Arkhé - Perseguidos
11 Eu. Odeio. Clorofórmio.
Notas iniciais
Camila não foi a escola no dia seguinte. Eu não liguei, não muito pelo menos. Claro que seria mais fácil ignorar o Alex com ela por perto, mas eu sempre teria meu caderno de desenhos (Ou traços e rabiscos, como preferir chamar).
Sentei na minha cadeira de sempre, Alex se sentou na cadeira atrás de mim. Fiquei todas as aulas desenhando, e me certifiquei para que não tivesse nada a ver com ele. Mas como não sou uma desenhista nata, nem precisei me preocupar muito. Foram só alguns rabiscos de uma sala escura, nada demais.
Quando o sinal do final da última aula tocou saí sem dizer uma palavra a Alex. Camila tinha me enviado uma mensagem, perguntando se eu queria ir para a casa dela, mas eu recusei. Queria andar por aí sem rumo, só para extravasar a raiva mesmo. Não sou uma pessoa muito criativa (ou habilidosa mesmo) que extravasa a raiva em esportes, lutando, correndo, gritando, pintando, ou qualquer outra coisa. Sou mais calada, minha raiva é mais silenciosa, mas me consome por completo. Então eu queria só colocar os fones de ouvido e andar por aí ouvindo música.
Assim que saí do colégio, vi Alex vindo por trás para me alcançar. Eu não ia falar com ele de jeito nenhum, sem condições disso acontecer. Me escondi entre a multidão de alunos que saia pelo portão da frente. Assim que fiquei fora de alcance, coloquei o volume do meu celular no máximo e comecei a andar sem rumo.
*
Quando dei por mim estava em uma parte da cidade que eu não conhecia. Não sei como isso aconteceu, eu devo simplesmente ter desligado do mundo.
Senti algo; Uma pessoa. Espera. Eu conhecia, eu já tinha visto (sentido) essa pessoa em algum lugar... a questão é: Aonde? Comecei a andar mudando meu curso, virava uma esquina, depois outra, depois atravessava a rua, nem sabia para onde estava indo, mas queria testar uma teoria.
Ele me seguiu, era só eu me concentrar que eu conseguia senti-lo atrás de mim, não precisava nem virar para trás para saber, eu tinha certeza. Virei uma esquina a esquerda e entrei em uma loja qualquer.
—Olá senhorita! Em que posso ajuda-la?
—Ah desculpe eu só... Eu te conheço?
—Desculpe mocinha, deve ser o meu rosto comum. Sou Denerval, dono da loja.
—Ah
Calma. Que loja era aquela? Me parecia familiar... Arregalei os olhos. Era a loja que eu e Alex entramos quando estávamos fugindo dos perseguidores no dia em que nos conhecemos, parecia uma cena tão distante na minha mente embora tivesse sido só há duas semanas atrás.
—Deseja alguma coisa?
—Estou só olhando.
Bom, eu não tinha nada melhor para fazer mesmo. Vamos olhar livros velhos, surrados e empoeirados. Uhu!
A estante de livros me chamou atenção. Parei para olhar alguns livros. Nada muito interessante. Exceto... Não sei exatamente por que gostei desse mas... me chamou atenção um livro de elementos e substâncias químicas.
—Ah... Gostou desse?
O velhinho apareceu do nada atrás de mim, tomei um baita susto, mas consegui disfarçar, bom, não exatamente. A não ser que ele ache que eu pulei por causa de uma barata, se bem que pode até ter sido.
—Ahn... sim, é...
—Posso fazer uma promoção para você.
Não acredito nisso, mas pensei seriamente em comprar o livro. É. Só para não deixar o velho com raiva, era a segunda vez que eu vinha aqui e não ia compra nada. Mas se eu iria comprar, tinha que ter alguma vantagem.
—Compro por 15 reais. – Falei.
—O que? Desculpe garota mas...
—Olha é seguinte, a capa deste livro está acabada, as páginas estão amareladas, está coberto de poeira, parece até que aqui é um sebo e não uma loja de qualidade.
—Isto aqui é um sebo senhorita. Por isso que se chama Sebo & Antiguidades Senhor D.
—Ah claro... Então, ainda assim... É 15 reais ou nada.
—20 reais, minha jovem.
—15
—20
—13
—20
—12, quer que baixe para 10?
—20 e não se fala mais nisso.
—15 e negócio fechado.
—17
—15 é minha oferta final. Se não aceitar eu desisto de comprar o livro.
—Certo. Vendido.
—Ótimo.
Peguei os 15 reais na bolsa e entreguei a ele, que me deu o livro.
Sai da loja apreensiva, não sabia se devia ter demorado tanto lá dentro, Mas não senti nada, então continuei andando.
Não sei o que essa loja tem de diferente, talvez ser estranha demais. Mas por alguma razão eu não percebi a pessoa atrás de mim, com um pano e uma garrafa, e também não vi ele jogar o líquido da garrafa no pano, tampouco percebi que o líquido era clorofórmio. Então fui pega de surpresa quando ele me agarrou por trás e me fez respirar no pano. Tentei me soltar, mas ele era forte, e cada vez mais eu era puxada para a escuridão.
*
Acordei em uma sala completamente branca, só conseguia saber onde era a porta por causa da pequena janela de vidro no meio. Fui até ela na tentativa de descobrir onde eu estava, mas não consegui enxergar nada, devia ser um daqueles espelhos de policial, eles me viam, mas eu não os via.
Comecei a andar em círculos pela sala, eu tinha que achar um jeito de sair dali. Nada vinha em minha mente. Apelei para os meus sentidos, me concentrei e nada. Eu não sabia nem de que era feita a porta! Eu não conseguia perceber nada e nem ninguém.
Que droga! O que estava acontecendo comigo? Eu sempre tive reflexos rápidos, nunca foi pega de surpresa antes, mas ai vem alguém e me sequestra mais fácil do que se fosse tirar doce de uma criança! Incrível Catarina, maravilhoso! Você realmente sabe se cuidar muito bem!
Encostei as minhas costas na parede e fui deslizando até chegar ao chão. Eu era uma inútil. Não conseguia nem usar meus “poderes” agora que eu precisava deles. Suspirei. Meus pensamentos tomaram outro rumo. Comecei a pensar em como eu tinha aceitado facilmente a história de Alex. Não tinha questionado dizendo que aquilo não era verdade, não disse que ele era louco e tampouco fiz milhares de perguntas. Simplesmente aceitei a história, mas queria ignora-la como se nunca tivessem me contado.
Eu acho que lá no fundo, eu sabia que isso era real, sabia que eu tinha alguma coisa de diferente, mas... tinha esquecido. Quando Alex me contou tudo eu tive a sensação de que foi como se eu estivesse me lembrando, não descobrindo.
Eu realmente não queria que a minha vida mudasse, mas estava adiando o inevitável, omitindo de mim mesma. Minha vida mudou completamente e virou de cabeça para baixo no instante em que conheci Alex, no momento em que entrei na sala do professores para roubar o gabarito de física.
Esse era o meu novo mundo agora: Poderes, perseguições, um idiota de olhos verdes e um cara do mal que eu nunca vi na vida, e era melhor eu começar a aceita-lo. Não tenho a mínima ideia do que a pessoa que me sequestrou quer comigo, mas a julgar pelo jeito com que o Alex foge deles, não estou nem um pouco afim de descobrir. Eu preciso sair daqui.
Me concentrei mais uma vez, limpei todos os pensamentos da minha mente, e... nada. O que estava acontecendo? Eu nunca precisei nem me esforçar para isso, mas agora que eu precisava nada acontecia! Parei para pensar um pouco, e daí? Mesmo que acontecesse do que isso ia adiantar? Eu ia saber se tinha alguém lá fora, o que provavelmente tinha, e ia descobrir que essa sala é feita de algum metal. Do que isso vai adiantar?!
Bati na parede frustrada. O impacto fez com que minha mão latejasse. Mas foi até bom por que eu lembrei que meus poderes não incluíam somente percepção... eu tinha também telecinese. Corri para a porta, talvez eu conseguisse abrir o mecanismo da tranca e assim sair de lá.
Dessa vez, tentei pensar na porta e na tranca. Comecei a sentir as engrenagens, levavam a fechadura no canto, me concentrei em como fazer o mecanismo abrir. Era só girar a tranca, nada demais, só girar a tranca, só girar a tranca, só girar a tranca.
Clic.
—Isso! Eu consegui! Eu consegui!
Me dei conta de que estava falando sozinha em voz alta. Mas só tinha eu naquela sala mesmo, então tanto faz.
Abri a porta devagar e olhei para os lados, era um longo corredor pela frente, mas não tinha ninguém a vista. Saí da sala branca, fechei a porta e disparei a correr. Cheguei em uma bifurcação e fui pela direita, no caminho passei por uma sala que estava com a porta aberta, não tinha ninguém lá mas achei a minha mochila, e peguei uma arma de circuitos que estava em cima da mesa. Achei meio estranho achar uma dessas aqui, mas não liguei muito, pelo menos teria como me defender, caso alguém aparecesse. Saí de lá e voltei a correr, nem sabia onde era a saída, mas queria sair de lá o mais rápido possível.
Achei uma escada de incêndio e comecei a descer até o final, vendo só os números dos andares, 15, 14, 13, 12, 11, 10, 9, 8, 7... Quando cheguei ao segundo andar ouvi passos de alguém subindo, e voltei um lance de escadas, me escondendo rente a parede. Os passos ficaram mais altos e eu carreguei a arma. Quem quer que fosse ia chegar em 5, 4, 3, 2...
Apontei a arma para a pessoa que apareceu logo em seguida. Estava escuro lá, mas pude perceber que ele estava desarmado, pois levantou as mãos acima da cabeça. Eu podia tirar proveito disso.
—Nem pense em se mexer, ou eu aperto o gatilho. – Falei com a voz firme, bem diferente do que eu realmente estava.
—Wow, calma eu... – Aquela voz era familiar...
—Se falar mais alguma coisa eu também não vou hesitar em atirar. Vá para algum lugar onde eu possa te ver.
Ele andou alguns passos para trás, para entrar no foco de luz da lâmpada fraca da escada. A primeira coisa que eu vi foram os olhos, olhos verdes e brilhantes.
—Alex! – Abracei-o. – O que você está fazendo aqui?
—Vim te ajudar, mas pelo visto você já deu conta do recado.
—Não completamente. Ainda precisamos sair daqui.
—Vem. – Ele pegou minha mão e começamos a descer as escadas.
—Onde estamos? – Perguntei a ele.
—Você não sabe onde estamos?
—Não. Eu acordei e já estava em uma sala branca.
—Este é o lindo e acolhedor Complexo. Eles ainda não interrogaram você? Nada?
—Não. Mas eu sabia que uma hora ou outra iriam fazer isso, então sai logo de lá.
Ele assentiu.
—E como você sabia que eu estava aqui?
—Eu vi quando te levaram, estava indo aquela loja de antiguidades, quando você saiu e aí... enfim. Como você conseguiu sair da sala? Aqui tudo tem segurança máxima.
—Eu usei telecinese para abrir a porta.
Ele ergueu uma sobrancelha.
—Tá eu sei que é hipocrisia da minha parte, por que eu disse que não queria saber desse “mundo” mas era uma situação que precisava de medidas extremas...
—Isso é impossível.
—Como assim? Eu estou aqui não?
Chegamos ao térreo e fui em direção a porta de saída da escada.
—Não. Quando eu digo segurança máxima, isso inclui bloquear nossos poderes, você não tinha como ter saído de lá a não ser que...
Abri a porta e vários homens entraram e apontaram as armas para mim e Alex.
—Fosse emboscada. – Completei a frase por ele.
—Ora, ora, ora. Se não é o famoso Alexandre Aguiar. A que devo a honra da sua presença?
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