Arkhé - Perseguidos
17 Capítulo 17
Notas iniciais
O sinal bateu no momento exato em que entrei na porta da sala, ajeitei a mochila pesada nas costas e fui na direção de Alex, que estava sentando em cadeira mais ao fundo da sala.
—Ahn... Guilherme, eu preciso falar com você.
—Olha é o seguinte, me desculpa tá legal, é isso que você queria? Agora não tem razão para você ficar zangada comigo sendo que eu não sabia que...
—Não é isso. Vem cá, eu tenho que falar com você.
—O que é?
—Vem logo, é importante.
—Fala logo aqui então.
—A.... Guilherme, vamos! – Disse pegando-o pelo antebraço e o puxando para fora da sala. Fomos em direção ao banheiro.
—O que foi Nina?
—Calma, que eu já te explico.
—Mas o que você... – Abri a porta do banheiro e já estava entrando quando ele parou e me fez parar também – Ei, ei, ei, o que você tá fazendo? Esse é o banheiro feminino.
—Eu sei. Eu não vou entrar no banheiro masculino, então você entra no feminino.
—Quem disse?
—Eu. É um banheiro individual e não tem câmeras nesse corredor, tá todo mundo na aula agora, ninguém vai notar. Para de frescura e entra. – E então o peguei pelo pulso e o puxei para dentro, ele ainda tentou se segurar na porta para não entrar, mas a mão dele escorregou aos poucos e eu consegui colocá-lo dentro e então fechei a porta.
Fui para a pia de granito, tirei minha mochila do ombro e comecei a tirar as coisas de dentro.
—O que está acontecendo Nina? E... Por que você está tirando vinagre da mochila e – ele pegou a caixinha que eu colocava na mesa – por que você precisa de... permetrina? Ou então de deltrina? Aliás como é que cabe tanta coisa assim na sua bolsa? Onde você colocou seus livros?
—Livros? Quem disse que eu trouxe livros?
—Então, deixe-me ver, você veio para o colégio trazendo duas garrafas de vinagre, permetrina, seja lá o que isso seja, deltrina, que eu também não sei o que é, água com algum composto aí, shampoos de diferentes tipos, algodão e pentes? Pode me explicar?
—Claro – Disse pegando uma das grafas de vinagre, abrindo e derramando metade do conteúdo na cabeça dele. Ele deu um pequeno pulo quando eu fiz isso.
—Ei! Tá legal! Entendo que você está irritada pelo o que aconteceu ontem, mas você já revidou jogando tinta no meu cabelo, eu levei horas para tirar aquilo da minha cabeça. Não precisa jogar vinagre também
—Ah sério? Bom você já viu o tamanho do meu cabelo em relação ao seu? EU levei a tarde toda. Mas não é isso que interessa, está ardendo?
—O que?
—Senhor me ajude. A sua cabeça está ardendo depois que eu coloquei o vinagre?
—Está! Claro! O que você esperava?
Abri a torneira e fiz uma concha com as mãos, peguei um pouco de água e levei até a cabeça dele, onde abri as mãos e deixei cair água nele.
—Catarina! – Disse Alex segurando fortemente os meus braços com as duas mãos – Você pode me explicar por que está fazendo isso?!
Suspirei. Tentei sentir o movimento na cabeça dele, onde estavam aqueles idiotas? Achei um andando perto da orelha e com um movimento rápido o peguei e matei com as unhas. Só se ouviu o crac do bicho morrendo.
—Por causa disso. – Mostrei minha mão onde o parasita, agora morto, estava.
—Piolhos?
—Se fossem somente piolhos até estaria tudo bem.
—Você tem certeza? Eu acho que...
—Sim eu tenho. Eles são modificados, não se reproduzem, são feitos em laboratório e implantados em uma cabeça específica. O problema é: eles tem um chip dentro, não sei como conseguiram fazer um tão pequeno, mas não importa. Esse chip emite certas ondas e também quando os piolhos tiram nosso sangue para se alimentar, uma substância é colocada em nós, e que enfraquece nossos poderes, é por isso que eu estava sentindo aquelas dores de cabeça, e é por isso que era difícil você controlar os elementos.
—Mas, se eles tem chip como não nos rastrearam ainda?
—Não sei exatamente, mas presumo que por ser tão pequeno o chip só emite as ondas até uma certa distância do complexo, e é por isso que lá nossos poderes se anulam completamente. Longe de lá é mais fácil, porém ainda com alguns problemas.
—Como você descobriu isso?
—Dã? Colocaram em mim também. Talvez quando me raptaram, enfim, a questão é que eu sou mais esperta que você para perceber isso antes.
—Eu vou ignorar o último comentário por que eu sinto essa dor de cabeça estranha há alguns anos... Você acha que....
—Não sei ao certo. Mas nesse caso é melhor começar. Neste exato momento tem parasitas andando pela sua cabeça, se aproveitando do seu sangue, sugando seus poderes, se reproduzindo...
—Tá, tá, tá. Me dá logo isso aqui.
Estendi a permetrina para ele, ele usou o frasco todo, também usou a deltrina e alguns shampoos e vinagre novamente. A roupa dele sendo completamente molhada e eu só rindo da situação de desespero dele. Não era necessário lembrar que eu tinha ficado naquela mesma situação hoje de madrugada.
*
A noite, não tinha conseguido dormir direito, e finalmente estava caindo no sono quando alguém entrou pela janela do meu quarto. Gritei, liguei a luz e peguei a arma de circuitos embaixo da cama. Mas então relaxei logo depois, era Alex.
—O que você está fazendo? Como descobriu que eu morava aqui?
—Eu já fui torturado várias vezes, mas não tem tortura pior do que tentar dormir sabendo que tem bichinhos do mal andando pela sua cabeça.
Comecei a rir.
—Você é uma pessoa desesperada não?
—Tenha toda e absoluta certeza.
—Você não podia simplesmente lavar seu cabelo com algum shampoo e passar o pente?
—Não, eu não tenho shampoo em casa, nem pente fino. E além do mais eu queria usar a perme... sei lá o que.
—Permetrina – Falei rindo – E você só pode usar uma vez por semana.
—Dane-se, eu quero usar agora. Onde está? No banheiro? – Disse ele e entrou no banheiro do meu quarto. – Ah achei. Vou usar seu banheiro rapidinho.
Disse ele e então fechou a porta. Dei uma rápida organizada no quarto, e ainda parei para me olhar no espelho, estava usando pijamas de shorts e blusa, não era exatamente feio, passável talvez. E por que exatamente eu estava fazendo aquilo? Arrumando meu quarto, me olhando no espelho? Espantei o pensamento. Ouvi o barulho da água quente do chuveiro caindo e depois de um tempo, Alex abriu a porta e saiu, a água pingando dos cabelos.
—Usei uma toalha azul que estava lá, tem problema?
—Era minha. Esqueça. Eu incinero essa e pego outra nova para mim depois.
Ele franziu as sobrancelhas mas seus lábios formaram um sorriso. Então estendeu para mim o pente fino.
—Por favor?
—Não. Nem pensar.
—Por favorzinho.
—Nunquinhazinho. Caso você não se lembre e ainda devo ter alguns em mim também, não dá pra ficar de babá de uma criança feito você e ficar passando pente fino no seu cabelo.
—Criança?
—Ah é verdade, acho que bebê se encaixa melhor na categoria.
—Vou te mostrar quem é criança aqui...
—Se você pensar em se mover, adeus estoque de permetrinas.
Ele parou bruscamente. Dei um sorriso largo.
—Muito bem, garoto, muito bem! – Falei rindo. Ele respirou fundo.
—E então? Descobriu algo mais sobre os parasitas?
—Alex, você tá ligado que deve ser umas 2 horas da manhã não é?
Ele deu de ombros. Revirei os olhos e fui para a minha mesa onde eu estava estudando o chip dos parasitas. Alex me seguiu. Me sentei na cadeira e ele ficou olhando atrás.
—Nada que você já não saiba, não consegui descobrir muita coisa na estrutura que desse a entender mais. – Ele apoiou uma das mãos na mesa e se inclinou para olhar por cima do meu ombro a lupa que focava no pequeno chip e que eu estava mexendo com uma pinça. Podia sentir a respiração dele no meu ouvido, honestamente, não achei ruim.
—Porém pode ser que Nataniel descubra mais nos dados internos, pode haver um código ou algo do tipo relacionado ao complexo.
—Quem é Nataniel? – Alex se afastou bruscamente, e disse isso com a voz rígida.
—Não precisa ser grosso. Ele é o meu irmão. Vou suborná-lo com alguma coisa depois quando ele estiver acordado, por que eu não sei se você percebeu mas são 2 DA MANHÃ e eu quero dormir.
—Ah. Tá. Tudo bem então.
—Ah aliás, eu moro no 5 andar.
—E...?
—Como foi que você conseguiu entrar pela janela sendo que... Quer saber? Deixe para lá, é melhor eu voltar a dormir.
Fui para a cama e deitei mas Alex não se mexeu.
—Sim... Tchau Alex. Boa noite.
—Ahn... Tchau Nina... – Ele começou a andar em direção a janela, mas parou no meio do caminho e se virou – Nós estamos bem não é? Digo, você e eu? É que depois de todas as brigas e as coisas que a gente passa depois nem eu sei mais...
—Bom, no momento eu não estou com a vontade diária de te matar, — Disse me levantando da cama – então sim, eu diria que estamos bem. Acho que as coisas meio que se resolvem com o tempo.
—Ou então é o simples fato de acontece algum problema sempre depois que a gente briga. – Disse ele sorrindo.
—É bem isso.
—É... Vou indo então. – Disse ele já passando uma perna pela janela.
—Alex, você não prefere agir como uma pessoa normal e ir embora pela porta?
—Eu não sou uma pessoa normal Nina, em ambos sentidos. – Disse ele e então saiu. Acho que ele desceu pelo encanamento saliente ou algo do tipo, mas não tive como ver porque ele sumiu da minha vista na escuridão um tempo depois.
Deitei na cama com o coração batendo forte. O que tinha sido aquilo? Ele não podia simplesmente ter esperado até ficar mais tarde? Por que tinha que ter vindo agora? E por que razão eu tinha gostado daquilo? Ele era um idiota, mas até isso era interessante. Droga. Eu sabia o que era aquilo. Eram os olhos verdes, tinham que ser os olhos verdes.
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