Arctan Saga

5 A Primeira Missão!


Se passou uma semana depois do grande espetáculo que foi a admissão dos dois novos membros da Guilda LionHeart. Os boatos sobre os dois novatos corriam como chuva entre os membros da guilda; todos pareciam empolgados.

— Uma Tsuyoshi e um Kagayashi, juntos na mesma guilda! Quem poderia imaginar tal coisa?!

— Ei, vocês estavam no dia? Eu vi a garota deixar o mestre de joelhos! Foi incrível!

— Aquele garoto também não é nada fraco, ele derrubou Jotiel com um soco!

Os boatos chegaram aos ouvidos de todos da guilda. Os dois mal entraram e já haviam se tornado famosos dentro da guilda. Contudo ainda faltava muito para que eles obtivessem o real significado da palavra “fama”, que viria em um determinado momento de suas vidas.

— Vou explicar para vocês como funciona o sistema de missões da guilda, prestem bastante atenção! É importante para vocês saberem sobre isso! — Quem falava era aquele mesmo homem que recebera Yasmin na guilda. O nome dele era Darukian, e pelo que os dois ouviram, ele era o filho do mestre. — As missões são divididas em níveis de dificuldade, que vão de D até SS. Cada missão tem sua especificação. Podem ser de busca, captura, caçada, proteção, vigilância ou ajuda. Vocês recebem o dinheiro da missão assim que as completam, diretamente dos clientes. Caso seja uma missão onde não há contato direto com eles a própria guilda pagará vocês depois de realizada a missão. Aqui nesta folha tem uma pequena tabela com algumas informações sobre as missões.

...

Ranque das missões — Preço médio de registro pago pelos clientes (Peças De Prata ou Ouro) — Recompensa média dada aos guerreiros (Peças De Prata ou Ouro)

D 100 PP 500 PP

C 100 PO 1000 PO

B 200 PO 5000 PO

A 500 PO 10000 PO

S 1000 PO 20000 PO

SS 5000 PO 50000 PO

Tipos de Missão.

Busca: Missões que consistem em encontrar um determinado alvo. Essas missões são criadas a partir da necessidade de encontrar, por exemplo, um foragido da lei ou encontrar uma pessoa que está desaparecida.

Recomenda-se que o guerreiro tenha pelo menos alguma habilidade em seguir passos ou encontrar pistas. Missões como essa exigem certa experiência em investigação.

Captura: Missões que consistem em capturar ou prender um alvo. Missões assim são criadas a partir da necessidade de prender um fugitivo da lei, uma criatura para fins científicos, etc.

Recomenda-se que para essa missão o guerreiro tenha bons reflexos eou tenha bons planos para capturar o alvo. Também é recomendado o uso de magias de restrição de movimento ou armadilhas.

Caçada: Missões que consistem em buscar e aniquilar um determinado alvo. Essas surgem devido a necessidade de destruir certos monstros ou criaturas magicas perigosas. Em alguns raros casos, essas missões estão ligadas a fugitivos da lei, mas são raros os casos onde isso é usado contra pessoas.

O guerreiro precisa ter um bom estilo de luta e usar magias poderosas para fazer esse tipo de missão. Aqui o que mais fala é a força e a estratégia de combate.

Proteção: Missões de proteção são missões feitas com o intuito de proteger algo ou alguém.

Esse tipo de missão é altamente recomendado que o guerreiro possua boas magias de furtividade, fuga ou defesa, tal como uma boa estratégia para se criar caminhos alternativos ou esconderijos.

Vigilância: Esse tipo de missão surgiu com a necessidade de se observar indivíduos ou locais onde o índice de atividades malignas é alto.

É altamente recomendado um bom nível de furtividade para se realizar essas missões, e é completamente proibido o uso de força ou contato com os alvos, visto que esse tipo de missão consiste em vigiar, e não prender. Caso algo ocorra, a guilda deve ser acionada imediatamente e será realizada uma missão de caça ou captura

Ajuda: Esse tipo de missão é o mais simples. Consiste em trabalhos e serviços simples, que pessoas comuns podem fazer para a guilda, como ajudar com a realização de algum evento ou servir de guia para algum turista, coisas do tipo.

Não são necessárias muitas habilidades especiais para esse tipo de missão, por isso, ela é uma ótima pedida para quem está começado no ramo.

...

— Espera, então os clientes pagam a guilda para registrar as missões, e ainda tem que se preocupar com a recompensa para os guerreiros?

— Exatamente, pense bem, de que outra forma a guilda ganharia dinheiro? Mas não é só isso, eles também têm que ter noção de que tipo de classificação devem dar a missão. Você poderia pensar que eles poderiam simplesmente classificar as missões como de ranque D que não precisariam gastar tanto dinheiro para tê-las registradas, mas tem um problema em fazer isso... se eles registrarem missões difíceis como sendo de ranque D, ninguém forte vai aceitá-las, e consequentemente, elas não vão ser completas.

— Faz sentido...

— Dessa forma fica fácil para os guerreiros escolherem as missões que deveriam fazer. E caso eles tenham dificuldade em classificar uma missão, a guilda faz isso por eles. Na verdade, a maioria das missões tem seus níveis classificados por nós da guilda.

— Entendo...

— Além disso, também existem os níveis de urgência.

— Níveis de urgência?

— Níveis de urgência são medidos em horas, dias ou semanas, quando passa de três meses é considerado sem urgência nenhuma. Esse tipo de coisa não influencia no nível da missão em si. Por exemplo, você pode pegar uma missão de ranque A com nível de urgência baixo, onde você vai ter bastante tempo para realizá-la sem se preocupar com tempo limite. Por outro lado, você pode acabar pegando uma missão de ranque D com nível de urgência imediato, que pode acabar tendo um tempo limite de algumas horas, o que pode prejudicar a missão caso você demore para realizá-la.

— Acho que entendi...

— Os níveis de urgência são divididos em: Inexistente, Baixo, Médio, Alto, Muito alto e Imediato.

— Acho que entendi tudo. Podemos pegar missões agora?

— Bem, sintam-se à vontade. Por enquanto vocês não podem pegar missões acima do ranque C, então sintam-se à vontade para olhar o quadro de missões. Só mais uma coisa. — Ele estende as mãos e entrega um objeto circular para cada um, ele tinha o tamanho de uma mão fechada, e parecia ter uma tela semiesférica no centro dela — Esse é o identificador de vocês. Não percam essa coisa, isso é a identidade de vocês. Também vai servir para se comunicar com a guilda e para fazer contato com os clientes. Essas coisas são o coração de vocês dentro da guilda, então não sumam com eles! Alguma pergunta?

Sirulian tinha uma cara de dúvida e desconforto, como se estivesse se esforçando para entender tudo que foi dito.

— Ah... Senhor... — Diz o garoto levantando o dedo, querendo fazer uma pergunta.

— Ótimo! Se não tem perguntas, podem ir fazer as missões de vocês!

— Ele me ignorou completamente... — Disse o garoto, frustrado.

Yasmin se dirigiu para o quadro de missões, que ficava em uma parede no salão principal. O quadro estava repleto de missões de diversos níveis diferentes. Ela ficou analisando-o por alguns minutos, até que finalmente decide pegar uma missão em particular; assim que ela toca a folha e a puxa, ela se surpreende com o fato de outra pessoa fazer o mesmo. Ela agora segurava a mesma folha que Sirulian, que a olhava com vergonha e surpresa.

— Ah, desculpa! Pode pegar! — Disse o garoto, sem o menor jeito.

— Não, tudo bem, eu pego outra...

— Ah, que isso, pode ficar. — Ele falava de forma desleixada e desgovernada, com um sorriso forçado no rosto. O garoto se virou e foi pegar outra missão.

Yasmin olhou para o papel e começou a ler os detalhes da missão.

“Busca e Caçada nível C, Recompensa: 12000 PO. Nível de urgência: Alto”

— Interessante...

“Vila Kyne tem tido problemas com algumas criaturas misteriosas que tem rondado o local. Ache o ninho e destrua todas elas. Recomenda-se ficar uma semana no local após completar a missão, para garantir que as criaturas não voltem.”

Yasmin foi até Darukian e o entregou o folheto.

— Oh, essa missão... interessante, vai fazê-la?

— Sim.

— Tudo bem... me dê seu identificador. Deixa-me registrar... e.... pronto! Aqui! Nesse exato momento o cliente está recebendo uma mensagem através de magia com o seu nome e sua foto, dizendo que a missão foi aceita. A propósito, sabe como chegar a Kyne?

— Bem, são alguns dias de viagem...

— Isso demora muito... conhece os warps?

— Warps?

— Aquilo ali. — Disse ele apontando para um círculo magico azul próxima a entrada da guilda; ele tinha cinco metros de diâmetro e possuía um leve relevo em relação ao chão — aquela coisa ali é um dispositivo de teletransporte, também chamado de “Warp”. Ele pode te levar instantaneamente para outro Warp. Existem vários espalhados por Arctan, mas para viajar entre eles é preciso gastar uma graninha... a própria instalação de um é cara pra caramba, por isso nem todas as guildas tem coisas desse tipo. Aqui eles funcionam da seguinte forma: Se você usar eles para fazer missões para a guilda, 30% da recompensa da missão fica com a guilda.

— Acho justo...

— Os warps espalhados pelo mundo estão em pontos estratégicos. A associação de guildas tem instalado diversos pelo mundo para facilitar o tráfego dos guerreiros. Enfim... se quiser usar, fique à vontade.

— Como eu uso?

— Bem, é só entrar nele que vai aparecer um mapa, aí você escolhe o ponto mais perto de Kyne e viaja até lá de a pé. Acho que o ponto mais próximo de Kyne é Materost, são duas horas de viagem até Kyne.

Yasmin foi até o Warp e entrou na área do círculo magico. Assim que o fez, uma pequena tela azulada apareceu a sua frente, com um mapa detalhado de toda Arctan. Yasmin foi pressionando o mapa e dando zoom até o local de teleporte. Assim que ela apertou o botão de confirmação, seu corpo começou a brilhar em um azul celeste e foi desaparecendo.

Ela viu a guilda se transformar quase que instantaneamente em uma floresta vivida, enquanto ela ficava admirada com a utilização do Warp.

— Então é assim que isso funciona...

O local na qual ela estava agora era nas imediações de Materost, uma cidade grande que ficava localizada no país do vento. O Warp estava localizado em uma área aberta, com várias pequenas estradas passando pelo local. Na parte leste, uma extensa floresta se alastrava, ao norte ficava Materost, que era visível do local onde Yasmin se encontrava. Mas Materost não era o destino de Yasmin, e sim Kyne. Ela então começa sua viagem até a pequena vila de Kyne seguindo uma estrada menor pelo sul.

Depois de duas horas aproximadamente, a garota se vê passando de um ambiente vivido e limpo para uma floresta densa e escura. A vila de Kyne era localizada em uma região coberta por arvores, uma floresta densa que era cortada apenas por uma pequena estrada pela qual Yasmin viajava. Logo ao se aproximar da vila, Yasmin vê várias casinhas construídas de forma aleatória pela vila. A vila em si era cercada por um muro com uma altura de dois metros. Pequenos portões de madeira jaziam abertos, esperando a chegada da garota, porem nenhuma alma era visível no local. Havia também uma grande torre de vigia próxima a entrada.

A garota adentrou pelos portões e permaneceu parada na entrada da vila, olhando a sua volta à procura de alguém. Ela ouvia apenas o som do vento e as arvores mexendo. O clima parecia morto, o sugestivo farfalhar das arvores mandava uma mensagem de escárnio para a garota. Após alguns minutos, Yasmin vê a porta de uma das cabanas, a mais afastada da entrada, abrindo levemente. Ela também parecia ser bem maior que as outras.

— Tsc... Por aqui... — Disse uma voz em um tom baixo.

A garota começa a andar em direção a cabana. Ao se aproximar, ela vê um velho com um leve sorriso.

— Você seria Yasmin Tsuyoshi, certo?

Yasmin acenou positivamente com a cabeça.

— Ótimo.

O velho abriu a porta e saiu de dentro da cabana, juntamente com algumas pessoas.

— Muito obrigado por vir até aqui.

Yasmin viu um homem sentado dentro da cabana, ele a olhava com o rabo de olho, de forma asquerosa e desconfiada.

— Não ligue para ele. — Disse o velho. — Agora... você está aqui por causa da missão, não é?

— Sim.

— Vou explicar os detalhes a você... já que recebemos a informação de que é sua primeira missão...

O homem dentro da cabana parecia incomodado, e fez um leve grunhido ao ouvir o velho falando.

— Vamos entrar na cabana chefe. — Disse um dos homens que estavam com eles.

— Sim. Por aqui senhorita Yasmin.

O sol ainda estava sobre o céu, era cerca de quatorze horas, mas graças as diversas arvores e ao tempo que agora estava bem nublado, parecia já ser noite. Yasmin foi conduzida a uma mesa arredondada, ela se assentou e foi servida com um copo de café.

— Eu me chamo Zik, sou o chefe do vilarejo de Kyne. Vou lhe pôr a par dos detalhes da missão. Nosso vilarejo, como você pôde ver, é pequeno e pacato. Nós vivemos exclusivamente da colheita. Existe um pequeno riacho ao norte do vilarejo e alguns poços de água artesianos aqui na vila mesmo. Há algumas semanas, um grupo, de aproximadamente três pessoas, foi até o rio Kyne. Eles prometeram voltar em uma hora... — Enquanto ele contava a história, Yasmin reparava com o rabo do olho no homem sentado na mesa, um pouco afastada da dela, que permanecia inquieto. — Nós esperamos por eles, mas eles não retornaram. Depois de duas horas começamos a nos preocupar, e mandamos mais um grupo de reconhecimento... Depois de mais três horas, um único homem desse grupo retornou... Totalmente ensanguentado e ferido. Esse homem alegava ter sido atacado por um grupo de criaturas quadrupedes parecidas com lobos, eram cerca de cinco no total, e elas mataram e devoraram os outros, somente ele conseguiu escapar. Depois de alguns dias, outro ataque foi relatado... E mais um... E novamente... eles cresciam com cada vez mais frequência...

— Entendo... E onde está o homem que escapou no primeiro ataque?

— Morto.

— Como?

— Ele morreu depois de alguns dias, devido aos ferimentos.

— Antes de morrer ele disse alguma coisa? Mais alguma informação importante?

— Ele falou que antes dos monstros aparecerem, uma forte neblina cobriu o local.

Yasmin permaneceu em silêncio. O homem sentado na cadeira soltou um leve suspiro de insatisfação e socou a mesa, se levantando.

— É mesmo um absurdo! Eles fazem pouco caso da gente, não é?!

— Lervi! — Repreendeu o velho Zik.

— Como se já não bastasse mandarem uma criança, ainda por cima mandam uma novata!

Yasmin levantou um leve sorriso quando ele diz isso.

— Então era isso... — Diz ela, de forma satisfeita.

— Tsuyoshi ou não, essa garota é só uma garota! Teria sido melhor se nós fossemos até lá e matássemos eles nós mesmos!

— Lervi, não tem como nós matarmos esses monstros! Todos os guerreiros...

— Eu ainda estou aqui, não estou?! Sei que consigo! Se o senhor me deixasse...

— Chega! — Grita o velho em repreensão.

— Mas...

— Sem “mas”, nós vamos confiar na guilda LionHeart.

Yasmin levantou levemente a sobrancelha e pensou “então é assim que a guilda é conhecida... no fim das contas ela realmente é famosa...”

— Eu não confio neles...

Yasmin levantou-se da cadeira e começou a andar em direção a porta.

— Onde vai? — Perguntou o velho

— Cumprir minha missão.

— Mas você acabou de chegar, descanse um pouco...

— Não tem necessidade. — Disse ela com um sorriso. — Além do mais... — Ela fechou o rosto e encarou a porta. — Eles já estão aqui...

— Não diga besteiras! Se eles tivessem se aproximado o guarda teria...

Nesse exato momento um sino é ouvido do lado de fora da cabana, era um badalar constante e desesperado.

— São eles... como você...?

Yasmin olhou por cima dos ombros para o homem, com um leve sorriso.

— Espera, você vai lá fora sozinha?

Ela abriu a porta e saiu, sem olhar para trás.

— Tranquem a porta. Não devo demorar.

Novamente, o som do vento e do farfalhar das arvores permaneciam constantes, juntamente com o badalar do sino, que em um instante sumiu... depois daquilo, Yasmin segurou sua espada e a sacou, fechando os olhos e apontando para a direção da entrada da vila.

Uma forte neblina começou a envolver a vila, de tal forma que apenas as silhuetas das cabanas eram visíveis.

— Um... Três... São cinco...

Ela começa a ouvir uivos vindos de todos os lados. Rapidamente ela se abaixa e desfere um golpe no ar, cortando de baixo para cima, fazendo com que a criatura que a atacara passasse rapidamente por cima de seu corpo e caísse morta no chão.

Yasmin gira seu corpo e pula em uma altura incrível, se esquivando de mais um ataque, ela então desce cortando outro monstro no meio. Depois disso ela fica em posição e gira sua espada na lateral esquerda do corpo e depois pela lateral direita, passando o dedo sobre as costas da lâmina ao final do movimento. Com as costas da lâmina próxima ao rosto, ela mantém a espada apontada para o nada.

— Chai... Kui!

A garota desfere uma estocada no ar, que faz com que a neblina se abra em uma linha reta, e com esse movimento mais um monstro fora destruído.

Ela escuta os outros monstros hesitando em atacá-la.

“Estão com medo?” pensava ela.

Yasmin começa a ouvir uivos, e logo em seguida, a neblina começa a se dissipar; junto a ela, os dois monstros restantes se vão.

Logo após a luta, a porta se abre instantaneamente.

— Você... derrotou três deles em menos de um minuto?!

— Essas coisas não são tão fortes..., mas... tem algo que está me incomodando...

— O que seria?

— Esse tipo de magia... monstros assim não poderiam usá-la...

— Magia? Que magia?

Yasmin permaneceu em silêncio encarando a entrada da vila. Ela olha para os corpos jogados no chão; pareciam lobos, mas eram muito maiores que lobos comuns. Eles tinham o tamanho de leões.

— Er... Senhorita Yasmin?

Ela então começa a andar em direção a entrada da vila.

— Ei, para onde vai?

— Atrás daquelas coisas. Eles vão me levar direto para o ninho.

— Ah... Boa sorte! Essa garota realmente tem coragem... — disse o velho enquanto assistia ela se afastando.

Yasmin seguiu o rastro das criaturas durante alguns minutos, até que ela se encontrou em uma caverna.

“Então é aqui...” pensou ela.

A caverna era bem extensa, escura e úmida. À medida que Yasmin entrava, sentia a temperatura ficando mais baixa. Ela então começa a sentir uma leve tensão.

“Tem muito tempo que não uso isso... acho que não tem problema”

Yasmin fechou seus olhos.

O clã Tsuyoshi possuía mais uma virtude da qual eles se orgulhavam. Por trás de seus cabelos brancos e seus olhos roxos, eles tinham uma segunda aparência que só era alcançável com muito treinamento e esforço. Olhos capazes de enxergar melhor no escuro, capazes de acompanhar movimentos rápidos e podiam ver a uma distância muito maior que a de humanos comuns... essa habilidade era conhecida como:

— Olhos de águia!

Os olhos de Yasmin assumiram uma coloração esverdeada, brilhante e vivida. Ao ativarem a habilidade “olhos de águia” os olhos do Tsuyoshi assumem essa coloração esverdeada, clara e brilhante, e uma aureola azul celeste rodeia sua pupila. Com isso ela era capaz de enxergar muito melhor do que o normal.

Yasmin começa a analisar ao seu redor.

“Como pensei... essa neblina não é algo que aqueles lobos poderiam fazer...”

Ela começa a ver vários olhos vermelhos surgindo da escuridão.

— Então aqui é o ninho de vocês...

Um dos lobos avança para cima dela, mas sem chance alguma ele é derrotado. Logo em seguida outro lobo pula em sua direção. Um após o outro, atacavam-na com tudo que tinham.

Yasmin deve ter derrotado cerca de quarenta lobos somente nessa investida.

Após derrubar o último, ela começa a ouvir um barulho vindo do lado de dentro da caverna.

— O rei... ou deveria chamar de líder? Tanto faz...

Ela começa a correr na direção da entrada da caverna, pulando para o lado de fora. Logo atrás dela, a entrada se despedaça como pão dormido, ela começa a quebrar e pedras começam a voar pelos ares.

— Aí está você.

Um uivo grave e alto é ouvido. Parecia mais um rugido. A criatura que saíra tinha dentes grandes, uma pelagem arrepiada e espessa, um fétido cheiro de sangue e morte com ela, os olhos dele eram vermelhos e brilhantes e era maior que uma casa. Ela parecia ser um tipo de cruzamento de um lobo com um leão, e era extremamente intimidadora.

Yasmin preparou sua espada para atacá-lo, mas antes que pudesse fazê-lo, a criatura desfere uma patada na garota, que defende com a espada; contudo a força do golpe foi tão grande que ela foi jogada para trás.

“Essa coisa é forte...” pensou a garota. Yasmin usa sua habilidade de voo para tentar tomar uma vantagem sobre a luta. Ela sobrevoa a criatura atirando pequenas rajadas do Chai ken, mas a criatura parecia não se incomodar tanto. De repente o monstro dá um pulo e ataca Yasmin, fazendo-a ser jogada com força sobre o chão. Ela é arrastada por alguns metros no chão, mas logo se levanta com algumas feridas e sujeira.

— Desgraçado...

Ela agarra sua espada e prepara um Chai Kui, mas percebe que ela estava diferente...

— Quebrou? Minha espada... você....

O monstro soltou outro urro muito alto. Yasmin olhou para os olhos dele e ficou séria.

“Vou acabar com isso com um golpe”.

Jogando o que sobrara de sua espada no chão, Yasmin gira seus braços a frente do corpo e junta-os na cintura, realizando o movimento do Chai ken.

— Hikaru...

A criatura começa a correr na direção de Yasmin.

— Chai Ken do...

Antes que a criatura chegasse perto, ela dispara a magia, dando um soco no ar.

— Ya!

Essa era uma variação da técnica Chai Ken; a mesma que ele usara contra o mestre da guilda. O inimigo fora cercado por todos os lados por inúmeras rajadas de vento, que o acertavam com violência. Múltiplas explosões de vento. Yasmin permaneceu com o braço estendido, enquanto o monstro mal podia se mover por causa das rajadas. Yasmin então levanta seu braço gritando “ha”, fazendo a criatura subir no ar, logo em seguida ela soca o chão finalizando o ataque com um “Hikaru ken”. O monstro atingiu o chão com força, produzindo um estrondo enorme. O pobre coitado fora esmagado com a força do impacto, fazendo com que seu sangue se dispersasse pelo local como chuva, juntamente da poeira.

Yasmin, com alguns ferimentos e toda suja, respirava fadigada. Ela se ajoelha e começa a rir.

— Isso foi difícil...

Ela permanece ali por alguns segundos antes de se levantar.

Na vila, as pessoas encaravam a floresta com receio, esperando a volta de Yasmin.

— Aquele barulho que ouvimos... será que ela está bem?

De repente, eles veem algo se movendo por de trás das arvores, ficando apreensivos.... Quando de repente veem uma cabeça gigante de um lobo saindo de trás das arvores. A visão assustou a todos, até que a cabeça cai no chão, e a garota aparece atrás dela.

— O que vocês estão fazendo aqui?

Todos tinham rostos pálidos e boquiabertos.

— Você conseguiu?! Você derrotou os monstros!

— Não foi difícil.

— E você levou menos de duas horas..., mas por que trouxe essa coisa com você?

— Eu preciso levar isso para análise na guilda...

As pessoas a olhavam admiradas, e sem dizer uma palavra.

— Bem... de qualquer forma eu vou ter que ficar por aqui, caso ainda haja mais coisas daquela...

Os habitantes da vila correram na direção da garota, a levantando e a jogando para cima, com fortes aplausos e risos.

— Foi a coisa mais incrível que já vi!

— Nunca vou esquecer desse dia! Vamos comemorar com uma grande festa!

— Você é demais!

Eles continuavam a elogiando, enquanto ela levemente abria um sorriso, corada. Mas tinha uma pessoa que permanecia com o rosto sério... embora parecesse mais um rosto arrependido.

— Bem... — O homem se aproximou de Yasmin. — Obrigado...

A garota apenas sorriu para ele.

A noite passou. Eles festejaram durante toda a semana que Yasmin passou lá. Ela realmente havia derrotado todos os monstros que estavam por lá. Até mesmo o clima do lugar mudou depois da derrota dos lobos, o céu ficou mais limpo, os pássaros voltaram a cantar e Kyne se tornou um lugar agradável.

Após a semana se passar, o chefe da vila entregou um saco com moedas de ouro.

— Mas... aqui tem mais que o combinado...

— Isso é um bônus.

— Bônus?

— Os clientes podem pagar um bônus para os guerreiros, se os julgarem dignos de tal... acontece que isso é irrelevante para a guilda em si. Esse dinheiro é seu.

Yasmin olhou para o saco de dinheiro e ficou surpresa com o bônus. Era prometido doze mil moedas, mas ali tinha o equivalente a vinte mil. Logo após isso, a garota viaja até o warp de Materost e volta a guilda.

Assim que vê a garota, Darukian a chama apressadamente.

— Garota! Você foi muito bem! Eu recebi o comunicado dos clientes que você tinha terminado a missão... eu fiquei surpreso quando eles disseram que você tinha a completado tão rápido... foi muito bem para sua primeira missão.

— Obrigada... de qualquer forma, o pagamento pela utilização do Warp.

Ela entrega um saco com dinheiro para Darukian.

— Ei, aqui tem mais do que o pedido. Não sabe fazer contas?

— É por causa do bônus.

— Entendi. Mas aqui, não precisa pagar a porcentagem do bônus. O bônus é seu, não tem nada a ver com a guilda...

— Ah... desculpe...

— E isso é algo incomum... eles deram oito mil de bônus?! É muito dinheiro! Falando nisso...

Darukian a encara com curiosidade.

— Onde você está ficando?

— Em uma pousada aqui perto. É duzentas moedas de ouro por dia.

— Você sabia que temos um dormitório?

— Na verdade... é a primeira vez que ouço isso...

— É um pouco mais caro que isso..., mas... tenho certeza que é melhor.

— Na verdade... A pousada é bem precária, e não é permitido ficar por lá, é apenas para dormir mesmo...

— Nesse caso... pode trazer suas coisas para cá!

— Quanto é o aluguel?

— Nove mil por mês.

— É um pouco caro...

— Mas... antes de se decidir... por que não dá uma olhada no quarto?

— Ah... bem... não faz mal.

Darukian a leva, então, até uma parte do prédio, localizada no primeiro andar. Era um corredor bem largo e extenso, com o formato de uma cruz. A distância entre as paredes era tão grande que nem parecia um corredor. No corredor ainda tinham várias máquinas de comida e bebidas, alguns jogos e até cartazes, plantas... muita decoração.

— Essa parte da direita toda é o dormitório feminino, a esquerda é o masculino.

— Ficam tão próximos assim?

— Não precisa se preocupar com esse tipo de coisa. Qualquer um que tenta entrar em um quarto que não é o seu é punido... pelo próprio prédio.

— Como assim?

— Tem uma magia que impede as pessoas de entrarem sem a permissão do morador do quarto..., depois eu explico isso melhor. Vamos olhar o quarto primeiro.

Yasmin reparou também que havia uma distância considerável entre uma porta e outra. Os quartos pareciam bem grandes. Assim que entrou, Yasmin ficou surpresa com o tamanho do quarto. Além de grande, ele era todo mobilhado. Tinha uma cama bem espaçosa de costas para uma grande janela com cortinas grossas e caras, duas mesas de canto ao lado direito e esquerdo da cama, um guarda-roupas de madeira maciça, um espelho de corpo inteiro e um tapete de linho fino que cobria o quarto todo. Também havia uma pequena mesa de trabalho com uma cadeira num canto próximo a porta.

— E então? Vai ficar com o quarto?

— Sim!

— Foi o que pensei... você pode decorá-lo se quiser. É só falar com a gente.

— Tudo bem. Obrigada.

A partir daquele dia, Yasmin passou a viver na guilda.