobre o meu pai, quando ele... – Alex arregalou os olhos como se percebendo que tinha falado demais.
—Quando ele?
—Nada.
—Alex, fala.
—Não.
Cruzei os braços para ele, não por bem, ia ser por mal. Me concentrei no papel, não precisava fazer algo grande como trazer o papel até mim, só precisava ver... Vi as letras e consegui desembaralha-las na minha cabeça, era como se o papel estivesse de frente para mim e eu conseguia ler tudo o que estava escrito.
—Por que você está me encarando? – Perguntou Alex, ignorei.
E então eu pulei para trás, assustada. Eu tinha lido certo?
—Seu pai.. seu pai trabalhou no complexo?!
Ele arregalou os olhos para mim.
—Como você sabe disso?
—É o que está escrito aí!
—Você leu o meu arquivo?!
—Uma parte... agora....
—Eu não acredito! Por acaso eu li o seu?! Não! Deixei você decidir se ia me contar!
—Ah é?! – Senti a raiva me subir pela cabeça, e meus poderes ampliaram tudo, conseguia sentir as batidas do meu coração, as do Alex, o meu quarto, o meu banheiro... O que aquele idiota tinha feito com o meu banheiro? – Então quer dizer que se eu entrar no meu banheiro agora tudo não vai estar molhado?!
—O que?
—Você realmente devia esperar se eu ia te contar ou não, mas... caso eu não te contasse, bom, o banheiro estaria encharcado misteriosamente, e deixe-me ver, você acidentalmente daria de cara com o meu arquivo quando se oferecesse para ajudar a limpar. Estou errada?
Ele me encarou sem dizer nada.
—Achei que não.
—Sim.
—Ahn?
—Sim, meu pai trabalhou no complexo. – Disse ele olhando para o chão. – Nunca entendi por que, depois que descobri que sou um Arkhé. É meio irônico se pensar que ele foi lá para me proteger, mas sumiu um ano depois.
Fiquei calada, então ele continuou:
—Alguns dias, depois do meu pai sumir eu fui ao quarto dele e achei um diário, ele falava sobre mim principalmente e sobre o que eu era, levei algum tempo para conseguir encaixar todas as peças sozinho. Tentei descobrir mais no complexo, mas me reconheceram, e parece... parece que o trabalho que meu pai fazia no complexo era importante, e ninguém mais sabe como fazer. Eles acham que eu sei de alguma coisa, então querem que eu trabalhe para eles. Mas eu não tenho nem ideia do que meu pai fazia naquele lugar. A questão...
—É que eles não acreditam. – Completei.
—É. E então eu venho fugindo desde então. Já não bastava a minha vida já diferente sem meus pais, essa chance de vida normal desapareceu enquanto tenho que fugir por causa de seja lá o que o meu pai fez. – Ele se apoiou as mãos na minha mesa e senti seus braços esquentarem, aquilo não podia ser bom.
—Uou, vamos com calma esquentadinho, a mesa é de madeira e boa parte do meu quarto também, você pode ser imune ao fogo, mas eu não e nem minhas coisas. – Disse enquanto tirava suas mãos da minha mesa.
Ele piscou os olhos, voltando ao normal.
—Desculpe.
—Não tem problema, minha mesa ainda está inteira. Agora você parece com cara de quer bater em alguém.
—Não seria uma coisa ruim na verdade.
—Ok, então antes que você detone o meu quarto, vamos sair logo daqui.
Guiei ele para fora do apartamento e subimos alguns andares pelo elevador, ele ficou em silêncio, mas eu conseguia sentir a temperatura esquentando ao seu redor.
Fomos até a academia que ficava no último andar, fechei todas as persianas e tranquei a porta por dentro por precaução. Então peguei as luva de boxe e estendi para ele.
—Só tente não queimá-las, ok?
Ele as pegou e colocou nas mãos, havia um saco de pancadas no canto e ele ficou socando enquanto eu segurava, não foi mais de uma vez que eu quase fui derrubada pela força com que ele atacava. Quando ele finalmente pareceu cansar falei:
—Acabou ou ainda tem mais? Só pra saber mesmo porque eu quero ali ir pegar uma água, eu fiz mais exercício do que pensei que faria.
—Agora é a sua vez. – Disse ele me estendendo a luvas.
—A minha? – Fiquei sem entender nada.
—Ao invés de chorar abraçada ao seu travesseiro tente bater no nosso querido amiguinho vermelho aqui, bom, se você tiver forças para isso.
Revirei os olhos e aceitei as luvas.
Comecei a bater, o saco nem se mexeu. Alex riu. Idiota. Pensei em tudo o que estava me fazendo mal esses dias, o complexo, o colégio, os meus pais, o meu irmão, e não vamos esquecer do Alex, aquele idiota também estava na lista. Continuei batendo e dessa vez mais e mais forte, e quando lembrei do restaurante, dei um soco que fez Alex ser empurrado com força para trás.
Estava gostando daquela terapia afinal de contas. Com certeza eu faria aquilo mais vezes. Pensei depois que provavelmente eu já teria outras coisas na minha lista de raiva, talvez piores. Mas quais seriam, é claro, eu não tinha como saber. Não ainda.
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