Arisen
1 Lagartos também comem corações
Notas iniciais
Sabe, para um dia de semana, a cidade portuária de Cassardis até que estava calma, tudo que se ouvia era alguns mercadores conversando e negociando entre si, crianças brincando, e as ondas pequenas quebrando na praia, deixando um leve som de efervescência ecoando.
Entre as pessoas que passavam toda hora, corria uma menina, não estava acompanhando a brincadeira das crianças de cinco e seis anos, mas corria junto a elas. Esta garota tinha apenas treze anos de idade, sua estatura era adequada para ela. Porém, as crianças da cidade a viam como adulta, que protegiam e cuidavam delas, ela era como se fosse uma mãe que muitas delas nunca tiveram.
A correria se dirigiu para a praia, Arya não os acompanhou, mas ficou observando-os de longe as brincadeiras de criança que ela não teve tempo de brincar na infância. Alguns garotos da idade dela poderiam considerá-la bonita. Ela tinha um rosto infantil, mas um ar responsável. Os traços de seu rosto eram de uma criança, possuía brilhantes e longos cabelos castanhos amarrados num rabo de cavalo, deixando algumas mechas caírem sobre seus olhos. Tinha a pela clara como areia da praia, apesar de viver constantemente ao sol, seus olhos tinham cor de safira, porém mais clara e mais brilhante. Mãos pequenas e frágeis, típicas de uma donzela, apesar do trabalho pesado que a garota fazia ajudando os mercadores em troca de alguma moedas de prata e ouro para o próprio sustento. Arya era órfã. Sentou-se na escadaria que dava para as areias macias da praia e lá ficou, observando as crianças empurrarem umas as outras numa brincadeira infantil.
Realmente era um dia calmo para uma cidade como Cassiardis, cuja estava cheia de mercadores todos os dias, outrora alguns caras do exército apareciam na cidade dando um alerta de que uma criatura alada de grandes proporções foi vista sobrevoando o continente. Arya sempre ficava de ouvidos abertos sobre alguma novidade que corria na cidade, também conseguia obter informações com facilidade, ela tinha uma lábia muito boa.
A garota sabia usar arco e flecha, conhecimentos básicos sobre a arma, mas sabia manuseá-la o bastante para acertar um coco a 30 metros de distância.
A garota fechou os olhos por um segundo, esse segundo foi o suficiente para ela ser surpreendida por alguma coisa que agarrara seu braço, ela abriu os olhos assustada e se deparou com um garoto, tinha cabelos totalmente negros e olhos verdes, parecia ser só um ano mais velho que Arya, os traços de seu rosto eram de um adolescente com um ar de criança e poucas sardas pintavam sua face, seu sorriso era confiante e inspirador. O moreno também sabia manusear uma espada com destreza, conseguiu que alguns dos guardas lhe treinasse. Dizia que fazia isso para proteger alguém especial.
– L-L-L-Lupus...! – A menina travou com o toque dele, as maçãs de seu rosto tomaram um tom vermelho bem forte. – Achei que e-e-estivesse trabalhando na casa do Rook.
– Ele me deu um dia de folga, felizmente. Foram duas semanas de trabalho direto, mas o que importa que é que eu estou com você agora... Né? Ary? – Ele sorriu. O sorriso fez Arya corar ainda mais, se é que isso é possível.
Ela assentiu com a cabeça timidamente, desviando o olhar para as crianças e apoiando o queixo sobre a palma de sua mão, viu que o sol estava se pondo no horizonte. Ela sorriu.
Mas...
Toda história tem tragédias.
Arya começou a ver que uma sombra negra fazia contraste com o sol, e esta vinha avançado mais e mais, cada vez mais rápido, primeiro pareceu só um pássaro pequeno, um segundo depois já era um falcão, a sombra ficou do tamanho de grifos e aí a verdade de revelou.
Na pequena praia, um lagarto alado pousou. Sua chegada foi recebida com gritaria das pessoas ali presentes, as crianças que brincavam a beira da praia correram para trás de Arya.
– Dragão... – Lupus disse para si mesmo. – Dragão. – Disse em voz alta. – DRAGÃO! – Gritou para si e para os demais na praia, avisando sobre o que a criatura se tratava.
Como se estivesse tudo programado, o garoto correu para um ferreiro e pegou a primeira espada que encontrou, alguns achavam loucura o que Lupus estava prestes a fazer, afinal, o dragão tinha mais ou menos cem vezes a altura do garoto. Arya levou as crianças para um local seguro fora da cidade, um galpão abandonado.
A garota voltou correndo para cidade para ajudar Lupus de algum jeito, mesmo que fosse o menor possível, ela se importava com ele.
Lupus desferia golpes contra as patas dianteiras do réptil, golpes inúteis por sinal, o dragão parecia ignorá-lo totalmente, já que seu longo pescoço examinava a cidade. Foi aí que seus olhos se travaram em Arya.
– Arisen... – O dragão parecia falar para si mesmo, porém, sua voz saiu como um projétil sônico que talvez pudesse ser ouvido da próxima cidade, que ficava a 4 quilômetros de Cassardis. Foi aí que o lagarto notou a presença de Lupus o atacando inutilmente.
O dragão pareceu rir, então empurrou Lupus para longe um pouco, e num movimento rápido e sem tempo de reação, perfurou a barriga do garoto com uma de suas garras e rasgou seu corpo em dois. Sem piedade.
Arya viu a cena. Seus olhos ficaram molhados.
Ela já estava na metade da escada quando viu as duas bandas do corpo de Lupus caírem na areia da praia.
– Arisen... – O dragão repetiu.
O rosto da garota se encheu de raiva e rancor. Ignorou os degraus e pulou diretamente para a areia. Antes mesmo que ela pudesse dar um inútil soco no réptil, este fez o mesmo movimento que usou para afastar Lupus. Arya caiu no chão e procurou se afastar. O dragão foi mais rápido. Direcionou a ponta de sua garra para o peito da garota, onde ficava o coração.
– Arisen... – Repetiu a ultima vez.
Então o tórax de Arya explodiu. Seus coração ainda batendo voou para as garras do lagarto. Arya viu seu coração ser comido ainda batendo. Sua visão começou a ficar escura, a vida estava transbordando de seu corpo, se perdendo na areia.
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