E a garota crescia. Ela já havia completado seus quatorze anos.

Yasmin passeava pelas ruas da cidade com sua amiga, Marly, conversando distraída.

— Não tem nem graça isso! — Marly parecia impaciente.

— Já falei, não é para ter graça mesmo...

— Por que não ensina sua técnica para ninguém? Já se passaram sete anos e até hoje você não passou ela para a frente!

— Nem vou passar! Sabe o quão perigoso isso é?

— Sei, por isso que deveria passar! — Marly deu um leve sorriso.

— Para com essas palhaçadas. — Disse Yasmin aos risos.

— Ah, do que adianta ter criado duas técnicas tão incríveis se você nem vai usar!

As passavam pela rua de comércio, onde havia várias barraquinhas com diversos conteúdos, elas vez ou outra paravam para olhar alguma coisa.

— Ei, Yasmin, que acha disso?! — Marly colocava uma máscara de madeira com uma pintura engraçada no rosto.

— Acho que vai atrair muita atenção dos garotos com isso!

— Vou mesmo ne? Falando nisso...

— Falando em que?

— Qual é, não me venha com essa!

— Já te falei que eu não estou interessada nessas coisas agora! — Yasmin virava o rosto emburrada.

Marly colocou a máscara de volta no lugar e elas voltaram a andar. Assim que saíram do distrito de comércio, Yasmin sentiu uma leve brisa, ela parou e encarou o nada com o rosto perplexo. Marly, com um palito na boca, continuou andando por alguns metros, até que percebeu que Yasmin parara. Ela virou sua cabeça e viu sua amiga olhando para o céu.

— Qual o problema?

— Essa voz de novo...

Marly suspirou.

— De novo com essa história!

A garota olhou para o caminho em que estavam. Aquela estrada, se seguissem em linha reta, levava a uma floresta que tinha aos arredores da vila; um local pouco visitado onde a exploração era proibida.

— O Bosque de Ter...

— Que tem ele?

— Me diz, por que é proibido a exploração por lá?

— Sei lá. Nem me importo! Por que tá perguntando isso agora?

Yasmin permaneceu em silêncio. Marly parecia inquieta.

— O que essas vozes te dizem?

— Não sei... são como um sussurro, mas nunca consigo entender o que ela diz.

— Pra mim você tem esquizofrenia!

Yasmin continuava a olhar para a floresta.

— Ei, isso já tá me irritando...

— Desculpe. — A garota esfrega os olhos com os dedos e se vira para a amiga. — Vamos até minha casa.

No caminho, Yasmin permanecia pensativa. Aquelas vozes eram constantes, ela sempre as ouviu, mas nos últimos dias elas pareciam ter ficado mais intensas, o que a incomodava muito. Marly permaneceu por alguns minutos no palácio, depois disso foi para casa. A princesa Tsuyoshi foi até seu quarto, em direção a sua cama, onde se sentou.

Yasmin retirou seus sapatos e, ainda de meia, deitou-se na cama, colocando suas mãos atrás da nuca e olhando para o teto. Depois de um tempo, ela fechou seus olhos. Naquele ponto, o sol já tinha se posto, mas ainda era cedo, então Yasmin permaneceu acordada, enquanto pensamentos iam e vinham na sua mente. Até que um certo pensamento passou como um vento por entre eles.

“A...Leto...”

“Amu...”

“Amuleto...”

A garota abriu rapidamente seus olhos e sentiu um calor vindo de seu pé direito, ela olhou de relance e a visão a assustou.

— O... que é isso?

Por debaixo da meia, um leve brilho branco emergia, Yasmin levantou seu pé de forma que pudesse enxergá-lo melhor. Ela então se levanta dando um impulso, sentando-se sobre suas pernas e retira com cuidado a meia, revelando sua marca de nascença localizada no peito do pé.

— Está... brilhando? O que significa isso?

Junto ao brilho, aquela palavra se repetia em sua mente. “Amuleto”. Enquanto as imagens de um local em sua mente a perturbavam.

— O que significa isso? Será que eu estou ficando maluca?

A garota se levanta e se calça novamente, ela pega sua katana e sai em direção a floresta. Ao chegar na entrada da floresta, ela para e encara-a.

À entrada havia um enorme arco de madeira, com uma placa em seu topo dizendo “Bosque de Ter”.

— Ter... Quem foi ele mesmo?

— Ex-líder dos Tsuyoshis há quase mil anos atrás. — A voz vinda de trás de Yasmin a assustou, fazendo-a dar um gritinho fofo.

— Qual o seu problema?! Roy! O que tá fazendo aqui?

— Eu é que pergunto isso, quando te vi saindo do palácio nessa hora da noite já pude imaginar que boa coisa não era!

— O que quer dizer com isso? Que eu saiba, o irresponsável aqui é você!

— Não sou não! Sou seu irmão e é minha responsabilidade cuidar de você!

— Me sinto tão segura agora. — Disse ela num tom sarcástico.

— Então, o que faz aqui?

— Não sei.

— Como assim não sabe?

— Alguma coisa me disse para vir aqui.

Roy parecia desconfiado.

— Sabe que é proibido entrar aí né?

— Sei.

Roy franziu a testa e emburrou a cara.

— Eu não gosto de ser a voz da razão, até por que eu mesmo não a sigo muito, mas você não está pensando em explorar essa floresta à essa hora né?

Yasmin permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Se vai tentar me impedir é melhor fazer isso agora.

O garoto cerrou os olhos em tédio e fez uma cara de confusão.

— Impedir você... Eu... Te impedir... Tá falando sério? — Dizia ele enquanto apontava para si mesmo e para a garota em seguida.

Yasmin, virada para a entrada, olhando por cima dos ombros, encarou o irmão. Roy colocou os dedos entre os lábios e deu um leve assobio. Depois de alguns segundos Marly saiu de trás de uma moita.

— Como sabia que eu estava aqui?

— Te vi há uns três quarteirões!

Marly fez bico para Roy, brava, mas logo voltou ao estado normal.

— Agora estamos todos aqui!

— Não estão querendo me seguir né?

— Claro que sim! — Marly coloca sua mão sobre os ombros de Yasmin. — Somos uma equipe! Não fazemos nada sem o outro!

— Se nos pegarem a punição pode ser grave...

— Quem se importa?! Acha que nós vamos deixar você fazer uma besteira dessas sozinha?!

— Só não entendo o porquê de vocês não estarem tentando me impedir.

— É perda de tempo. Você não ia nos ouvir... E mesmo se tentássemos a força, não ia adiantar. Você é muito melhor em batalha que a gente.

Yasmin fechou seus punhos e encarou a floresta.

— Já que é assim...

Após isso, os três adentraram no bosque de Ter. A iluminação não era nem um pouco favorável; por se tratar de uma floresta, as arvores cobriam a luz da lua e das estrelas, e eles estavam restritos a uma pequena lanterna mágica que Roy tinha trazido. Porém, Yasmin seguia o caminho a frente sem usar a luz da lanterna, como se soubesse exatamente para onde estava indo.

— Ei, para onde pensa que vai?

— É como se eu tivesse o mapa na memória, eu simplesmente estou seguindo onde ele me diz para ir.

— Assustador... — Diz Roy encolhendo seus ombros.

— Ei Mimi... não acha que estamos indo longe demais?

— Estamos quase lá.

“Lá onde? ” — Se perguntavam os outros dois.

Eles continuaram seguindo por alguns minutos, até que se depararam com uma caverna.

— É aqui. — Disse Yasmin.

A caverna tinha uma pequena placa de madeira cujo as escritas já estavam ilegíveis.

— Que lugar é esse?

Yasmin, quase que hipnotizada, começa a andar em direção a caverna.

— Ei, pra onde você tá indo?

Assim que entra na caverna, uma enorme rocha fecha sua entrada, quase que instantaneamente.

— Yasmin! — Grita Roy desesperado

— Mimi! Tá tudo bem?! Ei, responde!

— Acalmem-se. — Diz Yasmin do outro lado da rocha.

— Ei, aguenta firme, a gente vai chamar alguém...

— Não! Espera! Não façam isso.

— Mas...

— Tá tudo bem, não se preocupem, eu vou dar um jeito de sair daqui. Apenas esperem aí.

— Droga, se alguma coisa acontecer com você a gente tá ferrado!

— Se acalma, Roy, tá tudo bem. Me deem uma hora. Se nesse tempo eu não conseguir sair, podem ir chamar quem vocês quiserem. Mas esperem.

Os dois ficaram apreensivos, mas atenderam ao pedido de Yasmin.

— Uma hora. Nada mais!

— Tudo bem.

Yasmin sacou sua espada e usou uma magia nela, fazendo sua lamina emitir um leve brilho.

A garota seguiu o caminho dentro da caverna. Não tinha muita coisa para se olhar, era uma caverna simples; paredes úmidas, várias estalactites e estalagmites por todas paredes e chão. Porém, à medida que ela ia adentrando mais e mais, as paredes pareciam ficar mais retas e o chão parecia se terraplanar.

Com o tempo, algumas inscrições começaram a aparecer nas paredes da caverna.

— Estou chegando perto.

Ela chegou em um ponto onde a caverna se expandiu. O que antes era um corredor, agora era uma enorme área aberta, que parecia ter sido construída por alguém. As paredes tinha um formato hexagonal, e várias inscrições que as percorriam chamavam a atenção.

— Daryano... — Deduziu Yasmin.

No centro da sala, um pedestal inclinado para a entrada em um ângulo de quarenta e cinco graus. No pedestal, um medalhão circular do tamanho de uma mão fechada, com um símbolo peculiar gravado em seu centro.

— É o mesmo...

O símbolo era idêntico a marca que Yasmin tinha em seu pé direito. Uma espécie de cata-vento com quatro hélices, que se curvavam em uma única direção.

“Pegue o amuleto” A voz em sua mente dizia apenas isso.

A garota estendeu sua mão para alcançar o amuleto, de forma quase hipnótica. Assim que Yasmin o tocou, um enorme brilho saiu do centro do pedestal, se espalhando por entre a sala toda. Yasmin, devido ao brilho, cobriu seus olhos com o braço esquerdo. As inscrições que antes estavam na parede, agora pareciam se deslocar pela sala, enquanto um brilho intenso saia das mesmas. As letras começaram a ir em direção ao amuleto e antes que Yasmin conseguisse perceber, o brilho havia cessado.

— O que... é isso?

O amuleto tinha sumido. Em seu lugar, um bracelete havia aparecido e agora estava junto ao braço direito de Yasmin.

O bracelete tinha uma forma peculiar; nas costas da mão havia uma rosa, e dela saiam várias videiras que se enrolavam por entre o braço de Yasmin, formando o bracelete. As videiras iam até pouco antes de seu cotovelo.

A garota tentou tirá-lo, mas sem sucesso. Ela puxava com toda sua força, mas o bracelete simplesmente não saia.

— Mas...

Logo após isso, ela ouviu outra voz.

“Tu que domina os ventos, deve guiá-los”

— Quem...? Quem é você?

“Tu és a primeira a despertar... Ache os outros...”

— Achar quem?

A voz parecia ficar mais fraca.

“A força maligna... Está despertando... Pouco a pouco... Você deve...”

A voz ficava cada vez mais inaudível.

“Impedi-los... Guar....diã... Do... Vento...”

O som sumiu. Aquela foi a última vez que Yasmin escutou a voz.

— O que... significa isso?

Rapidamente, Yasmin começou a retirar seu sapato direito, ela puxou sua meia e encarou sua marca de nascença, que para sua surpresa, agora estava diferente. A marca agora era um círculo magico, com o símbolo dos ventos no centro.

Enquanto isso, no lado de fora da caverna, os dois amigos permaneciam impacientes.

— Ela está demorando...

— Só se passaram quinze minutos, Roy.

— Eu sei..., mas...

— Ela vai ficar bem.

— Como pode ter tanta certeza?

— Como você não pode? Sabe o quão ela é habilidosa?

— Sei sim, sou irmão dela.

— Então por que está tão preocupado?

— É que... ela é minha irmã! Como eu não ficaria! Droga! — Ele então soca a entrada da caverna, que para sua surpresa começa a se desmoronar.

— O que você fez?!

— Não fui eu!

Yasmin aparece do outro lado, calma e serena.

— Eu disse que não demoraria.

— Yasmin! — Roy pula a agarrando, com lagrimas nos olhos.

— Ei, desde quando você ficou tão pegajoso. Recomponha-se!

Marly olhou para o braço direito de Yasmin e ficou curiosa.

— O que é isso?

— Eu não sei ao certo...

— Parece um bracelete... tão bonito!

— Ah... sim... acho que ele é bonito sim.

— Algum problema?

— É que... — Yasmin segura o bracelete e tenta puxá-lo. — Não importa o quanto eu tente, ele não sai.

— O que? Me deixa ver. — Marly tenta puxá-lo também, mas sem sucesso. — Que estranho... Ele não parece estar apertado. Na verdade, ele está bem frouxo.

— Verdade. Não está me incomodando.

— Quem se importa! — Roy as interrompe. — Temos coisas mais importantes para nos preocupar, se não voltarmos agora vamos estar em sérios problemas!

— Acho que você tem razão.

Eles mais do que depressa correm em direção a vila novamente.

— Não contem para ninguém sobre hoje, pode ser perigoso.

— Mas eu realmente não entendo, Mimi.

— Sobre o que, Marly?

— Nós fomos até a floresta, à noite, andamos por um bom tempo por lá. Você entrou na caverna, explorou ela...

— Sim, e?

— Nós estamos completamente bem. Não vimos uma alma se quer na floresta. Um mínimo inseto!

Yasmin colocou a mão sobre o queixo e ficou pensativa.

— Tem razão.

— Quem se importa, droga! Yasmin, você precisa tirar essa droga do braço!

— É verdade... não posso aparecer no palácio com isso.

— E pelo que você nos disse... não faz sentido! Por que essa coisa te guiaria até lá para pegá-la?!

— Eu não sei..., mas se isso foi o responsável por todas as vozes que venho escutando desde pequena... e tem o fato de estar relacionado à minha marca de nascença também...

— O que quer dizer com isso?

Yasmin permaneceu em silêncio, encarando sua mão direita. Seus pensamentos remetiam ao que ela ouvira dentro da caverna. A voz que a instruíra a ir atrás do objeto em sua mão parecia séria.

— Não é nada.

Ela colocou sua mão sobre o bracelete e tentou puxá-lo mais uma vez, e para sua surpresa dessa vez ele saiu extremamente fácil.

— Você conseguiu!

— Sim...

Ela o encara mais uma vez. Logo em seguida o guarda em seu “Inventário”.

Depois daquilo, os três voltaram para suas casas. Yasmin permaneceu com os pensamentos a todo o vapor. Ainda era cedo, não era nem dez horas da noite, então ela tomou coragem e foi até o escritório de seu pai. Ela parou à frente da porta, respirou fundo e encarou-a.

Yasmin bateu na porta.

— Quem é?

— Sou eu, posso entrar?

— Yasmin? Claro, entre filha.

A garota entrou. O escritório era gigantesco. Todas as paredes eram cobertas com estantes, recheadas de livros. No canto oposto à porta, uma enorme mesa onde o rei permanecia sentado, com uma pilha de papéis dispostos sobre a mesma. Uma segunda cadeira permanecia do lado oposto à mesa, onde as visitas provavelmente se sentavam para discutir assuntos com o rei. A princesa se aproximou e sentou-se nessa cadeira.

— O que faz aqui a essa hora?

— Preciso perguntar algumas coisas ao senhor.

— Perguntar...

Yasmin olhou diretamente nos olhos do pai, o que o fez sorrir levemente.

— Você sempre foi uma pessoa muito forte... — Disse o rei com um tom orgulhoso. — É isso que mais admiro em você. Sempre olha as pessoas diretamente nos olhos, não importa quem seja. Yasmin...

O rei se levanta e anda em direção a uma janela de onde era possível ver toda a vila.

— Você é minha primogênita. Sabe que nosso clã é diferente de vários dos clãs espalhados por Arctan.

— Sim, eu sei.

— Espero que um dia você se torne a nova líder.

Yasmin mordeu o lábio quando ouviu isso.

— Sobre isso...

O rei a olhou por entre os ombros, com o rosto sério.

— Não quero me tornar a líder do clã.

— Que escolha você tem?

Yasmin permaneceu em silêncio.

— A mais forte espadachim da vila, depois de mim é claro. A maior usuária de magia... E ainda é tão jovem. — O rei permanecia com uma voz amena, e orgulhosa. — Uma líder como você levaria o clã onde ele nunca foi antes...

Yasmin permaneceu em seu silêncio.

— Mas... deixando isso de lado. O que quer perguntar?

— Pai. Eu não sei se já lhe falei sobre isso antes..., mas eu costumo ouvir vozes frequentemente.

— Já me disse algo assim quando criança.

— Essas vozes, de alguma forma, estão relacionadas à minha marca de nascença.

— Por que acha isso?

— Porque... não... antes disso... tenho uma pergunta.

O rei se virou novamente para Yasmin.

— Por que o bosque de Ter é proibido?

— O bosque de Ter?

— Sim.

— Não faço ideia.

Yasmin ficou atônita com a resposta.

— Como assim?

— Foi algo que aconteceu antes mesmo de eu me tornar rei. E mesmo depois disso, nunca me veio à mente me perguntar o porquê... por que será?

Yasmin ficou perplexa com a resposta do pai; era inconcebível que o líder do clã nem sequer se importava para a resposta para tal pergunta. Mas Yasmin logo se recompõe.

— Diante dessa resposta... vou lhe dizer o porquê...

A garota retirou o seu sapato e mostrou a marca para seu pai.

— O que tem ela?

— Tente se lembrar.

O rei a olhou por mais um tempo.

— Estranho... por que está diferente?

— Por que recentemente as vozes me disseram para ir até o bosque de Ter.

— E você foi? — Disse ele com seriedade no olhar.

— Sim. — Ela o respondia sem nem sequer desviar o olhar.

— E então?

Yasmin usou seu inventário e invocou o bracelete.

— E então que eu achei isso.

— O que é isso?

— Não faço ideia. Mas assim que o toquei minha marca mudou. E ele era um amuleto antes.

O rei permaneceu em silêncio.

— Eu não sei o que eu sou..., mas de uma coisa eu sei... desde o dia em que aqueles três vieram aqui eu sei disso...

— Yasmin... — O rei franziu a testa e os olhos, em fúria.

— Eu não vou me tornar a líder do clã.

— Não diga o que estou pensando que vai dizer...

— Eu estou indo embora.

O clima na sala ficou tenso. Ambos se encaravam com seriedade no olhar. O rei fechou seus olhos e suspirou.

— Não tem o direito de ir.

— E o senhor não tem o direito de me manter.

— Sou seu pai, e seu rei.

— Por quê?

O rei ficou confuso com a pergunta.

— Por que o que?

— Por que não deixa nenhum Tsuyoshi sair da vila?

— Nós somos superiores aos outros humanos em Arctan. Nossa cultura é mais avançada. Nossa magia, nosso estilo de luta... por que sair?

— Nem mesmo o senhor sabe o motivo.

— Yasmin! — O rei gritou com fúria. — Pare de falar asneiras!

Os dois permaneceram se encarando.

— Você vai voltar para seu quarto e eu vou esquecer essa conversa.

— Não, o senhor não vai. Desde pequena eu fui obrigada a aceitar isso do senhor e de minha mãe..., mas... isso acaba hoje.

O rei partiu para cima de Yasmin, que rapidamente se esquiva.

— Volte aqui agora!

— Sei que pode parecer rude da minha parte..., mas eu estou cansada... até quando vocês vão tentar decidir meu futuro?! Até quando vão controlar meus sonhos?

— Você ainda é jovem! Não sabe o que está falando!

— Não... eu sei sim.

— Yasmin...

— Aceite minha decisão... por favor...

O rei permaneceu com o olhar em fúria.

— Eu até aceitei você não querer ensinar suas técnicas para nosso exército..., mas... isso já é demais.

Yasmin abaixou sua cabeça e encarou o chão. Ela retorna o olhar para os olhos de seu pai.

— Me responda, o que eu sou para você?

O rei ficou surpreso com a pergunta repentina.

— Você...

— Errado... você nunca me viu como filha. Eu sempre fui uma peça. Sempre fui a herdeira do clã, a futura líder...

— Não é verdade.

— É sim... você sabe disso... desde pequena você vem me treinando e me preparando para ser uma líder, mesmo contra minha vontade. Mas no fim nunca enxergou meus sentimentos.

O rei se acalmou, ficando hesitante.

— Aquele dia em que aqueles três vieram aqui... você abriu mão de parte de nossas tradições. Eu achava que fosse por causa de mim..., mas estava enganada. Aquilo foi para mostrar a força da futura líder do clã. Você queria que todos me conhecessem...

O silêncio novamente se fez na sala.

— E mesmo depois daquilo... tudo o que você queria era que eu ensinasse ao exército o “Chai Ken”.

— Tudo bem... já chega disso...

— Eu nunca fui sua filha de verdade!

— Já chega, Yasmin!

O rei se aproximou dela e levantou sua mão, a garota fechou os olhos e abaixou a cabeça. Mas antes que algo acontecesse, alguém entrou na sala e segurou a mão do rei.

— Já chega... Marcus...

— Shizuo...

— Ela... tem razão...

— O que...

— Você nunca se preocupou com ela... sempre se preocupou com o clã.

— Isso... não é verdade...

— Sim. É verdade e você sabe bem disso.

— Mas...

— O que essa garota precisa agora não é de um rei, é do pai dela.

— Mamãe... — Yasmin a olhou nos olhos.

As duas se encararam de forma amena.

— Você tem razão, Yasmin... seu lugar não é aqui.

— Sendo assim... — Marcus se virou e foi em direção a porta.

— Onde vai?

— Só existe um meio dela deixar o clã.

— Marcus!

— Yasmin... Você está expulsa... a partir de hoje, você não é mais uma Tsuyoshi.

— Mar...

— Mãe. — Yasmin a interrompe, com um sorriso no rosto. — Tudo bem.

— Mas...

— Eu vou ficar bem.

Depois daquilo, o rei saiu do quarto, se deparando com seu filho logo na entrada, com os olhos cheios de lágrimas, escorado sobre a parede ao lado da porta.

— Você ouviu tudo...?

— Sim...

O rei ignorou-o, e foi na direção oposta.

A noite caiu e Yasmin dormiu pela última vez em seu quarto. Logo quando acordou, antes do sol nascer, ela foi até a casa da amiga e explicou a situação. Marly parecia não acreditar no que ouvia.

— Nesse caso, eu vou com você!

— Não. Você só me atrapalharia.

— Mas...

— Negativo! Fique aqui!

Marly ficou com o semblante caído.

— Ei... eu... vou te ver de novo, certo?

Yasmin sorriu levemente.

— Pode ter certeza que sim.

— Droga Mimi! O que vai ser de mim sem você?!

— Você vai ficar bem...

Ela olhou para o palácio uma última vez.

— Você... por favor... apoie meu irmão.

— Sim...

— Ele vai precisar de você, a partir de agora. Você sabe, para evitar que ele cometa bobagens! — Disse ela com um sorriso.

— Droga... — Marly chorava copiosamente.

— Ei... fique bem ok?

— Você também! Não vá sumir para sempre!

As duas se abraçam uma última vez, e então... Yasmin deixou a vila.