Arkhé - Perseguidos
22 Capítulo 22
Notas iniciais
No dia seguinte, cheguei a sala de aula e Camila estava me esperando. Eita. Alguma coisa tinha acontecido. Era sempre assim quando ela queria me dar uma má notícia, a diferença é que dessa vez ela estava sorrindo. Fiquei sem entender nada.
—Preciso falar com você.
—O que foi? O que houve? Fala logo Camila.
—Calma. É que aconteceu uma coisa ontem...
—Você não veio para o colégio ontem...
—E você parece que nem dormiu essa noite. O que andou fazendo? – Ela olhou para as minhas mãos quando coloquei a mochila na cadeira, as juntas roxas de tanto bater no saco de pancadas. – Ai meu deus, o que aconteceu com a sua mão? No que você se meteu dona Catarina?
—Comecei a lutar boxe. O que você tinha pra me contar?
—Isso pode esperar, agora você vai me contar o que...
—Camila. O que você tem para me falar? – Falei pausadamente, completamente curiosa.
—Nada tão importante quanto...
—Nada tão importante quanto nada Camila. Eu cheguei na sala e você estava me esperando na porta para falar comigo, isso nunca é boa coisa.
—Talvez seja... – Disse ela baixinho. – Vem, vamos sair daqui, não vou te dar essa notícia na sala de aula.
Cami me levou até o pátio do colégio, chegando lá ela começou a falar, mexendo mais a mãos do que qualquer outra coisa.
—Eu não queria te dizer isso por mensagem, então...
—Cami, você está enrolando e toda hora desconversando. Começou agora termina. E diz logo que estou ansiosa.
—Ok. Eu vou para a Europa. – Ela disse isso tão rapidamente que eu demorei alguns minutos para entender.
—O que?
—Passei no intercâmbio. – Ela falou sorrindo – Vou fazer meu 3 ano em Londres. Eu vou ficar com o Rodrigo!
Pisquei os olhos. Era muita informação de vez para eu processar.
—Você vai embora? Quando?
—Aham. Seguindo o intercâmbio era para eu viajar no final de janeiro, mas eu estou tão animada para reencontrar o Rodrigo que eu já vou em dezembro.
—Uau... É... Intercâmbio! Europa! Londres! Rodrigo! Eu estou muito feliz por você Cami. Embora tenha uma pequena partezinha minha que esteja com vontade de te esganar por estar me abandonando. – Disse sorrindo.
—Como assim? Que abandonar o que? Eu vou é te levar a pobreza com a conta do telefone! Se prepara, faz uma poupança aí...
Rimos juntas, e eu abracei ela.
—O Rodrigo já sabe disso?
—Já! – Os olhos dela brilhavam. Era bom que aquele garoto não machucasse, e com meus poderes, as ameaças ficavam bem mais reais.
—Então quer dizer que eu fui a segunda a saber disso? Como assim? Abandonada e a última a saber as coisas? Que onda. Nunca mais fale comigo.
—Ah Nina, eu te adoro e tudo mais, só que o Rô tinha que saber primeiro, não tinha jeito.
—Hum, sei. Você sabe que vai ter que me mandar chocolates caros de Londres para eu te perdoar não é?
—Eu compro um batom de chocolate e está tudo resolvido.
—Que tudo resolvido? Quero receber uma vez por mês aqueles chocolates com nome difícil. Vou cobrar, me aguarde. – Disse sorrindo.
*
Estávamos voltando para a sala, o sinal já tinha batido, mas eu “sabia” que o professor ainda não tinha chegado então não havia porque ter pressa. Cami foi me contando tudo o que ela planejava fazer quando chegasse lá.
Eu sabia que ela tinha feito uma prova para um intercâmbio em Londres, mas ela disse que tinha ido tão mal que eu tinha até esquecido disso. Para ver a diferença entre nós duas: a Cami é superinteligente, então quando ela diz que vai mal em uma prova nunca se deve acreditar, no final, se duvidar, ela ainda acerta todas as questões. Eu, por outro lado, não estudo nada e acabo colando da pessoa ao lado, e só vou mal quando colo do babaca errado. É tudo estatística e claro, um pouquinho de habilidade.
Passamos pela sala de cópias quando senti algo estranho. Deixe-me reformular, senti uma presença de alguém que meu cérebro tinha colocado no modo alerta. Parei para me concentrar. Imagine um jogo de computador qualquer (não sou meu irmão então não espere que eu vá dizer o nome de um jogo porque eu não conheço nenhum além de The Sims, mas pode ser qualquer outro, sei lá), imagine como se o avatar se montasse lentamente, pixel por pixel, até formar algo nítido e que se reconheça, é assim que a minha visão funciona.
Arregalei o olhos. Descobri quem era. Dante. Há um dia atrás eu iria simplesmente ir embora o mais rápido possível para ficar o mais longe dele, mas agora eu tinha algumas dúvidas a tirar com o meu estimado professor de história.
—Cami, eu tenho que fazer uma coisa, pode ir pra sala, eu te encontro lá depois.
—Ok. O que vai fazer?
—Nada demais, é que me lembrei agora, é melhor eu fazer logo antes que eu me esqueça.
—Ceeerto. – Cami já estava se virando para voltar para a sala.
—Ah. Só mais outra coisa. Pode chamar o A... o Guilherme para mim? E pedir para ele vir me encontrar aqui?
—Aahh, agora tudo faz sentido. – Disse ela com um sorriso malicioso – Estou de olho senhorita Catarina. – Ela estreitou os olhos para mim e então foi andando para a sala, falando sem se virar – Lembre-se de que estamos em ambiente escolar, espero que no intervalo eu não encontre marcas no seu pescoço como esta que está na sua bochecha agora, você quase conseguiu me enganar.
Franzi as sobrancelhas. Ela... Enfim. Odeio admitir, mas uma pequena (Ou talvez não tão pequena assim) parte de mim realmente desejava que o que ela estava imaginando tivesse acontecido. Sacudi a cabeça para afastar o pensamento e me voltei para a porta da sala de cópias.
Conseguia sentir claramente Dante lá dentro, só ouvir o que ele falava é que estava complicado. Acho que nem tudo é tão fácil no mundo. Colei o ouvido na porta e tentei novamente mas só ouvia murmúrios, e algumas vozes alteradas. Havia mais alguém lá dentro, duas pessoas, mas eu não fazia ideia de quem eram.
Senti uma mão tocar no meu ombro de repente e gelei, tinha sido descoberta. Virei lentamente, já inventando uma desculpa completamente plausível para o motivo de eu estar matando aula para estar do lado de fora da sala de cópias. E na verdade o que encontrei me observando atentamente foi um par de olhos verdes (Incrivelmente brilhantes. Já disse isso? Provavelmente? Ok juro que essa é a última vez).
—O que foi? – Perguntou ele.
—Ah, ainda bem que é você. – Falei, parando de prender a respiração. – Não sei como iria explicar para algum funcionário o que eu estou fazendo aqui.
Ele franziu a testa.
—Certo, então que tal explicar pra mim. O que você está fazendo aqui? Porque me chamou?
—Vem cá. – Peguei-o pelo antebraço e o puxei em direção ao banheiro feminino ao lado da sala de cópias.
—Ah não. – Disse ele se soltando – Nem vem. Não vou entrar no banheiro feminino de novo. Por que não pode falar as coisas bem aqui no corredor?
Levantei uma sobrancelha.
—Ok tudo bem, não no corredor. Mas eu não entro em outro banheiro de meninas enquanto eu estiver consciente.
—Como quiser então. Só achei que gostaria de saber algo sobre quem estava na sala de arquivos derrubando tudo ontem.
Ele me olhou desconfiado, mas então ficou inquieto olhando para os lados.
—Tudo bem. Mas você vai ficar me devendo uma. E se alguém me perguntar, eu fui desafiado a fazer isso.
—Se você diz...
Entrei no banheiro e ele me seguiu. Contei a ele o que eu tinha visto ontem, ou melhor, quem, e que também sabia que ele estava na sala ao lado com mais duas pessoas e que conversavam alterados.
—Temos que ouvir o que eles estão conversando.
—Já tentei isso, pela porta não se ouve mais do que alguns murmúrios.
—Talvez alguma janela? Ou...
—Brilhante! – Meu cérebro estava trabalhando a mil. Procurei uma lajota especifica na parede que ficava ao lado da sala, uma não muito alta, nem baixa, mas ao lado para que ninguém notasse. — Você tem como derreter o rejunto dessa lajota?
—Talvez... Mas por quê?
—Vamos ver se isso dá certo primeiro.
Alex colocou uma mão na lajota, os dedos tocando o rejunto ao redor, senti a temperatura ficar quente e olha que eu nem estava tão perto. Então o rejunto começou a derreter como cera de vela, e eu conseguia sentir a lajota mais solta.
—Acho que já está bom. – Disse a Alex. Ele tirou a mão de perto da lajota.
Cheguei mais perto e tirei a lajota da parede, como eu previa, não passava água pelo cano que ela escondia. Pedi a Alex que derretesse o rejunto da lajota do outro lado, ele fez e então eu usei a telecinese para tirar a lajota do lugar e a colocar cuidadosamente no chão da sala de cópias onde ninguém pudesse ver
—Tcharam. – Mostrei o canal improvisado que tínhamos feito, não sabia que visão teria de lá, mas o som e o que falavam com certeza estava melhor para escutar.
Alex olhou pelo buraco.
—Consigo vê-los, tiramos uma lajota da parede da estante, tem uma parte de um livro na frente, mas consigo ver.
—Muito bem, hora de descobrir o que eles estão fazendo.
Empurrei Alex para o lado e olhei pelo buraco a sala.
—E ai?
—Se você parar de falar quem sabe eu consiga?
Alex se calou e ficou colado ao meu lado, de vez em quando conseguindo me empurrar e olhar também.
Me foquei mais em ouvir, não precisava exatamente ver o local, meus poderes cuidavam disso.
—E então? – Falava um dos homens que eu não conhecia.
—E então o que? Não temos mais o que discutir, o trabalho foi feito! Os arquivos foram queimados e a sala destruída, o que mais tem? – Aquela, eu tinha certeza, era a voz de Dante.
—Nada. Nada. Você está certo.
—Mas e o nosso álibi? Você tem certeza de que não tem como envolver nossos nomes nisso certo?
—Sim, sim. Já cuidei de tudo. Até sobre quem causou a destruição da sala. Nunca vão desconfiar que fomos nós.
—De volta aos negócios então.
—Hodgeman tem uma transferência para fazer, a gente consegue a máquina e ganha 40%. – Falou o terceiro cara.
—Pode fechar o negócio com ele.
—E quanto a escola?
—Ah, isso já é um caso perdido. Temos que abandonar.
—O que? Não! É a nossa melhor fonte!
—Mas as autoridades estão prestes a descobrir, já fizeram duas procuras esse ano.
—Que façam outras! Somos mais espertos que eles.
—E os professores? E os funcionários? Não vamos conseguir subornar todos.
—Não precisamos subornar todos.
—Ah é verdade, somente os que descobrirem, e que já passa de mais da metade de todos os empregados!
—Isso é simples de resolver, damos uma conta no Bella Cibo, tenho certeza de que os homens não vão reclamar. — Ouvi risadas abafadas. — E outra, tudo o que nos incrimina está codificado em um computador público, quem pensaria em procurar lá? Exatamente. Ninguém. Nem mesmo os policias.
E então eles saíram da sala. Me apoiei na pia de granito do banheiro, ainda raciocinando e juntando as peças.
—Então eu estava certo, realmente é uma máfia que comanda aquele restaurante. – Começou Alex
—E pelo visto Dante deve ser uma das cabeças, ou no mínimo alguém importante.
—Eles falaram escola, devem ter um esquema de corrupção no colégio, pegando boa parte do dinheiro, é original até. Provavelmente pegam uma porcentagem de toda verba do colégio, da cantina até a recuperação.
—Por isso, que o Dante coloca quase metade da sala na recu, faz mais sentido agora do que simplesmente ele odiar muita gente. – Falei.
—Devem ter tido um serviço para destruir a sala de arquivos do complexo, por isso ele estava lá ontem. É um esquema inteligente, e se duvidar, eles tem contatos com tudo o que é de mafioso na cidade.
—E nós vamos acabar com esse esquema. – Disse confiante. Alex me olhou como se eu fosse louca. – O que? É uma vingança pessoal.
—Você tem ao menos alguma ideia para fazer isso? – Ele me olhou descrente.
—Mas é claro. Quem você pensa que eu sou?
Contei a Alex meu plano, a princípio ele achou que não fosse funcionar, tudo precisaria ser milimetricamente calculado, mas disso eu dava conta. Estava com tantos pensamentos na cabeça que me assustei quando o sinal da segunda aula tocou.
—Bom, acho melhor irmos para a aula não? – Disse Alex.
—Com certeza. Anh... Alex, uma coisa, aquela marca que eu fiz na minha bochecha ontem, ainda dá pra ver?
Ele se aproximou e virou meu rosto de lado.
—Um pouco, talvez seja a sua maquiagem que você passou por cima, mas agora parece mais que você... – Ele ficou um pouco vermelho de repente.
—Ok, entendi. Certo, obrigada. – Falei rapidamente, me desvencilhando dele e indo em direção a porta.
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