Arctan Saga

8 Inesperadamente Forte.


Naquela mesma noite a guilda realizou uma pequena festa para comemorar a volta da cédula vermelha. Por mais que Yasmin andasse pelo lugar naquela noite, ela não parava de escutar um único assunto: A incrível luta do garoto Kagayashi contra James, o dragão vermelho.

— Meu momento favorito foi quando o garoto tentou atacar o James e ele pulou por cima dele!

— Aquele momento foi incrível mesmo!

Yasmin estava sentada em seu lugar de sempre no balcão. Há alguns metros estava James sentado junto do garoto, conversando. Ela olhava para os dois tentando imaginar o quão incrível deveria ter sido a luta.

Yasmin parecia tão distraída que nem percebeu aquela mulher chegando e apertando suas bochechas.

— Por que essa carinha tão séria?!

— Mandrágora...

— O que foi, pequena? Está tão séria. Alguma coisa te incomodou?

— Não foi nada. Só estou pensando nessa luta.

— Ah, é mesmo, você não viu né?

— Foi mesmo tão incrível quanto todos estão dizendo?

A mulher se sentou ao lado da garota com um sorriso carismático.

— Pode ter certeza. Aquele garoto fez coisas que nenhum manipulador de fogo fez antes..., mas antes disso, ele conseguiu aguentar vinte minutos com o James, isso por si só já é incrível.

— Como assim fez coisas que nenhum manipulador de fogo fez antes?

— Foi uma técnica que ele usou durante a luta. Parece ter sido ele mesmo que criou.

— Técnica? Que tipo de técnica?

— Bem... eu não sei explicar direito... eu acho que você sabe como funciona a manipulação de outros elementos, certo?

— Sim, o meu elemento do vento é bem específico com algumas coisas, mas sei que com os outros elementos têm algumas restrições.

— Bom, a magia tem a sua base, que é igual para todo mundo: Tem o inventário, que é uma alocação de espaço dentro do seu limite de mana para guardar objetos a fim de usá-los mais tarde. Dependendo do peso e do tamanho do item ele bloqueia parte do seu mana máximo para guardar aquele item. Tem a aura mágica, que é um manto que cobre todo o corpo do usuário e seus equipamentos, como roupas e espadas; e cada elemento possui uma aura diferente. Além disso, tem os elementos com a qual cada um tem afinidade...

— Sim, essas coisas eu já sei.

— Bem, voltando a falar sobre as partes específicas, por exemplo, você não consegue manipular um fogo que não é seu. Isso é básico, já que o fogo contém o mana do outro manipulador, seria impossível fazer algo assim...

— Sim.

A mulher fez um leve silêncio e sorriu.

— Pois bem... o garoto fez exatamente isso.

Yasmin ficou surpresa ao ouvir isso.

— Ele manipulou o fogo de James?

— Sim.

— Como?

Mandrágora balançou a cabeça em sinal negativo.

— Não faço ideia.

Ela olhou para os dois sentados há alguns metros deles. James parecia estar se divertindo com o garoto, enquanto tomavam algo em suas canecas. Yasmin não conseguia entender direito o que Mandrágora acabara de dizer.

Para qualquer pessoa seria algo impensável, inconcebível pensar que um garoto conseguiu achar uma forma de manipulação do fogo que nem mesmo os mais experientes manipuladores conseguiram antes. Mas mesmo Yasmin sabia como a magia era algo misterioso e incerto. A sua habilidade “Chai Ken” não a deixaria esquecer de tal.

Após aquilo, Yasmin continuava a vigiar o garoto, enquanto imaginava como ele podia ter ficado tão forte. Até que em um determinado momento, ele se levanta da cadeira e começa a andar para algum lugar. Yasmin imediatamente o segue. Ele a leva até os corredores da guilda, que estavam relativamente vazios, pois estavam todos no salão principal, festejando.

Yasmin se aproxima mais do garoto e o chama, assustando-o.

— Eu quero falar com você.

Ele olha para ela pasmo, um pouco nervoso e tremulo.

— Ah... oi...

— Seu nome é Sirulian certo?

— Sim... eu estou um pouco ocupado agora... — disse ele se virando. Rapidamente Yasmin o segura pelo braço.

— Espera. Por que toda vez que você chega perto de mim você se torna tão evasivo?

— Bem... eu... é que... você é uma Tsuyoshi. E eu sou um Kagayashi.

— Não é só por que nossos clãs são rivais que nós também temos que ser.

O garoto desfez o rosto evasivo e começa a olhar para os olhos dela.

— Até porque, eu nem faço mais parte do clã. E pelo visto você também não.

Sirulian sorriu e pareceu ficar mais relaxado.

— Tem razão... eu sou meio idiota mesmo! — Ele começa a bater na própria cabeça com a mão fechada e com um sorriso no rosto.

Yasmin o solta e estende sua mão para ele. O garoto aperta a mão dela e os dois se cumprimentam. Dessa vez o garoto parecia muito mais confortável que qualquer outro momento que eles se falaram.

— Você parece uma garota legal. Como é seu nome mesmo?

— Yasmin Tsuyoshi.

— Yasmin... é um nome bonito. Combina com você.

— Obrigada. — Yasmin começa a corar.

— Ah — Ele começa a se atrapalhar com as palavras. — Eu não quis dizer que você é bonita! Não... Eu não estou dizendo que não seja... Quer dizer, você é... Mas... ah, só esquece que eu disse isso! — Ele começa a coçar a própria cabeça.

Yasmin solta uma leve risada.

— Mudando de assunto... — Diz ele tentando se esquivar daquela cena vergonhosa. — Você viu minha luta hoje?

— Infelizmente não..., mas pelo que estão dizendo foi incrível.

— Bem... acho que sim...

— Não parece satisfeito.

— Por que não estou... James era muito mais forte que eu...

— Isso é natural. Ele é bem mais velho e experiente.

— Sim..., mas queria ter conseguido dar algum dano nele...

— Eu acho que você só está pensando demais. Você ficou vinte minutos com ele, isso é muita coisa.

O garoto abaixou a cabeça e ficou pensativo.

— Bem... eu vou voltar para lá. — Disse Yasmin se virando.

— Yasmin...

Ela vira seu rosto em resposta ao chamado dele.

— Acha que eu posso me tornar tão forte quanto o James algum dia?

— É claro que pode. — Ela abre um grande sorriso para ele. — Até porque você já é mais forte que muita gente aqui da guilda.

— Se está se referindo ao Jotiel, saiba que aquilo foi um golpe de sorte. Eu poderia ter perdido fácil aquela luta.

— Verdade, ele é bem forte...

Sirulian, olhando para o chão, fica pensativo. Yasmin percebe a leve insegurança do garoto, ela então segura o braço dele e dá um pequeno puxão.

— Vem.

— Para onde?

— Vou te pagar alguma coisa. Considere um presente, pela nossa nova amizade e por você ter dado o seu melhor naquela luta.

O garoto olha surpreso para o lindo sorriso de Yasmin, sendo contagiado por ele.

Assim que chegam ao salão principal são surpreendidos com um belo som. Yasmin, ao virar sua cabeça para o balcão, vê o que deveria ter sido uma das cenas mais incríveis que ela viu no dia. Todos estavam em silêncio, enquanto uma única pessoa entoava uma bela canção. A música tinha um tom melódico e suave, acompanhada por um leve som de piano ao fundo, e parecia ecoar pela sala como uma brisa de verão.

Quem cantava era ninguém mais ninguém menos que Mandrágora, que estava com seus olhos fechados, enquanto transmitia seus sentimentos através do lindo som de sua voz.

Yasmin parecia hipnotizada, e ficara sem palavras, enquanto parada, segurava o braço do garoto, que parecia estar na mesma situação que ela.

A voz de Mandrágora era simplesmente incrível.

Yasmin pôde ver Valquíria ao piano, concentrada.

— Não sabia que ela cantava tão bem... — comenta o garoto.

— Eu me lembro de algumas pessoas falando sobre ela cantar. Mas é mesmo algo incrível de ouvir...

Yasmin sente algo encostando em seu ombro. Ao atender o toque ela se depara com James, que descansava suas mãos sobre os ombros das duas crianças.

— Tinha bastante tempo que a gente não parava para se divertir assim. — Comenta James. — Acho que trabalhar demais não faz bem...

Yasmin sentiu algo na voz de James que a incomodou. Aquelas palavras pareciam um desabafo, embora seu tom não correspondesse a isso...

— Mas deixando isso de lado... que acharam da Mandrágora?

— Ela canta muito bem! — Diz o garoto animado.

— Verdade, não é?

— Ei, senhor James... — O garoto olha para ele com os olhos brilhando. — Será que posso te pedir um favor?

— O que foi garoto?

— Me treine!

James fica surpreso com o pedido repentino, mas logo abre um sorriso.

— Bem... você já se provou digno de tal ato... quer mesmo treinar comigo?

— Sim!

— Nesse caso...

O garoto começa a comemorar.

— Mas tenha em mente que não é um treinamento fácil...

— Sei disso! Vou me esforçar!

James sorri e acaricia a cabeça dos dois.

— Tudo bem então. A gente conversa melhor amanhã sobre isso. Vou deixar vocês dois sozinhos, pega leve garoto...

Ele começa a andar em direção ao balcão, enquanto os dois garotos tentavam entender as palavras que ele dissera... até que Yasmin, subitamente, solta o braço de Sirulian.

— Não é o que você está pensando! — Grita Yasmin enquanto se corava toda.

James, sem olhar para trás, apenas levanta sua mão aberta em sinal de quem entendeu. O garoto tentava entender a cena, mas sem muito sucesso.

No dia seguinte, Yasmin se dirige ao balcão, como sempre fazia. Darukian já estava em seu posto, servindo algumas pessoas. Ele parecia nunca tirar folga...

— Bom dia, Yasmin, como está se sentindo hoje?

— Bem. Obrigada por perguntar.

O rapaz enche um copo com suco para a garota. Ela o agradece.

— E então, vai fazer alguma missão hoje?

— Não sei...

— Oh, é mesmo...

Yasmin levanta levemente a sobrancelha em resposta.

— O que foi?

— Eu quase me esqueci de uma coisa... me dê o seu identificador, por favor.

Ela parecia meio desconfiada, mas ela o obedece, colocando o aparelho sobre a mesa.

Darukian o coloca em um aparelho atrás do balcão e começa a mexer nele. Depois disso ele o entrega novamente para Yasmin.

— O que foi isso?

— Por que não checa?

Yasmin, desconfiada, começa a mexer em seu identificador. Ela fica surpresa ao observar seu ranque.

— Ranque... A?

— Sim.

— Por quê?

— Porque o mestre decidiu te promover.

Ela fica surpresa com a atitude. Mas levando em consideração a forma que ela tem trabalhado e o quão forte ela tem ficado, era natural. A garota as vezes fazia três missões por dia. Era natural para ela, estava se acostumando a isso.

— Já que você é ranque A agora, preciso te explicar algumas coisas.

— Sim...

— A partir de agora, você faz parte dos membros principais da LionHeart. Por isso, vai ter que começar a fazer missões de convocação.

— Missões de convocação?

— São missões especiais, dadas a você pela própria guilda.

— Entendi...

— Todo guerreiro sonha em se tornar classe A um dia somente para fazer essas missões. Em geral ela funciona como as missões normais, mas como os clientes sempre são relacionados ao governo ou ao conselho magico elas sempre pagam, pelo menos, cinco vezes mais que missões de mesmo nível de dificuldade.

— Sério isso?

— Sim!

— Parece bom...

— Bem... o único ponto negativo é que elas são obrigatórias, então se você receber uma, terá que fazer.

— Não é problema para mim...

— Sei que não. Bom... geralmente elas são dadas em equipe, então você vai acabar tendo que trabalhar com muitas pessoas diferentes... isso também significa ter que trabalhar com pessoas que você não gosta.

— Não tenho problemas com ninguém aqui na Guilda...

— Por enquanto não. Mas deixa isso para lá. Como você agora foi promovida, eu estava pensando em te dar uma missão de convocação..., mas vou deixar você decidir se quer fazer, só dessa vez.

— Bem... não vejo problema. Até porque você disse que eram obrigatórias.

— Mas a primeira a gente dá essa regalia. — Darukian piscou para ela com um sorriso sugestivo.

— Por mim tudo bem.

Darukian folheia alguns papeis que estavam guardados abaixo do balcão, enquanto cantarolava uma música.

— Aqui, essa daqui. É um costume da LionHeart colocar pelo menos uma pessoa mais experiente na equipe em missões de convocação. E já que essa é a sua primeira, isso não vai ser diferente.

— Entendo.

Darukian pega uma espécie de megafone debaixo do balcão e um outro aparelho, similar a um radar. Ele começa a mexer no radar apertando os botões dele.

— Primeiro eu tenho que ver quem está na guilda no momento... ah... — Ele abre um leve sorriso. — Perfeito!

Colocando o megafone sobre boca, ele começa a falar.

— Os seguintes nomes compareçam ao salão principal para uma missão de convocação.

Yasmin parecia surpresa, apesar de ele estar falando no megafone, sua voz não parecia tão mais alta. Mas aquele era um megafone magico, que transportava a voz por entre a guilda sem precisara necessariamente estar alto.

Darukian olha para a garota e sorri.

— Yasmin Tsuyoshi. — A jovem sorri de volta. — Sirulian Kagayashi.

Yasmin fica surpresa ao ouvir o nome do garoto.

— Ei, quando foi que ele foi promovido?

Darukian afasta seu megafone.

— James o recomendou para o ranque A.

Yasmin fica surpresa com a informação. Darukian, levantando o megafone novamente, continua.

— Jotiel d’Lakart.

— Jotiel?

— Isso é tudo.

Darukian guarda o megafone sob o balcão e sorri para a garota novamente.

— Ele é o guerreiro de Ranque A mais experiente.

A jovem se debruça levemente sobre o balcão, enquanto espera pelos dois.

Após poucos minutos eles dois aparecem. O garoto estava acompanhado de James, que parecia curioso.

— Olha o que eu te disse garoto, uma missão de convocação.

— Mas eu nem ao menos tive a chance de começar meu treinamento. — Disse ele desapontado.

— Essa é sua primeira missão de convocação, Sirulian. — Darukian se dirigia ao garoto com um sorriso. — Se você quiser pode não pegar ela...

Ele olha para Yasmin, que nesse ponto o observava com um rosto curioso.

— Acho que não tem problema...

Jotiel, por sua vez, parecia irritado.

— Por que eu tenho que fazer uma missão com duas crianças?

— Duas crianças que são capazes de te deixar no chão. — Diz Darukian com um tom provocativo.

— Já falei que aquilo foi um golpe de sorte! — Ele gritava enquanto gesticulava nervoso. — Além do mais! Eu sou o mais experiente dessa droga de guilda!

— É exatamente por isso que te chamei — diz Darukian calmamente com um sorriso.

Jotiel dá um grunhido irritado e vira o rosto emburrado.

— Bem, bem... vocês podem começar imediatamente se quiserem. É uma missão de caçada, ranque “A”, nível de urgência é médio. Acho que não tem problema para vocês... outra coisa, garotos, que esqueci de mencionar: essas missões te garantem o uso gratuito do Warp.

— Isso vai ser útil... — Comenta Yasmin com um tom baixo.

James coloca a mão sobre a cabeça do garoto.

— Boa sorte! Tô esperando você aqui na guilda!

— Vou terminar isso bem rápido para poder começar meu treinamento!

— Esse é o espírito! Ei, Jotiel. — O sorriso cativante de James se esvai, sendo substituído por um olhar ameaçador. — Toma conta desses dois, ouviu?

Jotiel faz um rosto repulsivo de medo.

— Tudo bem... — Diz ele em um tom baixíssimo.

James se vira e vai embora.

Após aquilo os três se arrumam e vão em direção ao Warp. Eles são teleportados para a região de Gargântua. Era uma região localizada no reino da água, que vivia coberta por fortes neblinas e tinha um tom bem sombrio. Por causa disso, a paisagem era sempre morta, a vegetação era úmida, mas com um tom podre, como um pântano.

Os três estavam sobre uma estrada de terra que era rodeada por uma floresta rala e morta.

— Prestem atenção! — Dizia Jotiel, enquanto andava na frente, sem olhar para trás e com o dedo indicador apontado para cima. — Se vamos fazer isso vamos fazer direito! Eu sou o líder aqui, então escutem tudo o que eu disser! Não façam nada que eu não mandar! Primeira regra: minhas ordens são absolutas. Segunda regra: Vocês me atendem como chefe, ou líder, ou mestre, ou supremo capitão, ou... — ele continuava a falar, enquanto os garotos se entreolhavam com rostos entediados.

— Ele fala demais... — Comenta Sirulian em um volume baixo.

— Infelizmente, em uma coisa ele tem razão, ele é quem manda nessa missão...

Sirulian suspira.

— Mas é engraçado, todos dizem que ele é forte e tudo mais..., — Diz Yasmin. — Mas ainda não vi ele lutando...

— Agora que você disse...

— Sabe qual o elemento dele?

— Não...

Yasmin encara as costas de Jotiel, que permanecia falando asneiras.

— Eu esqueci de perguntar. — Diz ela com um volume mais alto. — O que exatamente estamos caçando?

Jotiel fica pensativo. Ele então pega a folha da missão.

— Deixa-me ver... trolls... lobos... Worgs... uma espécie de fada negra... parece que tem um ninho de quimeras aqui perto que é guardado por umas criaturas estranhas... acho que temos que acabar com o que vier pelo caminho, é basicamente isso...

— Então não tem muitas regras...

— É só descer o pau! — Grita Jotiel com um sorriso.

“Ele é bem deselegante...” pensava Yasmin, “Mas... se ele é tão forte quanto dizem acho que não tem problema...”

Após alguns minutos de caminhada eles se deparam com uma área mais aberta. Aquela neblina suave tornava a visão um pouco assustadora. Era possível ouvir o farfalhar das arvores podres se mexendo com a brisa. O caminho pela qual seguiam parecia ser interrompido pela grande área aberta, que parecia ter sido feita de forma não natural... eles veem várias carroças destruídas e alguns corpos espalhados pelo local, alguns pareciam ter dias que estavam ali, outros pareciam ser bem mais recentes. Era uma visão assustadora.

— Fiquem atentos...

Os dois garotos acenam com a cabeça. De repente eles sentem o chão tremer levemente, e algumas rochas começam a se mover. Logo abaixo de Jotiel, uma mão feita de pedras o agarra, fazendo um movimento rápido e desajeitado ela o joga para longe.

— Senhor Jotiel!

Em meio a um grito mais agudo do que o normal, Jotiel desaparece por de trás das arvores podres da floresta. Os dois garotos dão as costas um para o outro, ficando de guarda.

— São trolls de terra! Tome cuidado Sirulian.

Aquelas criaturas grotescas começam então a emergir da terra, enormes monstros feitos de barro, rochas e minérios terrestres. Eles pareciam grandes e desengonçados. Eles viram um, dois, quatro surgirem... quando se deram conta já estavam cercados por um número que já não podiam mais contar.

— Yasmin... são muitos...

Uma das criaturas ataca os dois com um soco lento, fácil de se esquivar, mas logo após o ataque, outro veio, e outro, e outro.

— Estão atacando em conjunto? — Yasmin se esforçava para desviar dos ataques sequenciados.

— Se fossem menos seria mais fácil!

Yasmin segura a mão de Sirulian e se impulsiona dando um pulo. Uma explosão de vento a faz subir rapidamente.

— Uau! Não sabia que podia fazer isso!

Os dois começaram a sobrevoar o local.

— Viu onde Jotiel foi parar?

— Não... cuidado! — Antes que ela pudesse ver o que os atingiram, os garotos despencam em direção ao chão. Assim que tocam o solo ele desaba, os fazendo afundar em uma enorme cratera que fora coberta por rochas, pedregulhos e pedaços partidos de arvores.

Em meio a poeira e o leve barulho de pedrinhas rolando, podia-se ouvir o som da tosse dos dois garotos. Eles agora estavam em uma pequena caverna.

— Você tá legal? — Sirulian se levanta, batendo as mãos sobre as roupas, a fim de limpá-las.

— Acho que machuquei meu ombro direito. — A garota estava prostrada no chão, com a mão sobre o ombro.

— Deixa-me ver... — Sirulian chega perto dela e analisa a ferida, acendendo uma pequena chama em sua mão. — Isso não está nada bom... acha que consegue lutar?

— Não sei... acho que sim...

Sirulian olha ao redor. Ele analisa o buraco pela qual entraram, que agora estava obstruído.

— Sem saída... o jeito é seguir esse corredor e ver se conseguimos achar uma forma de sair.

— Droga... enquanto ao Jotiel?

— No fim das contas ele não me pareceu tão forte... será que é um farsante?

— Por que pensa nisso?

— Fala sério Yasmin, aquele cara fica o dia todo na guilda, bebendo e paquerando mulheres, não dá para imaginar ele fazendo alguma coisa digna... ele não parece mesmo um lutador descente...

Ela fica pensativa. A garota já havia percebido essas coisas antes. A forma como as pessoas da guilda se referiam ao Jotiel; embora elas dissessem que ele era forte, ainda assim ela sentia uma pitada de deboche em suas palavras.

— Aqui... — Sirulian desenrola seu cachecol verde do pescoço e coloca suavemente sobre o de Yasmin.

— O que é isso?

— É um cachecol magico, ele acelera o processo natural de cura do corpo. Vai ajudar com o seu ombro. Ele também vai diminuir a dor.

— Obrigada..., mas onde arrumou isso?

— Eu... — ele fica evasivo. — Foi... um amigo que me deu... antes de eu deixar a vila Kagayashi.

— Bem, não importa. Vamos tentar sair daqui.

— Sim...

Os dois garotos começam a andar pelo enorme corredor. As cavernas pareciam irregulares, mais do que normalmente seriam. As paredes eram úmidas e gélidas com uma coloração azulada, uma nevoa suave percorria o lugar. Os caminhos eram confusos, mas sempre bem largos e amplos. A visão era bem prejudicada, tendo como única fonte de iluminação as chamas de Sirulian, que guiava os dois por entre o caminho. Após minutos andando, eles não chegaram a lugar nenhum.

— Estamos perdidos... como vamos achar a saída? Esse lugar é um labirinto...

— Acalme-se, Sirulian... acho que tive uma ideia.

Yasmin fecha os olhos e se concentra. Ao abri-los eles começam a emitir um brilho esverdeado com uma aureola azul envolta da pupila. O garoto ficou levemente surpreso.

— São os olhos de águia... meu pai já me falou sobre eles...

Ela olha para Sirulian com o rosto neutro. O garoto parecia fascinado com os olhos dela. Yasmin desvia seu olhar para o caminho em que seguiam.

— Eu posso enxergar leves rastros de mana com isso. Parece que criaturas costumam andar por esses caminhos.

— Acha que pode nos levar a saída?

— É possível. Mas só vamos descobrir depois de segui-los.

E é o que fazem. Após alguns minutos de caminhada eles começam a enxergar um local um pouco mais amplo que o normal. As paredes úmidas davam lugar a paredes cobertas por uma substância estranha de coloração branca. Os dois garotos se põem em alerta, indo cautelosamente. Sirulian diminui suas chamas e à medida que seus olhos se acostumavam com a luz ele apagava cada vez mais, até cessarem totalmente.

O lugar onde estavam agora era uma enorme caverna. O chão que antes era irregular agora dava espaço para um chão de terra cinzenta. Yasmin e Sirulian perceberam que uma luz vinha de algum lugar. O teto da caverna parecia possuir pequenas frestas por onde a luz azulada de fora entrava. As paredes úmidas cobertas pela substância branca refletiam a luz e iluminavam levemente a sala.

— Que lugar é esse? — Eles abaixam o volume da voz.

Por toda a sala, grandes esferas brancas de tamanhos variados estavam espalhadas, milhares e milhares delas.

— São ovos?

— É o que parece... acho que encontramos o ninho...

Sirulian engole seco.

— Tá tudo bem, Yasmin, não precisa ficar com medo.

Ela abre um leve sorriso, olhado de rabo de olho para ele.

— Tudo bem.

Nesse instante eles veem algumas criaturas andando pelo lugar. Alguns lobos enormes, tão grandes quanto o lobo que Yasmin enfrentara em sua primeira missão, mais trolls de terra, muitas criaturas voadoras minúsculas que emitiam uma leve luz flácida e algumas aranhas do tamanho de cavalos.

— Sirulian, são muitas criaturas, não acho que podemos enfrentar todas elas...

Com um rápido movimento, Sirulian empurra Yasmin para dentro da caverna. No mesmo instante, um estrondo se ouve vindo do lugar onde Yasmin estava. Era um troll de pedra, que havia atacado os dois pelas costas.

— Não é como se tivéssemos escolha, eles já nos viram...

Eles começam a ser cercados pelos monstros, que rodeavam cautelosamente os dois.

— Yasmin, não se preocupe, eu protejo você.

— E quem protege você?

— Eu estava pensando em deixar isso nas suas mãos.

Os dois começam a lutar contra as criaturas. Yasmin dava giros por entre a grande caverna, pulando e se impulsionando de parede em parede e acertando o máximo de criaturas que conseguia. Mas ela parecia ter dificuldades de se locomover e ainda mais lutar com o braço naquele estado.

Sirulian permanecia no chão, pulando por cima dos monstros e esmagando vários com explosões que sacudiam a terra, fazendo poeira e pequenas pedras caírem do teto da caverna.

Mas a luta parecia inútil. Quanto mais lutavam, mais e mais monstros apareciam. Parecia não ter fim. Chegou um momento em que Yasmin fora acertada e caiu no chão. Sirulian desesperado abre caminho e chega até sua companheira, ficando ao lado dela, enquanto ela tentava se levantar.

— Sirulian... não consigo mais lutar...

— Então eu faço isso por você!

— Não... você tem que escapar... vai buscar ajuda... eu distraio eles.

— Está maluca? Eles acertaram sua cabeça?

— Vai logo...

— E por onde eu iria? Não vou sair daqui sem você. Vamos, são só alguns monstros.

Por mais que ele falasse isso, ele sabia a situação em que os dois se encontravam. Mesmo que ele conseguisse por algum milagre sair daquele lugar, ele não conseguiria escapar dos monstros perseguindo-o; não com os ferimentos que ele tinha.

A luta parecia estar acabando, com aquele enorme troll que se aproximou dos dois, levantando sua mão e preparando o ataque final. Quando de repente uma rocha enorme esmaga o troll.

— Isso... — Sirulian volta sua visão para cima. Ele então vê uma enorme cratera se abrindo no teto.

— Finalmente! Achei vocês dois! Mas que merda!

— Jotiel!

Ele parecia intacto, o rapaz pula para dentro do buraco que abrira no teto, em uma altura de mais de vinte metros, caindo no chão tranquilamente, em meio aos monstros.

— Parece que vocês acharam o ninho, bom trabalho. Agora, deixem que eu termino o serviço.

Com um movimento rápido com as mãos ele desfere um golpe em um lobo gigante que estava perto, fazendo-o explodir imediatamente e suas tripas jorrarem pelo lugar.

Os garotos ficaram impressionados com a cena. Parecia um Jotiel totalmente diferente do que eles estavam acostumados a ver. Ele ia derrotando os monstros com muita facilidade, sem nem ao menos usar magia. A caverna parecia tremular com cada impacto que Jotiel fazia.

— Não estou acreditando... — dizia Sirulian perplexo.

— Nem eu...

Repentinamente, Jotiel fez um movimento rápido com as duas mãos na diagonal, fazendo uma estaca de pedra sair do chão e empalar três monstros de uma vez.

O garoto apontou de forma energética para Jotiel, gritando.

— “Terra”, ele manipula a terra...

— Já tinha notado isso... — Diz Yasmin de forma sarcástica.

— Desculpa, é que... é incrível...

— Sabe o que é incrível? Se ele não parar com essa violência toda a caverna vai desabar.

— A gente tem que sair daqui...

Antes que Sirulian pudesse terminar a frase, eles viram o teto da caverna se abrir e formar uma cratera, fazendo um caminho nas bordas da parede dela.

— Ele tá fazendo isso? Enquanto luta?

— O pessoal da Guilda não estava brincando... ele é mesmo forte...

O resto daquele momento se deu pelos dois garotos sentados assistindo Jotiel acabar com os monstros um a um. Após aquilo eles destruíram o ninho, fizeram o protocolo padrão e terminaram a missão.

Era mesmo surpreendente a forma que Jotiel lutava. E mesmo depois de tudo o que houve, a única coisa que ele disse após terminar foi “Vamos voltar para guilda”. Parecia que ele ficara chateado com o que aconteceu às duas crianças.

Após destruírem o ninho, eles levaram cerca de dois dias para terminar a missão e limpar toda a área, se bem que Jotiel fizera o trabalho quase todo só. E durante todo o período ele parecia um outro Jotiel, muito mais sério e focado.

Após aquilo eles retornaram a guilda. Assim que entraram pelas portas da guilda, Jotiel começou a andar apressado em direção ao balcão. Mas fora parado por James, que o agarra pelo colarinho e joga-o contra uma das paredes da Guilda.

— Chama isso de tomar conta?!

— Eu não tive culpa!

— Como não?! Você não era responsável pela missão?!

— Mas eles estão vivos!

— Olha para a roupa desses dois! E compara com a sua! Tá na cara que você não fez seu trabalho direito!

James permaneceu gritando com ele, enquanto as pessoas da Guilda assistiam a cena e riam. Em meio a tudo isso, Darukian se aproxima das duas crianças.

— E então, como foi a missão?

— Mais difícil do que eu esperava... — Diz Sirulian, com um rosto cansado.

— Mas foi divertida. — Yasmin permanecia com seu sorriso cativante. — E eu não sabia o quão forte ele era...

— Fala do Jotiel? Sim, ele é bem forte...

— O que me faz pensar... não...

— Qual o problema Yasmin?

— É que... eu por um instante me questionei o porquê de ele ainda estar no ranque A..., mas pensando bem... apesar da força, ele se distrai fácil, é imprudente, desconcentrado, e não se importa com as coisas ao seu redor...

— Isso é só um pouco da personalidade dele... — Diz Darukian, enquanto se virava e ia em direção ao balcão. — Mas você está certa.