Arkhé - Perseguidos
18 Capítulo 18
Notas iniciais
—Ele fechou a porta na minha cara. – Eu disse enquanto colocava minha mochila na cadeira em frente a de Alex.
—Você nem tentou não é?
—Você por acaso conhece o meu irmão? Então não me acuse.
—Ok, ok. – Disse ele levantando as mãos acima da cabeça. – Ele não vai ajudar de jeito nenhum?
—Na verdade, ele ainda quer a arma que eu prometi a ele da última vez.
Alex levantou as sobrancelhas.
—Tudo bem então. Já entendi, ele é do tipo difícil.
—Difícil é pouco para descrevê-lo.
*
O sinal tocou e eu peguei minhas coisas e fui em direção a porta, Alex me seguiu.
—Então, para onde nós vamos?
—Nós? Eu vou para casa, você eu já não sei.
—Eu vou para onde você for, então nesse caso acho que sua mãe vai ter que colocar mais um prato na mesa por que eu vou almoçar na sua casa. – Disse sorrindo.
—Nesse caso, pode ir abrindo sua carteira porque nós vamos almoçar fora.
—Nós? Você não almoça em casa ou isso é só para me fazer pagar pelo almoço?
—Eu não almoço em casa. Cansei de chegar lá morrendo de fome e ter de fazer a comida porque ninguém lembrou de mim. – Disse com a raiva fervendo na minha voz.
Alex abaixou a cabeça e ficou olhando para o chão.
—Ah, certo. Presumo que não queira entrar em detalhes não é?
—Não.
*
—Eu vou ter que bater na porta?
—Claro. Foi você que se ofereceu para falar com ele, então agora vá em frente.
—Não. Eu disse que te ajudava a falar com ele, não me ofereci para ser eu quem ia falar.
—Dá na mesma, agora vai, vai, vai Alex. – Disse empurrando ele para mais perto da porta.
Ele bateu na porta, teve de fazer isso umas cinco vezes até Nataniel abrir.
—O que você... Quem é você?
—Oi, eu sou o... – Ele olhou para mim meio que perguntando o que falava, dei de ombros, o nome era dele afinal – o Alex. Sou amigo da sua irmã e...
—Vai logo direto ao ponto cara. – Disse ele se encostando na porta.
—Precisamos que faça uma coisa pra gente.
—Não vou acobertar vocês de jeito nenhum.
Ergui as sobrancelhas.
—Calma. O que você estava pensando que nós... – Me intrometi na conversa mas fui interrompida por Alex.
—Não é isso. Eu soube que você tem habilidade com computadores...
—Não precisa falar isso sutilmente, sei que você quer dizer hacker.
—Enfim. Precisamos que você colete todos os dados possíveis de um chip.
—Vocês são tão burros que não conseguem nem fazer isso? Você coloca o chip no card, insere no computador, espera carregar e então, tcharam, todas as informações vão aparecer como mágica na tela. — Disse falando pausadamente e fazendo mímica como se estivesse falando com crianças — Não acredito que me chamaram para isso. – Então começou a se voltar para dentro do quarto.
—Ah é gênio? Pois então tenta colocar esse chip dentro de um card. — Disse estendendo a mão onde no meio havia o pequeno e mínimo chip.
Ele se virou e semicerrou os olhos para a minha mão estendida.
—Vocês tem certeza de que tem dados aí? Na verdade, vocês tem certeza de que isso é um chip?
—Absoluta. – Disse Alex. – Então? Vai nos ajudar?
—Quero algo em troca.
—O que você quer?
—Primeiro, a arma que você está me devendo – ele apontou para mim.
—Ah pelo amor de Deus. É sério isso? – Alex me deu uma cotovelada. Revirei os olhos. Fui até o meu quarto, não tinha comprado a Nerf, então peguei arma de circuitos, travei, e ainda desfiz alguns fios por precaução. Um dia desses eu pegava de volta. Voltei para a porta do quarto de Nataniel. – Aqui.
Ele pegou a arma e a analisou.
—Sabia que tinha pegadinha, essa arma nem tem lugar para cartucho de munição.
—Você não pediu nenhuma específica.
—Certo então. – Não entendi nada, imaginei que ele fosse ficar bravo — Bom, a segunda coisa é.... – Droga, eu conhecia aquele olhar, já vi que provavelmente teria de voltar no tempo e falar com dinossauros para conseguir o que ele queria dessa vez — Uma invenção interessante, algo novo que os cientistas tenham inventado. Lembrando, última moda, a mais nova invenção.
—Você quer que a gente recrie uma invenção? Quer que a gente construa? Assim do zero? Tá de brincadeira?
—Não falei com você, falei com ele. – Disse Nataniel sorrindo maliciosamente, enquanto mexia com o chip nas mãos. Ah que vontade de enforcar aquele menino.
—Como assim? Por que comigo?
—Você usa o colarinho da camisa ajeitado embora garotos da sua idade não façam isso, apesar de todo esse jeito descolado você conhece palavras do dicionário culto, sabe negociar, ou pelo menos a lógica do negócio, e usa um relógio de laboratório. Está bem claro para mim, que o seu pai ou sua mãe é um cientista, ou então você conhece alguém que é, e convive muito com essa pessoa. Aposto que se quiser realmente esses dados aqui dentro, vai conseguir dar um jeito de pegar alguma coisa para mim. Esse relógio é realmente muito bonito sabia?
Alex ergueu as sobrancelhas.
—Impressionado. – Disse ele enquanto tirava o relógio e entregava a Nataniel.
—O quanto eu acertei?
—Muita coisa. Então? Vai fazer?
—Entrem.
*
—E então? Conseguiu? Acabou? – Disse impaciente.
—Já é a milésima vez que você me pergunta isso e não, eu não acabei. Eu tive que fazer um card que lesse esse mini mini chip que vocês tem, consegui conectar ao computador agora, vou ter que fazer uma varredura e se você não percebeu está tudo criptografado, vai demorar um tempinho, então senta e espera.
—Ai! Essa doeu! – Alex comentou rindo.
—Você quer um motivo para dizer isso de verdade? – Disse levantando a mão para bater nele.
—Não, não. Calma Ninazinha, vamos conversar. – Disse pegando minha mão e abaixando devagar. – Respira. Um, dois, três...
—Você ainda estão de mãos dadas – Disse Nataniel sem parar de bater na teclas do teclado ou desviar o olhar da tela.
Nos separamos rapidamente.
—Eu desisto. Vou procurar alguma coisa mais interessante para fazer, me avise quando acabar.
Fui em direção ao meu quarto e tentei pensar em alguma coisa para fazer. Error. Sem ideias no momento.
—O que você vai fazer? – Disse Alex aparecendo na porta do meu quarto.
—No momento – Disse enquanto me jogava na cama – pensar em alguma coisa para fazer.
—Você conseguiu controlar melhor os seus poderes depois que tirou a maior parte dos parasitas?
—Nem tentei para falar a verdade. Você conseguiu?
—Minhas chamas não tremulam mais, e consigo controlar o ar.
—Você não tinha me dito que já sabia controlar o ar?
—Eu disse que podia, mas não que conseguia.
—Inacreditável. Poderia me explicar quando você teve tempo de descobrir isso? Eu te mostrei minha teoria dos parasitas ontem. – Disse me sentando na cama. – Você por acaso dormiu?
—Não. Mas é para isso que temos o café.
Um sorriso se formou na minha boca.
—Você acha que eu conseguiria? Digo, controlar as coisas de novo? A telecinese?
—Por que não? Tente.
Me concentrei. Pensei em algo pequeno e fácil de ser levantado, vi o lápis encima da minha mesa, atrás de Alex, tentei levitá-lo, conseguia sentir as células, os átomos, mas ele não se movia.
—Tente canalizar a energia nas mãos.
—O que?
—Assim. – Ele veio para o meu lado e segurou um dos meus braços, posicionando para que ficasse esticado, a palma da mão aberta.
—Tente agora.
Apontei minha mão para a mesa, fechei os olhos. Senti o lápis, a madeira, o carbono que formava o grafite, os átomos. Queria que tudo aquilo que formava o lápis flutuasse, essa era a minha vontade. Senti que o lápis estava se movendo, se movendo para cima, estava levitando-o! Institivamente minha outra mão também apontou para o lápis e ele subiu mais. Abri os olhos e vi, o lápis estava realmente flutuando.
—Consegui! Ai meu deus eu consegui!!
Alex começou a rir.
—Calado. Aposto que você também ficou assim quando conseguiu controlar os seus. Me deixe ter o meu momento.
Me empolguei. Apontei minhas mãos estendidas para meu livro de química, ele levitou, passei para minha mochila, que também acabou no ar, as coisas eventualmente caiam de volta no chão, mas não estava nem ligando.
—Isso e incrível – Disse rindo.
—Você está parecendo uma criança.
—Vou ignorar esse comentário por que eu estou muito feliz, mas é melhor você ficar de boca fechada de agora em diante.
Fui levitando as coisas pelo quarto, e Alex falava para mim coisas do tipo: “Se concentra!”, “Tenta não deixar as coisas caírem depois?” e “Você já viu Matilda? Sério você está parecendo a menininha do filme, até na mentalidade”.
Nessa eu não me aguentei, apontei minha mão para alguns pares de saltos que estavam no canto do quarto e joguei tudo nele. Ele fez uma barreira de ar no último minuto e os sapatos caíram todos no chão sem acerta-lo.
—Ei! Era para acertar você!
—Desculpa, acho que eu fui mais rápido. – Disse sorrindo.
—É sério? Você quer realmente apostar quem tem os reflexos mais rápidos? Boa sorte amigo. Que comece os jogo.
Mandei o travesseiro na cara dele, ele se virou e escapou por um triz e levantou uma das sobrancelhas como se me desafiasse.
Ele controlou o ar e fez todos os papeis em cima da mesa voarem na minha direção. Me agachei e eles passaram reto. Mandei a cadeira por cima dele, calma, era só para distraí-lo, a cadeira passou por cima da mesa e caiu em pé no chão, quando Alex se virou eu me joguei em suas costas.
Ele tentou me tirar de cima dele, mas cravei minhas unhas a fundo no ombro dele. Ele então controlou um pouco de água da torneira do meu banheiro e molhou boa parte do chão do meu quarto, e ainda respingou um jato forte no meu rosto que me fez sair de cima dele, quando voltei ao chão cambaleei um pouco por causa da água, mas consegui me equilibrar.
Alex chegou por trás de mim e prendeu minhas mãos as costas. Peguei impulso no chão e pulei por cima dele, caindo na cama e desequilibrando ele, que caiu no chão.
—Quer mais? – Disse triunfante ao descer da cama.
—Mas ainda não acabou. – Disse ele e me puxou para o chão, onde me prendeu ao ficar em cima de mim, tentei empurra-lo mas não deu.
—Agora sim acabou. – Disse sorrindo.
—Eu falei que o jogo começou, então ele só acaba quando eu falar também. Disse e levitei as mãos e os pés dele o suficiente para ele perder o apoio e eu conseguir empurra-lo e ficar em cima dele. Minha camisa toda molhada por causa do chão, e meu cabelo longo, com as pontas encostando no chão e molhando também.
—E acaba agora. – Falei.
—Não mesmo — Disse ele e um vento forte passou por mim e fui um pouco para atrás. Ele rolou para o lado e levantou na mesma hora que eu. Estendemos as mãos em forma de ataque um para o outro, começamos a andar paralelamente ao outro. Os meus olhos atentos aos dele e os dele aos meus. Fui a primeira a atacar, mandei alguns livros de cima da mesa nele, ele desviou, mas eu me desequilibrei com a reação.
Ele me segurou pelas costas e me trouxe para mais perto dele, o meu corpo todo molhado encostando no dele, os nossos olhos se encontraram, ele inclinou a cabeça para mas perto da minha e parou no meio do caminho como se pedisse permissão.
A única coisa que eu disse foi:
—Idiota. – E então completei o espaço que faltava entre nós dois.
(Essa é a parte em que você comemora, já pode começar, eu sei que você já estava esperando isso há um bom tempo).
O beijo foi bom. Os lábios dele me tocavam suavemente mas ao mesmo tempo com ferocidade (Isso faz sentido? Provavelmente não). Aquela ânsia do início foi diminuindo e o beijo se tornou lento e bom, muito, muito bom. Alex beijava incrivelmente bem.
—Não contem comigo para acobertar vocês dessa bagunça. Eu disse que não faria isso, embora quando disse pensei que você faziam como pessoas normais, mas pelo visto vocês gostam de selvageria.
Alex e eu olhamos para o lado, e vimos Nataniel parado na porta. Nos separamos imediatamente.
—E antes que me acusem, a porta estava aberta, não tenho culpa se se esqueceram de fechar. Enfim, consegui. Venham ver.
Nataniel saiu andando pelo corredor. Olhei para Alex e ele olhou para mim, compartilhamos um sorriso, rindo internamente. E então seguimos Nat pelo corredor.
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