Arctan Saga

14 Não mexam com minha guilda.


Depois de duas semanas, as mulheres foram transferidas para as instalações da Guilda LionHeart. Yasmin permanecia ao lado das duas, aguardando elas acordarem.

Sirulian, por outro lado.

O garoto quase não era visto na guilda. Ele afundara-se em missões. Quando não estava fazendo missões ele treinava sozinho sobre as colinas verdejantes.

E assim foi até o momento em que elas acordaram.

— Yasmin...

Espantada, a garota atende ao chamado de Valquíria.

— Val... — Seus olhos cheios de lágrimas impediam que sua voz saísse com clareza.

— Por que está chorando? — Val tinha uma voz doce e suave, embora um pouco rouca, ela permanecia com seu sorriso acalentador. Em meio a um suspiro ela fecha seus olhos e em seguida encara o teto. — Me desculpe por te fazer chorar.

Yasmin balança a cabeça negativamente e limpa as lagrimas dos olhos.

— Não, não tem que se desculpar.

— Mandrágora já acordou?

— Ainda não...

— Entendo... aquele idiota... — dizia ela com algumas lágrimas no rosto. — Sempre tentando bancar o herói... como está o Sirulian?

Yasmin fica taciturna.

— Ele... está fazendo seu melhor, eu acho...

— Entendo...

— Val... eu...

— Yasmin. Você precisa fazer o mesmo.

— O mesmo?

— Sirulian está triste, talvez mais do que você. Ele era mais próximo de James do que você. E mesmo ambos sofrendo pelo que aconteceu, ele está tentando seguir em frente.

Elas fazem silêncio.

— Lembra quando me disse sobre não saber sobre o seu propósito... sobre sua missão especial?

— Sim...

— Talvez você devesse procurar por ela. Você é uma garota especial.

— Mas, se isso significar ter que deixar vocês...

— Uma hora ou outra vai ter que fazer isso, querendo ou não. — Val tenta colocar sua mão sobre a cabeça da garota, mas... — esqueci... — comenta de forma jocosa, mas melancólica. — Enfim... Yasmin, tem um mundo inteiro te esperando lá fora, você precisa desafiá-lo.

— Você tem razão... e o que vocês vão fazer agora?

— Agora? Bem... vamos seguir em frente. A cédula vermelha ainda não está acabada. Nós vamos continuar sujando nossas mãos... ou a minha mão... — ela fala isso aos risos. — E depois, vamos continuar...

— Como consegue ser tão forte?

— Eu tive que aprender a ser. E com o tempo você também vai aprender. Agora vai.

Ela se levanta e anda em direção a porta. Ela para e olha para trás.

— Anda Yasmin, vai falar para o pessoal que eu acordei, e aproveitando, por que não pega uma missão? Uma fácil, para você se aquecer um pouco.

Yasmin sorri meio tímida para ela. Ela sai do quarto e vai até o salão principal. Ao vê-la chegando, Darukian fica surpreso.

— Ei. — Ele faz um sinal para que ela se aproxime do balcão. — Quer um suco?

— Não, tudo bem. A propósito, Val acordou!

— Sério?! — Todos da Guilda olham para ela com um sorriso. — Isso é bom.

— Sim... — Yasmin sorria também, embora menos que ele.

— E ela disse algo para você?

— Sim... a propósito, vou pegar uma missão.

Darukian sorri de forma complacente.

Antes que Yasmin pudesse se dirigir ao quadro de missões eles escutam um estrondo vindo da porta da guilda. Assustados, todos olham para lá. Eram três pessoas que chegaram arrebentando a porta da guilda.

— Como vão os gatinhos?! — O homem que entrava tinha uma roupa de couro preta e um cabelo moicano verde. Acompanhando ele uma mulher com roupas de couro e um homem alto e musculoso, também com roupas de couro.

Darukian franze a testa.

— O que estão fazendo aqui, ButchHien?

“ButchHien? Eles são a guilda rival da LionHeart... ” — pensou Yasmin.

— A gente tá aqui para dar nossas condolências.

Todos na guilda ficam sérios e encaram com ódio os três entrarem com um sorriso no rosto.

A guilda tinha uma rivalidade amigável com a ButchHien que já durava anos. ButchHien era uma guilda que vivia na mesma cidade, Lionhills, mas devido à ascensão da LionHeart nos últimos anos a ButchHien tem perdido espaço. Isso gerou uma rivalidade tremendamente maior do que a que existia antes, acabando tornando as duas inimigas uma da outra. Mas a ButchHien não mexia com a LionHeart a um bom tempo, e tudo graças à cédula vermelha. Eles tinham medo da Cédula. E não era para menos.

Mas agora esse medo tinha ido embora.

— Eu ouvi por aí que a Cédula Vermelha caiu em missão. Que peninha...

— E vieram para nos dar seus sentimentos...

— Por que mais viríamos?! Mas claro, com tantas coisas acontecendo no mundo acho que deveríamos mudar as coisas.

— O que quer dizer?

— Bom... agora que a LionHeart não tem mais a cédula, está mais do que óbvio que ela não pode mais fazer missões de ranque SS. E isso vai acabar prejudicando Lionhills, já que a maioria das missões veem daqui...

— E está sugerindo...

— Não é óbvio?! Vamos fazer as missões de ranque SS para vocês!

— E por que acha que permitiríamos isso?

O rapaz se aproxima do balcão de Darukian e bate fortemente com as duas mãos sobre ele. Se inclinando sobre o balcão com um sorriso sugestivo, ele se aproxima do rosto de Darukian.

— Vocês não têm muita escolha.

Todos ficaram olhando para seus próprios copos e não demonstraram reação nenhuma.

— Eu sugiro que saiam dessa guilda agora mesmo.

— Por que faríamos isso?!

Eles conheciam aqueles três. Eles eram a única classe SS da ButchHien, e atualmente os únicos de Lionhills, e eles sabiam que, no momento, não tinha ninguém ali que pudesse bater de frente contra eles.

Porém o sangue de Yasmin fervia com a cena. A guilda que ela aprendera a amar estava sendo ridicularizada. Ela não conseguia assistir a cena por mais tempo. Ela se moveu para atacá-los, mas... antes que pudesse fazer algo, Darukian fez um sinal para ela parar.

— Senhor, não sei se você sabe, mas a Cédula não eram os únicos ranques SS da Guilda.

Logo ao dizer isso um estrondo se ouve vindo do balcão e o rapaz de moicano sai voando em uma velocidade incrível em direção a porta da guilda.

— O que? — Gritou o rapaz maior.

Darukian colocou levemente a mão sobre seu prendedor e soltou seu cabelo. Ele saiu de traz do balcão estalando o pescoço.

— Desgraçado, vai se arrepender! — O grandalhão ataca com um soco, que é defendido com uma única mão por Darukian.

— Eu vou repetir mais uma vez... saiam da LionHeart agora mesmo. E não voltem... — Ele apertava o pulso fechado do homem que o atacara.

— Vai... se ferrar!

De repente rápidos raios começam a cercar o corpo do grandalhão, que começa a gritar desesperado. Assim que os raios cessam o homem cai no chão, em meio a fumaça.

— Pegue seu amigo e saia daqui. E não mexam com a minha guilda nunca mais.

A mulher, olhando assustada para ele, segura o amigo pelo ombro e vai embora.

Yasmin ficara assustada com a cena. Darukian era forte... não, não só ela, mas a guilda inteira percebera. Darukian não era só forte.

Ele parecia muito mais forte do que o próprio James.

O rapaz, ainda com os cabelos soltos, foi até o mural da guilda. Ele pegou uma das folhas e gritou:

— Jotiel!

— Sim, senhor! — O rapaz se levantou bruscamente, soltando as duas mulheres com quem ele estava abraçado.

— Tome conta do registro de missões! Já te ensinei antes como fazer isso, sei que você consegue ao menos improvisar essa tarefa simples!

— Onde você vai?

— Até que as garotas da Cédula melhorem eu vou fazer as missões ranque SS, — Ele carimbou o próprio pedido e foi em direção a porta da guilda. — Afinal de contas, também sou um ranque SS.

Yasmin ficou lá, parada e perplexa, enquanto Darukian saia pela porta da guilda.

...

No quarto das garotas, Valery permanecia olhando pela enorme janela do quarto, com seu pensamento distante. Ela ouve alguém batendo levemente na porta. Ao virar seu rosto em resposta ela vê o mestre entrando.

— Tudo bem?

Ela balança a cabeça positivamente. O mestre se aproxima dela, com um meio sorriso.

— Madeleine não acordou ainda.

— Não. Mas os sinais dela estão estáveis. Então acho que não precisamos nos preocupar...

— Você diz isso..., mas...

Ela suspira.

— Mestre... eu estou preocupada... estou preocupada pela forma que ela vai reagir quando acordar...

— Por quê?

— Quando ela desmaiou... ele ainda estava vivo... — após dizer isso o mestre suspirou e ela fez uma pausa. — Eu já tinha perdido meu braço e meu olho..., mas ele ainda estava inteiro... estou realmente preocupada.

Madeleine dormia profundamente na cama. Ela estava tão serena e tranquila que só de olhar para ela os ânimos voltavam..., mas ao lembrar do que a esperava ao acordar o semblante dos dois caia novamente. Valery ainda estava com ataduras sobre a parte direita de seu rosto, que cobriam desde seu olho até a orelha.

— Falando nisso... vocês ainda não fizeram um funeral para ele?

— Não...

— Por quê?

— Não conseguimos achar o corpo, e mesmo depois de tudo, Sirulian não para de treinar e fazer missões... eu queria esperar até que vocês melhorassem para fazer isso...

— Entendo...

— E no fim das contas, até o Darukian decidiu pegar uma missão...

— Está falando sério?

— Sim.

— Então acho que as coisas estão sérias mesmo.

— Bem, você ainda está de cama, é logico que isso ia acontecer...

Eles fizeram uma pausa. O mestre suspirou e logo em seguida sorriu.

— Mas... não é só de más notícias que vivemos. Eu conversei com alguns amigos meus e consegui algo para você.

— O que?

— Uma prótese.

— Ah... isso é... bom...

— Eu sei que não poderá substituir o seu braço original, mas pelo menos você vai poder continuar lutando...

— Eu agradeço, de verdade.

— Mas e agora?

Valery ri. Ela encara o lado de fora da janela com um olhar distante.

— Engraçado me perguntar isso, Yasmin fez a mesma pergunta mais cedo.

— E o que você respondeu a ela?

— Que eu ia seguir em frente.

— E é o que vai fazer?

Ela faz um rosto melancólico.

— É o que tenho que fazer... por ele...

O mestre Darwin lamentava. Ele sabia o que se passava na mente da jovem mulher. Ele tinha certeza que ela não estava tão bem quanto estava tentando demonstrar. Não foi apenas o seu braço que fora arrancado aquele dia, algo muito maior foi tirado. Algo que nunca jamais poderá voltar. Ela perdera muito naquele dia.

— Você o amava, não é?

Ela não deu uma resposta, mas o mestre já a tinha desde o começo. Val suspirou e desviou seu olhar de tudo que a cercava.

— Ele gostava de Madeleine. Por causa disso nunca tive coragem de dizer nada.

— Os sentimentos humanos são complicados...

Ela assentiu.