Aria

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Me desculpem pela demora, fiquei muito gripada.

Como o leitor pode perceber, nada além da moça era importante para mim naquele momento. Esta narrativa não existiria sem Mina. Os dias se passavam diferentes para mim do que era para outras pessoas. Era ano de manifestações, o país em crise, a população se levantava, revoltada, vendo os partidos políticos desmoronarem. O barulho surgia às vezes, muito audível em meu quarto no alto, vindo de sacadas geladas, mas eu mal sabia explicar o que era. Quando pessoas começaram a serem presas e as investigações pareciam só aumentar, o povo se indignava, mas eu apenas assistia às notícias; ouvia, mas não escutava. No fundo eu pensava “O que será que ela está fazendo agora?”, “Será que ela está pintando as unhas da mesma cor que eu estou?”.

4.Sonhando com Mina

A casa era inteira vermelha, muito escura e com várias flores enfeitando. A música tocava alta e as pessoas se roçavam, tudo muito dançante, muito delirante. Lanternas no teto, pétalas ao chão e ambas descalças. Ela estava longe e então estava perto, o kimono branco com pequenas flores caído em seu ombro, mostrando muita pele. Eu tentava tocá-la e ela se afastava, no mesmo ritmo que eu, cabelos grudando em nossas testas. No lugar de seus olhos duas flores brancas floresceram, seguidos pela boca, onde surgiu uma rosa escarlate, girassóis no peito e hortênsias no monte de vênus. Aos poucos ela inteira se transformou numa figura feita de flores e espinhos, parando de dançar. Tentei tocar as pétalas da estátua, mas me cortei num espinho, sentindo um frio percorrer da ponta do dedo ao braço e ao peito. Todos pararam e nos encararam, sem expressões.

Passei o resto da madrugada pensando no sonho, observando o céu com poucas estrelas da janela ao lado de minha cama. Não consegui mais pregar os olhos, levantando às seis da manhã completamente desperta. Após café e banho, passei boa parte da manhã apenas olhando o cartão que ela me deu, um cartão azul claro. Seu nome escrito, o endereço da loja e, em especial, seu número de celular.

Bom dia ― Gabriela.”

5.Jantando com Mina

Mina sorria à minha frente, lendo com cuidado as opções do menu. Pedimos um suco de uva enquanto ela se decidia. A semana passou cheia de problemas, com minha avó gripada e a faculdade acumulando ainda mais conteúdos que eu parecia não conseguir vencer nunca, conversar com ela por mensagem no fim do dia era meu momento mais feliz. Ela me falava sobre filmes que queria assistir, sonhos para a loja e brincadeiras que da infância.

“Eu me lembro de uma peruca vitoriana que havia na casa da minha tia. Toda semana usava para brincar de me fantasiar de realeza. O closet da minha tia influenciou muito meu estilo de hoje. ― Mina”

A pizza chegou quentinha e cheirosa e, com a fome que estávamos, passamos um minuto apenas apreciando o sabor antes de retomar a conversa.

“Sua avó melhorou?”

“Sim, ela passou a semana de cama e com febre, mas agora está bem. Foi difícil, já que ela reclamava de tudo que eu cozinhava.”

A conversa corria bem e já estávamos indo para a sobremesa quando uma mulher baixinha e jovem entrou e se dirigiu à nossa mesa. Ela parecia conhecer Mina e estava muito empolgada em tê-la encontrado, ignorando completamente o homem que a acompanhava.

“Querida! Quanto tempo! Finalmente consegui te encontrar depois daquele dia horrível. Mas você parece ótima! Acho que fez um ótimo negócio terminando com ele, você está radiando!”

Meio envergonhada, Mina olhava da mulher para mim, sem saber como responder o bombardeio de comentários.

“Boa noite, Carla. Essa é a Gabriela. Gabi, a Carla é uma antiga amiga e aquele é o noivo dela.”

Eu a cumprimentei, ainda processando o acontecimento. Depois de uma troca de palavras não muito rápida, graças à alegre Carla, o casal foi se sentar em uma mesa um pouco distante.

“Então… O que ela quis dizer com ‘terminando com ele’?”

Mina deu um longo gole antes de levantar o rosto para me encarar. “Eu acabei de sair de um namoro de três anos. Namorava um homem, Diego é o nome dele. Para ser mais exata terminamos há um mês.”