Arkhé - Perseguidos
1 É isso o que acontece quando eu roubo o gabarito
Notas iniciais
Arkhé
Conceito mencionado pelos primeiros
filósofos, “arkhé” seria o princípio original
comum a todas as coisas, a origem e
o fundamento da realidade, fonte de onde
tudo surge, a substância a partir da
qual tudo deriva.
Tudo estava dando certo. Exatamente como o planejado e como sempre fiz. O sinal do meio dia bateu e eu saí da sala como todo mundo, parei no final do corredor entrei no banheiro e esperei. Todo dia o professor de física sai da sala 10 minutos depois do sinal tocar e vai para a sala dos professores deixar o material e então ir para casa, todos os outros professores fazem a mesma coisa em um dia de sexta-feira (talvez alguns demorem menos, mas eu faço uma média), o faxineiro entra na sala logo depois para limpar e demora 15 minutos lá, ele tem um carrinho de limpeza gigante então não nota quando eu entro na sala e me escondo atrás da porta (que fica aberta) e do carrinho que fica segurando a porta para não fechar.
Ele sai e fecha a porta, e eu penso “É simplesmente ridículo como eu consigo fazer isso todos os anos, com a mesma tática e sempre consigo”. Desde a 5 série que eu roubava o gabarito das provas de matemática, ao entrar no ensino médio eu passei a roubar os de física também, e estava pensando se também deveria roubar os história, estava praticamente bombando na matéria, mas o motivo principal era porque o professor me odiava, e como o que eu realmente não conseguia entender era exatas, só roubava o gabarito dessas matérias, por enquanto.
Abri o arquivo das provas e procurei o código 2P3F, eles organizavam muito bem as coisas no colégio, 2 para segundo ano, P para prova, e 3 para terceira unidade e F para física. Patético, mas eficiente. Assim que achei a avaliação peguei meu celular e esperei até a câmera ter uma boa resolução para tirar a foto, mas aí eu senti.
Desde pequena eu sempre tive isso, esse sexto sentido por assim dizer, conseguia “sentir” pessoas, mas não estou falando do tato, é sentir a presença, é como se eu sentisse cada célula da pessoa, talvez cada átomo. Ninguém, nunca, nenhuma vez conseguiu me assustar, ou me pegar desprevenida, Aquela coisa de dizer “pensa rápido!” e jogar alguma coisa nunca funcionou comigo, sempre peguei o objeto, por vezes até mandava de volta pra pessoa com uma velocidade surpreendente.
Então quando eu senti que alguém estava do lado de fora, me olhando pela janela aberta, caí no chão, literalmente, as luzes estavam desligadas, então o chão seria o melhor lugar para me esconder, já que a sala dos professores sempre foi meio escura. Me xinguei mentalmente, minha habilidade melhorou com o tempo, quando criança, eu sabia quando algo estava se mexendo, aos poucos fui conseguindo diferenciar quando era um objeto ou pessoa, agora eu muitas vezes conseguia perceber presenças com uma distância maior, mas devia ter me distraído ao procurar a prova e não percebi que alguém estava chegando.
Bom, haviam me descoberto, tinha certeza disso, precisava então descobrir quem tinha sido e ameaçar com todas as maneiras possíveis para que ficasse de boca calada. Levantei um pouco a cabeça, só conseguia ver a forma de um garoto. Engatinhei até a janela, o menino ainda continuava olhando para a sala, me preparei e então saltei de vez pela janela, caindo em cima do garoto.
Me arranhei um pouco, mas consegui me levantar primeiro. Quando olhei para ele, tive que conter um suspiro, por duas razões: a primeira é que eu não tinha ideia de quem ele era, então ele provavelmente não tinha ideia de quem eu era, conseguiria engana-lo fácil, e a segunda, eu tenho que dar o braço a torcer, ele era lindo, o cabelos era curto, a cor uma mistura de loiro com castanho claro (Se fosse uma cor de um lápis de cor seria parecido com um amarelo queimado) e olhos verdes brilhantes, e meu deus, o que eram aqueles braços? Ele podia ser uma pessoa legal no final das contas.
Eu pensava isso até o momento em que ele puxou uma arma de choque e apontou pra mim.
—Como me acharam?
—O quê?
—Me seguiram? Pediram informações a contatos?
—Olha é o seguinte, eu não segui você, na verdade nunca te vi na vida, se você ainda não percebeu eu estudo nesse colégio. – apontei para a blusa do uniforme.
—Ah entendi, disfarce. Eu realmente subestimei vocês. Mas é o seguinte, eu não volto para o complexo nunca mais.
Eu não estava entendendo nada do que aquele garoto estava falando, queria sair dali o mais rápido possível sem causar problemas, mas foi ai que ele cometeu um erro. Ele não me conhecia, não sabia dos meus “reflexos rápidos”, então provavelmente quando veio pra cima de mim com a arma de choque achava que ia ganhar, coitado.
Segurei o pulso da mão com que ele segurava a arma, e com o pé dei uma rasteira que o desequilibrou, ele caiu, mas me puxou junto, então novamente estávamos os dois no chão, com a diferença que agora era lutando. Consegui jogar a arma de choque para longe, mas ele aproveitou e ficou em cima de mim, um o joelho na minha barriga e prendendo minhas duas mãos ao chão, parecia que ele ia dizer alguma coisa, mas chutei as costas dele com o meu joelho e consegui me levantar.
Ficamos nos encarando por um tempo e olhando para a arma, um pouco mais adiante. Disparamos a correr ao mesmo tempo, mas eu cheguei primeiro, peguei a arma e apontei para ele.
—Eu não tenho a menor ideia de quem você é, mas tenho certeza de que não deveria sair por ai atacando pessoas sem razão nenhuma!
—Sem razão nenhuma? – Ele começou a rir.
—O que eu fiz para você então? Eu nem te conheço!
—Como você é designada para uma missão sem conhecer o alvo?
—Missão? Tenho absoluta certeza que me confundiu com alguém, então vou ser legal, mas estou esperando as desculpas.
— Desculpas? Se eu te confundi com alguém, me explique como você luta tão bem?
—Então agora fazer defesa pessoal é crime? Eu não tenho culpa se você escolhe mal os seus adversários!
—Não estou dizendo que é crime fazer defesa pessoal. Mas se você não me conhece, por que me atacou?
—Eu não te ataquei, foi você quem puxou a arma de choque e veio para cima de mim.
—E foi você que pulou a janela para me atacar.
—Não foi bem assim...
—Vai dizer que não me viu de lá?
—Não, quer dizer, eu te vi, mas eu não pulei a janela exatamente para te atacar, bom, talvez não pelos seus motivos.
—Me diz porque eu não acredito?
— Ok, eu tenho coisas melhores para fazer do que ficar discutindo com você se eu te ataquei ou não, então o melhor que eu faço é sair daqui e arma de choque vai comigo.
—Ei mas isso é meu!
—Não é mais desde que você perdeu a luta.
—Eu não perdi!
—Ah perdeu sim, e perdeu feio.
Ele sorriu e deu de ombros. Eu virei de costas e comecei a andar, não sabia exatamente o que aquele garoto maluco ia falar agora, mas não ia ficar para ouvir, era melhor eu ir para casa. Mal dei alguns passos e parei. Tinha alguém vindo na nossa direção, não, não era somente alguém, eram várias pessoas, tinham descido de dois carros e estavam vindo para cá. Me virei de novo para encara-lo.
—Eu sei que não tenho nada a ver com isso, e não tenho exatamente certeza se quero me envolver. Mas como é exatamente o tipo de pessoa que te persegue?
—Ahn, como assim?
—São do tipo que vem em grupo, com carros e armas?
—Mais ou menos. – Ele estava escondendo algo, mas sabia aquele mais ou menos significava que aquelas pessoas eram os perseguidores dele. Eu não o conhecia, e alguns segundos depois de vê-lo, tinha uma certa antipatia por ele, mas parecia que ele estava em perigo, por isso só disse:
—Corra.
Ele entendeu e disparou para fora do colégio, e eu fui atrás, não era a minha primeira opção ir com ele e ser perseguida também, mas não tinha outra saída dali.
Eu realmente não queria me envolver nisso, mas pelo visto a tarde iria ser longa.
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