Arisen

7 Um pequeno duelo de magos sobre a vida


No mesmo dia, já de manhã, se preparavam para continuar viagem.

—Não foi por acaso... — Arya disse a Lyon.

—Hã? — O garoto não entendeu.

— O lugar onde nós paramos...

— Hã? — Repetiu.

— O lugar onde nós paramos. — Dessa vez foi Rook que falou. — Não foi "por acaso", antes de sairmos, eu combinei com Arya para deixar você de guarda perto do acampamento de bárbaros andarilhos...

— Então... Vocês quase me mataram... Para provar... O quê?

— Sua força e inteligência. — Rook disse.

O ancião apontou para a espada embainhada ao lado de Lyon.

— As espadas dos arcanos não são assim...

— Não. — O moreno disse. — Eu mesmo a modifiquei. — Retirou a lâmina de sua bainha, apontando para o compartimento onde havia colocado a pedra rúnica. — Espadas de arcanos podem conduzir magias, mas são poucas as que podem incorporar uma runa.

— Se é um design novo, também deve haver um nome novo, certo?

— Sim.

— E qual seria?

— Degen

Arya não entendia nada da conversa de Lyon e Rook. Ela odiava isso, mas preferia esconder com um sorriso, esperaria até saber mais sobre o assunto.

“Eu agora tenho um coração de dragão, certo?”

“Dragões são criaturas mágicas... Certo?”

“Então, eu devo ser capaz de usar magia também!”

Ela sorriu consigo mesmo, iria tentar treinar magia sozinha. Se não conseguisse, iria pedir ajuda a Lyon, mesmo o arcano dizendo que era horrível com magias, Arya não acreditava, Lyon havia mostrado absolutamente o contrário.

— Então!— Arya se levantou, com uma voz alegre e confiante. — Vamos sair logo daqui, o quanto mais cedo chegarmos a próxima cidade, mais cedo mataremos o dragão e acabaremos com isso!

— Arya está certa. — Rook se levantou com dificuldade. — Vamos logo, Lyon, arrume as coisas...

— Sozinho? — Protestou.

— Eu ajudo! — Arya se ofereceu.

Arrumaram as coisas e enterraram o corpo do bárbaro morto por Arya e partiram em direção a próxima cidade.

Enquanto a carruagem ia se afastando de onde estava, um ser encapuzado se aproximava do local.

A sombra negra mirou seu olhar na espada fincada na terra, no túmulo improvisado que Lyon e Arya fizeram juntos para o infeliz bárbaro. Riu, um sorriso sarcástico.

A tarde já estava acabando e a silhueta dos prédios da próxima cidade já podia ser vistas.

— Rook. — Arya chamou a atenção do ancião. — Você sabe fazer magia também?

— Poucas coisas. — Mentiu. — O máximo que eu consigo é acender uma fogueira...

— Ah... — Ela desanimou um pouco.

— M-Mas... Rook... — Lyon tentou protestar, sabia que Rook era um mago poderoso. — Mas você é um a-

— Um velho comum que não sabe fazer mágica, isso mesmo Lyon. — Rook cortou a fala do garoto.

Lyon iria revidar, mas resolveu ficar calado.

Foram enganados pelos seus olhos, a noite já havia chegado e a cidade ainda estava longe, a sensação de proximidade foi causada pela altura dos prédios.

Novamente, Lyon foi obrigado a assumir o primeiro turno daquela noite, vencido pelo argumento “velhos devem ter uma boa noite de sono” dado por Rook.

Seria um milagre se nenhum bárbaro aparecesse como na noite anterior.

Alguém deu dois tapas leves no ombro de Lyon. O garoto se assustou, virando-se rapidamente e se deparado com uma figura feminina, pequena e frágil.

— Arya... Por que não está dormindo?

— Ahh... — Ela gaguejou um pouco.— Eu estava pesando sobre...

Ela parou de falar por um instante, com certeza não conseguiria fazer magia sem um instrutor. Mas também era tímida demais para pedir a alguém que a ensinasse, principalmente... Lyon...

— O quê? — Lyon perguntou, incentivando-a a completar a frase.

— Eu estava pensando se você poderia me ensinar magia! — Ela falou tudo num só suspiro, com as maçãs de seu rosto um pouco coradas.

— Ahh... O quê? — O incentivo virou dúvida.

Arya desviou o olhar, com a voz trêmula:

— É que... Eu tenho coração de dragão agora, né? — Ela perguntou e Lyon confirmou com a cabeça. — E dragões são criaturas mágicas, né? — Novas confirmações de Lyon. — Então eu pensei que você pudesse me ensinar...

— Tá bem... Mas por quê?

— O motivo parece bobo e... Apenas me ensine, tá bem?

— Certo! — Não discutiu, apenas se levantou e se afastou um pouco dela.

— O que você vai fazer? — Ela perguntou, curiosa.

— Ver se as runas reagem com você, se reagirem, você conseguirá usar magia.

Lyon procurou em sua bolsa uma pedra com uma runa gravada em seu interior.

— Aqui! Segure! — Então jogou a pequena perola transparente avermelhada para Arya.

A garota agarrou a pedra no ar, e em poucos segundos o item se incendiou, virando uma bola flamejante incandescente.

Arya atirou a pedra no chão assim que ela se acendeu.

— O-O-O que foi isso?

— Você pode utilizar magia... Essa era uma pedra que continua uma runa de fogo. A Sehrli que você emana ativou a pedra. — O arcano sorriu, um sorriso bobo e inocente.

Arya corou ao vê-lo sorrir.

— Ah... O que foi? — Lyon notou a vermelhidão nas faces da garota.

— Ah... Ah... Nada! — Ela tentou, sem sucesso, não gaguejar.

O treinamento com magia continuou noite a dentro, tanto até que quando Rook acordou para tomar o turno de Lyon, ele e Arya mandaram o velho voltar a dormir.

Aquela noite não foi muito produtiva para os dois. Lyon mostrava para Arya como se fazia um simples foco de luz, a magia pronta mais simples já inventada, a garota tentava com todas as suas forças invocar a magia que agora, depois de tantas tentativas, não tinha certeza que tinha, uma pedra flamejante não era mais suficiente para convencê-la.

O treinamento durou praticamente a noite toda, e continuou ao amanhecer.

— O que vocês estão fazendo? — A voz de Rook chegou aos ouvidos de Lyon, tinha um tom sonolento, provavelmente o velho havia acabado de acordar.

— Aprendendo magia... — Lyon, falou, objetivamente.

— Ahh. Tá bem... — Rook decidiu não discutir, afinal, sabia como ninguém que para aprender magia, aluno e mestre deviam estar concentrados.

Arya e Lyon estavam sentados um na frente do outro, Arya estava de olhos fechados, sentada sobre uma runa branca, quase em transe enquanto o arcano se concentrava para manter a marca ativa. Uma luz branca fraca emanava dela e iluminava o corpo de Arya.

— Erm... Lyon... Por acaso isso é uma runa de amplificação...? — Rook perguntou, agora com um claro tom de preocupação em sua voz.

— Uhum... — Demorou para responder, e quando respondeu, sua voz saiu falha.

— Garoto, a quanto tempo está mantendo essa runa ativa?

— ...Duas.... Horas... — Falava com esforço.

— Lyon, desative isso agora. — Rook ergueu a voz, irritado e preocupado, as rugas no rosto dele haviam ficado mais escuras.

Lyon fez um forte "não" com a cabeça.

Rook se irritou e bateu seu cajado no chão, fazendo feixes de energia azul irem até a runa branca e interceptarem o sinal mágico. Sabia que aquele tipo de interceptação de magia poderia matar uma pessoa, mas como arquimago, sabia que um Arisen não morreria com uma simples descarga mágica. Os feixes se amarraram na runa no chão e a arrancaram, fazendo-a desaparecer. Nesse exato momento, vários raios eletrocutaram o corpo de Arya, ela abriu os olhos, urrando de dor, quando os raios pararam, o corpo dela caiu no chão, inerte.

— VOCÊ É LOUCO, VELHO?! — Lyon levantou-se, sendo tomado pela fúria. — QUER MATÁ-LA?!!

— Você conseguiu se ver, jovem tolo? — Rook respondeu com a mesma grosseria, porém, mais calmo. — Como mago, Arcano, você devia saber que a Sehrli corre em seu corpo como uma energia vital. Você sabe o que acontece quando ela acaba.

— Eu disse que iria ajudá-la a matar o dragão, e vou fazer de tudo para ela ficar mais forte, nem que custe a minha vida.

— Por que está arriscando tanto a sua vida por essa garota? — Advertiu.

— Talvez por que eu seja o guardião dela nessa viagem, né, velho? — Enfatizou.

Rook se irritou, a ponta do seu cajado se iluminou, Lyon sabia o que vinha. Um forte raio branco saiu da ponta do cajado de Rook em direção a Lyon no mesmo momento em que o garoto ergueu um escudo mágico em frente a si, bloqueando o raio.

— VOCÊ É TOLO, DROGA?! — Rook gritou. — VOCÊ SÓ PODERÁ ARRISCAR SUA VIDA POR ELA QUANDO EU ARRISCAR A MINHA!

Foi a vez de Lyon soltar um raio contra Rook, mas ao envés do arquimago criar um escudo, como Lyon fez, ele parou o raio com a mão e o absorveu. Lyon se irritou e lançou mais raios em direção a velho, sem parar, sendo absorvidos inutilmente pelo mago.

— Já está mais calmo... — Rook perguntou, vendo Lyon se por de joelho, cansado. Andou até ele e estendeu sua mão para o arcano. — Vamos, precisamos chegar até Amber.

Lyon bufou e agarrou a mão de Rook que o ajudou a levantar, juntos, colocaram o corpo de Arya na carruagem e seguiram rumo a Turme, a cidade dos paladinos.