Arctan Saga

16 Meu próprio caminho.


Yasmin corria quase sem fôlego. Ela entrou pelas portas da guilda extremamente animada.

— Darukian!

— Calma, ela está descansando.

— Ela já dormiu demais! Me deixe vê-la!

O rapaz riu.

— Tudo bem! Pode ir.

Ela foi até a ala médica da guilda e entrou apressada no quarto.

— Mandrágora!

— Ora, bom dia! — Disse ela com um sorriso.

Yasmin se atirou e a abraçou rindo como uma criança.

— Ei, calma! Eu ainda tenho algumas dores!

— Me desculpe.

Ela se sentou ao lado da cama, em uma das cadeiras.

— Como está se sentindo? Eu vim correndo quando soube. Eu estava no meio de uma missão, então me apressei em completá-la...

— Não precisava disso tudo! — Disse ela em meio a risos. A jovem olhou para Yasmin com um sorriso melancólico. — Yasmin... eu preciso te dizer uma coisa...

— O que foi?

— Eu... não sinto minhas pernas.

A garota ficou em choque quando ouviu isso.

— Mentira...

Mandrágora balança a cabeça negativamente.

— Não é mentira.

Yasmin, boquiaberta, fica sem resposta. Ela cerra os dentes e olha para baixo.

— Ei... não fique triste... — Mandrágora coloca sua mão sob o queixo dela e o levanta, levemente.

Yasmin limpa o rosto com o antebraço e volta ele para o de Mandrágora.

— E agora?

— Bem... eu não sei..., mas não importa. Eu vou continuar meu caminho. Não vou desperdiçar o que James fez. Ele me salvou, a todos nós.

— Sobre isso...

A mulher tapa a boca de Yasmin com o indicador, sorrindo.

— Eu estou bem. Só fiquei... surpresa..., mas estou bem... — Ela riu. — A Val me disse sobre o funeral... Sirulian cresceu tanto...

Yasmin se questionava como elas podiam ser tão fortes. Madeleine e Valery estavam apenas fazendo o que disseram que fariam; seguir em frente. Mesmo tendo essa resposta, Yasmin ainda se questionava em busca de outra resposta. Uma resposta para essa força.

— Sabe... coisas ruins acontecem o tempo todo. Se fossemos parar para olhar para esses acontecimentos ruins toda a vez que eles vêm, desanimaríamos rápido e fácil... talvez desistiríamos a um ponto em que nem iriamos querer mais viver..., mas, sabe... as vezes, nós só nos fechámos ao ponto de não conseguirmos olhar para as coisas boas que também acontecem. Olhamos mais para os eventos ruins do que para os bons e isso torna a nossa visão turva. Por exemplo, eu ainda estou viva. Val também está.

Aquilo deixou Yasmin pensativa. A garota colocou suas mãos sobre as próprias pernas e abaixou sua cabeça. Ao olhar para Mandrágora ela hesitou, mas voltou seus olhos ao encontro dos dela e começou a falar.

— Madeleine...

— O que foi, minha querida? — Respondeu com um sorriso.

— Vou embora. — Disse ela sem rodeios.

Madeleine não pareceu surpresa.

— Quando?

— Assim que me despedir de todos. O mais breve possível. Provavelmente no próximo mês.

Madeleine suspirou.

— Bom, era de se esperar... você ainda tem algo para fazer antes de ser livre.

— Antes de ser... livre...? — Yasmin parecia surpresa com a atitude de Madeleine.

— Sim. Nem eu e nem Val poderíamos te dar o que procura. E para onde você vai?

— Eu não sei...

— Vou fazer outra pergunta, para onde acha que deveria ir?

Yasmin pensou. Ela ficou segundos preciosos pensando. Passou-se quase um minuto.

— Você precisa se descobrir.

— Sim...

Mandrágora colocou seu indicador sobre a testa de Yasmin.

— O que você tem aqui?

Yasmin, surpresa, sorri.

— Você conhece o símbolo do meu clã?

— Uma águia, — ela deixa seu braço cair, — combina com você.

— É exatamente isso. Acho que sou assim.

— Então acho que já tem sua resposta.

Yasmin se levanta sorrindo.

— Alçar voos mais altos que qualquer um. Ir o mais longe que eu puder. Essa é quem eu sou.

— Como uma águia.

Yasmin fechou seus olhos e viajou em seus próprios pensamentos.

— Vocês... os três... sabiam disso desde sempre?

— Sim. Você não é como as pessoas daqui da guilda. Você entrou na guilda com um objetivo em mente, mas conforme o tempo foi passando parece ter se esquecido desse objetivo. Me diga, o que te fez entrar aqui?

— Eu queria viajar pelo mundo. — Constatou abrindo os olhos. — Eu queria juntar dinheiro o suficiente para fazer grandes viagens. Conhecer o máximo de Arctan, mais do que qualquer um.

— Como uma águia...

— Sim...

— E queria também descobrir mais sobre si mesma.

A garota segurou a mão de Mandrágora.

— Obrigada, por tudo.

— Ora, é para isso que eu estou aqui. — Mandrágora levantou suas duas mãos, tocando as bochechas de Yasmin. — Você parece estar maior.

— Eu cresci.

— Em muitos sentidos.

Ela riu. Após aquilo Yasmin agradeceu e saiu do quarto de Mandrágora. Ela foi até cada um presente na guilda aquele dia e disse o que deveria dizer. A todos eles ela agradeceu, e mesmo daqueles que ela não conhecia tão bem ela se despediu. Ao se aproximar do balcão, Darukian já a esperava, com um leve sorriso.

— Então, vai embora.

— Como sabe?

— Te vi falando com algumas pessoas.

Ela assentiu.

— Se acha que é a coisa certa a se fazer... como está o seu coração?

— Bem, mas acho que vou sentir saudades daqui...

— Ei, não é como se não pudesse voltar. Quando você terminar o que vai fazer pode voltar aqui. Aliás...

Ele pega uma pequena folha e entrega para Yasmin.

— O que é isso?

— É um registro de afastamento voluntário.

— Vou repetir a pergunta...

Darukian ri.

— Essa folha te garante continuar sendo membro da guilda, mesmo não participando ativamente de suas obrigações legais.

— Por que está me dando isso?

— Por que você vai voltar um dia, e para não ter que passar por tudo de novo, subir novamente no ranque...

— Entendo... — ela sorri. — Vou guardar isso.

— Você nem precisava levar se não quisesse, nós guardamos uma cópia com a gente. Agora, olha a data de emissão disso.

Ela ficou confusa, mas assim o fez.

— Ei... essa data... foi o dia em que a cédula chegou aqui?

— Foi o dia em que você teve aquela conversa com o mestre.

— Então...

— É, o mestre já sabia sobre você também. Mas, ei, não vá sumir, tudo bem?

Ela sorri.

— E onde está Val?

— Ela e o mestre foram até um amigo dele. Eles foram resolver aquele negócio. ­— Ele apontava para o próprio braço.

— Ah, eu ouvi falar sobre isso... uma prótese mecânica...

— Não é totalmente mecânica, pelo que ouvi... acho que tem magia envolvida também... de qualquer forma eu agradeço ela por isso, vou poder parar de fazer missões em breve graças a isso.

— Quantas já fez?

— Só essa semana cinco.

— O que? Sério?

Ele suspira.

— Eu odeio admitir isso..., mas eu sou bom... forte e esperto... — ele falava em um tom realmente incômodo, como se estivesse enojado de se vangloriar.

— Você é a primeira pessoa que eu conheço que não gosta de admitir isso.

— Mas, deixando isso de lado, tem um destino já?

— Ainda não, mas vou resolver isso durante esse meu último mês aqui.

— Bom, se precisar de ajuda, eu estou aqui.

Ela se despede de Darukian e vai até seu quarto. A noite caia sobre Lionhills. No caminho até seu quarto ela refletia sobre muitas coisas. Darukian parecia um sujeito incrivelmente forte, e realmente era, mas não gostava de lutar e optara por ajudar com a parte burocrática da guilda por tantos anos. Era o caminho que ele escolhera a si mesmo.

Yasmin se despiu e rapidamente vestiu um vestido leve, algo que a deixava confortável. Ela sentou-se em sua escrivaninha e abriu o livro infantil a qual analisava quase que diariamente. Ela colocou sua mão sobre a testa e se inclinou sobre as páginas, lendo cautelosamente cada uma. A garota parecia entediada enquanto analisava as folhas, a qual já fizera tantas e tantas vezes que parecia não prestar muita atenção ao que fazia. Era quase uma rotina. Após isso ela fechou o livro e pegou uma folha e uma caneta. Uma vez por mês ela escrevia para sua amiga Marly e para sua mãe e seu irmão.

Nas cartas ela contava suas aventuras e momentos. Dessa vez ela tinha coisas difíceis para dizer.

Após escrever ela reabriu o livro, quase que de forma orgânica e sem perceber.

— O que eu estou fazendo? Já li isso...

Ela atentou-se para o número da página.

— Espera um pouco...

Yasmin havia pegado um hábito quando analisava o livro. Ela havia lido ele tantas vezes que desenvolveu uma técnica para agilizar o processo. Ela tentou decorar as páginas mais importantes, assim ela poderia ir direto para elas quando quisesse uma informação específica. Mas ela nunca havia reparado em um pequeno detalhe, que agora recaia sobre sua mente.

— Esse número tem uma fonte diferente...

Ela começa a foliar o livro para trás, atentando-se para o rodapé, para o número das páginas. Rapidamente ela pegou uma folha e começou a anotar as páginas que isso acontecia e os números que eram diferentes.

— Página 3, número 3. Página 10, número 0. Página 16, número 1...

Ela conseguiu a seguinte sequência: “03-3, 10-0, 16-1”.

— Ainda não está certo... ei... — Ela reparou em algo no texto dessa página. Uma das letras também parecia estar em outra fonte.

“N”

— Não pode ser...

Ela pensou e rapidamente começou a virar as páginas, terminando de anotar todos os números e letras.

No final o número era esse:

033 xii3 100 161 N 888 xv121 1211 E

— Isso são coordenadas? Não... o sistema de coordenadas atual não tem tantos números e letras... a não ser que não seja atual...

Yasmin se impulsionou para fora da cadeira e correu em direção a biblioteca. A garota passou pelo salão principal correndo enquanto os olhares passavam por cima dela.

— Ei... foi impressão minha ou a Yasmin acabou de passar correndo de pijama por aqui? — Comentou Jotiel, cético.

— Sim... — Darukian tinha um sorriso surpreso no rosto.

Yasmin encarou a bibliotecária com impaciência.

— Coordenadas e métodos de mapeamento antigas! — Ela disse tão rápido que a mulher quase não entendeu.

— O que?

— Livro sobre coordenadas e métodos de mapeamento antigas!

— Ah... — ela se atrapalhou um pouco mexendo no livro de registros, apressadamente. — Fica... fica por aqui...

A mulher conduziu Yasmin pelas prateleiras gigantescas de livros até uma sessão de livros antigos. Ela se esticou em cima de uma estante para pegar um livro específico na parte de cima da biblioteca. Assim que desceu da escada Yasmin se apressou para pegar o livro da mão dela.

— Cartografias perdidas...

— Tudo bem... vai retirar esse?

— Preciso retirar esse livro.

— É que... você fez uma retirada a uns meses e não repôs...

A garota hesitou. Ela realmente não tinha pensado sobre isso.

— Está tudo bem...

Yasmin olhou por cima do ombro e viu o dono da voz que surgira de repente. Mestre Darwin se aproximou com um sorriso e tocou o ombro da garota, olhando para a bibliotecária.

— Eu estou dando aquele livro para Yasmin. E também quero que ela tenha acesso total a essa biblioteca a partir de agora.

— Ah, tudo bem senhor... nesse caso acho que não tem problema...

A pequena olhou para os olhos do mestre surpresa. Ela sorriu e agradeceu-o.

Apressada ela correu para o balcão de Darukian no salão principal da guilda.

— Mapas!

— Ei... — Darukian tinha um sorriso espantado no rosto. — Você quer um mapa...

— Sim!

Ele mexeu rapidamente embaixo do balcão, procurando alguma coisa que pudesse ajudar.

— Sabia que seu identificador tem um mapa embutido? — Disse ele colocando uma pilha sobre a mesa.

— Preciso de um de papel!

— Tudo bem... — ele puxou um pequeno papel dobrado dela.

— Esse mapa é apenas da região do país do vento, preciso de um mapa mundi também.

— Acho que esse serve...

Ele deu um outro pano gigantesco e grosso dobrado para ela. Tinha quase o tamanho de um tapete, o tamanho de um quadro negro.

— Perfeito, obrigada, Darukian!

— Ei, você percebeu que está de pijama, não é?

Ela olhou para ele sem reação, com os olhos levemente mais abertos que o normal. Ela começa a andar levemente em direção ao dormitório, de forma a não chamar muita atenção, nitidamente envergonhada.

— Essa garota...

Assim que chega no quarto ela estica os dois mapas sobre o chão antes mesmo de fechar a porta... aliás, ela nem o faz.

Todos da guilda que passavam pelo corredor do dormitório viam a garota apenas com o vestido branco, descalça, com um papel na boca e com uma caneta na orelha esticando o mapa e analisando-o cautelosamente com o livro cartográfico na mão.

— Ei, Yasmin... — A voz que vinha do lado de fora era familiar para ela.

— Val? Você já voltou? — Ela tem um devaneio e franze a testa, lembrando que fora mestre Darwin quem a ajudou na biblioteca, ela dá de ombros. — Esquece, se o mestre já voltou... enfim, entre!

— O que está fazendo? — Disse ela enquanto adentrava o recinto.

— Eu descobri uma pista no livro, acho que pode ser uma localização. Depois de tanto tempo pesquisando acho que finalmente posso ter uma direção.

— Ah, isso é bom!

Yasmin não tinha reparado direito, pois não olhou para Val enquanto falava apressada, ela estava tão focada em seus afazeres que nem olhou para o rosto dela enquanto entrava. Val permaneceu em silêncio, vislumbrando a cena de Yasmin percorrendo os dois mapas com cuidado. Yasmin finalmente olhou para a mulher parada a porta, a admirando.

— Ei, Val... seu rosto...

Valery estava sorrindo quando Yasmin disse isso, mas ela soltara uma interjeição ao ouvi-la.

— Sobre isso... acho que o meu braço foi um choque muito grande, e acabou tirando a atenção desse detalhe...

Valery usava uma máscara de couro que cobria o seu olho direito e ia até a sua orelha, cobrindo toda a lateral de sua cabeça. Ela havia tido queimaduras na parte direita do rosto que atingira a região entre seu olho e sua orelha, pegando parte do cabelo também.

— O mestre disse que vai me dar algo mais bonito depois..., mas por enquanto acho que vou usar isso... de qualquer forma o meu cabelo já começou a crescer de novo, então acho que posso esperar ele ficar grande para usá-lo para tampar a marca...

Yasmin voltou sua atenção para o braço de Val, ficando levemente surpresa com o que viu.

— E esse...

— Ah, sim, é legal, né? — Ela mexe de forma natural o braço mecânico que ganhara. — Não é como um braço de verdade, eu não consigo ter sensações com ele, mas já é alguma coisa. O engraçado é que como ele é mais pesado, eu tenho que ficar usando um peso do lado esquerdo do corpo, para poder ajustar o equilíbrio. — Ela mostrou algumas argolas que tinha ao longo do braço esquerdo. — Acho que agora é questão de acostumar-se.

Yasmin recai sobre si mesma e volta a fazer sua análise. Val sorri e chega um pouco mais perto.

— Então, o que descobriu?

— Coordenadas, mas são muito diferentes de coordenadas comuns... acredito que seja algo antigo. — Yasmin suspira. — É tão complicado... acho que estou esquecendo alguma coisa...

Ela coloca a mão sobre o queixo e fica pensativa. Subitamente ela se atira sobre a cadeira e volta a foliar o livro infantil. Valery assistia calada a cena, admirada com o nível de concentração que Yasmin possuía. A garota rapidamente puxa a caneta de sua orelha e começa a passar sua tampa pelas gravuras do livro, de forma a analisá-las enquanto fazia isso.

— O que exatamente está procurando, detetive branca?

Yasmin sorri ao ouvir o título, mas continua concentrada analisando as gravuras.

— Eu não tinha levado em consideração que as imagens do livro poderiam ter algo escondido também. E acho que é isso que elas têm. Pelo que eu estou vendo, o método usado para escrever essas coordenadas é um método antigo que fora usado durante a grande guerra mágica, há quase mil anos atrás... faz sentido se formos olhar do que a história desse livrinho bobo nos fala. E no fim das contas é só um livro infantil... — diz ela com sarcasmo. — Bem... o fato é que esse método não usava somente números e letras, ele também usava algumas figuras especificas que eram usadas para decodificar as coordenadas.

— Nossa, e você sabe disso tudo como?

— Acabei de ler nesse livro que peguei na biblioteca.

— Você lê rápido demais! — Ela disse de forma fofa.

— Eu trapaceei! — Yasmin diz isso com um sorriso. — Eu usei meus olhos de águia.

— Essa é uma habilidade útil!

Val dá um passo para trás, com os braços atrás do corpo.

— Bem, acho que vou deixar você sozinha, preciso resolver algumas coisas...

— Tudo bem, eu te vejo depois... ah, é verdade, — ela se vira e olha para Val, — acho que esqueci de te falar, eu...

— Tudo bem, Darukian me falou, não precisa se despedir agora.

Yasmin fica surpresa, mas entende e sorri.

— Quando você for partir você se despede. Por enquanto ainda fazemos parte da mesma guilda.

— Sim...

— Então, até mais! — Val sorri e se retira do quarto, deixando Yasmin continuar a pesquisa.

Valery vai em direção ao quarto de Mandrágora, entrando sem bater. Ela se aproxima de Madeleine, que quase não percebe sua entrada, Val se senta em uma cadeira ao lado da cama dela e a olha nos olhos.

— Ei... — Madeleine encara Val de forma atônita. — Está chorando?

— O que? — Val coloca a mão abaixo do olho esquerdo, sobre sua bochecha, e sente as lágrimas sobre seus dedos. Ela encara sua mão levemente molhada e sorri. — Nem tinha reparado...

— O que houve?

Val balança a cabeça, com um sorriso.

— Não é nada..., mas e você?

— Eu... estou bem.

Valery suspira.

— Pare com isso, Madeleine. — O tom de Val era complacente. — Pare de usar essa sua máscara.

— Não estou entendendo, é você quem está de máscara aqui. — Ela falou isso com risos. Mas antes mesmo de terminar a frase ela fora surpreendida com um abraço de Val. — Ei...

Valery aperta o abraço, obrigando Madeleine a levantar suas mãos, respondendo ao abraço da amiga. Madeleine soluça e descansa sua cabeça sobre o ombro de Valery.

— Se você não quiser que ninguém te veja chorando, tudo bem. Dessa posição eu não consigo te ver.

— Val... — A voz de Madeleine parecia tremula. — Por que ele foi tão idiota?

— Porque ele era o James.

— Por que ele não foi outra pessoa àquela hora?

— Bobinha... — Val ri. — Ele não podia ser outra pessoa. Se ele fosse outra pessoa não seria o herói que a gente tanto amou...

— E mesmo assim... eu não pude fazer nada... de novo, eu fui só... só um peso...

— Não é verdade.

— É sim! Eu sempre fui um peso para vocês dois...

Valery sente Madeleine soluçar e se atrapalhar em sua fala. Ainda abraçadas Valery passa levemente a mão sobre a cabeça da amiga.

— Eu não posso te dizer que tudo vai ficar bem, Madeleine. Nada do que eu disser agora vai retirar essa dor do seu peito. Mas uma coisa eu posso prometer para você, aqui, agora. Eu vou fazer de tudo para fazer as coisas ficarem bem, para retirar essa dor e te dar um motivo para continuar vivendo. Vou fazer isso por ele também.

Elas permaneceram ali por mais alguns minutos, abraçadas. Madeleine respira fundo e suspira. Ela afasta carinhosamente Valery, limpando o próprio rosto com o antebraço e olhando nos olhos da amiga.

— Não.

Valery a encara confusa.

— Qual o problema?

— Você não pode deixar de viver por minha causa.

— O que quer dizer?

— Eu já fui um peso para vocês por muito tempo. Valery, — Madeleine segura a mão da amiga — existem muitas pessoas aqui na guilda que podem cuidar de mim. Você não precisa se dar ao trabalho de fazer isso.

— Mas eu quero.

— Não, mas eu não quero. — Mandrágora não mais chorava. Agora ela estava sorrindo, com uma voz mansa e suave.

— Madeleine...

— Eu sei o que você sentia por ele. E sei também que não quis se declarar por minha causa...

— O mestre te disse isso?

— Não, eu sempre soube.

As duas se entreolham por alguns segundos.

— Eu vou ficar bem.

— E o que você sentia pelo James?

— Ora... ele era um bom amigo. Mas talvez eu tivesse me apaixonado por ele, se não fosse por uma outra pessoa...

— Está falando de mim?

— Não. Uma... outra pessoa. — Ela desviou o olhar com um sorriso bobo no seu rosto rubro.

— Ei... você está apaixonada por alguém, Madeleine?!

— Talvez...

— Quem é?! Me conta! — Valery sussurrava com ansiedade, e um sorriso jocoso no rosto.

— Não vou dizer! Mas posso dar uma dica... ele é da guilda, e é bem forte...

— Não acredito... desde quando você gosta dele?

— Já tem muito tempo. Mas acho que eu nunca tive coragem nem sequer de criar algum laço com ele. Sempre o observava de longe, mas nós nunca fomos muito próximos...

— Ei... nós duas estamos parecendo adolescentes...

— Sim, falando de garotos assim!

Elas olham para as próprias mãos.

— Valery, me promete... me promete que vai continuar vivendo a sua vida. Eu quero que você continue sendo quem você é. Não faça isso apenas por você, faça por mim e por ele também. Ele também iria querer isso.

Valery suspira e fecha seus olhos.

— Tudo bem. Eu vou fazer isso.

Em um local longínquo dali um homem descansava sobre a visão de uma floresta. De dentro de uma caverna ele observava a imensidão verde sendo coberta pela escuridão da noite. Um homem se aproximava com uma folha em mãos.

— Mestre! Tenho notícias da ordem!

O velho levantou levemente a sobrancelha e olhou por cima dos ombros para o rapaz às suas costas.

— Diga.

— O conselho mágico exterminou a horda. Eles venceram. O canino de jade também caiu, parece que ele morreu.

— Do lado inimigo...?

— Eles tiveram algumas baixas também, a mais marcante foi a cédula vermelha. O dragão vermelho caiu, e as outras duas ficaram com sequelas também.

— Pelo visto aquela quimera gigante que soltamos em Lionhills não foi um desperdício de recursos, como muitos acharam que seria... os dados adquiridos foram bem úteis. E a pesquisa?

— Foi salva antes deles chegarem. Aparentemente eles acreditam que resolveram o problema, que parece ter ficado conhecido como crise canina.

O homem solta um leve sorriso.

— Bem... deixe-os acreditar que venceram, então. — Ele volta a olhar para a floresta. — Cessem todas as pesquisas relacionadas com o ocorrido.

— Mas... senhor?

— Não se preocupe. Acho que tivemos dados excelentes. E afinal de contas, se continuássemos a agir agora que a crise foi resolvida, eles continuariam atrás de nós. Deixe-os pensar que acabaram com o problema. Tenho outro trabalho para você agora. Descanse, amanhã lhe contarei os detalhes.

O jovem parece ficar inconformado com isso, mas ele fecha seus olhos e se vira de volta para a caverna.

— Sim, senhor.