Arena Mortal
20 Capítulo 19 - Sentença
Notas iniciais
— Feliz aniversário meu amor! — Sussurrei eu seu ouvido, depertando-a com beijos.
Bella riu manhosa.
— Desculpe, mas não vou te beijar antes de escovar os dentes!
Fiz cócegas nela, enquanto a abraçava apertado.
Como era bom estar ao seu lado, na cama sem preocupações.
Encarei o teto mofado da minha sela, dissipei a ilusão que minha mente criara e me foquei na realidade.
Era 14 de setembro, e eu só sabia disso porque ouvi alguém rindo e falando que tinha um encontro no dia 15, amanhã. Doeu não estar perto, doeu não ter nada a oferecer pra Bella, e não estar presente fisicamente doeu ainda mais, pois era a única coisa que eu tinha pra dar.
O aniversário de Bella havia passado, sem que eu pudesse estar perto, e assim o mês de setembro se passou, parecia que nada mudava. Exceto o fato de eu estar preso.
***
Já havia algumas horas que eu estava depondo, Jasper pedia tudo de mim. Todos os detalhes que eram corroborados com provas documentais, fotos, filmagens, eu não tinha estudos, mas não era burro, de crimes eu entendia.
— Sr. Masen nos fale um pouco como era a relação de Charlie com Bella. — Eu queria socar Jasper por aquela pergunta.
— Tensa. Eu não tenho muita experiência com família, mas o pouco do que vivi e do que vi com Halle me faz pensar que ele não amava Bella. Ele não lhe dava carinho, atenção. Ele quase nunca estava em casa, e quando estavam juntos eram pra formalidades sociais. Até o noivado foi uma forma de jogo político.
— E Bella sabia disso?
— Ela não tinha muita escolha. Ele era agressivo com ela, manipulava sua mente, não a deixava fazer as coisas. Nesses anos todos, Bella só teve uma amiga, apenas uma pessoa conseguiu romper todas as barreiras criadas por Charlie, e as mentais criadas pela própria Bella. — Olhei pra Rose, incapaz de encarar Bella. — Ela não tinha noção dos negócios do pai, tudo era feito pelas costas dela, de forma que ela nunca soube de quão sujos eram os negócios, nem como seu noivado era uma troca de poder. Bella amava o pai.
Uma comoção tomou todos dentro da sala de audiências.
— Repita por favor Sr. Masen. — O magistrado solicitou.
— Bella amava Charlie. Ele era seu pai, bom ou mau, agressivo ou manipulador ele era a única família que ela tinha, seu único elo. E ela amava essa parte, até que aconteceu tudo no galpão e ela enfim compreendeu.
— Ela te odeia por matar ele Sr. Masen? — Novamente uma pergunta do juiz.
Eu poderia mentir, mas não quis. Olhei pra Bella, encarando-a enquanto enfrentava uma das verdades mais difíceis da minha vida.
— Ela não me odeia pela morte de Charlie, porque no fim ela compreende que foi necessário para nossa sobrevivência, mas lá no fundo, eu sei que ela sofre, que dói nela, e que tem uma parte dela que nunca vai me perdoar por isso.
Ouvi o soluço ao mesmo tempo que via as lágrimas caírem.
Eu não menti, não totalmente, apenas os sentimentos de Bella eram em relação a si mesma, era por ter matado o próprio pai, não por mim.
As perguntam continuaram. Houve uma pausa para almoço, fiquei na mesma sala do início da manhã, comi em silêncio e sozinho, Cass Davis nem sequer se deu ao trabalho e vir ver seu cliente.
No retorno sabia que era a última parte do meu depoimento feita pro Jasper, e então viria um dos advogados de defesa dos outros acusados, e eu já sabia o que eles iriam fazer, iriam jogar a culpa pra mim pra livrarem seus clientes.
— Tenho uma última pergunta Sr. Masen. Por que você decidiu delatar?
Engoli em seco pensando em como responder. Eu já tinha minha pena, já sabia quanto tempo ficaria preso, meu papel ali era incriminar outros.
— Eu sabia que o que fazia era errado, mas nunca tive muitas opções além de obedecer ás ordens que vinham de cima, mas eu não gostava, odiava me sentir daquele jeito depois de tirar um vida, ou de ter que lutar, ou entregar drogas e armas. Eu me sentia sujo, indigno, tudo piorou após meu relacionamento com Bella. Eu queria ser bom pra ela, dar pra ela uma vida digna, mas não via como. Por tanto tempo eu tentei ficar longe pra proteger ela, até que ela venceu minhas barreiras e me tomou pra si, e eu quis mudar. Quando vi a oportunidade, agarrei, fiz o acordo pra delatar. Eu queria ser livre, ser um homem melhor, viver uma vida sem medos. Queria aqueles homens ruins atrás das grades, mesmo que eu fosse um deles.
Parei de falar e Jasper agradeceu, se sentando e tomando notas.
— Dr. Jhonson pode se aproximar e começar seu interrogatório.
Então você sabia de tudo? Por que não saiu antes? Porque não mudou antes?
Perguntas como essa foram jogadas em mim. Me incriminando, me culpando, tirando a culpa de seus clientes e colocando sobre meus ombros.
— Dos meus crimes Sr. Jhonson eu sei, eu revelei, eu delatei, não coloque mais culpa pra mim do que a que eu tenho, defende seus clientes como homem sem jogar em outro a culpa deles. Eu não sou bode expiatório Dr., não tenho instrução, mas tenho coragem e admito meus erros, procure outro pra culpar.
Cansado de ser atacado eu falei.
Acho que se não tivesse advogado algum seria melhor que Cass Davis, ele era um idiota que não servia pra nada.
Depois dessa o advogado recuou, e dali poderiam acontecer duas coisas: tirarem conclusões que eu era agressivo e impulsivo, ou acreditarem em mim.
Finalizou-se o primeiro dia, eu estava exausto, e isso era só o começo.
Dia 2.
Dia 3.
Dia 4.
E eu ia todos os dias, ouvia os depoimentos de todos os acusados, das testemunhas, eu estava á disposição da corte para falar a qualquer tempo, sobre o que eles quisessem, ou fazer acareação se necessário fosse.
O depoimento do Liam inexistiu, ele usou o direito de ficar calado.
O da Rose foi mais tranquilo, ela não sabia de nada, apenas algumas coisas estranhas que ela percebeu, e no fim quando ela descobriu tudo.
Então chegou a vez de Bella testemunhar e eu não estava preparado para ouvi-la. Ela não era considerada culpada por nenhum crime, mas ela tinha muito que falar.
Bella jurou dizer a verdade e eu vi seu tremor, bem como seu olhar desfocado.
Ela sentou e Jasper foi o primeiro a falar.
— Olá senhorita Swan, como vai?
— Bem, eu acho. — Jasper sorriu pra ela.
— Senhorita Swan, poderia me contar da sua relação com seu pai?
— Complicada, eu acho. Eu não podia fazer muita coisa, era vigiada, não podia ter muitos amigos, não tinha uma relação normal de carinho.
— E isso a incomodava?
— Claro. Depois de perder minha mãe eu quis manter uma boa relação com Charlie, mas não foi possível, eu queria ter amor e carinho, e fiz tudo pra ter isso.
— Tudo? Até mesmo aceitar um noivo que você não amava?
— Sim. Até mesmo casar com Tyler.
— Senhorita Swan...
Cada pergunta era mais dolorosa que a anterior, cada vez que via Bella sofrer eu sofria junto.
Após Jasper era a vez do Sr. Jhonson questionar. Se eu odiei a forma como ele me questionou, com Bella foi pior.
Minha vontade era saltar daquela cadeira e jogar o idiota contra a parede, mas eu não podia.
— Me explique senhorita Swan, por que nunca delatou seu pai?
— Porque eu não sou obrigada a delatar um membro da minha família¹, existem regras quanto a isso senhor, além disso, não sei se o senhor prestou atenção ao meu depoimento, mas eu disse que era vigiada, que eu vivia rodeada por seguranças, que não podia ter amigos, que cada passo meu era vigiado! Como você presume que eu iria na delegacia contar? Me esclareça senhor. — Seu tom irônico fez o advogado ficar vermelho e eu orgulhoso.
— Você arrumou um jeito de ter um relacionamento escondido com o Sr. Masen. — Ele apontou em minha direção.
— E como o senhor pode perceber não acabou nada bem. Charlie sempre soube de tudo, usou isso contra nós, nos torturou, quase nos matou. Presumo que foi um resultado bom, não acha senhor Jhonson?
Ele se atrapalhou um pouco e eu quis rir. Bella era uma mulher forte. Acho que o único advogado que aceitou o caso não era tão bom afinal.
— Conte me sobre a noite da fuga que deu errado senhorita Swan.
Bella automaticamente ficou pálida, esfregou uma mão na outra e seu olhar desfocou.
— Tudo aconteceu muito rápido. Num instante estávamos no carro, quase atravessando a fronteira que marca o fim de Detroit, quando de repente os carros capotaram, os tiros, e então fomos levados. Edward no porta malas, eu dentro do carro. Bateram nela, em Alice na minha frente, quebraram seu pé enquanto eu assistia. Era um aviso. — Bella parou e olhou pra frente. — A surra, foi algo fora do comum, Charlie estava enlouquecido. Fora de si. Então trouxeram Edward. Eu pedi, eu implorei pra parar, mas não parou, piorou. Choques, água, sufocar.
Ela me olhou enquanto as lágrimas escorriam.
— Eu não sei como ele aguentou. Porque eu sei que em algum momento eu desmaiei e eu não passei por metade do que Edward passou. Não sei como, mas Edward conseguiu se soltar, e me deu tempo pra correr, tudo ficou um caos, quando menos percebi todos estavam mortos, antes que eu tivesse tempo de correr e sair de lá.
— Quantos disparam foram?
— Como?
— Quantos disparam tiveram senhorita Swan? Existe uma leve suspeita de que a senhorita teria atirado em seu pai, os dados.
— Objeção Excelência. Isabella está aqui como testemunha, fora inocentada de qualquer suspeita durante as investigações.
— Objeção aceita!
Ainda sim Bella não desistiu.
— Você quer mesmo que eu me lembre quantos disparos tiveram? Eu estava em estado de choque, machucada, física e psicologicamente ferida e você quer detalhes senhor Jhonson? Tortura meche com a mente da gente, tenta passar por tudo que passei e se lembrar de detalhes. Então a resposta é não senhor Jhonson, eu não me recordo quantos disparam foram, mas eu sei que ou era a minha vida, ou a vida deles e Edward escolheu minha vida, mesmo sabendo das repercussões que isso traria pra vida dele.
Ela era incrível. Eu nunca cansaria de me surpreender com a garra que Bella tinha pra me defender.
Um pouco depois disso o depoimento foi finalizado, Bella foi dispensada e Alice foi chamada.
Eu não via ela desde a noite da fuga.
Seu olhar profundo encontrou o meu. Um aceno de reconhecimento.
O depoimento dela era mais doloroso devido as suas experiências pessoais, mas Jasper era sensível. Emmmett tinha razão, havia algo entre eles. Seu olhar pra ela era de cautela e de cuidado.
— Senhorita Alice, como vai?
— Louca pra esse pesadelo enfim acabar.
Ele sorriu pra resposta dela.
— Há quanto tempo você se encontrava morando com a família Swan?
— Não me recordo mais, mas há muitos anos.
— Você estava lá quando Renée morreu?
— Não. Cheguei alguns anos depois.
— Como era a relação de Bella com o pai?
— Distante. Ele não tinha carinho por ela, tratava-a como um objeto.
— Como você foi parar com os Swan?
— Eu nasci no interior de Michigan, meu pai era um viciado, em bebida, em jogos, e ele ficou devendo muito dinheiro, um dinheiro que ele não tinha. Minha mãe largou dele, mas ele não deixou que ela me levasse, eu era a única coisa que ele tinha, mas não foi por amor. Eu era a última coisa que ele tinha pra vender.
— Você foi vendida?
O horror na voz de Jasper me disse que ele não sabia desse detalhe. Seu olhar era de pura compaixão.
— Fui. Charlie Swan, o homem a quem meu pai devia me comprou. Perdoou a dívida e me pegou como pagamento.
— E seu pai?
— Nunca mais o vi. Soube que morreu.
Alice estava sofrendo ao contar aquilo, as pessoas veriam como frieza, eu via a proteção que ela criou ao redor de si mesma.
— E o que você fazia para Charlie Swan?
Essa, era uma pergunta que ela não queria responder. Ela baixou os olhos, torceu as mãos, olhou pro teto.
— Tudo que uma garota precisa pra sobreviver.
— Seja mais específica senhorita. — O juiz solicitou e Jasper o fuzilou com o olhar.
— Fazia a entrega de mensagens, sexo, atendia o telefone, marcava reuniões, fui seus olhos e ouvidos algumas vezes.
— Com sexo a senhorita quer dizer prostituição?
— Levando em consideração que eu não recebia por isso, não sei se é considerado prostituição. Era sobrevivência, ou tinha sexo com ele e com os outros ou não sobreviveria.
Alice não encarava ninguém na sala. Vergonha. Ela sentia vergonha de si mesmo, de suas atitudes, mas fora apenas pra sobrevivência.
Jasper deixou passar, não sei ele saberia lidar com os detalhes, acho que nem ele sabia, mas o Sr. Jhonson dissecaria isso e muito mais.
— Senhorita Alice, você gostava?
— De quê? — Ela perguntou ao advogado intrigada.
— Da vida que levava. Do sexo. — Ele deu de ombros.
Alice estava chocada.
— Excelência! Eu protesto! — Jasper levantou extremamente nervoso.
— Senhor Jhonson se retrate. — O juiz determinou.
— Não. Espere. Eu vou responder.
Os olhos de Alice estava cheios de lágrimas, mas sua voz estava firme, seu olhar assombrado com as lembranças.
— Tente Sr. Jhonson ter uma arma apontada pra sua cabeça enquanto um homem tira sua roupa e te obrigada a fazer sexo oral nele, tente imaginar a cena, eu era muito nova na época, em como me senti, o medo, o terror, o pavor e o nojo de mim mesma. Tente imaginar quantas vezes fui obrigada a isso sem poder gritar ou pra quem recorrer. Pense se eu gostava senhor Jhonson de ver minha vida ter se transformado naquilo, num objeto sem valor. Eu fui obrigada, encarcerada, eu tentei fugir, mas a cada vez que era recapturada era pior, então eu desisti. Pensei em morrer mais vezes do pode imaginar Dr, mas sobrevivi a cada uma das malditas coisas que me aconteceram. Se fui conivente com algo foi por falta de escolha, e na primeira oportunidade que tive, que foi com o infiltrado do FBI eu falei porque queria me ver livre daquele lugar. Eu odiava cada segundo segundo!
Era a primeira vez que eu via Alice falar abertamente sobre o que havia ocorrido com ela. Eu tinha uma vaga noção, mas ouvir, fez a bile subir pelo meu estômago.
Todos ao redor estavam penalizados, Jasper estava destruído. Por mais que ele fosse promotor, e por mais que ele tenha visto muita coisa, ele se abalou, o que confirmava minha suspeita.
— Sr. Jhonson por favor se aproxime. — O juiz exigiu.
Ele disse algo sério, que mais ninguém ouviu, mas o advogado voltou com uma cara de poucos amigos.
As próximas perguntas se focaram nos fatos, as provas que ela apresentou no acordo de delação.
O depoimento de Emmett e do FBI foi mais técnico, contando os detalhes da infiltração e os acordos, bem como todos os desdobramentos até chegar o momento de prender todos e o plano que deu errado.
Henry e Tyler se mantiveram em silêncio em seus depoimentos. Alguns dias depois, encerrou se os depoimentos e passou para as alegações finais feitas pelo promotor e pelos advogados.
Jasper brilhou. Ele tinha um caso perfeito, onde derrubou uma quadrilha enorme e perigosa. Os advogados de defesa somente enrolaram, tentaram atacar as pessoas e testemunhas como fizeram durante todo o julgamento, sem nenhum argumento bom o bastante para soltá-los ou sequer pra diminuir a pena.
Enfim havia chegado a hora da sentença, ainda que soubesse a minha me senti inquieto.
Permaneci em silêncio e de cabeça baixa enquanto era lida.
— Edward Masen, condenado a 10 anos de prisão inicialmente a ser cumprido em regime fechado² pelo acordo de delação.
Meu coração parou e voltou a bater. 10 anos. Em 10 anos eu teria 35 anos. Será que Bella me esperaria? Como seria a vida então?
Continuei de cabeça baixa.
A maioria pegou prisão perpétua, Liam, Henry que foi deposto do seu cargo como Senador, Tyler pegou 20 anos, e outros variaram de acordo com seus crimes. Se tivesse pena de morte aqui, muitos de nós iriam para a cadeira elétrica.
Fui escoltado para a mesma salinha que eu ia todos os dias para comer. Entraram Emmett e Jasper.
— Acabou. — Eu disse enquanto os observava.
Jasper apesar de ter mantido o controle lá dentro, aqui se descontrolou.
— Você sabia sobre Alice.
— Não da forma como está pensando.
Ele me deu um soco.
— Porra isso dói! — Reclamei levando as mãos algemadas ao rosto.
— Você sabia e não fez nada! Você tocou nela?
— Enlouqueceu! Não! Nunca toquei nela. Isso acontecia antes dela ir morar na casa dos Swan. Não era como se alguém pudesse se meter Jasper, isso acontecia muito. É fodido e complicado. Mas depois que eu a conheci, eu tentei protege-la, mas naquela época, quando tudo começou eu também era só um garoto.
Emmett que segurava Jasper o soltou.
— Eu. Ela. Sofreu.
Ele engasgava pra falar.
— Sim. Ela sofreu, mas Alice é forte, mais forte que qualquer um que já conheci. Ela superou essa fase, agora precisa começar uma nova. — Massageando o local que ele me acertou continuei. — Acho que ao invés de estar aqui me batendo devia estar lá amparando ela.
— Ela não me quer. — Ele se sentou de qualquer jeito na cadeira. — Eu tentei flertar e tudo, e ela nem me deu moral.
Era cômico que eu passaria dez da minha vida na cadeia e estava ali dando conselhos amorosos.
— Tenha mais fé Jasper, faça ela perceber que vale a pena. E tenha paciência, ela passou por coisa demais, vai demorar pra ela confiar em você. Demorou pra ela confiar em mim, pra ser minha amiga.
— Certo. Acho que vou atrás dela. – Ele deu uma pausa. – Edward?
Encarei o loiro de olhos azuis.
— Obrigada. Se tiver algo que eu possa fazer pro você.
Não tinha.
— Vá atrás dela cara.
Emmett tomou o lugar de Jasper se sentando.
— Você anda bons em conselhos amorosos, que tal uma ajudinha pro seu camarada aqui?
Sorri pro moreno na minha frente.
— Rose é mais difícil, ela perdeu a confiança em você, Jasper só precisa conquistar, você precisa reconquistar.
Ele gemeu frustrado.
— Ok. Conselho nenhum pra mim. Você parece calmo. — Ele analisou.
— Não tem o que fazer Emmett. Hoje é o primeiro dia, pra depois eu realmente poder viver o resto dos meus dias.
Ele concordou.
— Eles bloquearam os bens dela. Terá uma investigação minuciosa pra determinar o que é de verdade das empresas e o que é do tráfico.
Fiquei surpreendido. Ela tinha ficado sem nada.
— Carlisle está cuidando de tudo. Pagando um bom advogado, mas isso pode demorar um pouco, até que ela possa movimentar o dinheiro e administrar as empresas, que pra dizer a verdade não estão muito bem no mercado. Mas a família de Rose está lá por ela.
— Imagino que não estão bem mesmo. Ela vai ficar bem, Bella também é mais forte do que a gente imagina, ela provou isso hoje no depoimento.
— Aquele idiota bem que mereceu, de todos os advogados escolheram um dos piores.
— Vim me despedir. O julgamento é o ponto final para o caso. Vamos arquivar a papelada e me preparar para o próximo.
O sentimento de tristeza e alegria me tomaram.
— Obrigada cara. Boa sorte na sua próxima missão.
— Valeu. Se cuida lá dentro. É perigoso.
Ele me deu um meio abraço e saiu. Fui levado para a nova prisão, onde tudo era mais frio, mais escuro, mais sinistro. Os presos mais perigosos, a vida se tornou mais sombria.
Eu quase não saia da minha cela, cumpria com o que me era determinado, não falava, apenas obedecia e os dias iam passando lentamente, um de cada vez, sem nada mudar.
***
Uma semana depois do julgamento recebi minha primeira visita.
Alice sentou do outro lado da mesa.
— Deus, você está péssimo!
— Tenho sorte de estar vivo.
Ela suspirou.
— Nem vou perguntar se você está bem, porque pela sua cara presumo que está ótimo.
— São como férias de verão. — Sorri e senti o lábio doer.
Ainda estava inchado, e provavelmente deveria estar muito roxo.
— Dez anos é muita coisa.
— Era melhor que perpétua Alice.
— Eu sei.
— Como você está? — Perguntei.
— Tentando recomeçar. Estou fazendo alguns cursos sobre beleza você acredita?! A família de Rosalie tem me ajudado.
Eu sorri animado, mesmo com a dor.
— Estou feliz que esteja recomeçando. E Jasper?
— Ele não some, ele continua aparecendo, e estando presente. É estranho.
— Por que é estranho?
— Porque sou eu Edward! E ele é um promotor.
— Um promotor que gosta de você, que sabe do seu passado mais sombrio e não se importa.
— E isso é estranho!
— Não, não é.
— Pare de pensar e aceite! — Resmunguei.
— As coisas mudaram.
— Demais.
— Tenho pensado em me mudar. Todos aqui me olham estranho, é difícil. Sei que em outros lugares pode ser que me reconheçam, mas aqui tem lembranças demais.
— Pra onde você vai?
— Ainda não sei. Nova York talvez? — Ela deu de ombros.
— Veio se despedir? — Perguntei melancólico.
— Ainda não. Hoje apenas vim ver um amigo.
Se eu fosse Alice eu também mudaria daqui, talvez quando eu saísse.
Ela se despediu e se foi. Eu fiquei contente. Ela estava se refazendo, Alice merecia.
***
Duas semanas depois do fim do julgamento apareceram dizendo que eu tinha visitas.
Entrei na pequena sala restrita e vi Bella, com as bochechas vermelhas e quê de desconforto em seu olhar.
Corri a seu encontro e a abracei apertado. Beijei seu rosto, senti seu cheiro.
— Que saudade de você amor! Parece que o mundo sem você não faz sentido.
Bella riu e me abraçou de volta.
— Você está bem? — Perguntei apreensivo.
— Sim, só, deixa.
— Me conta Bella. Você pode me contar tudo.
— É estranho, estar aqui, a revista.
Meu coração doeu. A revista íntima deveria ter sido horrível.
— Você não devia ter que passar por isso Bella! Não precisa aliás. Não quero que passe por isso.
— Eu quero te ver Edward, se tiver que enfrentar isso pra ter ver eu vou.
Eu só não sabia até quando ela ia aguentar isso, e eu era um bastardo filho da puta e egoísta então aceitei mais uma vez tudo que ela tinha pra me oferecer.
Bella puxou meu rosto e me beijou com força, com saudade, com dor. Toda a dor.
— Me ame Edward, me faça esquecer. — Ela lamuriou em meus braços.
Não tínhamos muito tempo, não tínhamos espaço, apenas um pequeno catre. Eu odiei aquilo, mas dei o que ela queria, amei Bella, dando a conexão que ela precisava. Não era sexo, não era tesão, era se aquecer por dentro. Era poder sentir que ainda sente algo.
Ela estava quebrada por ter matado o pai, e queria que eu a tocasse o mais intimamente possível.
Depois do sexo nos vestimos, deitamos abraçados e conversamos, Bella chorou, enfim se abriu comigo, falou do medo, da dor, da culpa por ter atirado, da culpa por eu ter assumido a culpa.
— Quando você volta pra faculdade? — Perguntei acariciando seus braços.
— Eu não sei. Não sei se eu volto.
Pulei da cama e a encarei.
— Como assim?
— Eu não sei se quero voltar.
— Você vai voltar. Eu sei o quanto isso é fodido, acredite em mim, eu sei, mas eu não consigo permitir que você perca sua vida dessa maneira. Eu não quero ser culpado por você acabar com sua vida.
— Você não está acabando com minha vida!
— Olha pra você Bella! Porra! Você ta dentro de uma penitenciária de segurança máxima, eu vou ficar aqui dez anos e não estou acabando com sua vida? A única coisa que me mantém são é saber que você está bem, que você está livre, que vai acabar a faculdade e ir pro médicos sem fronteiras. Que vai viver!
— As coisas mudaram Edward.
— Isso não. Ou vai me dizer que não quer mais ser médica?
— Eu quero! Só estou com medo, as coisas lá fora estão complicadas.
— Eu sei! Mas não tema! Seja forte, mais uma vez amor. Falta tão pouco!
Bateram na porta informando que o tempo havia acabado.
Nossa primeira visita acabou assim, com Bella indo embora e eu sem respostas. Fui pra minha cela, que já não estava vazia.
— Olá Tiger. Ouvi dizer que você é um passarinho que canta.
O primeiro soco veio, depois outro, outro e mais outro, até que perdi as contas.
Fiquei jogado no chão frio da cela, pensando quanto tempo levaria até que eles me matassem, e se Bella sobreviveria a mais essa perca.
Fale com o autor