Arkham's Minds
6 Jervis Tetch
Notas iniciais
Jervis Tetch
Ou
“Onde está você, Alice?”
Era final de tarde quando os guardas vieram buscar Jervis Tetch para sua sessão rotineira. Antes de ser praticamente arrastado para fora da cela, Tetch estivera novamente em seu País das Maravilhas.
Estivera com Alice.
Os dois celebravam o desaniversário da menina com uma farta mesa de guloseimas. Bolos, sanduíches e geleias eram apenas alguns exemplos dos alimentos presentes, além de bules e mais bules de chá. Tudo apenas para satisfazer os desejos infantis de Alice.
— Mais rápido, Tetch! – Um dos guardas comandou, empurrando de maneira bruta o paciente.
Conforme se aproximava da ala do Tratamento Intensivo, as imagens de seu refúgio mágico sumiam do campo de visão de Jervis, levando sua preciosa Alice novamente para longe de si.
— Não! Alice, volte! – O homem gritava, debatendo-se violentamente contra os braços rígidos que o aprisionavam. – Não se vá!
— Calado! – Um comando ainda mais severo foi vociferado, porém, Jervis Tetch não parecia prestar atenção naquela realidade. Estava devastado demais em observar sua Alice desaparecer com o País das Maravilhas.
O ambiente oscilava entre realidade e delírio. Ora pisava no gramado verde e macio das Florestas Encantadas, ora voltava a sentir a frieza dos azulejos desgastados dos corredores sombrios do Arkham. As mudanças eram tão rápidas que Jervis chegou a ficar tonto, quase perdendo o equilíbrio e caindo de cara no chão.
Mas os guardas jamais dariam ao Chapeleiro Maluco o luxo de sentir-se solto nem por um segundo sequer. Assim como Victor Zsasz e Killer Croc, Tetch era considerado um detento de alta periculosidade, sendo extremamente arriscado deixá-lo livre, mesmo que por questão de segundos.
Logo após adentrarem na pequena sala de terapia, Jervis teve ambas as mãos algemadas em frente ao corpo e, por precaução, foi também amarrado no próprio divã. Enquanto esperava algum psiquiatra vir ao seu encontro, Tetch lamuriava baixo, sempre chamando apenas um nome:
“Alice.”
De repente, o paciente escutou o barulho de passos vindos do corredor. Imediatamente, com o coração batendo mais rápido, Jervis se debateu, querendo desesperadamente soltar-se daquelas amarras para receber dignamente Alice.
— Eu sabia que você iria voltar, Alice, sabia! – Disse feliz da vida, puxando com toda a força as cordas. O esforço foi tanto que o homem chegou a ficar sem ar, com a pele da região do tórax vermelha e ardida, que o incomodava cada vez que o tecido áspero do uniforme encontrava a área sensível.
— O que está fazendo, Sr. Tetch? – Uma voz feminina inquiriu num tom severo. No momento em que os olhos de Jervis encontraram os da psiquiatra, toda a agitação foi drenada, e novamente a tristeza tomou conta do paciente. – Faz um bom tempo que não nos vemos, não é mesmo?
Jervis Tetch não respondeu, apenas desviou o olhar daquela mulher. Não, ela não era sua Alice, nunca seria! Mas e agora? Se não era Alice nos corredores, onde ela estava? Estaria muito longe? A ansiedade fazia Tetch suar frio e oseus dentes baterem.
— Onde ela está? – Perguntou Jervis de forma repentina.
A médica não respondeu à pergunta, limitando-se a apenas prender os longos cabelos castanhos num coque e preparar o material necessário para o início da sessão.
— E lá vamos nós de novo... – Ela suspirou, ligando o gravador.
“Penélope Young retomando os encontros com o paciente Jervis Tetch, autointitulado ‘Chapeleiro Louco’. O paciente foi trazido há 6 meses ao Arkham Asylum pelo Batman, sendo tratado por apenas 4 meses antes de me ausentar. Devido à natureza esquizofrênica do indivíduo juntamente com traços de transtorno obsessivo-compulsivo, desilusão e com a minha suspeita de um possível transtorno maníaco-depressivo, é necessário recomeçar do zero o tratamento. Somente dessa forma poderão ser confirmados ou não meus palpites.”
Colocando o gravador de lado, a Dra. Young procurou manter um sorriso no rosto.
— Que tal se acalmar um pouco, Jervis? Essa agitação não fará bem pra você. – Sugeriu, mesmo sabendo que seu conselho seria ignorado pelo irrequieto paciente.
— Não tenho tempo pra isso! Preciso da Alice! Onde está a minha Alice? – Os olhos de Tetch estavam arregalados, enquanto seu rosto era banhado pelo suor.
Penélope Young respirou fundo.
— Por favor, Jervis, ao menos tente.
Ao responder, o paciente fez algo inusitado.
— Sem tempo pra acalmar, sem tempo pra falar! Alice irá voltar e meu chapéu preciso achar! – Era de fato algo curioso. Sempre que ficava extremamente nervoso, Jervis começava a se comunicar através de rimas.
A peculiaridade de Jervis Tetch intrigava a Dra. Young. Sua obsessão não era o que mais chamava atenção, pois havia outros no Arkham que eram grandes fãs de Lewis Carroll: os irmãos Tweed. O que atraía Penélope Young era o fato de Jervis ser um gênio vencido pela loucura.
—Alice ainda não está aqui Jervis, mas virá em breve. Então pela última vez: relaxe.
— Mas... – Vendo que até mesmo com mentiras ele não se acalmava, a psiquiatra decidiu continuar a falar, ignorando os gemidos e lamúrias de Tetch.
— Gostaria de um pouco de chá? Isso o faria ficar mais calmo? – A paciência da Dra. Young fora restaurada enquanto estivera ausente, por isso, tentava de tudo naquele momento para acalmar Tetch.
Novamente foi ignorada pelo paciente, que beirava o histerismo.
—Ela já chegou? Alice está aqui? – Ele questionou a médica, que negou com um rápido aceno com a cabeça.
— Temo que não. Mas que tal conversarmos um pouco enquanto a esperamos? Sabe, Jervis, nós algumas coisas em comum...
O comentário pareceu prender a atenção do Chapeleiro, que voltou rapidamente os olhos febris para a psiquiatra.
— É mesmo?! Você também conhece a Alice?!
Penélope Young cruzou as pernas e ajeitou-se melhor na poltrona, descansando o pequeno bloco de notas ao lado do gravador em seu colo.
— Infelizmente, não, ainda não fomos apresentadas. Mas nós dois possuímos um grande interesse pela mente humana, não? Eu li seus estudos, Jervis, e posso afirmar sem dúvida alguma que você tem uma mente extraordinária. – Cada palavra que saia dos lábios da jovem médica era verdadeira. Jervis era brilhante, dono de um intelecto extremamente difícil de encontrar. Era realmente uma lástima que a loucura tenha falado mais alto.
Ao contrário do que teria acontecido com outros detentos, como o Charada, os elogios da Dra. Young não surtiram efeito no ego do doente, que revirava os olhos com evidente impaciência.
— Nada disso importa... São apenas químicos, sinapses e coelhos e onde está Alice? – Choramingando, Jervis soltou um pesado suspiro, mostrando estar um pouco mais calmo que antes.
Ótimo. Preciso aproveitar essa calmaria e atacar.
— Você precisa se concentrar. Pense no seu trabalho por alguns instantes. Você criou a teoria de que não existe o livre arbítrio.
— É mesmo?
— Aham. Defendeu que tudo dentro da mente de um homem, desde suas motivações até suas mais profundas crenças podem ser alteradas com a ajuda de químicos. – Penélope Young estava diante de uma mente revolucionária, algo extremamente custoso de crer.
Entre tantos pacientes no Arkham, Jervis era aquele quem Penélope achava que definia melhor a essência da loucura. Mesmo com o Joker no lugar, a doença de Tetch era pura, não violada pela crueldade e amor pelo sadismo. Todos os crimes que cometera foram em função de sua desilusão passional pela obra de Carroll; pela sua Alice.
Uma loucura pura era difícil de ser encontrada, um tanto irônico de se dizer, visto que trabalhava 24 horas ao lado de malucos.
— Uma fórmula inigualável, devo dizer, e por isso mesmo que eu a usei. – Confessou Penélope Young, não se importando como Jervis reagiria. Pouco se importava se ele falasse a alguém, louco do jeito que era, iriam leva-lo tão a serio como se leva uma criança. – O Dr. Strange também é um grande admirador seu, mas creio que já sabia disso. – Referiu-se ao tempo em que o chefe a substituíra como sendo responsável pelo paciente.
Tetch arqueou as sobrancelhas, confuso.
— E como foi que pegou a minha fórmula? Foi Alice quem lhe entregou? Menina levada! Pestinha miserável! – Ele gritou, abrindo um largo sorriso logo em seguida. – Ela por acaso já chegou?
— Paciência, Jervis...
O paciente sacudiu a cabeça, mostrando que a última coisa que tinha naquele momento era paciência.
— Não, você me disse que Alice estaria aqui!
A Dra. Young encarou Jervis Tetch por alguns instantes, ponderando se deveria ou não utilizar uma abordagem mais radical com o mesmo. Ao ver que o tempo estava passando rápido demais, e que a cooperação de Tetch era praticamente nula, a psiquiatra decidiu que aquela era a hora certa.
— Mas ela está aqui, Jervis.
Os olhos do doente brilharam e um sorriso sincero tomou conta de seus lábios machucados. Feliz da vida, o Chapeleiro começou a cantarolar.
— Alice, querida, onde você está? Venha cá, venha cá! Alice, minha doce Alice, não me faça gritar! Venha cá, venha cá... Onde você está?
Enquanto Jervis estava ocupado demais procurando sua Alice, a médica retirou uma pequena pasta da maleta que sempre levava consigo. Após revirar o extenso arquivo, a Dra. Young pegou algumas fotos.
— Dê uma olhada nessas imagens, sim?
Involuntariamente, o Chapeleiro Louco fixou os olhos nas fotografias; seu sorriso desapareceu no mesmo instante.
— Quem são essas pessoas? – Disse, com os cantos da boca virados pra baixo, exibindo sua repulsa.
— Olhe com atenção. – Insistiu a psiquiatra, estudando cautelosamente a expressão facial de Tetch.
As imagens estavam incomodando-o, isso não havia dúvida.
— E-eu não sei quem são! Por favor, Alice está aqui ou não?!
— Olhe para a primeira imagem. Olhe para o vestido da garota. Olhe para o cabelo... Ela é a Alice, não?
— Claro que não! Alice tem um maravilhoso cabelo amarelo e... – Algumas lágrimas começaram a brotar nos cantos dos olhos de Jervis; sua voz se arrastava. – Não está coberta de sangue... – E começou a chorar, soltando alguns soluços de desespero.
A cena não comoveu a Dra. Young.
—Eu acho que você sabe exatamente quem ela é, Sr. Tetch. E acho que se lembra da noite em que persuadiu Stephanie Williams a segui-lo até seu laboratório. Lembra-se de ter servido chá a ela... E o que aconteceu depois? –Penélope tinha completa noção da crueldade que estava fazendo, porém, Jervis Tetch não lhe dera outra alternativa.
— NÃO! NÃO! NÃO! – Parecia que Jervis desejava superar a voz de Penélope com seus gritos, tornando assim as palavras inaudíveis.
Por mais que chorasse, por mais que gritasse, a Dra. Young sabia que Jervis continuava a ouvi-la.
— Você a matou, não? Ela foi a sua primeira vítima – o rosto do homem estava contorcido numa careta de dor, como se as palavras da psiquiatra estivessem agredindo-o fisicamente. – Não tem problema lembrar-se disso, Jervis. Mas diga-me: quantas Alices passaram pelo seu laboratório depois da Srta. Williams?
— Eu não me lembro! – Admitiu Tetch aos prantos. Penélope Young achava que Jervis ficaria naquele estado histérico por um bom tempo, por isso, estava prestes a encerrar a sessão quando uma nova pergunta veio do paciente, num tom totalmente controlado e baixo, beirando a fala de uma pessoa sã. – Alice não virá, não é mesmo?
Nunca pensei que o transtorno bipolar fosse ser tão útil.
— Isso depende de você, Jervis. Depende da sua cooperação. – Penélope desligou o gravador. – Eu tenho um pequeno projeto e preciso da sua ajuda.
Jervis Tetch parecia confuso.
— Da minha ajuda? Não, não posso! Irei me atrasar para encontrar Alice!
— Foco, Jervis – Ela se ajeitou na poltrona, procurando uma posição confortável. – Creio que o Dr. Strange já falou sobre os planos dele, não?
— Ah, sim! – Jervis sacudiu a cabeça em concordância, orgulhoso por conseguir se lembrar. – “O Arkham Asylum é velho e em breve cairá! Seus métodos são falhos, assim como sua estrutura. Eu vou criar um novo Arkham, bem diferente desse, bem mais... Eficiente!” – Recitou as mesmas palavras que Strange usara quando lhe foi feita a proposta.
— Isso mesmo – confirmou a Dra. Young, utilizando um tom mais baixo. – Todo o material necessário para a sua fórmula já está aqui, precisamos dela o mais rápido possível, compreende?
— M-mas eu preciso de cobaias para minha pesquisa! E chá, e...
— Alice – A médica completou o óbvio. – Quanto às cobaias, não se preocupe, o Dr. Strange arranjou algumas... Almas mais fracas para tal. Estão em Arkham por tanto tempo que ninguém sentirá falta.
O rosto de Jervis Tetch se iluminou com a notícia.
— Teremos uma festa do chá?!
—Sim, Jervis, teremos... E eu tenho mais uma proposta pra você, mas terá que manter segredo. Consegue manter um segredo?
O mistério parecia seduzir Tetch, que, aos poucos, relaxava no divã.
— Com a minha fórmula, eu posso fazer as pessoas se esquecerem de segredos. Isso conta? – Inquiriu, animado.
— Sim, conta – A Dra. Young sorriu. – Quero que aplique a fórmula em mais duas pessoas, além das que Strange lhe pediu, claro.
Jervis tombou a cabeça para um lado.
— É mesmo? E quem seriam eles? Não está falando de Alice, certo?
— Não, Jervis, pode ficar tranquilo. Alice está fora da minha lista. – Penélope Young ouvira tantas vezes “Alice” num curto espaço de tempo, que começava a amaldiçoar Lewis Carroll por ter criado aquele maldito conto. – Um deles é um paciente teimoso que se recusa a cooperar comigo nas sessões, somente com outra médica, que seria seu outro alvo. Curar o Joker me traria um enorme reconhecimento; ele era MEU paciente! Mas não, ao invés de adiarem o início do tratamento quando fui atacada, colocaram Harleen Quinzel, aquela criança estúpida que pensa ser uma psiquiatra para analisa-lo primeiro. Ela disse algo ao palhaço, algo que o fez querer somente a presença dela nas sessões... Maldita! Isso não vai ficar assim, pode ter certeza que não, Jervis. Eu vou curar o Joker, nem que eu tenha a ajuda da sua fórmula para fazê-lo cooperar!
— Crianças levadas! Temos que punir as crianças levadas! – Se pudesse, Jervis estaria aplaudindo a ideia. – E a menina? O que quer que eu faça com ela?
A pergunta fez um sorriso cruel brotar nos lábios da jovem médica.
— A menina pode sofrer um acidente fatal, Jervis. Estou contando com a sua criatividade pra isso.

Fale com o autor