Arkhé - Perseguidos

8 Desastrada (Com participação especial do diabinho em pessoa)


Notas iniciais
*Emoji pensativo* Eu nunca sei o que escrever aqui. Então... Espero que gostem ^-^

Na biblioteca, enquanto Camila tentava resolver o problema, eu estava bolando um plano. Alex não iria acreditar em mim, ele sabe que está sendo perseguido, mas acho que pensa que está seguro. Mas então como eu faria isso? Não tem como eu confrontar a Carolina. Não, isso está fora de questão, tenho que fazer isso anonimamente, se possível parecer que foi um acidente, ou então culpa dela...

—Eu desisto! Isso é completamente impossível! – Gritou Camila.

Todos na sala olharam para ela, que se encolheu.

—Ei calma. – Disse recolhendo a décima folha de papel toda rabiscada e colocando uma nova – Olha você tem capacidade Camila, isso não é impossível. Para mim, com certeza é, mas para você não.

—Não dá Nina, não tem como.

—É sério? Você vai me deixar na mão assim? Esse trabalho é uma corda bamba pra mim! Resolve o problema e eu passo, desiste e eu repito de ano.

—Não seja tão dramática. É sério que você já está apelando?

—Talvez... Você vai desistir?

—Não, mas cansei de fazer conta.

—Ah, por favor Mila!

—É sério, eu preciso parar um pouco ou minha cabeça vai explodir. Mas você pode ir tentar fazendo, que tal?

—Quer saber? Eu acho que o professor de física está na escola, vou tentar falar com ele.

Ela revirou os olhos.

—Já está desistindo?

—Eu já tentei e cai do penhasco há muito tempo.

—Quando?

—Quando Rontes entrou na sala e disse: “Bom dia alunos! Bem-vindos ao segundo ano, eu sou o professor Fábio Rontes, de física. Muito bem, livro páginas 10 a 30. Exercícios para visto no fim da aula.”

*

Fui até a sala dos professores e bati na porta. Ninguém respondeu. Bati na porta de novo e entrei.

Encontrei o professor de física sozinho na sala, sentado na mesa corrigindo algumas provas.

—Catarina, você não sabe que alunos são proibidos de entrar na sala dos professores?

Ele não estava de bom humor. Como sempre. Eu teria de bajular. Dei o meu melhor sorriso falso.

—Ah desculpe professor Rontes, é que eu tinha uma dúvida e como sabia que o senhor estava aqui pensei que não custaria nada perguntar.

—Fale.

—Certo. Primeiro eu gostaria de falar que foi uma ótima proposta a do trabalho que o senhor fez, é realmente bem... desafiante, acho que talvez até mais do que uma prova.

—Eu sei. Então?

—É... Eu gostaria de saber... sobre... cinemática angular! Isso! Gostaria de pedir a você que me explicasse as fórmulas básicas. É que não estou conseguindo entender.

—Desculpe Catarina, estou ocupado agora corrigindo essas provas. Se quiser dou aula particular por 500 reais a hora, podemos combinar depois. Mas estou muito cheio essa semana então sugiro que até lá tire suas dúvidas com seus colegas, os estudiosos, claro. O aluno novo, Guilherme, pergunte a ele, é um aluno excelente, todos os professores o elogiam, é incrível.

—Ah claro. Vou falar com ele depois. Mas ahn... Caso ele esteja ocupado também, o que você acha da Carolina? Ela é uma boa aluna?

—Quem?

—Carolina. Carolina Souza.

—Ah sim, a menina nova.

—Ela é nova?

—Sim, é claro. Entrou na sala hoje. Logo após Guilherme. Deve ter sido transferida de turma eu acho, mas nunca a reparei nas outras salas, acho que deve ser quieta.

—Certo. Claro. Então... foi aqui que aconteceu o crime?

—Crime? Ah sim. Foi. Algum aluno desgraçado, desonesto e filho da... e muito mal-educado pegou o gabarito da prova aqui.

—Okay... Não faço ideia de como, o local é trancado, tem segurança e tudo mais...

—Pois é...

—Ah professor, só uma curiosidade. Estou ainda decidindo com que profissão quero trabalhar, mas estava pensando em direito, e como você sabe eu simplesmente adoro estudar, mesmo que não vá muito bem na sua matéria. Enfim, eu estava lendo o regulamento do colégio e me veio uma pergunta, qual seria a penalidade máxima aplicada aqui?

—A expulsão é claro.

—Ah sim, sim. Desculpe, acho que não me expressei bem. Queria dizer, o que uma pessoa poderia fazer de tão ruim para ter a penalidade máxima aplicada, sem questionamentos ou explicações?

—Bom, entre as várias improváveis coisas, acho que eu expulsaria o aluno sem nem pensar duas vezes se ele roubasse alguma coisa da escola ou dos funcionários, principalmente se fosse algo pessoal. Claro que a direção resolveu dar uma segunda chance ao ladrãozinho de gabaritos, mas qualquer pessoa que seja pega roubando as respostas das provas a partir de agora será expulso.

—Claro. Ahn... muito justo, eu diria.

—Com certeza.

—Bom, é melhor eu ir. Com licença prof....

Tropecei na mochila dele que estava no chão e caí, algumas coisas saíram da mochila mas coloquei de volta lá dentro e me levantei rapidamente.

—Me desculpe professor! Sério! Eu juro pra você que eu não faço o tipo de pessoa desastrada! – Nem esperei ele responder, saí da sala correndo antes que ele tivesse tempo de gritar comigo.

Voltei para a biblioteca, onde Camila me esperava.

—E aí?

—Ele me ignorou. Completamente. – Disse inocente.

*

No dia seguinte, bateu o sinal do intervalo e eu saí para comprar um suco. Infelizmente, eu encontrei o diretor do colégio no caminho de volta e sem querer eu derramei suco de uva na cara dele e na camisa. Resultado: Fui para a sala da direção.

Ele me deixou lá e saiu. Provavelmente para lavar o rosto e trocar a blusa. Depois deve voltar para conversar comigo, mas só espero que ele não chame meus pais. Isso não iria dar muito certo.

Fiquei andando pela sala por um tempo. Parei um pouco para olhar o computador dele. Na mesa havia um porta-retratos dele com a esposa e os filhos, pilhas de papéis e contratos, e olha só: a aliança também (Ele deve ter tirado e esquecido de colocar de volta).

Quase uma hora depois o diretor Marelli volta e se senta na mesa.

—Muito bem. Catarina Castilho certo?

Ok. Modo bajulação ON.

—Sim. Eu gostaria de pedir desculpas. Eu realmente não sei o que aconteceu, juro que não era a minha intenção e....

—Não se preocupe, entendo que tenha sido um acidente, embora tenha ficado um pouco zangado por ter sido o alvo.

—Totalmente não-intencional.

—Eu acredito em você, mas tenha mais cuidado ao andar por favor.

—Garanto ao senhor que terei – Falei com a cara mais santa possível – Eu juro para o senhor que não sou uma pessoa do tipo desastrada.

*

Quando voltei para a sala, já era para estar no meio da aula de física, mas o professor não estava lá. Alex estranhou me ver entrando agora, mas não falou nada. Já Camila me encheu de perguntas, e contei a ela o que tinha acontecido, e ela começou a rir. Do nada, a porta se abriu com um estrondo e o professor Rontes entrou.

—Ihh, o que será que foi agora? – Camila falou se sentando.

—E desde quando tem que ter motivo para ele se irritar? – Respondi.

—Desculpem o atraso, alunos. Roubaram a chave do meu carro, então tive que arrumar outro meio de vir para o colégio.

Pedro, um dos engraçadinhos da sala falou:

—Roubaram a chave ou foi você que perdeu professor?

—Pedro saia de sala. – Rontes disse sem nem olhar para ele.

—Calma, era só uma brincadeira.

—Eu disse SAIA DE SALA!

Pedro saiu reclamando que não podia nem brincar com os outros que eles já se irritavam.

—Páginas 220 a 240, exercícios para visto hoje no final da aula.

*

Era isso. Eu não tinha outra opção. Eu tinha tentado de todos os jeitos, mas não dava. Ele fazia isso bem melhor que eu. Quando eu fazia estava na cara que era falsa, já ele tinha todas as manhas, sem falar que era um hacker prodígio, podia alterar os dados digitais. Mas tinha que ser ele? Por que não podia ser outra pessoa? Não. Não tinha ninguém mais. Ia ter de ser ele.

Andei até o final do corredor e bati na porta do quarto. Agora não tinha mais volta. Uma pequena criatura abriu. Tinha cabelos castanhos escuros e olhos azuis brilhantes. Para quem não o conhecia, parecia lindo, um anjinho. Mas para pessoas que conviviam com ele, como eu, era uma peste, talvez o diabinho em pessoa com dez anos. Lá estava Nataniel Castilho, meu irmão (não tão querido assim).

—O que você quer?

—Preciso de um favor.

—O que eu ganho com isso?

—O que você quer ganhar com isso?

Ele pensou por um momento.

—300 reais. Estou a fim de comprar uns mangás novos.

—Tá maluco? Estou pedindo um favor. E um favor se paga com outro favor, não com dinheiro.

—Quero imunidade então.

—Imunidade em que sentido?

—No sentido de eu poder fazer qualquer coisa com você sem que você conte para os nossos pais.

—Nem pensar. – Nem ia adiantar de muita coisa mesmo já que os pais em questão eram os meus, mas nunca que eu iria dar carta branca para ele fazer o que quisesse comigo. Antes que eu percebesse iria acordar com o meu quarto inundado de água e enguias elétricas nadando por ele. Eu não estou inventando, isso realmente já aconteceu. A desculpa que ele deu foi que era um experimento e que ele não queria fazer no quarto dele. Como eu disse, um anjinho.

—Tá. Chata.

—Sim. Vamos. O que você quer?

—Uma arma? – Ele disse pensativo.

—Oi?

—É. Uma arma. Nada mais, nada menos.

Pensei na arma de circuitos escondida no meu quarto. Não seria tão difícil fazer outra. Ou então comprar uma Nerf mesmo e dar para ele.

—Feito.

—É sério?

—Sim. Eu te arranjo uma arma, e você me faz um favor, e não vai dizer nada para ninguém.

—Caramba, você não percebeu que estou tentando te fazer desistir?

—Não. E eu não vou desistir de qualquer forma. Então é melhor você aceitar.

—Eu te subestimei. Entra logo.

Entrei no quarto, logo atrás dele. Meu olhos demoraram um tempinho para se ajustar a falta de luz. Meu irmão era quase um vampiro que não saia nunca daquele quarto escuro e frio (Ele deixava o ar condicionado no mínimo, nunca entendi porque), e basicamente só ficava nos computadores (É isso mesmo, computadoreS) que ele mantinha ligados 24h.

—O que você quer?

—Preciso que faça uma identidade falsa.

—É sério? Você está me fazendo perder meu tempo para que possa entrar em boates e beber?

—Quem disse que era para isso? Não se meta com o que não sabe. É para uma amiga. Preciso que pesquise certas informações.

—Humpft.

—Para de resmungar e faz logo.

Falei batendo no ombro dele enquanto ele sentava na cadeira em frente ao computador.

*

No dia seguinte a aula foi insuportável. Fiquei desenhando na maior parte do tempo. Dante, o professor de história, estava falando alguma coisa sobre a revolução russa e blá blá blá. Só me interessei quando ele falou de Rasputin, fiquei pensando se ele não era um arkhé, sendo tão difícil de matar assim. Pelo o que eu ouvi tentaram mata-lo várias vezes, não morreu com veneno, nem com tiros, só conseguiram quando o jogaram amarrado no rio, sendo que quando encontraram o corpo dele as cordas estavam meio roídas, como se ainda assim ele tivesse tentado escapar. Repreendi o pensamento. Eu tinha basicamente ignorado a parte arkhé da minha vida nesses últimos dias, queria agir como antes, como se nada tivesse acontecido e achava que estava dando certo, mas eu não sabia até quando.

Por outro lado, eu nunca mais tinha falado com Alex. Nos afastamos muito depois que escolheram as duplas. Desde que ele começou a falar com Carolina, ele nunca mais falou comigo e então eu nunca mais falei com ele. Tá, isso é ser dramática, foram só alguns dias, mas ainda assim. Olhei para trás, onde algumas cadeiras atrás ele estava sentado, com Carol (Não tenho a menor ideia de como ela prefere ser chamada, já que ela nunca dirigiu uma palavra sequer a minha pessoa. Mas convenhamos que se eu ficar falando Carolina o tempo todo vai parecer que eu tenho algo contra ela. O que eu não tenho. Nem um pouco.) ao seu lado. Será que ele tinha alguma noção de ela era uma farsa? Ou de que estava escondendo alguma coisa dele? Ele me confunde com uma infiltrada mas não consegue descobrir uma verdadeira? Será que eu contava para ele?

Camila me pegou olhando para ele. E sussurrou:

—Olha eu sei que ela é mais bonita. Por que vamos comparar, os cabelos loiros dela aos seus castanhos escuros ondulados, os olhos azuis claros dela e os seus olhos pretos e o corpo dela e o seu... ah não eu gosto mais do seu corpo do que do dela, ela parece mais uma modelo esquelética, mas você tem curvas, pelo menos mais que ela. E é mais alta que ela, isso com certeza.

—O que exatamente você pretendia com isso?

—Estou fazendo a comparação que você fazia nessa sua cabecinha. Só que em voz alta, e não estou exagerando e te rebaixando como você estava fazendo, estou realmente falando a verdade.

Balancei a cabeça rindo baixo.

—Eu não estava me comparando com ela. Por que você tem essa fixação de que eu tenho ciúmes dela?

—Porque é a verdade?

—Não. Não é.

—Então por que estava olhando para trás em direção a eles?

—Eu só estava pensando em como me afastei do “Guilherme”, nesses últimos dias.

—Vocês não eram só colegas, se me lembro bem?

—Sim. É. Mas conversávamos. Agora isso nem acontece mais.

—Senhorita Catarina!

Ah não, lá vem. Me virei para olhar para o chato e insuportável professor Dante. Do jeito que eu falo parece que todos os professores são chatos e insuportáveis, né? Pois é, são mesmo. Esse em especial me odeia em particular.

—Sim professor? – Fiz a cara mais inocente possível.

—Já que estava se comportando como uma ótima aluna e não estava conversando na minha aula. Você não se importaria de responder uma pergunta sobre o assunto valendo nota, não?

Ah ele só podia estar de brincadeira. Todo mundo estava conversando, tirando uma pessoa ou outra. Gabriela, sentada lá atrás estava até dormindo!

—Claro. – Falei meio resmungando.

—Professor o senhor não acha que...

—Quieto Guilherme, a pergunta não é para você.

—Então Catarina, discorra sobre a conexão entre Rasputin e a Saída da Rússia da 1 Guerra.

Ok. Tá legal. Respira. Rasputin, esse eu tinha prestado atenção. Mas 1 Guerra? O que isso tinha a ver? Rasputin não era Rússia? Comecei a folhear meu caderno. A maior parte eram desenhos mas havia algumas coisas que eu conseguia entender. Comecei a fazer algumas conexões e era isso, eu tinha uma resposta, provavelmente não totalmente certa mas aceitável.

—Certo. Rasputin, ou o monge louco como também era chamado na Rússia era um grande amigo da rainha, ele conseguia curar doentes quando nem os médicos sabiam mais o que fazer, mas isso não era bem visto pela sociedade. Ele foi um dos motivos que levou o povo da Rússia a entender que o sistema vigente não estava eficaz. Com isso, houve a revolução russa, duas na verdade, e durante a segunda à Rússia saiu da 1 guerra, pois precisava se reestruturar.

Tudo bem, foi a maior mentira que eu consegui entender isso dos rabiscos do meu caderno. Mas eu consegui te enganar, não? Não? Ah tudo bem, não consegui enganar nem a mim mesma com essa. Camila escreveu isso no caderno dela e colocou em um ângulo em que eu pudesse ler.

—Humm. – Dante ponderou um pouco. Droga. Eu não deveria ter falado da quantidade de revoluções, acho que isso estava errado. Qual é Mila!? Passa cola e ainda passa a resposta errada? – Não o suficiente. Você estava conversando na minha aula e isso eu não admito. Zero.

Revirei os olhos. Mais um para a minha coleção. Camila pôs a mão no meu ombro.

—Como assim? Professor o que Nina falou estava certo. Por que ela recebeu um zero?

Alex começou a argumentar em minha defesa, eu já sabia que não ia dar em nada, mas observei a cena.

—O que ela falou estava parcialmente certo, ela não falou com detalhes o suficiente, o que prova que estava conversando, então zerou.

—Mas ela não falou nada errado. Você não pediu riqueza de detalhes, pediu uma conexão e ela respondeu certo. E se você dá um zero por conversar mas saber do assunto, sugiro que acorde a aluna lá atrás primeiro e pergunte a ela se ela sabe alguma coisa.

—Você está testando a minha paciência menino. Ela ganhou um zero e acabou, você quer ganhar um também?

—É Guilherme, deixa para lá – Disse Carol, colocando os braços ao redor dele.

Quando o professor voltou a falar e escrever no quadro, me virei para falar com Alex. Alguém tem que ter a iniciativa, certo?

—Obrigada pela tentativa, mas é sempre assim. – Dei um sorriso fraco.

—Mas como você deixa ele te dar um zero assim? Você falou tudo certo! Ele só tirou ponto de você por que conversou, mas você nem é a única da turma que fez isso.

—Não. Ele me dá zero por diversão. Ele me odeia.

—Por que?

—Não faço a menor ideia.

*

Quando o sinal bateu indicando o final da aula, peguei minhas coisas e saí. Camila me chamou para ir para a casa dela para fazer companhia a ela enquanto tentava resolver o problema mas recusei, disse que tinha certas coisas pra fazer.

O fato do Alex ter tentado me defender me deu uma injeção de ânimo. Nós podíamos não estar nos falando muito, mas ele ainda se preocupava comigo. E eu com ele, e era por isso que eu estava fazendo aquilo tudo. Me decidi por não contar pra ele, até agora tudo estava indo como planejado. Se algo desse errado, eu engoliria meu orgulho e falaria com ele. Fui para o banheiro e deixei minha mochila no chão de uma das cabines, agora tinha que esperar 25 minutos até o faxineiro entrar na sala dos professores.

Notas finais
Nataniel S2 (Não dá pra fazer aquele coraçaozinho com 3 e tals no meu teclado, então vai S2 mesmo). O que estão achando da história? Algum erro ortográfico? Sugestões?