Arkham's Minds
7 Dra. Harleen Quinzel
Notas iniciais
Dra. Harleen Quinzel
ou
“Você entende, não é mesmo?”
Já era final de tarde quando Harleen Quinzel pôde finalmente descansar. Tivera um dia exaustivo, lotado de emergências e correrias pelos extremos de Arkham. Eram desde chamadas dos enfermeiros da Ala Hospitalar até os apelos dos guardas da Penitenciária sobre como lidar com a agitação de alguns presos de alta periculosidade. E, como Harleen era recém-chegada, todo o trabalho pesado acabou sobrando pra que ela resolvesse.
Assim que se viu livre do aperto dos saltos vermelhos, Harleen soltou um suspiro aliviado. O inchaço nos pés era evidente. Algumas bolhas se formaram nas laterais, o que explicava a dor insuportável que Quinzel sentira na região ao longo do dia. Tacou os sapatos para longe e, finalmente, deu-se ao luxo de deitar um pouco na cama e descansar. De olhos fechados, ela começou a repassar os principais eventos daquele dia exaustivo, sendo o principal deles sua consulta com Victor Zsasz. Já que Penélope Young assumira o caso de Joker, Quinzel foi designada a continuar o trabalho da colega com Victor.
Diferente de Joker, que mesmo tomando a posição de um dos pacientes mais perigosos do Arkham, possuía um charme inegável no seu modo de ser; Zsasz era amedrontador. Sua aparência sombria era apenas mais um elemento que contribuía ao seu total medonho, como se tivesse saído de um conto de Edgar Allan Poe. Victor era um homem alto, com uma boa estrutura muscular para alguém na casa dos 30 anos, porém, seu corpo era curvado para frente, atribuindo-lhe uma postura animalesca. A pele pálida pelas abundantes horas que ficava encarcerado era inteira marcada por traços que ele próprio fazia, desde a testa até os pés.
Quando entrou na cela para realizar a sessão, Harleen não fraquejou. Assumiu uma postura que exalava confiança, querendo logo indicar a Victor Zsasz que era ela quem estava no controle da situação.
“Primeira entrevista com Victor Zsasz, agora sob observação de Harleen Quinzel. Zsasz Foi diagnosticado pela Dra. Young como sociopata após ter sido apontado como responsável pela morte de, pelo menos, vinte mulheres em Gotham City.”
— Bem, Victor, como essa é nossa primeira sessão, que tal nos conhecermos melhor? — sugeriu a doutora Quinzel com um sorriso breve.
Victor Zsasz estava preso à cadeira. Pesados grilhões foram atrelados às mãos e pés do homem, deixando-o praticamente imóvel. Os olhos do preso eram escuros como petróleo, e devoravam a figura de Harleen com a loucura explícita nas íris opacas.
— Não tenho o menor interesse em conhecê-la, Dra. Quinzel, afinal... Tudo é passageiro. — Respondeu o paciente num tom sombrio.
Harleen limitou-se a limpar a garganta com uma breve pigarra antes de prosseguir.
— Não acha que isso é uma visão muito pessimista da vida?
Os lábios de Victor se contraíram num sorriso de escárnio; os olhos riram junto da pergunta da médica.
— Você leu meu arquivo. Gostou do que viu?
Ajeitando rapidamente os óculos no nariz, a psiquiatra se acomodou melhor no assento. Percebeu que Zsasz assumira uma postura desafiadora, procurando amedrontá-la com seu histórico macabro.
Teria que fazer melhor que aquilo para assustar Harleen Quinzel.
— Li sim. Dizia que veio de uma família abastada, porém, quando seus pais morreram, você perdeu tudo em jogos e apostas. — Quinzel observou com surpresa o sorriso do paciente alargar ainda mais. — Perdeu para um dos nossos pacientes: Oswald Cobblepot.
— Ele já era conhecido como Pinguim naquela época. O infeliz ainda tinha os dois olhos. O... Trágico acidente aconteceu depois. – Ele deu de ombros. — Mas nada disso importa.
— Por que insiste em dizer isso, Victor?
— Porque a única coisa que importa é marcar – Zsasz afastou os braços, erguendo-os até onde as correntes permitiram a fim de exibir seus traços com evidente orgulho. — Você já viu meu trabalho, Dra. Quinzel?
A médica não respondeu de imediato. Observava as marcas de Victor com agonia ao ligar cada traço a um cadáver; uma vítima de um assassinato violento e cruel. Não havia dúvidas de que Zsasz era um monstro. E, por mais doentia que fosse sua mente, Harleen era ciente que o tipo de Victor era o mais comum no mundo.
A crueldade estava muito além de patologias psiquiátricas. Era uma doença da própria existência humana.
— Impossível não notar. — Procurou responder de maneira casual, como se não estivesse impressionada. Não desejava amaciar o ego do sociopata.
— Eu tenho um lugar reservado pra Dra. Young e outro pra você — anunciou o doente, tentando aproximar-se de Quinzel. O barulho aflitivo dos grilhões roçando na cadeira de metal fez Harleen trincar os dentes. — Quer ver onde?
Já vi que as coisas não vão ser como eu imaginava. Assim como o Joker, Victor mostra enorme resistência ao tratamento... Mas, por outro lado, querer a cooperação é algo utópico. Se eu tivesse forças, também lutaria até o fim para me ver livre desse lugar.
— Fale mais um pouco das suas vítimas, Victor. – Pediu Harleen, tentando desviar o assunto mórbido.
O tema não pareceu incomodar Zsasz.
— Está falando dos zumbis?
Zumbis?
— Não, Victor. Eram pessoas. Vivas. – A médica corrigiu de maneira sutil.
—Eram zumbis – insistiu o paciente, convicto de sua crença. – Presos à rotina de suas vidas medíocres e vazias enquanto aguardavam alguém para libertá-los.
Harleen Quinzel arqueou as sobrancelhas. Não era todo dia que ouvia coisas do gênero, mesmo sendo uma psiquiatra do Arkham Asylum.
— Matando. Esse é seu jeito de libertá-las? – Victor concordou com um aceno breve, contente por ela ter entendido. — De acordo com o relatório do GCPD, você “libertou” vinte mulheres nos últimos três meses. Todas foram encontradas com a garganta dilacerada e com as cordas vocais... Arrancadas.
— Todas tiveram sorte de serem escolhidas, Dra. Quinzel. Estão livres do vazio existencial que é viver.
Zsasz... Você é um filho da puta fascinante.
— Duvido que elas concordem com isso.
O comentário de Quinzel não fez o sorriso sádico de Zsasz desaparecer. Mais do que nunca, sua atenção era plena e completa nas feições da médica. Harleen não se intimidou com o olhar que a desejava. Victor era só mais um paciente, nada mais que isso.
Ela quem estava no comando.
— É mesmo? E quanto a você, Harleen? Quando está deitada na sua cama na Mansão Arkham, encarando o vazio depois de uma exaustiva rotina de trabalho, eu sei que você está me aguardando para libertá-la. – Subitamente, Zsasz se levantou de maneira bruta, lutando contra as correntes que o prendiam no assento. A psiquiatra reagiu ao susto afastando-se rapidamente, deixando o gravador cair no chão. Não se atreveu a pegá-lo. — Eu sou sua salvação, Harleen Quinzel. Assim que sentir sua carne ser cortada e ver seu sangue banhar o chão, você irá me agradecer por presenteá-la, doutora!
Harleen automaticamente pulou da cama. A respiração pesava, dificultando a entrada de oxigênio nos pulmões. Correu para a janela e a escancarou, inalando o ar fresco da noite. Sentiu seus batimentos cardíacos se estabilizarem conforme se acalmava. Apoiando ambas as mãos no parapeito, Quinzel observou distraidamente o ambiente silencioso que dormia sob a luz do luar. O canto das cigarras apaziguou sua mente perturbada pelas palavras ameaçadoras de Zsasz. Respirou fundo.
Victor Zsasz está preso. Suas ameaças foram meramente palavras vazias, Harleen. Acalme-se.
A médica fechou a janela e voltou a encarar as paredes brancas do quarto. Não pensou duas vezes antes de calçar sapatilhas confortáveis e sair do lugar.
Não era recomendado caminhar pela ilha de Arkham ao anoitecer. A neblina ficava mais espessa, dificultando a visibilidade daqueles que se aventurassem pelas trilhas mal iluminadas. Quinzel não se importou; qualquer lugar era melhor que seu quarto. Andava rápido, estreitando os olhos para tentar localizar algo além da névoa. Sabia para onde ir, precisava apenas verificar se tomara a rota certa.
Ventava forte naquela noite. As mãos da ventania acariciavam o rosto de Harleen, despenteando seus cabelos loiros do coque que costumava fazer para trabalhar. O toque gelado adentrava nas roupas de Quinzel, despertando-lhe calafrios ao encontrar a pele quente da psiquiatra. Um sorriso brotou nos lábios de Harleen quando se deparou com a escadaria que levava ao Jardim Botânico. Subiu os degraus com agilidade, sentindo-se aliviada ao adentrar na construção e ter o vento úmido bloqueado pelas paredes.
Uma vez fora do frio, Harleen Quinzel seguiu seu caminho para as roseiras, perto da imensa fonte que enfeitava o lugar. Um guerreiro emergia daquela água escura, apontando uma lança na direção da cobra que enrolava seu corpo, pronta para atacar seu rosto sério. Quinzel aproximou-se mais da estátua, perscrutando o que poderia ser o real significado por detrás da luta.
— Vejo que ele também o intriga— Harleen sentiu um arrepio subir-lhe a espinha quando a inconfundível voz de seu antigo paciente ecoou pela estufa. Virou-se de maneira ágil para trás, deparando-se com Joker encostando um dos ombros na parede. Os olhos verdes emanavam um brilho lúgubre enquanto avaliavam Harleen Quinzel por inteiro. — Está encantadora como sempre, Harley.
A médica não conseguia mais retirar os olhos do palhaço. Algo no seu rosto, no sorriso de chacota, a hipnotizava. Morosamente, Joker avançou para perto da psiquiatra, ajeitando o uniforme alaranjado do Arkham no corpo esguio.
— O-o que está fazendo fora da sua cela? – Inquiriu a loira, quando finalmente conseguiu recuperar um pouco do autocontrole.
A pergunta não impediu o tétrico paciente de se aproximar mais e mais.
— Não gosto de ficar trancado naquele cubículo. É entediante – quando estavam separados por mínimos centímetros, Joker, com seus longos dedos, acariciou de leve o rosto de Quinzel. – Gosto de sair pra pensar.
O toque do palhaço foi semelhante a receber um choque. Sem pensar, Harleen se afastou do homem, atordoada.
— Acho que os guardas não vão aceitar essa explicação.
Eu estou mesmo ameaçando o Joker?! Devo estar perdendo meu bom-senso!
— Você quer chamar os guardas? – O coração da psiquiatra disparou. Como será que a puniria? Arrancaria sua língua? O pensamento fez Quinzel engolir seco. Contudo, Joker, quebrando todas as suas expectativas, afastou-se do caminho de Harleen, indicando-lhe a saída. – Vá em frente, doc. Não irei impedir.
— Não? – Questionou Quinzel. Joker consentiu. — Por quê?
— Porque eu sei que não é isso o que você quer.
Joker se colocou novamente na frente de Harleen Quinzel, envolvendo-a com seu sorriso sádico e olhar hipnótico. A médica respirou fundo, procurando manter-se calma.
— E o que eu quero? — A pergunta fez o palhaço rir enquanto avançava, até que os corpos se encontraram.
— Simples, doc: a mim – ele aponta para a cabeça. – E o que trago aqui dentro.
— E-eu não sou mais a sua responsável. Strange deu o cargo de volta à Dra. Young.
O sorriso do palhaço desapareceu.
— É mesmo? Então ela não estava mentindo...
Da mesma maneira ágil que fora até a psiquiatra, o palhaço se afastou. Virou-se para encarar a fonte. A rapidez dos acontecimentos deixou a loira desnorteada.
O que acabara de acontecer?
Enquanto recuperava a linha de raciocínio, Harleen experimentava também os últimos resquícios de uma estranha e inédita sensação. Começou quando seu corpo encontrara o de Joker. Parecia mais um vazio em suas entranhas que, aos poucos, foi preenchido com fogo. A flama caminhou até seu peito, incendiando seu coração. Harleen sentia-se em chamas, e Joker era seu combustível.
Quando o palhaço se afastou de maneira inesperada, todo o ardor interno que preenchia Harleen cessou. O fulgor se fora, levando consigo um pouco do brilho do mundo.
Harleen Quinzel nunca passara por uma experiência tão avassaladora como aquela.
— Sabe o que se passa na minha cabeça agora, doc? Que ele é louco – Joker comentou em tom casual, ainda mirando a estátua do guerreiro e da serpente. – Vestindo-se daquele jeito à noite.
— Quem? – Harleen pensou por alguns instantes, tentando desvendar o sujeito misterioso do comentário. – Batman?
Joker voltou seus olhos para a mulher, encarando-a com cepticismo.
— Não, o Papai Noel... – desdenhou, tentando controlar a irritação na voz. — Claro que é o Batman! É sempre o Batman! – Os berros do palhaço fizeram Harleen pular de susto, mas ela não gritou. Não se atrevia a interrompê-lo. – Eu já vi a loucura estampada nos olhos dele, implorando para ser libertada. É uma insanidade disfarçada. Oculta do mundo por aquela maldita máscara! – Joker parecia realmente irado, mesmo com o seu permanente sorriso estampado no rosto. – Eu me exibo com muito orgulho, doc! Não tenho absolutamente nada para esconder do mundo! Rio da piada de mau gosto que é a humanidade, assim como rio da estupidez, da violência e da insignificância do ser humano! – Uma gargalhada maníaca emergiu da garganta do palhaço, preenchendo todo o Jardim Botânico com sua histeria. – Enquanto o Batman... Ah, ele brinca com vocês. Chama–os de estúpidos ao fazê-los acreditar que está lutando para melhorar o mundo. E sabe qual a graça? Que todos acreditam!
Harleen acompanhava cuidadosamente o raciocínio do palhaço, mostrando real interesse pelo raciocínio que defendia de maneira feroz.
— Está falando da polícia?
— Da polícia, da mídia, dos políticos. Todo saco de carne ambulante desta maldita cidade! Escute, querida, o Batman sabe que estamos todos no mesmo barco. Somos crias da loucura, então por que ele se recusa a admitir isso? Fica apenas rindo, observando-me de seu patamar endeusado pelos miolos moles que habitam Gotham City. – Ele fez uma rápida pausa a fim de recuperar o fôlego. – Então me diga, doc: onde está a justiça quando o Batman corre livre por aí, com sua loucura acobertada por uma fantasia de morcego e falsas promessas de um mundo melhor, enquanto eu apodreço nesse lugar por rir da realidade?
Foi então que Harleen compreendeu. Tudo o que Joker acabara de falar não passava da mais pura verdade. Apenas por se autodeclarar um justiceiro, um maluco trajado de morcego tinha plenos direitos de caminhar livremente pelas ruas de Gotham? Isso não estava certo.
Céus, será que as pessoas que caminham agora em liberdade são na verdade as que deveriam estar aqui?
— Realmente não há.
A resposta de Quinzel fez os olhos do palhaço brilharem. Ele veio para perto da loira, tomando ambas as mãos delicadas da médica nas suas.
— Então você entende, não é mesmo, Harley? Você entende que eu preciso detê-lo. Que eu sou o verdadeiro salvador de Gotham.
Sentindo novamente o calor das chamas tomarem-lhe o corpo, Quinzel percebeu que todo o receio foi destruído, dando lugar ao entusiasmo da sua nova visão de mundo.
— É claro que sim – pela primeira vez, desde que a estranha conversa teve inicio, Harleen viu-se sorrir. Joker, assim como ela, entendia o que era fazer a diferença. Ambos queriam ser a diferença. Batman não passava de um impostor, uma falsa esperança para a humanidade desfalecida. Somente Joker e ela, os únicos que compreendiam a real gravidade da situação, eram capazes de trazer mudanças significativas para aquela realidade fastidiosa. – Ele tem que pagar pelas suas mentiras e, principalmente, pelo que fez com você, pudinzinho. — Harleen puxou Joker para si, beijando-o com voracidade, permitindo, assim, que fosse devorada pela lubricidade das chamas que cultivava em seu interior.

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