Arctan Saga
9 Exemplos.
Cerca de dois meses se passaram desde a chegada da Cédula. Desde então eles não pegaram qualquer trabalho; ao invés disso, eles passaram o tempo todo socializando com o pessoal da Guilda, em especial com as duas novas crianças. Sirulian passou todos os seus dias daquele mês treinando com James, o dragão vermelho. Enquanto isso, Yasmin se aproximou cada vez mais das duas mulheres da Cédula vermelha.
O que Yasmin pôde perceber nesse pouco tempo era que a Cédula Vermelha era mais do que um simples grupo dentro da LionHeart. Mais do que membros, eles eram quase que o coração da Guilda. Tudo que a Guilda representava estava sobre eles. Não havia uma única pessoa na guilda que não os respeitassem, e eles faziam por merecer.
É verdade que a guilda LionHeart sempre teve uma posição respeitada no ranque geral de guildas, mas foi graças a Cédula Vermelha que eles se mantinham lá em cima.
Naquele dia eles haviam marcado de se encontrar em um lugar nas redondezas da cidade, era um campo aberto com um gramado verde de onde podiam ter uma vista privilegiada da cidade. O lugar era cercado por flores e a vida parecia adorar aquela planície. Pássaros, borboletas e outros animais pequenos vagavam pela região. Era um lugar popular para se fazer piqueniques, e em especial um ótimo lugar para se treinar. A cédula contou para os garotos que esse era seu lugar preferido da cidade depois da Guilda, então os cinco foram para lá.
James e Sirulian permaneciam em seu embate sobre a planície verdejante, enquanto as outras três garotas se serviam com alguns sanduiches e conversavam sob a sombra de uma árvore.
— Ei, vocês dois! Se não vierem logo nós vamos comer tudo! Mandrágora se esforçou para fazer essa comida!
— Tudo bem Val, tem suficiente para todo mundo aqui, eles não precisam se apressar.
James faz um sinal para Sirulian, fazendo-o parar.
— Não, ela tem razão, acho que chega por hoje, garoto.
— Ah! Não é justo! — Sirulian parecia indignado. — Ainda não consegui te acertar! Nem uma vez!
— Não se preocupe, você vai! Mas não hoje!
O rapaz coloca sua mão sobre a cabeça do garoto, fazendo um cafuné forçado, bagunçando todo o cabelo do garoto. Após isso ele se aproxima das três garotas e se senta ao lado delas. Sirulian rapidamente mexe em seu cabelo e vai até o grupo.
Eles comeram e se divertiram juntos. Depois daquilo eles permaneceram sentados abaixo da arvore, descansando. Yasmin estava deitada sobre o colo de Mandrágora, que acariciava sua cabeça. Enquanto isso James e Sirulian jogavam um jogo de palavras.
A brisa batia sobre a pele de Yasmin, fazendo-a quase pegar no sono. Era como se o tempo tivesse parado, e aquele momento fosse eterno. A garota abriu levemente os olhos e encarou o rosto de Mandrágora, que parecia distraída, olhado a cidade, enquanto ainda acariciava a cabeça da garota. Yasmin levanta sua cabeça e se senta, olhando para Mandrágora.
— Algum problema?
Ela hesita um pouco. Uma dúvida pairava sobre a cabeça de Yasmin, algo que era nitidamente refletido sobre seu rosto.
— É que... por quê?
Mandrágora ficou confusa com a pergunta repentina. O restante do grupo encarou Yasmin com curiosidade.
— Não entendi sua pergunta.
— É que... vocês têm se mostrado tão generosos para comigo e com Sirulian... quero dizer... não é como se não tratassem todos na guilda igualmente...
Mandrágora sorri. Yasmin desvia levemente o olhar, mas volta a encarar mandrágora nos olhos e continua.
— Mas é que... parece que vocês têm dado uma atenção especial para nós dois.
Valquíria se levanta, chamando a atenção da garota, e sorri para ela.
— Yasmin, deixando isso um pouco de lado, eu ainda não tive a oportunidade de ver suas habilidades de luta.
Ela fez um rosto confuso e inclinou a cabeça para o lado, enquanto olhava para Valquíria.
— Você quer lutar comigo?
— É só um treino, vem.
— Essa não é a questão...
— Yasmin. — Valquíria se abaixa e coloca a mão delicadamente sob o queixo da garota, a fazendo olhar diretamente para seus olhos. — apenas venha.
Sua voz tinha um tom doce e suave como Yasmin nunca tinha ouvido antes.
A mulher se levanta e anda até ficar fora da sombra da arvore, ela encara o céu enquanto espera pela oponente, que ainda estava sentada, confusa e atônita.
— Eu fiquei sabendo que você é melhor com espadas, é verdade?
— Sim..., mas minha espada quebrou já tem alguns meses...
— Entendo, nesse caso eu posso te emprestar uma das minhas.
Ela se levanta e vai até Valquíria, que se espreguiçava ao sol.
— Tem certeza disso? — Pergunta Yasmin com receio.
— Está com medo de mim?
— Não é isso...
Valquíria se aproxima da jovem e acaricia sua cabeça levemente.
— É só um treino. E também... — Ela se abaixa e olha nos olhos da garota. — É a minha forma de responder sua pergunta.
Confusa, Yasmin assente.
Valquíria invoca duas espadas, surpreendendo os garotos.
— Então você sabe usar magia! — Grita Sirulian animado. — Eu sabia!
— Eu nunca disse que não sabia. Mas entendo a confusão. A verdade é que eu só sei o básico. Nunca aprendi nada além disso. O “inventário” e a “aura mágica”.
Valquíria se afasta de Yasmin, ficando a poucos metros dela. Ela então joga uma katana embainhada para a garota. A espada era simples, mas bela. Ela tinha um emblema na parte de baixo de seu punho com o desenho de uma bigorna com uma espada cravada em cima.
— Quando estiver pronta.
James, sentado com as pernas cruzadas, coloca a mão sobre a cabeça de Sirulian e a mantém virada para as duas.
— Olha bem para isso garoto! Talvez você aprenda algo útil!
— Sim Senhor!
Mandrágora parecia animada também, sentada delicadamente sobre suas pernas.
Yasmin vislumbrou a plateia com o rosto sério. Ela então começa a encarar sua oponente com receio.
— Tá tudo bem, Yasmin, eu só quero ver o quão forte você é.
A garota flexiona levemente os joelhos e segura a bainha da espada com a mão esquerda, ao lado de sua cintura. Delicadamente ela segura o punho da espada, encarando seriamente Valquíria.
“Ela está mantendo a guarda baixa e os músculos relaxados... será que é para me deixar menos intimidada? Não está dando certo...”
Yasmin se impulsiona, rapidamente, sacando a espada e atacando Valquíria, que defende o ataque sem ao menos desembainhar a espada.
— Uma das coisas que reparei em você, pelos boatos das pessoas da guilda, é que nunca desperdiça movimentos.
Yasmin gira sua espada de forma que abrisse a guarda de Valquíria, fazendo um segundo ataque, que é defendido pela mão nua de Valquíria, que segura o braço da garota.
— Quando você lutou contra o mestre Darwin você quis desistir quando reparou a diferença de poder. Isso demonstra que você é uma pessoa calculista e cautelosa, que prioriza a própria segurança. Na verdade, essa é uma qualidade que quase nenhum guerreiro tem, a qualidade de saber as próprias limitações e não fazer algo imprudente. Nunca desafia a si mesma além do que pode aguentar. Ao invés disso, procura achar o melhor meio de fazer as coisas, a forma mais eficiente.
Valquíria à solta, permitindo que ela se afastasse um pouco.
— Na verdade, são poucas as pessoas que tem isso... são poucos os que reconhecem os próprios defeitos e sabem respeitá-los.
Valquíria parte para cima dela, com alguns ataques rápidos, que são defendidos por Yasmin um por um.
— Também é uma pessoa responsável e com um forte senso de justiça, mas ainda sabe tomar boas decisões nos momentos certos, como por exemplo, sabe quando é o momento certo de recuar...
Nesse instante, ela sente um frio na espinha, que a faz se impulsionar para trás, ficando fora da linha de ataque de Valquíria, que parecia relaxar os músculos.
“O que foi isso? Que sensação... foi essa? ”
Valquíria sorri para a garota, que permanecia com um semblante sério.
— Vamos, estou esperando.
Após hesitar um pouco, Yasmin se impulsiona para mais um ataque, que é defendido pela espada embainhada de Val. Nesse instante, Yasmin impulsiona sua cabeça para trás. Colocando as mãos no chão ela dá um mortal para trás, chutando a espada de Valquíria, a fazendo voar para cima.
— Ela desarmou a Val?! — Gritou James surpreso.
Mandrágora começa a bater palmas, animada e risonha.
A garota levanta sua espada em um corte diagonal, mas Valquíria rapidamente se abaixa, fazendo a garota errar o golpe, e em meio ao movimento, desfere um golpe com as duas mãos sobre as costelas de Yasmin, que a faz sair voando a alguns metros. Yasmin, girando sobre o solo, se estabiliza e cai abaixada sobre suas pernas com uma das mãos ao chão enquanto ainda deslizava pelo chão. Ao parar, fadigada, ela rapidamente coloca as mãos sobre as costelas, enquanto coloca um dos joelhos no chão. Nesse instante, um brilho leve percorre o corpo de Yasmin.
— Ela desativou a aura mágica da Yasmin com um golpe? — Sirulian parecia pasmo. — O quão forte foi aquele ataque?
— Acho que eu posso ter exagerado um pouco. — Dizia Valquíria enquanto estendia a mão para cima e capturava a espada que Yasmin jogara anteriormente. — Está tudo bem, Yasmin?
A garota permanecia abaixada, mas não por dor, ela estava espantada com a habilidade de Valquíria.
— Já é o suficiente.
Val se aproxima de Yasmin e se abaixa para checar se ela estava bem.
— Espero não ter te machucado muito.
— Não, eu estou bem...
— Que bom. Vem, levante-se. Vou te responder.
Valquíria se levanta e conduz Yasmin até o restante do grupo, fazendo-a se sentar ao lado de Mandrágora, que a abraça e a acaricia.
— Como vocês dois puderam ver, minhas habilidades são incomuns. São poucas as pessoas que aguentariam um ataque daqueles. Yasmin, Sirulian, vocês dois são crianças.
Eles olham para Valquíria, que ainda estava de pé, sobre a luz do sol.
— Sabem quantas crianças vêm até uma guilda para trabalhar sozinhas?
Eles se entreolham e depois voltam a olhar para Valquíria.
— Não são muitas. E tem um bom motivo para isso. As que a fazem tendem a ter histórias difíceis.
Sirulian abaixa levemente sua cabeça, nesse instante, James acaricia a cabeça do garoto, com um sorriso aconchegante no rosto.
— Eu não sei qual é a condição atual de vocês dois em relação a suas famílias... nem sei se eles estão vivos também..., mas... crianças precisam do apoio de adultos. Elas precisam ter alguém que sirva de exemplo. Alguém a quem elas possam se inspirar. Pessoas que as façam ser melhores.
Yasmin, ainda olhando nos olhos de Valquíria, permanecia séria.
— Nós sabemos que não somos as melhores pessoas, mas estamos constantemente tentando... — Ela desvia o olhar para a cidade. — Nós já sofremos bastante no passado. Todos da cédula vermelha sabem o que é o sofrimento e solidão... e apesar de tudo, ainda nos mantemos com fé, esperança, de que tudo um dia vai ser melhor. Eu tinha um ditado que costumava repetir a mim mesma no passado... era assim... “Todas as coisas pela qual passamos vêm por um motivo, para nos moldar. Todo o nosso sofrimento serve para nos fortalecer. ”
Valquíria começa a andar em volta do gramado, ela então se abaixa e pega algo do chão.
— Vê isso? — Ela entrega uma flor para Yasmin, era uma rosa, quando Yasmin a segura ela sente algo a espetando. — São espinhos... “Rosas não podem sobreviver sem os seus acúleos. ”
Yasmin a segura e encara a pequena rosa, admirando sua beleza. Val vê uma borboleta voando ao redor.
— Está vendo essa borboleta? Quanto tempo você acha que ela levou para chegar a esse nível?
Yasmin parecia já estar em um estado totalmente diferente do que estava antes. Ela estava com o coração acelerado e sentia algo estranho sobre seu peito. Uma sensação que nunca tivera antes.
— Borboletas não podem voar sem antes passar por casulos. Da mesma forma que nós não podemos nos tornar melhores sem antes passarmos pelas experiências que a vida tem para nos mostrar. E crianças precisam de pessoas que as ajudem a passar por essas experiências. É por isso que nós estamos aqui dando esse apoio para vocês dois.
Yasmin sente algo percorrer seu rosto, ela parecia abalada, mas de uma forma boa. Ela encosta sua testa sobre os seios de Mandrágora, que a abraça carinhosamente.
— Obrigada... — Foi tudo o que ela pôde dizer, antes de se derramar em lagrimas.
Sirulian segurava-se em suas canelas, enquanto permanecia com o rosto baixo. Era óbvio que ele também estava chorando, mas tentava a todo custo disfarçar.
— Ei, garoto, isso no seu rosto são lágrimas?!
— Claro que não mestre!
— São sim! Admita!
Sirulian encara o rapaz com o rosto encharcado e com a voz trêmula.
— Eu não estou chorando!
Ele logo percebe que James estava em uma posição parecida.
— Que bom! Porque homens precisam manter suas lágrimas onde devem estar! — James também estava chorando.
— Você é patético, James. — Val ria da cena, enquanto se segurava para não chorar também.
Após aquilo eles passaram a tarde na campina, e depois voltaram para a Guilda. Naquela noite, Yasmin dormiu como nunca tinha dormido antes.
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