Arkham's Minds
8 Edward Nigma
Edward Nigma
ou
“Não gosto de piadas, palhaço. Poupe-se do trabalho.”
“ — Não se preocupe, Sr. Sharp, está tudo sob controle.
— Olhe, Hugo, não é que eu não confie no que diz... Mas essa dor insuportável de cabeça está cada vez mais forte e frequente!
— Apenas continue a tomar sua medicação. Está tarde, Quincy, você precisa descansar um pouco. Parece muito cansado.
— E-eu estou muito cansado.
— E vai desligar agora.
— E vou desligar ago...”
A gravação se interrompeu com o final da ligação, deixando os três homens que a escutaram com feições de evidente surpresa. Não era preciso dizer que estavam impressionados com as informações providas por Nigma, que sorria satisfatoriamente para os colegas.
— Então esse verme do Strange está mesmo tramando algo! — Killer-Croc bateu ambas as mãos na pequena mesa de carvalho envelhecido, quebrando-a em dois. O barulho ecoou pela pequena sala de tijolos mal iluminada, o que lhe rendeu olhares repreensivos dos demais presentes. — Nós deveríamos matá-lo agora mesmo!
— Não é tão simples assim, idiota! – O pequeno boneco de madeira, Scarface, berrou de volta para o monstro. Ed precisou conter o riso que se formava nos lábios ao observar Arnold Wesker, também conhecido como Ventríloquo, se contrair de medo com o tom de voz utilizado pelo brinquedo. — Se Strange morrer, como saberemos se mais alguém está envolvido? Como saberemos se aquele maldito Batman faz parte disso?
— Cavalheiros, que tal decidirmos o destino de Hugo Strange na sorte? — Dent se pronunciou com um sorriso que ia de uma face à outra. O lado esquerdo do corpo, que fora consumido por ácido, jogava a moeda para o alto enquanto aguardava uma resposta dos demais. — Parece o jeito mais justo.
Nigma revirou os olhos, não acreditando no que acabara de escutar. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando permanecer calmo.
— Impressionante, senhores, que o mais sábio de todos aqui é, sem sombra de dúvidas, um pedaço de madeira falante. — Comentou em tom zombeteiro, fitando Killer-Croc, Duas-Caras e o Ventríloquo com divertimento.
Scarface fez uma careta de desagrado para Edward.
— O “pedaço de madeira falante” vai quebrar todos os seus dentes se continuar com essas piadas medíocres, Charada.
Antes mesmo que o homem pudesse responder, um quinto elemento fora identificado na sala secreta de reuniões. O sujeito estava encoberto pelas sombras, ocultando-o quase por inteiro. A única visão que tinham era do seu sorriso perturbador.
— O Pinocchio tem razão, deixe as piadas pra mim. — Devagar, a figura do Príncipe Palhaço do Crime se revelou para os vilões reunidos. — Espero não estar atrapalhando a reuniãozinha de vocês.
— Do que esse infeliz me chamou? — Scarface perguntou ao Ventríloquo, que apenas lhe deu de ombros.
— Como foi que entrou aqui, palhaço?! Como sabe da existência desse lugar? — Killer- Croc se adiantou para perto do intruso, erguendo-o do chão pelo colarinho do uniforme alaranjado do Arkham. Os dentes afiados de Croc roçavam a pele pálida do coringa, que não demonstrava qualquer desconforto diante da situação.
— Ora, não me culpe pelas suas falhas. Alguém se esqueceu de trancar a porta quando entrou. — E soltou uma de suas famosas gargalhadas. O som agudo parecia adentrar no encanamento enferrujado e repercutir pelas paredes de tijolos gastos.
O apontamento do palhaço resultou em todos os olhares fixados na figura de Edward Nigma. O homem galgaz arqueou as sobrancelhas com a reação dos colegas e, de má vontade, cruzou os braços sobre o peito.
Era fato que Ed fora o último a adentrar no esconderijo, mas acusá-lo de ter cometido tal estupidez? Isso era inaceitável!
— Não me insultem com a dúvida de eu ter ou não deixado o palhaço entrar por acidente — respondeu aos olhares raivosos em tom esnobe. — É óbvio que minha falta de cuidado foi proposital.
Edward levantou-se devagar da cadeira, mirando o mais novo interno do Arkham Asylum com extrema curiosidade. Killer-Croc, Duas Caras, Scarface e o Ventríloquo observavam os movimentos do colega com interesse, provavelmente perguntando-se o que Nigma tinha em mente.
— Pelo modo como fala, presumo que seja o Charada que a Dra. Young tanto despreza — Joker soltou um riso baixo de desdém. Os olhos verdes acompanhavam os passos calmos de Ed Nigma que se dirigiam para perto de onde estava. — Dei uma olhada no seu arquivo noite passada e... Não sei, Eddie, mas acho que a doutora não é muito fã dos seus enigmas, acho que deveria repensar sua estratégia.
— Não gosto de piadas, então se poupe do trabalho, palhaço. — Edward já cortou as gracinhas de Joker, uma vez que a paciência não era algo que possuía em abundancia. — Eu o trouxe aqui por necessidade, e não afinidade.
— É mesmo? Então me diga, em que posso ser útil?
O palhaço limitou-se a encarar Ed de uma maneira incomoda. Parecia um desafio, um desafio que Edward Nigma estava disposto a participar se não fosse pela impaciência do boneco Scarface para atrapalhar aquele duelo silencioso.
— Que tal os dois idiotas pararem de ficar se encarando e explicar que porra tá acontecendo aqui?
— Uma charada pra vocês: Como tentar entender o que está acontecendo no Arkham Asylum, se todas as respostas são estranhas? — Eddie observou os colegas com um meio sorriso, aguardando uma resposta que sabia que nunca viria. — Foi o que pensei. Que tal então voltarmos a nossa atenção novamente ao nosso querido Hugo Strange.
— Strange... — Rosnou Killer-Croc, puxando a coleira metálica que utilizava em volta do pescoço com extremo desagrado. Mesmo não dando à mínima para a situação do colega, Ed sabia que era Hugo Strange quem dera a ideia da coleira de choque. Era comum ouvir os gritos de dor de Killer-Croc ecoarem pelas paredes frias de Arkham, gritos que só significavam uma coisa: vingança.
Harvey Dent aguardava pacientemente a continuação do raciocínio do Charada, enquanto Scarface gritava com o Ventríloquo para que parasse de se mexer tanto. Já o Príncipe Palhaço do Crime permanecia em pé, observando Nigma sem dar um pio, apenas exibindo seu eterno sorriso.
— Como eu dizia... Andei observando Strange desde que alguns pacientes da Penitenciária sumiram. E, das diversas vezes que estive no escritório particular do nosso querido Hugo Strange — Edward não conseguiu conter o orgulho, externando-o ao ajeitar a postura e erguer o queixo. — descobri algumas coisas muitíssimo interessantes.
— Putas particulares? — Sugeriu Scarface, com malícia. O comentário fez Duas Caras e Killer-Croc o acompanharem numa breve risada. Até mesmo Joker, que não havia aberto a boca desde que Nigma começara a falar, soltou um riso baixo.
Charada revirou os olhos, mordendo os lábios a fim de controlar sua ira por ter sido interrompido por aquele estúpido boneco de madeira.
Estou cercado de idiotas.
— Segredos. Acordos ocultos. Strange pediu acesso aos pacientes que foram esquecidos tanto pelo governo quanto pela própria família, pra derreter seus cérebros com uma nova invenção. E claro, como vocês ouviram agora, está drogando o próprio prefeito de Gotham, aquele imbecil do Sharp, a fim de deixar suas sinapses mais... Maleáveis.
Assim que acabou de relatar suas descobertas, Edward Nigma soltou seus olhos para os colegas, esperando qualquer tipo de reação. Porém, todos permaneceram em um silêncio fúnebre. Ao julgar pelos rostos confusos, seria mais fácil Edward desenhar as intenções de Strange para aqueles quatro acéfalos...
Foi então que Charada ouviu as palmas. Eram baixas e tinham uma pausa relativamente longa, mas ainda assim, palmas. Ed nem precisava procurar pela fonte, pois sabia quem era.
O palhaço avançou para perto de Nigma, até ficarem frente a frente. As pupilas negras de Joker estavam contraídas, destacando mais a íris verde clara que as rodeavam. Pareciam poços de químicos tóxicos, prontas pra sufocar qualquer um que olhasse tempo demais para sua cor intensa.
— Muito bem, Eddie, finalmente alguém percebeu que Strange não vale uma merda sequer! — Joker, num ato que pegou Nigma de surpresa, deu alguns tapinhas no rosto do homem. — Estou orgulhoso!
— Não me toque! — Resmungou Charada de volta, jogando o corpo pra trás.
Mas Joker não parecia estar mais interessado em Edward Nigma, sua atenção estava voltada aos três homens e o boneco.
— O que o nosso querido Eddie quis dizer é que Strange está desenvolvendo uma droga e testando em nós, e no infeliz do Quincy, claro... E provavelmente vai causar um belo estrago aqui dentro — disse entre risos, apontando para o próprio crânio com o indicador reto e o polegar abaixado, simulando uma arma. — Algo não muito agradável, não é mesmo, Eddie?
— Mas como assim “testar” na gente? — Killer-Croc inquiriu com seu rotineiro mau-humor. Charada ficava impressionado com o fato de alguém tão grande como o Croc ter uma capacidade de raciocínio tão limitada. — Em quem mais ele usaria sem ser na gente?
— Acho que não precisaria usar em você, Croc — Scarface tirou as palavras da boca de Ed Nigma, que não deixou de sorrir com o comentário maldoso.
Joker jogou o corpo pra trás, preenchendo o lugar com sua sonora gargalhada.
— Gostei de você, Pinocchio, parece ser o único aqui com senso de humor!
— Vá se foder, palhaço estúpido.
— A sua pergunta, lagartixa, é tão óbvia quanto a presença do Sol numa manhã sem nuvens. — O palhaço voltou-se então para Nigma. — Mas ela se confunde com as sombras quando escurece.
O enigma de Joker era digno de pena de tão óbvio. Mas Ed não o culpava, afinal, quem mais poderia elaborar charadas tão complexas além de si mesmo?
— Batman. — Dent soltou o nome do morcego com os lábios semicerrados. Ambas as partes de seu rosto se contraíam em desprezo, contudo, Nigma não era capaz de dizer qual face parecia mais assustadora. O Príncipe Palhaço do Crime imitou o ruído de uma campainha.
— Precisa de algum motivo pra atacar o Batman? — Scarface retrucou de maneira irônica.
— Somos todos ratos num grande labirinto chamado Arkham Asylum, cavalheiros. Ratos que serão sacrificados em nome da louca obsessão de Hugo Strange pelo Batman se não acharmos uma maneira de pará-lo— Edward Nigma respirou fundo antes de voltar a falar com o irritante palhaço. — É aí que você entra.
Joker pareceu surpreso com a fala do Charada. Com um riso de desdém, ele encarou cada um dos membros daquela pequena reunião noturna com uma expressão zombeteira.
— Desculpe, Eddie, mas acho que perdi o ponto onde isso é problema meu.
O comentário fez Nigma trincar os dentes.
— Você além de imbecil é surdo? Ele disse que nós somos as cobaias dessa maluquice do Strange! — Respondeu Scarface num tom irritadiço.
— Ah, não se preocupe comigo, Plank, não pretendo ficar pra ver o final.
— Então vamos fugir? — Croc lançou sua dúvida ao palhaço, o que apenas aumentou o sorriso de escárnio no rosto pálido.
— Não, EU vou fugir, já vocês... Eu não tenho ideia. — Joker virou-se para a saída, ignorando os apelos e reclamações de Killer-Croc, Duas Caras e Scarface. — Fico lisonjeado pelo convite, Eddie, mas terei que recusar. Boa sorte pra vocês.
Era oficial: a paciência de Edward Nigma chegara ao fim.
— Espere um pouco! — Ed gritou para o coringa, que parou, mas não se deu ao trabalho de virar para encará-lo. — Você me seguiu até aqui, entrou no nosso esconderijo, participou da nossa reunião... Acha mesmo que o deixaremos partir assim? Você sabe demais, palhaço.
A ameaça de Nigma fez Joker voltar o olhos mais uma vez para os cinco reunidos. Dessa vez, seu sorriso não estava tão largo. Era pequeno e frio, evidenciando seu desagrado.
— O que pensa que pode fazer comigo, Eddie? Acha mesmo que pode se equiparar a mim?
Ao ouvir a palavra “equiparar”, Edward sentiu-se enojado.
— Claro que não! Teria que me rebaixar muito para tal. Não é minha intenção, meu caro amigo. — Nigma olhou para Killer-Croc. — Que tal mostrarmos ao Capitã Gancho seu verdadeiro lugar, Croc?
Porém, antes mesmo que Killer Croc pudesse fazer algum movimento, uma rajada azul saiu das sombras, atingindo o homem crocodilo bem no peito, congelando todo o corpo da fera. Harvey e o Ventríloquo pularam das cadeiras, afastando-se do amigo encoberto por gelo.
— Vamos nos acalmar, senhores — o coringa sugeriu, enquanto Victor Fries emergia das sombras. A arma do raio congelante em mãos e, dessa vez, a mira estava direto em Nigma. — Não queremos confusão, não é mesmo, Victor?
Fries permaneceu calado, observando a figura imóvel do Charada por detrás do vidro embaçado da armadura.
— Não se preocupem com seu amiguinho, ele vai descongelar dentro de algumas horas — Joker virou as costas para eles, deixando que Victor Fries o cobrisse de algum ataque inesperado. — Foi uma conversa agradável, me diverti bastante, mas tenho outras coisas mais importantes pra resolver. Tenham uma boa noite, crianças. E lembrem-se: o tio Joker está de olho em vocês.
Assim que o palhaço sumiu junto com Fries, Dent, Wesker e Scarface foram para perto de Nigma, que encarava as sombras com tremendo ódio nos olhos.
— Odeio aquele palhaço! — Comentou Scarface, irado. — Quem ele pensa que é pra nos tratar assim?
— Se nós tivéssemos as nossas pistolas agora, aqueles dois estariam mortos! — Duas Caras esbravejou junto com o boneco.
Ao contrário dos colegas, Charada permaneceu calado. Não demonstraria o sentimento de derrota aos demais. Não, isso não era aceitável para alguém superior como ele. Preferia morrer ao expressar abertamente que havia perdido aquela rodada para o Príncipe Palhaço do Crime.
— Não se preocupe, senhores, nós o colocaremos no seu devido lugar.

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