Aquela chuva pesada caia sobre a pele de Sirulian, o vento balançava as arvores ao redor, levando consigo algumas folhas. A respiração pesada, junto ao cansaço físico e mental faziam o garoto quase desmaiar de sono, mas mesmo com tudo aquilo, as roupas dele não sentiam o frio da chuva, sua pele estava seca, e ao redor de seu corpo uma cortina de fumaça e vapor que era espantada pelas fortes rajadas de fogo emitidas pelo garoto e o vento da chuva.

Já tinha horas que ele estava treinando ali naquele lugar. Uma figura macambúzia assistia a cena de longe, perguntando-se a todo instante se deveria se aproximar dele, mas ela recusava-se a se mexer.

Mas Sirulian não parecia triste. Ele parecia determinado.

Os pés da garota parada ao longe começaram a mexer-se, quase que involuntariamente. Sirulian parou ao vê-la chegando. Ele a encarava ao longe, se aproximando, com um rosto sério e carrancudo.

— O que quer, Yasmin?

— Eu... queria falar com você...

— Eu não posso falar agora, estou treinando.

— É exatamente por isso... que preciso conversar com você.

O garoto não entendera a fala, ou talvez tivesse entendido, só não queria entender.

— Não sei do que está falando.

— Sabe sim.

Yasmin permanecia com seu olhar preocupado em cima do garoto. Em seu rosto escorria a água da chuva, forte e voraz. Era difícil ver através das inúmeras gotas que caiam constantemente sobre eles e ao redor, mas mesmo assim, eles se esforçavam com suas vozes para faze-los se ouvirem. A garota queria a todo custo desviar o olhar dos olhos do garoto, mas sua personalidade impedia isso. Yasmin não conseguia não olhar nos olhos de alguém.

— Eu quero ficar sozinho.

— E é exatamente por isso que estou aqui.

— Yasmin! — Ele parecia mais alterado que o normal. — Você me conhece?!

Sua pergunta transpassou as gotas de chuva e o vapor que ainda evacuava do local.

— O suficiente para saber o que está tentando fazer.

Naquele momento o garoto desviou seu olhar. Ao ficar de costas ele encarou o céu com os olhos cerrados.

— Me desculpe... — sua voz ressoou baixo devido à chuva forte.

— Não entendi! — Ela gritou.

— Eu disse que sinto muito! Deve ter sido difícil para você também. E mesmo assim eu me fechei no meu mundo.

Sirulian se aproximou dela, chegando perto o suficiente para sentir o calor que exalava dela. Perto o suficiente para olhar em seus olhos sem que as gotas atrapalhassem a visão dos dois. Perto o suficiente para se ouvirem sem gritar.

— Me desculpe.

— Não precisa se desculpar.

Eles permaneceram ali, se encarando, por cerca de alguns segundos.

— Val me disse... que vão fazer um funeral para ele. Ainda não fizemos nada, nem um túmulo. Ele merece.

— Não — disse o garoto de forma calma e séria — não merece.

Yasmin ficou admirada com a fala dele.

— Por que?

— Por que ele não morreu.

— O que?

— Você não me entenderia... é algo que temos o costume de fazer em meu clã. De qualquer forma, esqueça o que eu disse.

Ele se desviou dela e começou a se afastar, indo em direção a guilda.

— Onde você vai?!

— Sair da chuva! Recomendo fazer o mesmo!

Yasmin o segue até a guilda. Assim que chegam Yasmin o cutuca, chamando sua atenção. Ela faz sinal para que ele a siga até uma das mesas. Mesmo relutante o garoto o faz.

— O que quis dizer com aquilo?

Sirulian desvia o olhar e encara o teto atrás de Yasmin. Seus olhos pareciam um pouco vazios, mas ele se esforçava para mantê-los sãos.

— No meu clã... nós não temos o costume de fazer funerais.

— Por que?

— Do que adianta um funeral para alguém que já está morto?

Ela o encarou em silêncio.

— No meu clã, quando alguém morria, não entrávamos em luto. Isso por que sabíamos o que o falecido iria querer, sabíamos que ele ia querer que continuássemos a viver.

— Achei que você não tivesse crescido no clã...

— E não cresci. — Constatou. — Mas eu fui criado dentro de seus costumes.

Sirulian fechou seus olhos e abaixou a cabeça.

— Não é como se eu não estivesse triste. Estou chorando por dentro, mas... de que adiantaria chorar? Não é o que ele iria querer de qualquer forma. Fazer de tudo para seguir em frente, essa é a determinação de um Kagayashi.

— Tem algo mais, não tem?

Ele levanta a cabeça e olha de relance para ela. Ele coloca um dos braços por cima da cadeira e senta-se de lado. Desviando o olhar ele a responde.

— Sim... tem.

— Sobre ele não ter morrido...

— Seu legado ainda vive. Isso é o que importa. A forma como ele morreu foi honrosa. Eu não acho que poderia ter uma forma melhor...

— E mesmo dizendo isso...

Ele suspira com um meio sorriso.

— A quanto tempo você me conhece?

— Quase um ano.

— E mesmo assim parece que nos conhecemos a muito mais tempo... — ele faz uma pausa — sim... mesmo dizendo isso, eu ainda não consigo me conformar... foi tão cedo, tão repentino... eu queria ter passado mais tempo com ele... com todos, do jeito que estava.

— Eu também...

— Mas... como eu disse... temos que seguir em frente.

— Sim, mas o funeral talvez não sirva para James, mas com certeza servirá para nós...

Ele a encara confuso.

— O que quer dizer?

— O luto não é apenas um momento de dor, mas de reflexão. “O que deixaremos quando partirmos? Qual o legado que ficará? ”. Perguntas assim...

Ele desvia novamente seu olhar, fitando o nada.

— Bem... — Yasmin se levanta — o funeral será daqui a três horas. Vamos realizar aqui na guilda. Seria legal se você aparecesse. Mandrágora ainda não acordou, e Val vai se sentir sozinha...

Ela o deixa com seus pensamentos. Sirulian refletia naquilo que ela disse, e no que ele faria.

As horas passaram.

Todos da guilda se reuniram mais uma vez para prestar sua homenagem final ao seu companheiro.

Eles fizeram uma lápide que seria levada até o cemitério da Guilda. Em Arctan as pessoas tinham esse costume, de enterrar seus parentes e amigos em locais especiais para ele. Algumas tinham o costume de enterrá-los em cemitérios e fazer pequenas lapides em seus locais preferidos. Pode parecer estranho para algumas pessoas um costume assim, mas é o que eles faziam.

Antes de saírem, Yasmin olhou ao redor, mas não encontrou Sirulian. Ela permanecia ao lado de Val, que estava sobre uma cadeira de rodas.

Ela se entristeceu ao não conseguir ver o amigo.

Ela estava realmente triste por ele.

Eles se preparavam para levantar a lapide.

Foi quando ela o viu chegando.

— Esperem. — Disse ele calmamente para os rapazes que seguravam a lápide. Eles calmamente a colocaram no chão novamente.

O garoto se aproximou da lapide, passando pelas pessoas que iam abrindo caminho para ele. O garoto parou na frente do monólito enorme e o encarou com um rosto sério. Ele se virou para o público e começou a falar.

— Ele não morreu.

— Sirulian... — Val parecia querer pará-lo, mas o garoto fez sinal para que ela parasse sua fala, e continuou.

— Ele não morreu por que nós ainda estamos aqui.

Val ficou surpresa com as palavras dele.

— Aquele momento em que ele salvou Valquíria e Mandrágora, no momento em que ele morreu como um herói... ele não salvou apenas as duas... ele salvou todos nós, ele se sacrificou para que pudéssemos continuar..., mas, ele não morreu.

O garoto se virou e encarou a pedra novamente.

— Eu prometo que não vou deixar você morrer, mestre. Você ainda está vivo — ele apontou o polegar para si mesmo, em seu peito esquerdo — bem aqui. E sei que ainda vai continuar vivendo por muito tempo aqui. Tudo o que você me ensinou nesse tão pouco tempo que passei com você... tudo que você me passou com seu exemplo e dedicação... eu prometo que vou levar comigo. Eu serei o seu legado. Eu levarei o legado do Dragão Vermelho.

Yasmin pôde sentir algo escorrendo pelo seu rosto.

E todos ali o encaravam com admiração.

Yasmin não via Sirulian como alguém maduro até aquele momento. Ela, desde que o conheceu, sempre o viu como um garoto alegre e extrovertido, cabeça dura, esquentado, mas a partir daquele momento essa visão mudou.

Não só ela, mas toda a guilda. Eles viram Sirulian mudar. Ali. Bem diante de seus olhos. A partir daquele momento, aos seus quinze anos, Sirulian já não era mais um garoto. Ele se tornara um homem.

E, se havia alguma dúvida no coração de Yasmin sobre a forma que ela via Sirulian, ela foi embora. Algo despertara em seu coração naquele instante. Sirulian parecia algo mais do que um garoto para ela.

“Vai ser difícil...” pensou a garota “Depois de tudo o que passei aqui, vai ser difícil dizer a eles...”.