Aria

4 Capítulo 4


Quando paro hoje para lembrar daqueles dias, tenho vergonha em admitir o quanto estava hipnotizada por Mina. Tudo que ela diria eu aceitaria, porque eu aceitaria qualquer coisa vindo dela naquele momento. Seus movimentos, suas palavras, seu olhar, me aprisionavam numa teia sem que eu percebesse, intoxicada pela paixão.

Caminhando com Mina

Mina deu um longo gole antes de levantar o rosto para me encarar. “Eu acabei de sair de um namoro de três anos. Namorava um homem, Diego é o nome dele. Para ser mais exata, terminamos há um mês.”

“Ah”, suspirei, boquiaberta. “Por quanto tempo vocês namoraram?”

“Por três anos.”

Silêncio.

“Não posso dizer que não foi nada demais, afinal foram três anos da minha vida. Mas estou me desintoxicando dele e completamente disposta a algo novo.”

Eu não sabia o que responder, como muitas vezes aconteciam na presença dela, exceto que desta vez eu queria dizer algo e havia um caroço estranho em minha garganta. Eu não tinha como reclamar do passado dela, não tinha nenhum direito de questioná-la sobre isso.

“Se você algum dia quiser compartilhar essa história comigo, estou aqui. Mas não tenho necessidade de saber mais do que você quer que eu saiba.” Eu disse, sem imaginar a relevância que aquele passado teria sobre meu presente. Ela sorriu e terminamos nossa sobremesa.

Um passeio pelas ruas se seguiu, com a iluminação artificial amarelada dando um tom romântico à noite. Nossos saltos batiam levemente no chão e nossas mãos pareceram se encontrar sozinhas. Aos poucos uma garoa fina começou a cair e nos abrigamos sob um toldo até um táxi chamado aparecer, mas decidimos que era melhor cada uma ficar em sua respectiva casa.

Meus sonhos foram poluídos por um homem sem feições, que a tirava de mim, por ser mais velho, por ser melhor para ela, por ser mais certo.

Se preocupando com Mina

Mina terminava de conversar com uma cliente enquanto eu a observava de uma cadeira perto do provador. Ela usava uma blusa de malha clara que acentuava seus cabelos ébano, mas parecia mais cansada, seus círculos sob os olhos pareciam maiores.

“Você tem muito jeito com vendas.” Eu disse me aproximando depois que a cliente saiu, satisfeita. “E parece te fazer feliz isso tudo, esse mundo.”

“Realmente me faz muito feliz. Mas ter você aqui me faz ainda mais. Agora, tem certeza de que não há problema algum em você vir aqui tantos dias depois da faculdade?”

“Claro! Minha vó não se importa que eu chegue um pouco mais tarde, desde que tenha jantar.” Ela apenas sorriu de leve. “Por que está tão cansada assim? Aconteceu alguma coisa?”

Ela pareceu um pouco perturbada, mas se esquivou do assunto e não quis forçá-la. Aproveitamos sua pausa para tomarmos sorvete e a conversa girou em torno da loja e minha faculdade, porém reparei que ela conferia o celular com maior frequência do que o normal e parecia preocupada com algo. Tentei animá-la com a conversa, mas não acho que tenha funcionado.

Nos despedimos e notei que meu peito pesava um pouco, aflito por não entender o problema.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.