Arctan Saga
2 Vila Tsuyoshi.
Os três pequeninos corriam pelas casas da enorme vila, se desviando das pessoas que andavam pela rua com seus afazeres, porém as três crianças se preocupavam com apenas uma coisa: Se divertir! Claro! O que mais uma criança pensaria em fazer?! De fato, era isso o que mais preocupava os três jovens.
Yasmin Tsuyoshi, filha do chefe da vila. A princesa primogênita da linhagem mais nobre dentre eles. Com seus cabelos lisos e extremamente brancos, uma franja chanel e duas mexas perfeitamente simétricas uma ao lado da outra em seu rosto. Seu irmão caçula, dois anos mais jovem, Roy; e sua melhor amiga, com quem mais passava tempo, Marly. Neste ponto, Yasmin possuía seus sete anos.
— Ei, Yasmin! — Disse a pequena garota com cabelos ondulados.
— O que é?
— Duvido você acertar aquele galho com essa pedra!
O galho em questão era fino, alto, e ficava localizado em uma das muitas arvores espalhadas pela vila. Porém, está arvore em questão, estava em um local um pouco elevado, suas raízes estavam cravadas nas paredes de uma montanha. Yasmin olhou insegura para sua amiga, e meio desconfiada, mas logo agarrou a pedra com ânimo. Ela levantou seu braço e se preparou para o arremesso.
— Espera! — Gritou a garota. — Tem condições para isso!
— E quais são?
— Você tem que desviar a pedra!
— Que?
— Digo... fazer ela bater em alguma coisa antes!
— Ah...
Yasmin abaixou o braço e começou a olhar em volta, analisando a situação cautelosamente, como sempre fazia.
— Vinte metros... impossível. — Ela solta a pedra.
— Hein? Já desistiu?
— Minha força não é o suficiente para isso.
— Sabia, sua fraca! Aposto que seu pai conseguiria!
— Meu pai derrubaria a montanha se tentasse. — Gritou o irmão mais novo de Yasmin.
— Ele provavelmente o faria... — Constatou Yasmin com um meio sorriso.
O jovem Roy, animado e com um sorriso sapeca no rosto, agarrou a pedra que Yasmin soltara e começou a analisar a distância.
— Não faça isso, Roy, sua mira é uma droga! — Disse a irmã tentando ser a voz da razão.
— Sei o que estou fazendo!
— Vai acertar uma janela!
— Não vou não!
— Sua irmã tem razão! Se ela foi esperta o suficiente para entender a situação, quem é você para questioná-la?
O garoto olha desconfiado para Marly, tentando entender a ofensa.
— Você me chamou de burro ou é impressão minha?
— Foi impressão! Não se coloque na posição dos burros! Pobres coitados!
— Ei! Ei! Vocês dois, parem com isso. — Yasmin, com um sorriso, tentava acalmar os dois, que a esse ponto se encaravam com fúria.
Roy se vira novamente para a arvore e estica seu braço para trás. A pedra começou a brilhar, sendo imbuída de magia.
— Vou te mostrar! — Ele abriu um enorme sorriso e atirou a pedra em direção a uma parede próxima, a pedra ricocheteou e acertou um carrinho nas proximidades, soltando sua roda esquerda.
— Eu avisei! — Diz Yasmin dando um cascudo em seu irmão.
— Calcule melhor da próxima vez, Roy! — Marly fazia uma voz de deboche e falava pausadamente.
— Calada! Aposto que não conseguiria também!
— Ei, vocês ai! Crianças! — Assim que escutaram isso, a espinha deles arrepiaram.
— Sujou! Corre!
As três crianças começaram a correr na direção oposta ao chamado.
— Esperem ai! Vão ter que pagar por isso!
Antes que eles pudessem virar a esquina, alguém se colocou na frente, fazendo com que Roy colidisse e caísse no chão com o impacto.
— O que pensam que estão fazendo, crianças? — Era uma voz feminina, com um tom severo e embravecido.
— Mãe... — Roy, no chão, olhava com espanto para o rosto da mulher parada a sua frente.
A mulher tinha cerca de um metro e oitenta, longos cabelos que estavam presos por uma presilha com o formato de uma águia, vestia um longo vestido branco, e parecia muito — mas muito mesmo — brava.
— Yasmin, o que pensa que está fazendo aqui?
— Mamãe... eu...
— Você sabe muito bem que deveria estar estudando!
— Mas, não está na hora da aula...
— Me refiro aos estudos reais!
Yasmin era a primogênita do clã. Ela era a princesa do clã, filha do mais poderoso homem dentre os Tsuyoshi. Naturalmente, seu sangue não negava isso.
— Sabe que um dia irá suceder o trono real. Tem que arcar com suas responsabilidades como princesa! Ao invés disso fica vagabundeando pelas ruas da cidade com seu irmão, que por sinal deveria tomar conta de você!
— Mas eu não quero ser rainha!
— Sabe que não depende de você!
— Droga...
— Yasmin... — A mulher se abaixa e olha nos olhos da garota, que desviava a cabeça para baixo, com o rosto emburrado, mas ainda olhando nos olhos de sua mãe — Você é uma pessoa privilegiada, você é a filha do rei Tsuyoshi, sabe o quão grande é a sua posição?
— Mas eu não quero isso...
Nesse meio tempo, um homem se aproximou deles, fadigado.
— Ei! Vocês... Crianças...! — Sua respiração era pesada e ritmada.
Assim que o homem recuperou o folego, ele viu a rainha e, mais que rápido, se curvou perante ela.
— Minha Senhora!
— Por favor, não precisa dessa formalidade.
— Essas crianças quebraram minha carroça! — Ele gritava com fúria, mas ainda demonstrando certo respeito.
Os três hesitam.
— Eles o que? Yasmin! Roy! — A rainha gritava em um tom muito mais severo do que antes.
— Foi um acidente! — Disse Roy tentando se desculpar.
— Vocês três estão querendo arrumar confusão?!
— Ah... A gente ainda é criança... — Disse Yasmin com a voz baixa. — Esse tipo de coisa deveria ser normal...
— Claro, deveria desconsiderar isso. — Disse a rainha com naturalidade. — Da mesma forma que deveria desconsiderar o fato de você com os seus sete anos ser um dos melhores espadachins do clã. Ou o fato de que com sete anos já criou duas magias!
Marly se aproxima de Yasmin e cochicha algo em seu ouvido.
— Ela te pegou nessa...
A rainha olha com repreensão para Marly, que se afasta rapidamente de Yasmin com um sorriso.
— Pelo menos se lembra que dia é hoje, Yasmin?
— Hoje?
— Não se lembra? Você não tem jeito mesmo, não é?
— Ah! — Os olhos da garota brilharam levemente, enquanto ela se lembrava da ocasião.
— Bem, vá até o palácio e se vista adequadamente, os membros do conselho devem chegar a qualquer momento.
— Ei, Yasmin... — Marly se inclinou levemente, curiosa, perguntando a sua amiga — Do que ela está falando?
— Hoje é o dia do registro da minha nova magia! O conselho magico de Arctan vai vir aqui para registrá-la no livro selado!
— Quer dizer o livro de Meruwlly?!
— Sim!
— Tudo bem, vocês três, coloquem essas pernas para funcionar, agora! — Disse a rainha com a voz mais amena. — Enquanto isso, meu senhor, essas moedas devem cobrir o prejuízo.
— Isso... isso é mais do que o suficiente, minha rainha...
— Pode ficar, não me importo.
Após isso, Yasmin foi com seu irmão até o palácio real dos Tsuyoshis, uma enorme construção localizada no extremo norte da vila. A vila Tsuyoshi ficava localizada entre uma cadeia de montanhas, no extremo noroeste do país do vento. Sua localização era bem favorável, já que ela possuía diversas proteções naturais, tanto contra monstros quanto aos seres humanos, e esse é mais um dos motivos pelos Tsuyoshis terem tanta influência dentro de Arctan. O palácio em si era uma construção refinada, com um estilo oriental. Seu jardim era rico nas mais diversas arvores, e também possuía um pequeno riacho artificial que corria por ele.
Yasmin vestiu-se adequadamente para a cerimônia, uma blusa leve, branca, uma calça jeans e sapatos leves. Ela já havia criado duas magias, mas essa era a primeira vez que ela iria presenciar a cerimônia de registro de uma, sendo ela mesma a anfitriã.
Enquanto isso, nos enormes portões Tsuyoshis, a pequena caravana se aproximava. Uma única carruagem, guiada por dois cavalos que pareciam bem fortes, andava por entre o único caminho para a vila; uma enorme depressão que seguia até os portões da vila. Dentro desta, três homens. O primeiro, sentado logo próximo a porta, tinha uma roupa esverdeada e usava um gorro redondo. Ele tinha cabelos castanhos e olhos escuros, e parecia encantado com a visão.
— É mesmo uma oportunidade única, não é verdade? Qual foi a última vez que os Tsuyoshis deixaram pessoas de fora entrarem em sua vila?
— Esse lugar é muito frio! — Dizia o segundo homem, abraçando a si mesmo, na tentativa de se esquentar. Esse tinha uma roupa de frio completa, escura. Também tinha cabelos e olhos escuros. — Espero acabar isso logo.
— Seja um pouco mais animado, Gangar — O terceiro era loiro, e tinha uma roupa azulada com detalhes em amarelo, parecia um tipo de uniforme.
— Animado você diz... você fica quase vinte quatro horas com esse uniforme, Visque.
— Você sempre reclama, não importa para onde vamos! Veja o exemplo de Lien, ele está maravilhado com a oportunidade de visitar a vila dos Tsuyoshi. Você sabe o quanto eles são reclusos.
— Verdade, mas não muda o fato desse lugar ser frio!
— A maior parte dos Tsuyoshi são manipuladores do vento. — Comenta Lien. — Ouvi dizer que eles têm uma resistência anormal ao frio, e podem até mesmo aguentar temperaturas mais elevadas também.
— Já viram algum Tsuyoshi antes? — Visque tinha um sorriso curioso no rosto
Os dois balançam a cabeça de forma negativa.
— Eu já vi um uma vez. Ele era um diplomata do clã. Acho que só assim para saírem da vila.
— É verdade que os cabelos são totalmente brancos?
— Sim. E sua íris tem a coloração roxa.
— Impressionante, e pensar que existem pessoas assim...
— Ei, ficaram sabendo? Parece que o responsável pela nossa estadia aqui é uma garotinha.
— O que? Uma criança?
— Sim! E parece que ela é filha do líder do clã.
— Isso é algo interessante de se destacar...
— Verdade. Oh, parece que estamos chegando.
Os portões eram gigantescos, tinham mais de trinta metros de altura, e eram feitos de pedra. A sua pintura era velha e desgastada, com cores que antes poderiam ter sido bem mais vivas; tons de amarelo e azul com partes roxas se misturavam ao acinzentado das rochas. Ele era guardado por dois Tsuyoshis do lado de fora, que vestiam meia armadura e portavam consigo espadas comuns. Acima dos portões, nas laterais, pequenas torres de vigia, que possuíam dois Tsuyoshis cada uma.
Um dos Tsuyoshis se aproximou da carroça e dirigiu-se ao motorista.
— Documentação.
Os três que estavam na parte de dentro da carroça pareciam sérios.
— Ouvi dizer que eles são muito carrancudos com pessoal de fora da vila. — Constatou Lien
— Ouvi isso também. Parece que eles são bastante reclusos mesmo. — Disse Visque, enquanto tentava olhar para o lado de fora.
— Bem, parece estar tudo certo. — Abrindo um enorme sorriso o guarda diz. — Sejam bem-vindos a vila Tsuyoshi! Por favor, entrem!
Visque parecia surpreso com a atitude.
— Ora, parece que não é tão carrancudo assim.
Um dos guardas subiu na direção da carroça, a fim de conduzi-la até o local marcado.
Logo quando a carroça entrou na vila, algumas pessoas pararam seus afazeres para olhá-la passar; algumas pareciam confusas, outras curiosas. Tinham aqueles que evitavam contato com os homens da carroça, outros tentavam se posicionar de uma forma que desse para ver melhor eles passando.
Depois de alguns minutos, eles chegaram até o palácio. Logo que desceram, duas mulheres de vestido branco do clã os cumprimentaram, se curvando levemente, e os conduziram para dentro do palácio. O salão principal era gigantesco, duas fileiras enormes de pilares que sustentavam a fundação, com marcas e símbolos cravados neles. Um enorme tapete verde com bordas avermelhadas que ia da entrada até os tronos, estes que permaneciam vazios.
— Esperem um minuto, por favor, sua majestade já vai chegar.
— Tudo bem.
As mulheres se afastam um pouco, deixando-os mais à vontade.
— Ah, que vila bonita. — Comenta Gangar. — Que tipo de pessoa deve ser sua majestade?
— Ora, olha quem fala, o cara que estava reclamando do frio agora pouco!
— Ei, me dá um tempo, Visque! Eu sou um manipulador das chamas! É normal eu sentir frio!
— Verdade. Mas quem se importa com você...
— Ei...
— Mas sua pergunta foi pertinente. Também estou curioso para conhecer sua majestade.
— Sei que é chamada de vila, mas essa coisa tá mais pra cidade... Esse lugar é gigantesco.
Depois de alguns minutos, eles ouvem uma voz forte e firme vinda da parte de dentro do palácio, de onde os tronos estavam.
— Sejam bem-vindos, senhores.
Os três ficaram admirados com a figura que se dirigia a eles. O homem era gigantesco, cerca de dois metros e meio, ele tinha músculos enormes, e parecia muito forte. Era definitivamente o rei Tsuyoshi.
— Vossa majestade. — Disse Visque, enquanto se curvava perante o rei, seus companheiros faziam o mesmo.
— Podem se levantar.
— Sou Visque, membro do conselho magico de Arctan. Esses são meus companheiros, Lien e Gangar.
O rei fez um leve gesto com a cabeça.
— Obrigado por virem, fiquem à vontade. Mas evitem o contato com o povo da vila. A menos que seja estritamente necessário.
— Claro, não se preocupe. Nosso objetivo aqui não é prejudicar a cultura.
— Bom ouvir isso. Minhas servas vão levá-los até o quarto de hospedes. Quanto a cerimônia...
— Creio que deve estar tudo pronto dentro de duas horas, senhor.
— Ótimo.
— Ah, majestade, se me permite...
— Sim?
— É nossa tradição realizar uma pequena apresentação pública. Nós do conselho mágico incentivamos o povo de Arctan a criar e aperfeiçoa a magia. Por isso, nós gostaríamos de lhe pedir esse espaço.
O rei ficou pensativo por um instante.
— Que tipo de apresentação seria?
— Apenas algumas magias. Não se preocupe, nós nunca fazemos nada que prejudique os anfitriões.
— Entendo... tudo bem... contanto que seja rápido. A cerimônia também é aberta ao público?
— Isso fica a critério do senhor.
— Nesse caso, realizaremos no estádio, podem aproveitar para realizarem sua apresentação lá. Estejam prontos daqui a duas horas.
— Sim.
Após isso, eles foram levados até o quarto de hospedes.
Enquanto isso, Yasmin se concentrava em seu quarto, em posição de meditação. O quarto era grande, digno de uma princesa. Mas não tinha muitos móveis. Ela ouve alguém batendo na porta e abre os olhos levemente.
— Entre.
Era o rei, ele olhou com orgulho para a filha, enquanto se aproximava dela.
— O conselho já chegou.
— Sim...
— Eu estou orgulhoso de você, Yasmin. Quero que faça seu melhor hoje na cerimônia.
— Prometo me esforçar.
— Falando nisso... eu não tive a oportunidade de ver a sua segunda magia.
Ela deu um leve sorriso.
— Terá de esperar, como todos.
O rei sorriu levemente, e se virou. Após ele sair, Yasmin fica com o rosto sério e pensativo.
— Essa voz... De novo...
...
O estádio da vila Tsuyoshi era um lugar enorme. Com espaço para cento e cinquenta mil pessoas e uma enorme área onde eram realizados os eventos, esse era o principal local de apresentações e entretenimento do povo Tsuyoshi. Após as duas horas, mais da metade da vila se reuniu no local. Tinham cerca de oitenta mil pessoas ali.
Os três homens estavam mexendo em um equipamento no centro da arena, era algo parecido com uma câmera.
— Os reguladores estão na posição correta, Gangar?
— Sim, mas acho que está faltando uma pedra de Antonita...
— Não, eu trouxe uma a mais comigo.
— Ah, sorte a nossa! Ei, Lien, sabe se vamos precisar de alvos?
— Provavelmente, já que ouvi que a habilidade que a garota criou é de ataque.
— Droga, não trouxemos nenhum tipo de alvo...
— Não se preocupe, qualquer coisa a gente usa você! — Ele falou em um tom tão sério que quase pareceu verdade.
— Não brinque com isso!
— Tá tudo bem, as serventes disseram que vão providenciar alguns alvos.
Nesse instante, o rei entra na arena, com sua filha.
— Oh, vejam, é o rei. — Constatou Lien. — E aquela deve ser a garotinha... ela parece tão fofa...
Yasmin se aproxima dos três homens com um leve brilho nos olhos. Ela estava encantada com a visão, já que era a primeira vez que via pessoas de fora da vila.
“Cabelos escuros... Aquele tem um cabelo amarelo... Os olhos deles têm uma cor engraçada...” pensava ela, enquanto se aproximava.
— Olá, sou Lien! Qual seu nome?
— Yasmin.
— Yasmin! É um belo nome.
Lien permanecia com um sorriso carismático e cativante no rosto que atingia Yasmin. Ela se curva levemente em sinal de respeito a ele.
— Me diga, Yasmin, já viu um livro selado antes?
— Sim, eu tenho um.
O livro selado era um objeto mágico amplamente utilizado em Arctan. Após vinculado à um indivíduo, o livro é capaz de medir seus atributos mágicos em tempo real. O livro também serve como uma forma de registro mágico, onde é possível pesquisar sobre quase todas as magias registradas.
— Ah! Está com ele aí?
— Sim. — Ela estende sua mão levemente e faz um brilho aparecer nela, transformando-o no livro.
— Já sabe usar o inventário. Bom, considerando que você criou duas magias, acho que é algo comum...
Ele pega o livro e dá uma olhada, folheando-o de leve. Aos poucos, o sorriso cativante vai se transformando em um rosto de espanto.
— Im... Impressionante... você... já dominou todas as magias de vento... que não necessitam de treino especial...
— Não pude dominar as outras porque o livro não fala como fazê-las... eu preciso de um mestre que as saiba para isso.
— Mas ainda assim... É algo incrível... acho que não são muitas pessoas capazes de fazer isso.
Ele entrega o livro de volta para ela.
— Bom, deixando isso de lado. Sabe o que é isso? — Diz ele batendo levemente na máquina que eles estavam montando.
— Um leitor magico.
— Sim, mas é um pouco mais do que isso. Ele é responsável por ler o limite de mana, o potencial magico, a concentração magica e o poder magico de um indivíduo, fazer os cálculos necessários e depois comparar com a magia lançada. Todos os dados obtidos vão direto para o banco de dados magico do conselho, e é automaticamente atualizado em todos os livros selados.
— Senhor Lien...
— Sim?
— Como funciona o registro em si?
— O que quer saber? — Pergunta ele com um sorriso
— Bem, como você mesmo disse, tem magias que não podem ser aprendidas sem o devido treinamento.
— Sim.
— Como faço para que a minha seja assim?
O rei fica levemente surpreso com a pergunta.
— Bem, é uma opção do usuário, então se você desejar, nós não iremos registrar os métodos de ensino da magia.
— Por que, Yasmin? — Pergunta o rei.
— Eu não quero que a minha magia seja algo comum entre os manipuladores de vento.
— Algum motivo especial para isso?
Ela permanece em silêncio, com o olhar sério.
— Bem, não importa. — Responde Lien. — É comum os manipuladores decidirem isso. As vezes ter um trunfo é bom!
— Lien, acho que a máquina está pronta.
— Ah, podemos começar a apresentação então.
— Senhor Lien, posso fazer mais uma pergunta antes disso?
— Claro, o que foi?
— E quanto as restrições?
— Restrições?
— Sim, gostaria de colocar restrições a minha magia.
— Ah, quer dizer como as magias proibidas, por exemplo. Espera, por que quer esse tipo de coisa? Por acaso sua magia é tão destrutiva assim?
— Só não gosto muito de violência entre humanos... eu gostaria que restringissem a magia para que seja ilegal usá-la contra humanos.
— Entendo... bem, as restrições só funcionam como leis, não é como se não pudessem ser quebradas a qualquer momento. Mas tendo em vista que você quer restringir ela nesse aspecto, e não quer que ela seja passada sem o devido ensino... deve ser algo realmente grande...
— Nem tanto... apenas não quero ser responsável por criar algo que possa prejudicar a humanidade, de alguma forma.
— Entendo sua preocupação..., mas não se preocupe tanto. Bem, vamos começar apresentando algumas magias.
Após isso, Yasmin e o rei se sentaram em algumas cadeiras fora da arena, enquanto os três se posicionavam no centro da mesma.
— Saudações, cidadãos Tsuyoshi! Meu nome é Lien, e esses são Gangar e Visque! Somos do conselho magico de Arctan. Muito obrigado por permitir nossa entrada aqui. Gostaríamos, primeiramente, de demonstrar algumas magias a vocês. O intuito é incentivá-los a contribuir com o conselho magico de Arctan, assim como sua compatriota, Yasmin.
Lien faz um sinal para Gangar, que fica em posição. Ele faz algumas magias de fogo, que impressionam alguns dos Tsuyoshis.
Após alguns minutos, a apresentação acaba, e os Tsuyoshis aplaudem-na. Depois disso, Lien faz um sinal para Yasmin, que se aproxima deles.
— Ok, vou explicar o que você vai ter que fazer, certo?
— Sim...
— Primeiramente, fique em frente a máquina. Ela vai ler seu nível atual de mana.
Yasmin obedece. Ela se posiciona a três metros da máquina, com a lente direcionada a ela.
— Tudo bem. Agora, quero que use toda a sua força para lançar um golpe básico de vento. Já que você dominou todas as magias básicas, não deve ser tão difícil. Faça isso pelo menos cinco vezes. De preferência, seria legal se usasse mais de uma magia, digo, magias diferentes...
Yasmin fecha os olhos e se concentra. Um leve silêncio se faz no estádio. Depois de alguns segundos, uma leve brisa começa a soprar. A brisa começa a circundar Yasmin, até que ela começa a levitar.
— Oh! Essa habilidade! — Diz Lien assustado. — Eu disse para ela usar coisas básicas, mas isso...
— É uma das magias mais difíceis para manipuladores de vento... — Visque fica levemente sério. — Essa garota... ela é um prodígio.
Após isso, Yasmin faz alguns movimentos e soca o ar, soltando algumas rajadas de vento.
— Já chega, acho que já é o suficiente...
Em seguida, a garota toca novamente o chão com seus pés.
— Hun, Ei, Gangar, Lien, deem uma olhada nisso. O potencial magico e o poder magico dela são bem altos.
— A concentração é muito baixa para uma criança... — Comenta Gangar. — Isso é impressionante.
— Sim, mas em compensação, o limite magico dela não é dos melhores. — Completa Lien
— Mas esse tipo de coisa é natural para um manipulador de vento.
— Verdade...
Lien se aproxima de Yasmin com um sorriso.
— Você realmente nos animou! É impressionante ver uma garotinha tão jovem com tanto potencial!
— O... Obrigada... — Diz ela sem jeito.
— Bem, acho que já está na hora. São duas magias, não estou certo? Antes de nos mostrar a primeira, preciso que explique mais ou menos o que ela é.
— A primeira se chama “Chai Ken”
— Chai Ken? Isso é Daryano?
— Sim.
— Tão jovem e já sabe usar Daryano...
— Não é tão difícil...
— De fato, é uma língua fácil, mas usá-la com magia não é tão simples... bem, e o que ela faz?
— É uma magia de ataque a distância. É como um “soco de vento”, mas é bem mais eficiente. “Chai” é “meteoro” e “Ken” quer dizer “punho”. Em tradução livre, significa “Punho meteórico”
— Entendo, então, demonstre-nos. Vai precisar de alvos certo?
— Sim, já conversei com as servas.
— Tudo bem então...
Alguns guardas começaram a mover várias placas de pedra para a arena, eram cerca de dez placas. Elas tinham cerca de dois metros por um e meio, e uma espessura de cinquenta centímetros.
— Para que tantas placas?
— Você vai ver. — Yasmin fala com um sorriso.
Eles as posicionam uma atrás da outra.
— Um efeito dominó? — Pergunta Gangar.
— Não, não acho que seja isso. — Comenta Visque, com um olhar sério.
Yasmin se posiciona, enquanto Lien se junta aos outros dois.
— Quando quiser, Yasmin.
Yasmin rotacional os braços a sua frente, logo em seguida, ela fecha seu punho direito e o posiciona ao lado de sua cintura, cobrindo-o com o punho esquerdo.
— Chai... — Fortes ventos começam a circundá-la.
— Ken! — Ela, bruscamente, faz o movimento final. Um soco levando seu punho direito para frente. O movimento produziu uma explosão de vento que foi jogada com violência para frente. Mas não era algo comum. O vento ia em linha reta, sem mover nada ao seu redor. Ao chocar-se com a primeira pedra, a mesma virou pó instantaneamente, explodindo e voando para todos os lados. Nada diferente na segunda e consecutiva.
— Im... Impressionante...
— As pedras foram dilaceradas com o ataque...
— Bem... parece mesmo um soco de vento. Mas seu efeito é muito diferente. O uso de mana é muito menor, e a eficiência é realmente assombrosa. Embora tenham ataques básicos bem melhores que esse.
“Chai Ken” pensou Visque “Essa magia... Algo não está certo...”
— Yasmin... — Visque se aproxima dela com o rosto sério.
— Si... Sim?
— Você... criou variantes?
— Variantes?
— Sim. Você criou magias derivadas dessa? Se a usa de uma outra forma. O que quero saber é se você tem variações dessa magia.
— Ah, entendo... sim...
— Quantas?
Yasmin fica pensativa.
— Tem duas.
— Sendo assim, ela tem três formas, estou certo?
— Sim.
— Entendo. — Ele se abaixou e olhou diretamente para os olhos de Yasmin. — Agora, me diga, por que se segurou?
A garota fica surpresa e faz um rosto sério.
— Então... você percebeu?
— Sim. Aquele ataque não foi o chai ken que você diz ter criado. Foi algo muito mais fraco, estou certo?
Yasmin fecha os olhos e abaixa a cabeça.
— Meu pai...
Visque olha para o rei de relance. O rei parecia distraído, conversando com sua esposa, e com um sorriso no rosto. Logo após isso, Visque se levanta com um sorriso.
— Entendo. Bem, acho que tudo bem.
Visque se junta aos seus companheiros.
— Mas mesmo para uma magia tão incrível, não vejo o porquê querer restringi-la...
— Não é essa a magia que quero restringir. É a segunda.
— A segunda magia?
— Sim. Eu ainda não a mostrei a ninguém. Vai ser a primeira vez que uma pessoa a vê.
— Entendo... Então, do que se trata?
— A magia em si é bem similar ao “chai ken”. A essência é a mesma, na teoria é basicamente a mesma magia..., mas a forma de se usar e os efeitos são tão diferentes que decidi registrá-la como uma outra magia.
— Diferentes em que ponto?
— Para começar, ela é usada com uma espada. Eu a testei com muitas coisas diferentes, muitos alvos de materiais diferentes. E segundo os cálculos que fiz, ela pode ser capaz de cortar uma aura magica com um único golpe. Pela natureza, ela poderia fazer isso independente da força dessa aura.
Os três ficaram surpresos ao ouvir isso, e não era para menos. A aura magica era um princípio básico que todo guerreiro aprendia logo ao iniciar o treinamento mágico. Ela consistia em um revestimento que o mago fazia em volta do próprio corpo, como uma segunda pele, que cobria ele e suas roupas. Ela também pode ser utilizada em equipamentos, tornando-os mais resistentes e fortes. Isso impedia que o mago morresse com golpes mágicos de outros, ou mesmo se ferisse com os próprios ataques.
Apesar disso, ninguém jamais havia criado uma magia que fosse capaz de realizar o feito de quebrar, destruir ou mesmo cortar a aura magica com um único golpe, ignorando seu poder. Se o que Yasmin disse fosse verdade, aquela magia seria algo jamais visto antes. Uma magia assim seria muito perigosa se caísse em mãos erradas, então obviamente que os três ficaram preocupados ao ouvir o que Yasmin disse.
— Tem certeza disso, garota? — Perguntou Gangar
— Eu não cheguei a usar contra nenhum ser vivo, então eu não posso afirmar com toda certeza. O único modo de saber seria tentar usá-la contra alguém, mas isso eu jamais permitiria.
— Tem um modo... — Disse Visque com um leve sorriso
— Um modo?
— Sim. Se nós usássemos algum alvo e revestíssemos ele com uma aura mágica...
— Verdade! Mas...
O rei se aproxima deles, impaciente.
— Por que essa demora toda para demonstrar a segunda magia?
Visque explica a situação para o rei.
— Se é assim. — Diz o rei empolgado. — Eu sou a pessoa com a aura magica mais poderosa daqui.
— Tem certeza disso, pai?
— Não se preocupe com isso, Yasmin, eu sou o Tsuyoshi mais forte da vila.
— Verdade...
— Mas mesmo assim, quero pedir ajuda de mais uma pessoa...
O rei fez um sinal para sua mulher, que ficou surpresa ao ver. Ela então se aproximou.
— O que foi, meu bem? — Ela se aproximou deles e o rei explicou a situação para ela.
Após isso, foi ordenado a alguns soldados que colocasse mais uma rocha no local. Essa, porém, era muito maior e espessa. O rei se pôs ao lado direito da rocha, e sua esposa ao lado esquerdo. Ambos colocaram sua mão sobre o monólito, e concentraram seu mana sobre ele. O alvo estava virado para um lado da arquibancada em que não havia pessoas, então mesmo que a magia saísse do controle ninguém se machucaria.
Yasmin pegou uma katana com um dos guardas e se posicionou, segurando a espada com a mão direita a frente de seu corpo. Ela então a girou em sentido horário a esquerda de seu corpo, fazendo um segundo movimento giratório a direita e, ao final do giro, passou seu indicador e o médio nas costas da espada, percorrendo sua lamina e parando em sua ponta, posicionando o seu fio próximo ao seu rosto.
— Chai...
O vento começou a circundá-la novamente, como da outra vez.
— Kui! — Com o grito, ela fez uma rápida estocada, que produziu um vento violentíssimo que seguiu em linha reta e atravessou a rocha.
O rei pôde ver claramente o vento seguindo a linha reta através da rocha, perfurando até mesmo a parede do estádio. Mas antes que pudesse admirar, ele foi jogado para trás graças a força do ataque. A rocha se partiu ao meio, onde o ataque fora lançado, jogando as duas partes com violência para as paredes da arena.
Yasmin se assustou com o próprio ataque, e soltou a espada.
— Pai! Mãe!
Após alguns segundos, o rei se levantou em meio à poeira e aos destroços, imerso em risadas.
— Estou bem!
— Incrível... — Disse a rainha enquanto retirava a poeira da roupa.
Yasmin suspirou aliviada.
— Q... Que magia incrível... — Disse Lien, pasmo.
— Ela atravessou duas auras magicas com tanta facilidade... — Gangar parecia ter corrido uma maratona de tão abatido que seu rosto ficou naquele momento.
— Vocês não viram nada... olhem para essas leituras...
Os dois acompanharam a voz de Visque e atentaram para a máquina, ficando ainda mais assustados.
— Co... Como... isso... essa magia usou menos mana que a outra...
— E não é só isso, a eficiência dela foi muito maior...
— Garota, como foi que você conseguiu criar algo assim?! — Gangar grita assustado
— Calma Gangar. — Diz Visque com um sorriso
Yasmin abre um leve sorriso hesitante.
— Pela natureza dessa magia, ela ignora os fios da malha.
— Quer dizer a malha da aura?
— Sim. Toda aura mágica é composta por uma malha de fios de mana. Como essa magia comprime o mana em um único ponto, e por ser feita de mana de vento, que é o mana mais fino de todos, ela acaba conseguindo penetrar nos espaços da malha mágica. Ao penetrar a malha, a magia se expande...
— E o resultado foi o que vimos...
— Bem, é algo realmente impressionante, Yasmin... então você vai restringir essa magia?
— Sim.
— Meio óbvio o motivo.
Aquele dia foi marcante para todos que estavam ali. Essas duas magias tornariam o nome de Yasmin em algo muito conhecido entre o povo de Arctan um dia.
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