Arkhé - Perseguidos

9 Prefiro meticulosamente calculista


Notas iniciais
Vamos ao próximo capítulo. Reparei que eu não tenho uma rotina para postar os capítulos, provavelmente porque eu não tenho uma rotina organizada no dia-a-dia mesmo, ou porque eu não sou uma pessoa organizada em geral. Minha vida basicamente se resumiu a estudar e ver Netflix, mas vou tentar me organizar melhor para postar com mais frequência, e quem sabe, com uma rotina. P.S.- Os próximos capítulos já estão prontos, só preciso revisar. Então talvez semana que vem já tenha mais ^-^

—Não dá. Desculpa Nina. Mas não dá. Esse problema é impossível!

—Não é possível que seja tão difícil assim! A gente passou o fim de semana todo tentando resolver essa coisa. Fora o tempo depois da escola na semana passada!

—A gente vírgula, eu fiquei tentando resolver e você desenhando. E quando eu pedia para você vir me ajudar, você fingia que estava dormindo.

—Mas eu te ajudei!

—Ah é? Em que?

—Eu... Eu não te atrapalhei! Isso é ajudar!

—Ah claro.

—Tá legal. Eu não fiz nada. Mas o problema ainda não está resolvido, o que significa que eu ainda posso fazer alguma coisa. Me dá isso aqui.

Assim que peguei o papel fiquei meio tonta, já imaginava que eu não iria entender nada. Mas teria que fingir que estava entendo então dei uma lida no problema. Para resumir (ou então, talvez, porque foi basicamente o que eu entendi) ele dava algumas dezenas de números, letras e informações, tinha algumas coisas relacionadas a vetores, e pedia a equação resultante do problema após a resolução.

Passei para as contas de Camila, o início eu conseguia entender, mas depois disso nada, era só uma confusão de cálculos. Mas uma coisa me chamou atenção, ela começava as fórmulas com números e depois tentava diversas letras, mas aí parava, provavelmente porque não conseguia mais.

—Por que você faz as fórmulas totalmente com números e depois vai para letras?

—Porque eu preciso dessa resolução aqui, e tenho esses números. – Apontou para uma parte dos cálculos.

—Mas são números desnecessários, talvez só para confundir. Você não precisa somente dessa fórmula?

—É.

—Então. Esqueça esse, esse, esse, esse, e esse. – Falei enquanto riscava os números das fórmulas – Agora tenta de novo. E outra, acho que é melhor transformar as frequências para Hertz.

Camila levantou as sobrancelhas.

—Eu sabia! Você é inteligente!

—O que? Quem dera. Não faço a menor ideia do que fez em boa parte do cálculos, mas pelo visto sou mais esperta do que você para perceber quais são os números e letras inúteis e quais não são. Agora tenta aí e vamos ver se dá certo.

Camila virou a folha do caderno e começou de novo, eu fiquei só olhando enquanto ela preenchia toda a folha com números e letras.

—Tá vendo não dá certo, o R fica negativo, era para ficar positivo.

—Deixa eu ver. Ah. Camila. Não é por nada, mas eu acho que foi porque você esqueceu de colocar um outro menos aqui.

—Ah é verdade.

Eu já estava cansando de olhar para aquilo, e voltei a desenhar. Ou era prestar atenção aos cálculos, ou a aula, então desenhar era a melhor opção.

—CONSEGUI!

—Desculpe Camila, o quê? – Disse Caio, o professor de geografia, que no momento deveria estar falando qualquer coisa que não envolvia a palavra “consegui”.

—Ah... ahn... é...

—Desculpe professor, é que a Camila não estava entendo o assunto e eu estava tentando explicar a ela, e só agora foi que ela conseguiu entender. – Tentei enrolar.

—Claro... Mas da próxima vez que você tiver alguma dúvida pergunte diretamente a mim, Camila.

—Ah certo, tudo bem professor.

Assim que o professor virou de costas para voltar a escrever no quadro Camila começou a comemorar.

—Ai meu deus você é uma gênia! Deu certo! Eu resolvi o problema! Não! Você ajudou também! O que por si só já é um milagre, mas você reparou em algo que eu nem via mais! NÓS conseguimos!!!

—Ok calma, Camila. Respira. Você resolveu o problema totalmente? Tem certeza de que essa é a resposta? Não é melhor corrigir?

—Olha a minha cara de quem vai fazer essa conta toda de novo. Tenho certeza de que a resposta é esta. Olha.

Ela pegou o papel e circulou várias vezes a resposta final e me mostrou:

PA.R = Q.U + E

Olhei para ela.

—É essa resposta. Com certeza.

—Mas tem uma coisa.

—Lá vem.

—Qual parque? Existem vários na cidade.

—Sem problemas, só temos que ir em todos os parques da cidade e descobrir qual é o certo, nada demais.

—Ah claro.

—Mas falando sério agora, e se usássemos os números que cortamos da equação? Talvez tenha um padrão ou... – Antes que eu terminasse de falar, Mila já estava fazendo contas no papel.

—Feito.

—O quê? Já?

—Você estava certa, tem um padrão, e essas, – ela me mostrou uma ordem de números no papel – são as coordenadas do parque que temos de ir. É só colocar isso no google e a gente acha o local.

O sinal tocou e o professor de geografia saiu. Enquanto esperávamos o professor de química chegar, comecei a combinar com Camila que iríamos para o parque logo depois da aula acabar, quando Alex veio na nossa direção.

—E aí Camila o que foi que você realmente conseguiu? – Disse rindo

Ela olhou para mim tentando decidir se falava ou não, fiz que não com a cabeça.

—Ela passou de nível no joguinho que estava jogando. – Respondi rapidamente.

—Ah claro. Ei, Nina o que você acha de nós...

—Oi gente! – Carolina apareceu de repente.

—Oi Carol. – Alex disse meio sem graça.

—Ei Gui, tudo certo para a gente ir pro parque hoje de tarde não é?

Alex olhou para a Carol como se quisesse esganá-la.

—O que foi? Eu disse algo errado? Mas você disse que não se incomodava que os outros soubessem... ok, é melhor eu ir. Te vejo de tarde.

Olhei para ele. Ele me olhava com uma cara culpada.

—Você ia me chamar para ir ao parque hoje não é?

—Talvez...

—Fico pensando o que te faz pensar que eu queira ir pra lá, atrapalhar vocês dois...

—Ah qual é Nina. Eu estava te tentando fazer um favor. Até parece que eu não resolveria aquele problema de física, estava tentando te ajudar ao te dar a resposta.

Olhei para ele incrédula.

—Ah então, você achou que eu só conseguiria resolver o problema se você me desse a resposta? Acha que eu sou tão impotente assim? E você pensou o que? Que eu iria te agradecer por isso? – Tudo bem, ele estava certo. Eu geralmente pegava os atalhos da vida, principalmente quando se tratava de provas e trabalhos do colégio. Mas no fundo doeu ouvir aquilo dele, principalmente porque eu não o conhecia há muito tempo. Então alguma parte primitiva do meu cérebro entrou em modo defensivo, essa parte primitiva também é conhecida como orgulho e adicionada a minha característica chamada “Eu sou impulsiva”, obtém-se o resultado a seguir.

—Não que você precise “Gui”, mas para a sua informação, nós já tínhamos conseguido resolver o problema. Graças a Nina inclusive. – Camila me defendeu.

Alex me olhou desconfiado. Porque todo mundo achava que eu não conseguia me cuidar sozinha? Até para resolver um problema as pessoas não confiavam em mim. Parece até que eu tinha colado a resposta ou algo do tipo.

—Quer saber? Tá legal. Nós vamos. Eu e Mila já tínhamos combinado que iríamos, e não tem por que deixar de ir. A gente se encontra lá. Obrigado pela resposta do problema, mas era desnecessário. Nós temos capacidade, ó Alexandre, O Grande. – Fiz uma mesura exagerada.

Camila ficou sem entender, mas Alex percebeu a conexão com seu nome, o verdadeiro eu digo. Ele ia dizer mais alguma coisa, mas o professor de química chegou e todos foram para os seus lugares.

*

Quando Camila e eu chegamos ao parque, sentamos na sombra de uma árvore, em uma elevação na grama que dava para ver tudo de lá. Enquanto Camila tirava livros e cadernos da mochila, eu tirava comida. Camila começou a rir.

—O quê? – Perguntei.

—Só você mesmo Nina.

—Mas podemos passar um longo tempo aqui. Gosto de estar preparada.

—Você gosta é de me deixar fazendo todo o trabalho isso sim.

—Ei. Mas eu te ajudei com o problema.

—Depois de 1 semana, já era se em tempo não?

—Oi gente. E aí? – Carolina chegou toda sorridente. Largou a bolsa no chão e veio se juntar a nós.

—E o Guilherme, Carol? Cadê ele? – Camila perguntou.

—Já está chegando. Mas enquanto isso gostaria de falar a sós com vocês. Foi gentil da parte dele convidar vocês também para vir pra cá, mas vamos nos separar assim que ele chegar ok? Não procurem pela gente depois, vamos querer privacidade.

—Ah... claro. – Respondi.

—Olha só, lá vem ele, tchau meninas, tenho que ir.

—Certo. Ah, e não esquece sua bolsa. – Estendi a bolsa para ela.

—Obrigada.

E saiu correndo.

—Menina chata, antipática, se acha demais, prepotente... – Camila começou a resmungar.

—Uau. Estava guardando tudo isso aí dentro esse tempo todo?

—Não sei como você a suporta, ou finge suportar. “Vamos querer privacidade” – Disse ela com voz de deboche.

—E é por isso que você nunca vai fazer um teatro de fantoches. Você imita a voz das pessoas muito mal.

—Sério? É assim que eu ouço a voz dela. De verdade. – Disse ela rindo.

—Ok. Vamos tentar resolver o enigma que tal?

Enquanto Camila procurava o papel do enigma. Olhei para o meu relógio. Faltava 2 minutos. Procurei por Alex e Carol no parque, e os achei indo em direção a trilha. Eu já imaginava que ela iria para lá, então calculei o tempo exato para o encontro. Mas os números poderiam estar errados, principalmente se fui eu quem fez a conta. E se a Carolina e o Alex sumissem de vista tudo ia pelos ares.

Então eu os senti. Estavam caminhando e iriam encontrar os dois. Bem a tempo, como planejado. Foi então que me dei conta de uma coisa. A única coisa que eu não tinha planejado. Eles iriam simplesmente passar por ela, talvez cumprimentar mas nada além disso. Eu não tinha pensado em como faria eles descobrirem.

—O que você está olhando tanto Nina? Ai meu deus. É sério isso? Já não basta eu ter que ver o professor Rontes todo dia na escola e ainda tenho que ver ele no parque? Com o diretor ainda por cima?

—Devem estar olhando como anda o trabalho.

—Bom pelo menos eu não vou ter de necessariamente cumprimentá-los, como o Guilherme e a Carolina vão, é isso que dá pedir por privacidade garota. Nina, imagina se ela tropeça e cai bem em cima deles? Ia ser demais.

—É isso! Mila você é uma gênia!

Sai correndo em direção a eles, ganhei velocidade ao descer a elevação na grama e continuei. Ia me machucar bastante se eu não parasse, provavelmente eu ia sofrer uma inércia legal se eu batesse em alguma coisa (Minuto de reflexão: Eu realmente pensei inércia agora? É nisso que esse trabalho está me transformando), mas era essa a intenção, e eu já tinha um alvo.

—Carol você... – Falei quando estava perto de colidir.

—AHH!

Caímos no chão.

—Nina você tá legal? – Alex me estendeu a mão para eu me levantar, aceitei.

Modo pessoa inocente ON.

—Estou. Meu deus, me desculpa Carolina, sério me desculpa mesmo é que...

—Não precisa. – Ela falou ríspida enquanto se levantava.

—Não, sério, foi mal mesmo. Deixa eu te ajudar, vou pegar sua bolsa.

A bolsa dela tinha caído alguns metros à frente e eu fui até lá para pegar, ao mesmo tempo que o professor Rontes e o diretor Marelli iam ao encontro de Guilherme e Carol para ver o que tinha acontecido.

—Tudo bem por aqui alunos? – Perguntou o diretor.

—Sim. Sim. É que viemos para fazer o trabalho de física. Acho que fomos os únicos da sala que conseguimos resolver o problema. – Carolina se recuperou rápido e disse toda inocente. Olá? E eu e a Camila? A gente também resolveu se lembra?

—Excelente. Mas digo em relação a queda, é que vimos você caindo.

— Ah sobre isso mais ou menos, é que Catarina veio por trás de mim e me derrubou do nada.

—Não. Não foi isso não. É que eu estava correndo, mas não consegui parar a tempo, peguei impulso demais na descida. Sério me desculpa. – Voltei a tempo para defender. — Aqui sua bolsa.

Estendi a bolsa para ela de mal jeito, mas o zíper estava aberto, então todas as coisas caíram no chão.

—Mas o que? O que você fez garota?

—Foi mal! Eu não vi que a bolsa estava aberta eu juro!

—O que é isso?!

—Também me pergunto a mesma coisa professor Rontes! O que você tem contra mim Catarina?! Eu sou tão legal com você! — Ah claro, é maravilhosa. Perde só para Nataniel no ranking.

—Não quis dizer isso, estou me perguntando o que a chave do meu carro estava fazendo dentro da sua bolsa.

—Como assim? – O sorriso de Carol bambeou.

—Espera... Isto... Isto aqui é minha aliança? – O diretor falou enquanto pegava um anel no chão.

—O que mais temos aqui, dona Carolina? – Professor Rontes se abaixou para ver as outras coisas que tinham caído no chão.

—O que? Mas isso não é meu!

—Isso eu tenho certeza – Marelli falou com raiva.

—Espera. Esse aqui. Isso eu reconheço. Foi você quem roubou o gabarito da prova Carolina!?

—O que?! Eu nem estava aqui quando isso...

—Então me explica o que ISTO – Ele estendeu o gabarito – estava fazendo na sua bolsa? E isso aqui!? Você tem o gabarito até do trabalho que eu passei há uma semana! Foi assim que você conseguiu resolver o problema então?

Me abaixei para ver melhor o que mais tinha caído, peguei a identidade que tinha lá fingindo curiosidade.

—Quem é Ingrid Martins? – Agora eu estava surpresa de verdade, não contava com essa.

—Quem?

—É o que está escrito aqui.

Entreguei a identidade ao diretor e me abaixei para procurar a outra. Isso ia ficar interessante.

—Ei! Tem mais outra aqui, mas parece falsa. – Entreguei a outra identidade a ele.

—Essa é dela. Carolina Souza. Mas por que você acha que é falsa? – Ele disse, enquanto examinava o papel plastificado contra a luz do sol.

—Porque não tem esse carimbo aqui atrás está vendo? Pegue a outra identidade e compare. – Nataniel tinha me explicado isso quando pedi que fizesse a identidade, que não tinha copiar aquela imagem, mas que ninguém nunca reparava nisso, a não ser que apontassem o erro é claro. E isso veio muito a meu favor agora.

Olhei para o relógio. Em 3 minutos os policiais passariam por essa área do parque. Era só esperar que Rontes e Marelli ligassem os pontos do jeito que eu queria.

—Você não é quem diz ser. – Marelli disse. Ah meu deus é sério? Jura?

—Você só entrou na nossa escola para nos roubar. Por isso que eu nunca te vi em nenhuma outra sala! Deve ser alguma cleptomaníaca em estado grave da doença – Disse Rontes.

—Ou então só uma ladra mesmo. Ei, policiais! Oi! Ei! Venham aqui! – Disse Marelli fazendo sinal para os policiais.

Carolina tentou fugir, eu ia sair do caminho, mas tropecei na bolsa que estava no chão e cai bem em cima dela. Poxa, que pena. Mas eu deveria ter imaginado que ela revidaria, ela me deu um soco no rosto e se levantou para fugir, mas os policiais chegaram no tempo exato e seguraram ela. Provavelmente ela iria escapar ainda assim, mas eles foram rápidos e a algemaram logo.

Marelli e Rontes acompanharam eles para explicar o que tinha acontecido.

Alex, que até o momento tinha ficado só olhando o desenrolar da história, veio até mim preocupado.

—Você está bem? – Disse pegando na minha bochecha machucada, o toque dele me arrepiou toda, talvez porque provavelmente a minha bochecha estivesse roxa.

—Eu estou legal. O soco nem foi tão forte assim.

Ele riu.

—Ela trabalha para o cara que está comandando a minha perseguição.

Arregalei os olhos, então ele sabia? Claro que sabia Nina! Ele era perseguido desde não sei quando! Mas se sabia por que não fez nada?

—Na trilha provavelmente teria alguma armadilha para mim. E ela tentaria me nocautear. – Ele continuou.

—Estou esperando a parte genial do seu “plano” – fiz aspas com os dedos.

—O que? Tem que ter um plano? Eu simplesmente apagaria ela primeiro de uma forma... ou de outra – Ele olhou para as mãos...

—Ok, ainda estou esperando a parte genial. Você faria o que com ela depois? Outras pessoas viriam atrás de você para substitui-la, e você teria que ir embora. Grande ideia.

—É verdade, porém foi assim que sempre fiz. Mas gostei mais do seu plano desastrado.

—Desastrado? Prefiro meticulosamente calculado. Você acha mesmo que foi ela que roubou aquelas coisas? As chaves, a aliança, os gabaritos? Acha que ela tinha uma identidade falsa? Ou então que eu com... ahn... meu dom, sou tão estabanada a ponto de tropeçar em uma bolsa?

Falei isso enquanto me levantava. Alex ficou só me olhando.

—Ah, outra coisa para acrescentar na sua lista de coisas em que eu sou melhor do que você. – Joguei o celular de Carol para ele – Sou uma ladra melhor. – Sorri e saí.

Ele ficou olhando do celular para mim, de mim para o celular.

Missão concluída.

Notas finais
E aí o que estão achando da história? Estou adorando receber comentários. Sério. Toda vez que eu vejo o aviso que alguém comentou eu fico tipo: Tuts tuts tuts tuts tuts tuts Alguém. Comentou. A. Minha. História. *me sentindo importante*