Arisen
2 Arisen
Notas iniciais
A brisa da praia entrava levemente pela janela daquele quarto. Este era bem amplo, seu piso era em cerâmica polida, havia uma cômoda sem muita coisa em cima, as paredes eram brancas e eram pontilhadas de quadros dos mais diversos tamanhos. Na cama, coberta por lençóis de seda aparentemente bastante macios, estava uma garota, aparentava ter 12 ou 13 anos de idade, não dava para se dizer muita coisa apenas olhando pelo rosto, pois a menina também tinha um ar adulto.
As pálpebras dela se forçaram a abrir os olhos com dificuldade, revelando pequenas íris cor de safira brilhante. Foram mais alguns minutos de espera para que a garota estivesse completamente acordada. Pôs-se sentada na cama, seu corpo todo ardia, seu peito em especial, parecia que alguma coisa estava queimando intensamente lá dentro, mas era uma dor que se podia aguentar sem gemer ou reclamar. Tentou procurar em sua memória o que tinha acontecido para que ela acordasse daquele jeito. Nada veio a sua memória.
Foi nesse momento em que a maçaneta se torceu e a porta abriu, saindo de lá um homem alto e moreno, com cabelos grisalhos da mesma cor que a barba, esta se estendia até o peito do homem, usava um óculos mal feito, uma das lentes estava quebrada. Pelo jeito que se vestia poderia ser considerado o sacerdote de algum culto ou coisa do gênero. Trazia junto a si uma bandeja com água e trapos que serviam para enfaixar os ferimentos menores da garota, provavelmente.
– A-Arya... – O rosto do homem mudou de preocupação para espanto quando viu a garota sentada na cama. Deixou a bandeja cair no chão e correu até ela. – Ahh! Você está bem, isso é um milagre, poxa, você tinha dormido esse tempo todo! – O tom de voz dele mudava de espanto, depois para preocupação e por fim, alegria, chegando ao ponto de sair gritando pela janela “Ela está viva!”, bem alto, para todos da cidade ouvirem.
– Ah... – Arya hesitou antes de falar. – O que houve?
Por algum motivo a garota não lembrava do que aconteceu, sabia apenas que estava com uma cicatriz enorme em seu tórax, não sabia como aquela marca havia parado ali.
– Arya... Você dormiu por duas semanas inteiras. – Explicou o homem, acalmando os seus ânimos e sentando ao lado dela. – Achamos que você não fosse acordar mais, as crianças da rua vinham todo dia me perguntar como você estava. Me dava uma dor no coração dizer para elas que você ainda estava “dormindo”. Mas agora! HÁ! Você acordou! Você é incrível, enfrentou um dragão com sua própria coragem, e ainda saiu viva, impressionante!
A palavra “dragão” foi como uma adaga afiada atravessando seu crânio e perfurando seu cérebro, já que tal palavra a fez lembrar-se dos acontecimentos que fizeram aparecer tal cicatriz em seu peito. Os novos filetes de memórias mostravam um grande dragão invadindo a cidade, não lembrava nada sobre Lupus e o que o dragão havia feito com ele, lembrava apenas do dragão e do momento que o seu próprio peito havia explodido e tendo seu coração comido pelo réptil. Como ela havia sobrevivido?
Arya sacudiu a cabeça para afastar essas lembranças ruins.
– E o Lupus? – Ela perguntou, inocentemente. – Ele está bem?
A expressão do homem se fechou, olhou para o chão por alguns momentos, tentando procurar uma resposta consoladora.
– Há sim! – Um sorriso falso preencheu a rosto do homem. – Ele está descansando num vale aqui próximo, no final do dia você pode ir vê-lo. A propósito, meu nome é Rook.
Arya sorriu, nunca tinha falado com o patrão de Lupus pessoalmente, principalmente receber cuidados médicos deste. O homem se levantou e arrumou a longa barba.
– Bom... – Ele disse com um falso ânimo na voz. – Vou deixar você sozinha e se trocar, e pode levar sua vida normalmente, mas no final da tarde, venha aqui que juntos nós iremos acordar Lupus, o que acha?
– Certo! Eu realmente espero que ele esteja bem. – Ela disse com um ânimo muito maior do que o ancião, mas logo depois sussurrou para si mesma. – Eu preciso... Falar... Com ele...
Rook saiu do quarto rapidamente, deixando apenas Arya e a brisa da praia preenchendo o quarto.
Ao lado da cama, na mesa de cabeceira, estava uma muda de roupas limpas, as roupas pareciam ser feitas para combate, mas ignorou esse fato e vestiu-as mesmo assim. As roupas caiam muito bem nela, ela mesma corou quando se viu no espelho. Mas foi através deste espelho, que ela pode ver uma coisa que não havia notado, um arco longo junto a uma aljava de flechas, pela quantidade de flechas na aljava, Arya deduziu que esta possuía pouco mais de 100 flechas armazenadas nela. Pegou a arma e a aljava, tinham um peso leve, mesmo com tantas flechas. Diferente dos arqueiros comum, que penduravam as aljavas nas costas, Arya quis botá-las penduradas na cintura, para ela era mais fácil e também deixavam as costas livres para amarrar o arco.
Desceu as escadas e depois de uma refeição rápida, Arya partiu em direção ao centro da cidade, onde ficava a maior parte dos comerciantes.
O infeliz foi que por onde passava, as pessoas a paravam e tentavam puxar conversa de algum jeito. Arya havia se tornado celebridade na vila, e logo a notícia se espalharia pelo resto do continente, aí então finalmente ela seria conhecida como a garota que sobreviveu ao ataque de um dragão. Então foi a vez das crianças abordarem a garota, mas com elas, ela teve paciência para conversar e contar o que aconteceu.
No final da tarde, Rook chamou Arya para o portão da cidade.
– Arya. Boa tarde. – O ancião foi o primeiro a falar, seu rosto estava triste.
– Boa... Tarde. – Ela retribuiu com um sorriso.
Os dois começaram a andar para fora da cidade, seguindo um caminho de terra que subia uma colina, e esta colina se desfazia numa montanha.
– Bom, Arya... – Rook começou a falar, com um ar de tristeza e remorso. – Você se lembra do que aconteceu quando o dragão atacou você e Lupus?
– Bem... Eu me lembro dele ter me protegido, mas o dragão conseguiu atingir ele, não lembro o que aconteceu depois, só sei que o dragão arrancou meu coração... – Ela pensou um pouco. – Aliás, como eu estou viva?
– Vamos deixar o Lupus de lado um pouco, vou explicar o que é mais importante. Arisen. Conhece esse termo? – Rook fez força nas pernas para começar a subir a colina.
– Não, mas o dragão repetiu esse nome três vezes antes de me “matar”...
Sim, foi. Arisen significa “Caçador de dragões”, as lendas dizem que um Arisen são eleitos a cada quinhentos anos, eles são os únicos que podem realmente matar dragões. Dragões mortos por pessoas comuns não morrem, a alma deles vai para outro lugar e se recompõem em um ovo
– Quer dizer que eu posso matar dragões? – Perguntou inocentemente.
– Basicamente, mas mesmo com esse poder, não vai ser fácil matar um dragão. Cada dragão escolhe seu Arisen, quando este é escolhido, o dragão arranca o coração humano dele e o devora, e no lugar, deposita o coração de um dragão.
Arya não sabia como reagir. O coração de um dragão significava que era um híbrido agora?
– Rook... Eu vou ter que passar a matar dragões o resto de minha vida?
– Bom, aí vai depender de você, o Arisen tem coração de dragão, mas não necessariamente deverá levar uma vida de guerras contra tais criaturas.
– Eu não quero lutar... É horrível... Eu uso arco e flecha apenas para me defender e caçar, mas fora isso... Não sei se eu seria capaz de matar alguém. – Arya disse, com um tom de choro na voz, realmente, era uma mudança brusca de mais, de pobre para caçadora de dragões.
Rook e Arya chegaram a uma parte da montanha, cuja mais adiante havia um precipício, desse local, podia-se ver o mar. Na beira do precipício estava fincada uma espada, onde uma fita vermelha longa amarrada ao cabo da espada tremulava calmamente ao vento, um montinho de terra se projetava a frente da espada.
– É um túmulo. – Arya reconheceu e se ajoelhou em frente a ele, não sabendo de quem era.
– Sim. O túmulo de Lupus.
Arya travou em frente ao túmulo, seu olhar trêmulo se elevou para observar melhor a espada. Era a espada dele. A morena trincou os dentes, e entre soluços, começou a chorar. Até que uma hora, ela reuniu forças para falar.
– Q-Quando foi?
– No mesmo dia que você se tornou o novo Arisen. – Do mesmo jeito que Arya havia recebido uma facada no cérebro quando escutou o nome do dragão. Filetes de memória invadiram sua mente, o dragão perfurando a barriga de Lupus e o dividindo em dois.
O choro da garota se tornou mais intenso
Ela pensou em se jogar do penhasco...
Lupus era importante para Arya, todos sabiam que eles tinha uma relação de “mais que amigos” mas não admitiam um para o outro.
Rook se aproximou da garota e ajoelhou-se ao seu lado, revirou suas próprias vestes e encontrou um anel de prata, cuja dentro estava gravado o nome “Arya” com letras cursivas.
– Ele... Lupus... Me disse que iria pedir você para ser a esposa dele, e ele me entregou isso. – Mostrou o anel a garota. – Disse que se ele não tivesse coragem de fazê-lo, pediu para eu contar a você. Presumo que agora seja tarde, mas... Se qualquer jeito, aceite o último presente dele.
Arya estendeu sua mão trêmula para pegar o adereço. Um sorriso bobo surgiu no rosto da garota, ela apertou o anel junto ao peito, entre soluços e risos.
– Rook... Existe alguma coisa que eu... – Limpou uma lágrima. – ... possa fazer para vingar a morte dele?
Rook pensou um pouco, e um sorriso confiante surgiu em seu rosto.
– Mate o dragão. – Ele disse, entre risos.
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