Arkham's Minds
2 Pamela Isley
Notas iniciais
Pamela Isley
ou
“Você é bem simpática para um saco de carne falante”
Pamela Isley odiava sua nova cela.
Não era o fato de as paredes serem de vidro blindado, o chão de concreto e metal mesclados ou a falta de privacidade que a incomodavam. O que realmente a enlouquecia era permanecer longe de suas amadas filhas. A dor de não tê-las por perto era pior que qualquer sessão de terapia daquele lugar. Sentia falta de conversar com seus bebês, paparicá-las e acariciá-las, sempre as reconfortando quando sofriam nas mãos dos homens cruéis.
E se havia algo que Ivy odiava mais que ser privada de suas filhas, seria toda a raça humana. Há muito que ela perdera sua humanidade e compaixão por aqueles que lhe rodeavam. Agora era uma porta-voz da Natureza e sua mais fiel defensora: faria o que tivesse que ser feito para deixar suas preciosas plantas vivas e seguras.
Talvez fosse por mais esse motivo que a trancaram naquela calorenta cela.
Os psiquiatras do Arkham Asylum não se atreviam a compartilhar o mesmo ambiente que Poison Ivy sem qualquer barreira de proteção, e ela se sentia particularmente grata por isso. Aguentar a presença humana ao seu lado era um trabalho penoso, seu nojo e raiva eram tamanhos que, muitas vezes, acabavam agindo por conta própria, ultrapassando seu bom-senso e vontade.
E obviamente Ivy não se preocupava em controlá-los.
Após o último incidente que causou, Pamela foi imediatamente transferida para a ala de segurança máxima da penitenciária da ilha. A vítima foi o tolo Dr. Stephen Kellerman, que realmente achou que a botânica havia algum apreço pela sua... Qual foi mesmo a expressão que Pamela usou? Ah, sim.
Estonteante personalidade.
Homens... Como poderiam ser considerados “criaturas racionais”? Para a Dra. Isley, todos não passavam de uma praga ao ecossistema. Destruíam o que tocavam como se fossem donos de tudo, deixando rastros de morte e desolação.
Como se atrevem a achar que a Natureza lhes pertence?
Mesmo sabendo que havia feito a coisa certa, Poison Ivy, pela primeira vez em sua nova vida, estava começando a sentir as consequências de suas ações. Devido à falta de contato com o ambiente afora há quase três longas semanas, sentia-se inegavelmente mais fraca. O pigmento verde de sua pele estava pálido graças à carência de água e Sol em elevadas quantidades. A equipe médica dava-lhe somente o necessário para continuar viva; ninguém se importava com a sua dor. Seus cabelos, uma vez compostos por sedosas cascatas vermelhas, resumiam-se agora em fios secos e atrofiados. E como se não bastasse ser confinada num ambiente escuro e seco, os vidros blindados simulavam uma estufa, consequentemente dificultando a respiração.
Estão me matando aos poucos, pensou Pamela, infeliz.
Como queria poder voltar ao Jardim Botânico do Asylum, seu lugar favorito em todo o complexo. Antes do ataque ao Dr. Kellerman, Pam Isley costumava passar o dia todo cercada por suas preciosas filhas sem quase nunca ser incomodada. Era aquele jardim que fazia a estadia na ilha parecer menos maçante. O som da pequena fonte que havia no centro do Jardim Botânico era a mais pura e relaxante meditação para a Dra. Isley enquanto acalmava as dores de suas crias com palavras doces e sinceras.
Pena que tudo não passava de uma memória nas atuais circunstâncias.
Os passos barulhentos de dois funcionários atravessando o corredor principal de onde estava tirou Pamela Isley de suas lamentações silenciosas. Não se atreveu a levantar, suas pernas formigavam e encontrava-se evidentemente fraca demais para concretizar a ação com êxito.
—... ela parecia estar inconsciente ainda — Pamela captou parte da conversa, tentando ao máximo conseguir focar no restante. — O Dr. Strange está louco de raiva, ainda mais agora que temos o palhaço.
— Soube que o Espantalho já foi transferido para a solitária, mas ainda estão tentando entender como conseguiu fazer aquilo tudo— Os dois passaram a passos largos, não olhando nem uma única vez para onde Poison Ivy estava. – E quanto ao Joker? Eu ainda não o vi, mas disseram que ele é macabro...
— Olha, Joe, cê sabe que não costumo ter medo de nada, mas esse sujeito me arrepiou pra c... – As vozes foram se perdendo conforme se afastavam da cela.
Mesmo ouvindo pouco, a conversa dos dois funcionários deixou Pamela intrigada.
O Espantalho atacou alguém? Quando? Como? Quem?
E não menos importante: Quem era esse “Joker”? Ivy conhecia praticamente todos os principais pacientes do Arkham Asylum, mas nunca tinha ouvido falar do tal palhaço macabro.
Deu de ombros. Deve ser apenas mais um maluco que teve um encontro infeliz com o Batman. Nada diferente do que eu passei.
Subitamente, uma dor enorme atingiu seu corpo. Era horrível a sensação, como se estivessem arrancando-lhe a pele com uma navalha bem afiada. Seus músculos enrijeciam contra a sua vontade; a clorofila que enchia-lhe as veias parecia agora drenada. Poison Ivy soltou um grito vindo do fundo da garganta, uma lamúria de pura agonia ao passo que o grau de sua dor aumentava.
Eles estão torturando minhas filhas!
Sentia na própria pele as lâminas afiadas que os jardineiros utilizavam para fazer a poda quinquenal. Ivy sabia que não gritava por si própria, mas unificando a canção colérica de suas amadas plantas.
— Parem! Parem, por favor! – Ela gemeu, gritando novamente ao sentir os músculos se contraírem. Por vários dias ela gritava, implorando para que cessassem tamanha crueldade, contudo, ninguém nunca estava por perto para ouvir seus apelos. – Deixem-nos em paz, seus monstros desgraçados! – Percebeu que sua visão começava a ficar turva, um dos sinais de que seu corpo não iria aguentar por muito mais tempo ficar acordado. – Parem...
E perdeu a consciência em questão de segundos.
◊
Acordou somente depois de várias horas passadas em dor e sofrimento.
Não sabia identificar se era dia ou noite, pois a ala de segurança máxima não possuía nenhuma janela. Com a cabeça latejando, Pamela tentou levantar o tronco, todavia, só conseguiu se sentar na quarta tentativa. O ambiente a sua volta ainda girava, porém, nada se comparava ao estado que causou seu desmaio.
— Você está bem? – Uma voz feminina, que Ivy nunca escutara antes, perguntou-lhe num tom doce.
Pamela ergueu os olhos, não entendendo de onde vinha tal voz. Ninguém ao longo desses dolorosos dias havia lhe dirigido uma palavra sequer. Alguém perguntar como estava se sentindo era realmente muito inesperado.
Será que estou ficando realmente louca?
Não, ela não estava. Do outro lado do vidro, havia mesmo uma pessoa a observando. A desconhecida era uma mulher um pouco mais jovem que a própria Dra. Isley. Tinha os cabelos loiros presos num delicado coque atrás da cabeça, dando maior visibilidade ao rosto juvenil. Por detrás dos óculos de armação negra, os olhos azuis estudavam Pamela com curiosidade ao mesmo tempo em que seus lábios vermelhos lhe entregavam um sorriso sincero. Ao reparar que a jovem trajava um jaleco semelhante aos dos demais doutores, percebeu que estava diante de uma psiquiatra.
— Consegue me entender? – A loira insistiu, evidentemente ansiosa por uma resposta.
— É claro que consigo – Pamela devolveu num tom seco e grosseiro. Já não gostava dos humanos, que dirá dos psiquiatras daquele lugar. – Pensei que minhas sessões estivessem suspensas, doutora.
— Ah, não se preocupe, não estou aqui pra isso – garantiu-lhe a jovem, arrumando os óculos na ponta do nariz. – Não sou sua psiquiatra.
— Então quem é você? – a Dra. Isley fazia questão de permanecer na retaguarda, querendo livrar-se logo daquela fedelha antes que a mesma pudesse lhe fazer algum mal.
As bochechas da loira ficaram levemente coradas, evidenciando seu constrangimento perante a situação. A expressão de insegurança estampada no rosto da jovem quase fez Poison Ivy sentir uma leve sensação de culpa.
— Harleen Quinzel – ela disse por fim. – Sou nova por aqui. Era pra eu estar em outro lugar, mas acabei me perdendo. – Admitiu, ainda corando.
Ivy não conseguiu conter um leve sorriso de se formar em seus lábios. Seria aquela pequena e ingênua criatura seu bilhete de saída da sua odiada cela?
— Para onde estava indo? – Perguntou-lhe num tom casual.
A Dra. Quinzel fitou a ponta dos pés por alguns rápidos segundos, como se tentasse lembrar seu atual objetivo.
— Ah! Eu deveria encontrar o Dr. Strange no hall do Tratamento Intensivo e... – ela examinou a pequena sala escura onde estava com Poison Ivy. – Acho que estou no prédio errado também.
A confusão da loira fez Ivy rir brevemente. Enganá-la seria mais fácil que a uma criança perdida.
— Você está na Penitenciária, na parte Oeste da ilha – a Dra. Isley informou a recém-chegada. – O prédio do Tratamento Intensivo fica na parte Norte – ela andou para mais perto do vidro, querendo observar bem de perto o rosto de Harleen Quinzel. – Eu posso te levar lá se quiser... Só precisa me tirar daqui.
De repente, toda a ingenuidade presente no rosto da jovem médica desapareceu.
— Posso não parecer, mas ainda sou uma psiquiatra, Dra. Isley – e lançou a Poison Ivy um sorriso sincero. – Então foi assim que convenceu o Dr. Kellerman de que estavam apaixonados?
Pamela não esperava aquela resposta da Dra. Quinzel, muito menos que a mesma soubesse quem era.
Foi então que entendeu.
— Você não está realmente perdida, não é?
Harleen ajeitou novamente os óculos.
— Não – respondeu com sinceridade. – Eu li sua ficha e os relatórios dos outros médicos sobre o incidente envolvendo o Dr. Kellerman, e fiquei impressionada...
Pamela Isley desconsiderou o restante do comentário da psiquiatra. Como pôde realmente acreditar que teria uma chance de sair daquela prisão? Analisando bem, deparar com uma médica não competente era deveras esquisito. Nunca que o Arkham Asylum arriscaria colocar uma pessoa de aparência tão frágil e crua para analisar qualquer um dos seus pacientes.
— Está brava comigo? – A Dra. Quinzel demandou de repente, retomando a atenção de Ivy.
— Hump – a paciente bufou, dando as costas para a loira. – Vocês do Arkham são todos iguais. Ficam nos analisando como se fôssemos ratos de laboratório – e sentou-se novamente no chão de concreto morno, ainda com sua face virada para longe das feições da médica. – Tenho uma notícia chocante pra você, Dra. Quinzel: muitos aqui têm sentimentos. Sofrem tanto quanto qualquer um que é considerado “normal”. Alguns nem sabem o que estão fazendo aqui... – sentiu uma enorme tristeza invadir seu peito, contaminando sua fala com o tom amargo do conformismo. – E nem quanto tempo vão ficar.
Repentinamente, uma única e indesejada lágrima escorreu pela bochecha esquerda de Pamela Isley, que a limpou rapidamente com as costas de uma das mãos. Odiava sentir-se fraca, ainda mais na frente de um daqueles monstros que sempre diziam que queriam ajudá-la e nada mais.
— Eu sinto muito – a Dra. Quinzel estava novamente defronte à Ivy, e, assim como a paciente, sentou-se no chão da pequena sala escura, largando a prancheta de anotações ao seu lado. Os olhos azuis claro de Harleen expressavam sincera clemência pela situação de Pamela. Algo que a botânica jamais recebeu em toda a sua longa estadia no hospício. – Sabe, eu não menti pra você quando disse que era nova aqui. Entrei há algumas semanas, e o pouco que vi sobre a relação entre os médicos e os pacientes me deixou bem aborrecida.
Poison Ivy arqueou as sobrancelhas ruivas, questionando-se sem parar se deveria ou não acreditar nas palavras da psiquiatra.
— Infelizmente, não posso mudar a política do Arkham Asylum para com seus pacientes – a jovem médica continuou. – Mas posso fazer o meu melhor para que sejam tratados com mais dignidade.
Todo aquele discurso soou como uma enorme mentira para Pamela Isley. Desde quando algum médico daquela droga de lugar se importava honestamente em como seus pacientes era tratados?
Tudo indicava que era uma armadilha, porém, Pamela queria desesperadamente acreditar em cada palavra, ponto e vírgula. Ela não tinha mais nada a perder. Tomaram-lhe suas filhas, sua essência e sua liberdade. Poderia se dar ao luxo de ter um pouco de esperança? Mesmo que isso significasse confiar num humano asqueroso?
— Como pretende fazer isso, doutora? – Expeliu a última palavra com desdém, desnudando seu dilema antes interno. – Por que se importa? Vocês, humanos assassinos, só se importam com a própria vida. Por que você seria diferente de qualquer um deles?
Surpreendendo cada vez mais a botânica, Harleen Quinzel deixou algumas lágrimas rolarem silenciosamente pelas maçãs do rosto. Aparentemente Ivy colocou em xeque um assunto delicado para a jovem psiquiatra.
— “Eles vão te devorar viva se tiverem a chance. Tenha muito cuidado, Harleen.”— Ela imitou o tom baixo e pausado da Dra. Whistler, a médica mais velha do complexo. – Queria ter dito que não tenho medo dos que estão aqui, mas sim dos que andam soltas lá fora... Eu sei como é se sentir rejeitada, Pamela. Minha vida inteira foi povoada de pessoas cruéis que sempre me subestimaram. “Nunca que alguém como você fará a diferença nesse mundo fodido, não seja idiota”; “desiste, guria, vai trabalhar usando essa sua carinha bonita que você ganha mais”.
O queixo da Dra. Isley caiu. Harleen Quinzel acabara de pronunciar as mesmas duras palavras que ouviu de seu ex-professor, Jason Woodrue, que a envenenou após roubarem amostras de uma antiga erva tóxica egípcia. Tudo o que Ivy queria fazer era ajudá-lo com o projeto, e quando ele a dispensou com tais alegações, ficou receoso que Pamela o denunciasse para a polícia.
Jason tentou matá-la, mas apenas deu para Pamela Isley uma vida nova e melhorada.
Todavia, independentemente de ter causado um efeito contrário ao desejado, o Dr. Woodrue, como muitos outros, haviam humilhado a rechaçado Pamela Isley inúmeras vezes por confidenciar-lhes seus sonhos e desejos.
— Não precisa acreditar em mim...
— Eu acredito – Pamela interrompeu prontamente a Dra. Quinzel. Ela sabia reconhecer as vítimas desse abuso que também sofreu. Não havia como esconder a dor da rejeição, e muito menos fingi-la. – Obrigada. – Acrescentou em tom falho, ainda não acostumada com a ideia de expressar gratidão a um ser humano.
Mesmo sendo fria, sua atitude fez um sorriso brotar nos lábios vermelhos de Harleen, que parecia estar mais animada.
— Sua ficha dizia que você foi proibida de visitar o Jardim Botânico, certo? – Ivy confirmou silenciosamente, infeliz com sua atual realidade. – Acho que consigo dar um jeito nisso.
O coração de Pamela Isley parou por alguns instantes, tamanho o choque que a última frase da médica havia lhe causado.
— É mesmo? Como?! – A entonação desesperada de Poison Ivy assustou um pouco Harleen, que quase deixou cair a prancheta no chão quando foi se levantar.
— Tenho mesmo que encontrar o Dr. Strange dentro de alguns minutos, vou falar com ele sobre o assunto. – Garantiu-lhe a loira com um sorriso gentil.
— Promete?
— Claro que sim, Pam – a Dra. Quinzel começou a andar para onde havia entrado. – Se tudo der certo, voltarei mais tarde para levá-la aos jardins. Mas você tem que prometer também que vai se comportar, senão nós duas estaremos encrencadas. Posso contar com você?
A botânica anuiu, observando a figura de Harleen Quinzel desaparecer pela porta principal.
Nunca pensou que sentiria algo parecido com simpatia por um saco de carne ambulante, ainda mais por uma psiquiatra do Arkham Asylum.
Pamela ainda não tinha certeza, mas desconfiava que a Dra. Quinzel poderia se tornar uma grande aliada naquele lugar enfestado de malucos.

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