Arkham's Minds

4 Jonathan Crane


Notas iniciais
Eu sei, estou suuuper atrasada. Peço um milhão de desculpas! Esse capítulo, infelizmente, ficou mais curtinho, mas não é por falta de vontade de escrever, mas sim porque estou em semana de provas e não queria deixar pra postar só em Outubro. Gostei muito de narrar com a visão do Espantalho, depois da Harley e do Joker, ele é o meu vilão preferido do Universo Batman. Boa leitura!

Jonathan Crane

ou

“Diga-me, Doc, qual o seu maior medo?”

Por mais absurdo que parecesse, Jonathan Crane gostava de passar um tempo na solitária.

A maioria dos internos de Arkham consideravam aquela ala um lugar frio, claustrofóbico e sombrio, onde as paredes sussurravam palavras encorajadoras para a loucura de cada um tomar o controle de suas mentes.

Ouvir ecos dos gritos de agonia e desespero não era raridade alguma, mas apenas parte da rotina daqueles que se encontravam privados da liberdade (ou pelo menos o que restava dela desde que se tornaram residentes do hospício).

Crane ouvia os gritos e também os sussurros, porém, nada daquilo o assustava. Permanecer na infinita escuridão era apenas um combustível para lembranças de sua antiga vida, como o brilhante psiquiatra Jonathan Crane.

Parecia até mesmo outra encarnação

Muito bem – o professor Crane adentrou na tumultuada sala de aula, não prestando atenção na bagunça dos alunos. Estava cansado, passara noites em claro corrigindo trabalhos e atribuindo notas, todavia, tentava ao máximo mostrar algum ânimo em seu tom. – Já chega de falatório, vamos começar a aula, pois temos que ver muita coisa hoje.

Mesmo sendo jovem, Jonathan Crane era considerado um dos professores mais capazes de toda Gotham University na área de psicologia (e sem dúvidas um dos mais disputados pelos alunos para conseguirem vagas em suas aulas). Era evidente o talento do rapaz na área, especialmente quando se tratava de fobias, pois Jonathan lecionava com verdadeira paixão sobre o assunto. Em suas aulas, ele procurava mostrar aos alunos seu ponto de vista sobre a realidade na qual estavam inseridos, transformando por completo a visão daqueles que acompanhavam sua linha de raciocínio. Decerto suas palavras prendiam a atenção dos estudantes, seduzindo-os com seu discurso fascinante.

Entretanto, o que parecia um amor era meramente uma parte do vício do Dr. Crane sobre o assunto: era sua obsessão. Precisava do medo como seus pulmões ansiavam pelo oxigênio.

Tudo começou quando era apenas um menino. Devido à sua estrutura frágil e miúda, seus colegas de escola faziam de Crane um constante alvo de bullying. Chamavam-no de “Espantalho” e gozavam frequentemente de seus braços e pernas finas, que de fato lembravam gravetos.

Jonathan, ao invés de ignorar os comentários maldosos dos garotos, preferiu devolver os insultos jogando aquela disputa suja, porém, com um diferencial: não queria ser odiado. Queria ser temido.

O medo seria o único amigo que precisava como aliado.

Passou noites em claro estudando pesquisas e relatórios feitos por grandes nomes da psicanálise, que procuravam esclarecer o que era o medo e os efeitos que causava na mente humana.

Faria todos pagarem pelas humilhações, insultos e agressões que o submeteram sem qualquer piedade... Todos sem exceção.

Durante anos Jonathan Crane sofreu calado, esperando pela oportunidade correta para dar o troco àqueles que o maltratava. Conforme os anos passavam, os conhecimentos cresciam com a vontade do jovem por vingança, e, no último ano de colégio, viu finalmente a chance que tanto esperava:

O baile de formatura.

Quando a aguardada noite chegou, enquanto os alunos vestiam seus mais finos trajes, Crane incorporava seu tão odioso apelido: se queriam o Espantalho, então o teriam. Pegou o revólver que o pai escondia numa caixa embaixo da cama e seguiu para o baile, tendo a doce vingança como sua acompanhante da noite.

Mal tinha chegado ao estacionamento de seu colégio quando avistou Bo Griggs, o “líder” de seus perseguidores, possuindo com vigor o corpo escultural de Sherry Squires, a líder de torcida que rejeitou com cara de nojo a declaração amorosa que Jonathan fizera quando tinham 15 anos, num Cadillac vermelho desbotado. O garoto não pôde deixar de sorrir com a própria sorte, carregando o revolver e apontando não para o casal, mas para as tochas decorativas que estavam próximas ao carro onde transavam.

O incêndio se espalhou rapidamente pela decoração lotada de pano e madeira, despertando o terror nos rostos de todos os presentes. Jonathan gargalhou em alto e bom tom, deliciando-se com o macabro espetáculo que causara.

O resultado foi melhor que o esperado: 7 feridos e 5 mortos, entre eles Bo Griggs e Sherry Squires. O culpado pelo incêndio nunca foi identificado, tudo o que sabiam dele é que possuía uma risada sinistra e única. O som desta havia deixado uma marca eterna de terror na memória dos envolvidos na “Noite do Inferno na Terra”, como ficou conhecido o evento.

Porém, mesmo tendo se vingado com sucesso, todo o ocorrido só serviu para alimentar a fagulha inicial que mudaria completamente a vida do jovem: sua obsessão pelo medo.

A paixão pelo terror era tamanha que nem sequer pensou duas vezes ao escolher a psiquiatria como profissão, especializando-se na área de medos e fobias humanas. Com todo seu entusiasmo e boa vontade para aprender, abriu muitas portas para sua carreira como profissional, especialmente uma com a qual sempre sonhou: trabalhar no famoso Arkham Asylum e, de quebra, lecionar na Gotham University.

— Hoje, preparei uma aula bem interessante pra vocês – não se ouvia mais um único som por parte dos alunos. Crane anotando o título da aula no quadro negro era o único ruído na sala. – “Qual o seu maior medo”? – Leu o título da aula num tom satisfeito.

Foi mais que suficiente para arrancar alguns comentários empolgados dos alunos. Antes que perdessem o foco, o professor sacou rapidamente um objeto que fez todos ficarem em silêncio fúnebre novamente: um revólver.

— Sr. Elliot – Jonathan chamou o nome de seu brilhante aluno, Thomas Elliot, um rapaz quieto que sempre sentava na primeira carteira, e apontou o cano do revólver bem entre os olhos do aluno. – Por favor, me diga o que sente diante dessa situação.

— Se espera que eu responda ‘medo’, professor, lamento, mas não é essa minha resposta. – Respondeu-lhe o menino com simplicidade.

Crane não se deixou abalar pela atitude defensiva do estudante.

— Perguntei como se sente, Thomas.

Inicialmente, o garoto nada disse, apenas observou o cano da arma com certo interesse, passando logo em seguida sua atenção para o dedo do professor no gatilho.

— Estou perfeitamente calmo – começou sua explanação. – Pois sei que, além de não estar carregado, o senhor não vai atirar em mim. Entretanto, não sei se teria a mesma reação numa situação mais grave.

Elliot rapidamente voltou a ficar em silêncio, esperando pacientemente junto aos colegas alguma reação do professor. Jonathan puxou a trava para trás, assustando alguns estudantes com o ‘click’ do metal.

— Quem disse que não está carregada, Sr. Elliot? – Recolheu a arma da cabeça do estudante, apontando o cano para uma aluna que se sentava ao lado de Thomas. A morena começou a transpirar quando a boca da arma ficou a apenas alguns centímetros de distância dos seus olhos. – É disso que estou falando, pessoal: o que o medo desperta em cada um de vocês? Por que agimos inconscientemente perante situações como essa? Como e por que uma fobia é capaz de matar um indivíduo?...

Teria sido uma aula memorável aos estudantes de psicologia... Se Crane não tivesse puxado acidentalmente o gatilho num momento de distração. A bala pegou de raspão na orelha esquerda de um aluno que sentava no fundo. Não houve grandes sequelas quanto à saúde da vítima, mas foi motivo grave o bastante para Jonathan Crane ser mandado embora de seu cargo como professor na Gotham University.

Assassinar o reitor afanou um pouco a frustração de Jonathan Crane, mas não foi o suficiente para impedi-lo de se tornar o criminoso conhecido como ‘Espantalho’.

Crane riu da doce metáfora que a vida lhe dera: bastou apertar o gatilho para se tornar um alguém totalmente novo, matando a parte medíocre que restava de Jonathan Crane e conservando apenas a genialidade do mesmo para formar o Espantalho.

De repente, a porta da escura cela onde mantinham o Espantalho encarcerado se abriu, revelando a figura de dois homens grandes e fortes. Ao julgar pelas roupas e os porretes, diria que faziam parte da equipe de segurança do hospício.

— Dr. Crane, precisamos que venha conosco. – Um deles anunciou.

— E é melhor cooperar. – O colega completou num tom sério e autoritário.

O tamanho dos dois não impressionava nem por um momento o criminoso. Lidara no passado com valentões o suficiente para aprender a não mais temer músculos e força.

— Como quiserem, cavalheiros. – Concordou cordialmente, levantando-se devagar do chão frio e seguindo o caminho determinado pelos guardas. – Posso saber o que está acontecendo?

— O Dr. Liew quer fazer algumas perguntas. – Recebeu uma reposta curta e grossa do guarda carrancudo.

O Espantalho não pode deixar de sorrir.

Oh, isso vai ser divertido.

Mesmo quando fazia parte da equipe médica do Arkham Asylum, Jonathan Crane sempre achou o Dr. Kevin Liew um homem extremamente ignorante e sem qualquer talento para exercer a função de psiquiatra. Seus métodos eram falhos e suas perguntas rasas demais para conseguir deduzir algo mais profundo e significativo do estado psíquico de um paciente.

Crane adorava brincar indiretamente com o médico. E, pela força do hábito, não era algo que estava disposto a parar.

— Bom dia, Dr. Liew, como está se sentindo hoje? – Perguntou fingindo inocência.

— Devo lembrá-lo que não conduz mais as sessões, Sr. Crane? – Kevin Liew fez questão de enfatizar a palavra “senhor”, deixando de maneira clara que não mais considerava Jonathan seu colega profissional. – Sou eu quem faz as perguntas aqui.

— Mas é claro! Se isso te traz mais segurança, quem sou eu para negá-lo? – Novamente utilizou seu tom calmo e cordial, sorrindo ao perceber que Kevin preferiu ignorar seu comentário.

O psiquiatra sacou o pequeno gravador do jaleco, apertando o botão de gravar e registrando:

“Entrevista n.7 com Jonathan Crane, autointitulado Espantalho. O paciente foi submetido a quase 3 semanas de reclusão na solitária após causar o incidente envolvendo dois guardas e a Dra. Young. As entrevistas anteriores mostram-se inconclusivas: não é possível determinar se o paciente é ou não insano...”

Amadores... Pensou o Espantalho, impaciente.

— Que tal falarmos sobre o que ocorreu há quase 3 semanas, Sr. Crane? O que esperava obter com tudo aquilo?

Jonathan se ajeitou como pôde na desconfortável cadeira de metal do prédio da Penitenciária. As salas de consulta do estabelecimento eram as mais precárias de todo o complexo, sendo compostas apenas por duas cadeiras e uma mesa. Os pacientes que estivessem naquela área deveriam ser acorrentados durante a sessão para evitar possíveis eventos indesejáveis.

— Não é óbvio? Eu queria entendê-los. Conhecer os demônios de cada um, seus medos... É bem fascinante, na verdade. — Crane preferiu deixar de lado o acordo que fizera com a Dra. Quinzel. Kevin Liew não precisava saber de todos os mínimos detalhes.

Kevin Liew balançou a cabeça para os lados, parecendo não compreender algo que Espantalho não conseguiu identificar de imediato.

— Eu realmente não entendo, Jonathan... Você era um psiquiatra respeitado. Muitos o consideravam um verdadeiro gênio! Agora não passa de outro paciente do Arkham e...

— Posso beber alguma coisa? De preferência algo bem forte. Esse assunto me deixa muito entediado.

– Temo que não.

A resposta do médico fez um sorriso brotar nas feições antes tediosas de Crane.

— Interessante escolha de palavras, Liew – elogiou o ex-colega, aproximando ao máximo seu tronco para perto do mesmo. – Diga-me, doc, qual o seu maior medo?

Novamente seu comentário foi ignorado pelo Dr. Liew, que voltou a gravar alguns apontamentos no velho gravador:

“Crane continua a evitar as perguntas. Eu acredito que ele ainda tenha um pouco de sanidade, mas não o suficiente para conseguir manter um bom convívio em sociedade. Não lhe interessa o bem estar alheio, apenas deseja alcançar seus próprios interesses. Esse fascínio doentio pelo medo parece ser sua única razão de viver. Seu único fator motivador.”

— Tenho uma pergunta pra você, Jonathan: Nunca pensou na possibilidade do seu próprio medo ser aquele que o faz ficar obcecado por entendê-lo?

Pobre, Kevin, ele realmente não nasceu para essa profissão.

— O medo controla tudo, doutor. Tudo mesmo. Sua vida é guiada pelo medo, assim como suas decisões: todas foram produtos dos seus temores.

— Não seja ridículo.

— Você se casou com a sua esposa... Isabelle, se não me engano, porque tinha medo de morrer sozinho – Crane procurou explicar devagar para que o médico compreendesse ao menos a essência de sua teoria. – Teve filhos também por medo de não deixar nada nesse mundo que continuasse seu legado. Até mesmo quando vai ao médico... Você está indo vê-lo porque tem medo de morrer. Eu preciso continuar?

­— Não, hoje foi mais que o suficiente. Obrigado pela sua... Cooperação, Jonathan, você já pode retornar para a sua cela habitual.

A notícia surpreendeu o Espantalho.

— É mesmo? O que aconteceu com aquele sistema de segurança máxima que eu costumava ter?

— Você não é mais a prioridade do Arkham Asylum, Crane – Kevin Liew entregou a informação com um sorriso zombeteiro no rosto. – Temos um novo paciente na ilha que requer mais atenção que você e seus truques.

— Jura? – Dessa vez, o Espantalho estava realmente interessado nas palavras do Dr. Liew. – E quem seria nosso novo companheiro? Mal posso esperar para conhecê-lo pessoalmente.

Notas finais
E então, o que acharam do cap? To curiosa pra saber a opinião de vocês!! Obrigada a todos os leitores lindos que comentaram no último capítulo! Sério, isso me motiva muito a continuar! Pergunta: Quem vocês gostariam de ver no próximo cap? Aguardo a opinião de vocês! Beijocas