Arctan Saga
7 A Lenda dos Guardiões.
Yasmin se dirigia com receio até a sala do mestre. Ela não imaginava o porquê dele a chamar assim tão de repente. Talvez ela tivesse feito algo errado, ou talvez ela tivesse esquecido algum detalhe importante de alguma missão. Ela não sabia bem o motivo, mas sem muitos questionamentos ela seguia, ao som da multidão animada no andar de abaixo.
Ela abre levemente a porta da sala.
— O senhor me chamou?
— Ah, sim, pode entrar.
Ela o faz, com certa hesitação. O ancião aponta para a cadeira a frente de sua mesa e diz com uma voz calma e serena.
— Feche a porta e sente-se aqui.
Ela o obedece.
Os dois permanecem em um silêncio por alguns segundos, enquanto o Mestre mexia em alguns papeis em sua mesa.
— Bem... por que me chamou?
O mestre para o que está fazendo e a encara levemente.
— Por que exatamente está aqui? — Ele pergunta com um tom sério.
— Não entendi a pergunta...
— Você não está aqui apenas para trabalhar...
O mestre cruza suas mãos sobre a mesa e olha para Yasmin com o rosto sério.
— Você tem se esforçado muito nos últimos meses. A forma como você tem agido não é apenas a forma de uma pessoa que quer sobreviver... eu sinto que tem algo a mais... E esse algo a mais é que me preocupa...
Yasmin fica receosa. Ela desvia o olhar por alguns instantes, mas logo em seguida olha nos olhos do mestre.
— Eu... estou procurando respostas...
— Sobre?
— Mim mesma...
Aquelas palavras deixaram Darwin surpreso. O homem tinha um olhar curioso, mas Yasmin podia sentir que não era uma simples curiosidade; tinha algo a mais que a incomodava.
— Explique.
Yasmin se abaixa e começa a tirar seu sapato direito.
— Essa marca que tenho no pé.
Darwin olhou para o símbolo pensativo.
— Onde conseguiu isso?
— É uma marca de nascença.
— Não parece uma...
— É exatamente por isso...
— Então você quer saber sobre esse símbolo...
— Você já o viu antes?
— Para ser sincero... Sim.
— Sério?! — Diz ela surpresa. — Onde?!
— Em um livro infantil.
— Que?
— Você não ouviu errado. Foi em um livro infantil muito raro. Se você se interessar, temos ele em nossa biblioteca.
A garota fez um rosto confuso e começou a desviar o olhar para o nada ao redor da sala.
— Espera... — Yasmin parecia surpresa. — Nós... temos uma biblioteca?
— Você estava fazendo pesquisas sobre todos na guilda e não sabia disso?
— É...
Ela parecia agora extremamente decepcionada consigo mesma; a garota tinha um ar de indignação em seu olhar enquanto tentava achar algo perdido em sua volta com os olhos.
— Quer dizer que a única razão pela qual você ter entrado na guilda era para isso?
Ela suspira e volta a encarar o mestre.
— Eu entrei com o intuito de juntar o máximo de dinheiro possível. Eu queria poder guardar fundos para fazer uma viagem pelo continente... melhor dizendo, pelo mundo.
— Agora entendi. — O mestre sorri e fecha seus olhos. — Realmente, essa guilda seria a melhor opção para alguém como você...
Yasmin encara o mestre com algumas dúvidas na mente.
— Eu saí da minha vila com propósitos..., mas não poderia cumpri-los sem a devida preparação.
O mestre permaneceu em silêncio.
— Posso acreditar em suas intenções...
Ele volta a mexer com os papeis na mesa.
— Sabe... não me entenda mal, é só que... eu senti algo diferente em você. Dentre todos que entraram nessa guilda, você tem algo que nenhum deles tem.
O mestre fez uma pausa. Ele continuou...
— Eu fiquei preocupado de isso ser alguma outra coisa... por isso pedi para conversar com você a sós. Mas se for só isso, não tem o porquê de eu me preocupar.
— Se me permite... por que se preocupar tanto com uma garotinha que conheceu a dois meses?
— Por que...?
Darwin parecia distante naquele momento.
— Você me lembra alguém querida que eu perdi há muitos anos...
Yasmin entende a situação, e decide não perguntar mais nada.
— Se me der licença, quero dar uma checada naquele livro que o senhor mencionou.
— Tudo bem. A biblioteca fica próxima ao refeitório.
Yasmin se levanta e vai até a porta. Antes de alcançá-la, ela balança a cabeça em contrição enquanto balbucia sobre o fato de não ter descoberto a biblioteca antes. Ela a abre e, antes de sair, ela vira a cabeça levemente para a direção do mestre Darwin.
— A propósito... obrigada por se preocupar comigo... acho que é a primeira vez que alguém me faz esse tipo de coisa...
Yasmin desceu as escadas e, por alguns segundos, ficou distante, pensando em como seria diferente sua situação se o pai dela fosse um pouco como o mestre Darwin. Seu devaneio foi quebrado com os gritos da multidão que se aglomerava cada vez mais no pátio da guilda.
“Eles ainda estão ali? Não... bem provavelmente James deve ter derrotado o garoto, deve ser outra luta... ah, bem, não tenho tempo para isso agora.”.
Yasmin correu até a biblioteca. Assim que entrou ficou impressionada com o tamanho do lugar. Eram várias estantes enfileiradas com mais de dois andares de altura, entupidas de livros. Tinha uma moça no balcão, que ficava logo na entrada. Yasmin se dirigiu até ela e perguntou onde ficava a seção infantil. A moça a encaminhou até lá e Yasmin começou a checar os livros.
Não demorou muito para que encontrasse o que procurava. O livro era bem chamativo e colorido. Ele tinha uma capa grossa e dura e suas folhas eram resistentes. O livro em si não era tão grande, ele tinha cerca de cem páginas, porém mais da metade dessas eram ilustrações e suas letras eram bem grandes. O que mais chamou a atenção da garota logo de cara foi a capa do livro, que possuía um círculo magico desenhado nela com os sete elementos básicos. A ordem do círculo, começando pelo topo e em sentido horário era: fogo, vento, terra, raio, água e os elementos luz e trevas dentro do círculo.
Yasmin abriu o livro e começou a lê-lo.
Era uma história simples sobre um grupo de aventureiros que se reuniu para derrotar um grande mal. A história dizia que há muitas eras, quando a magia ainda não era tão conhecida, dois grandes magos estudiosos tentaram espalhar a magia. Um deles tentou ensinar ao povo uma forma de usar a magia para o bem; para fazer coisas cotidianas e trabalhos, preparar a terra, ajudar na colheita, medicina e várias outras coisas. Porém o outro parecia querer que o rei usasse a magia para fins bélicos; ele queria tomar os outros reinos, mas o rei não concordou com a ideia e o exilou. Após aquilo o mago jurou vingança.
E foi o que ele fez.
Com o poder da magia ele reuniu um exército de monstros e devastou o reino. Uma guerra que destruiu uma grande parte da fauna e flora de Arctan.
— Isso... realmente aconteceu. — Comenta Yasmin. — Há quase mil anos, essa guerra realmente aconteceu...
Depois de vários anos de guerra, o mago maligno conseguiu tomar o reino para si.
Tudo parecia perdido. Até que... o outro mago, com a ajuda de criaturas desconhecidas, criou uma arma contra o mago maligno.
— Daryanos... as criaturas provavelmente eram daryanos.
A arma suprema que derrotaria o mal em Arctan. Mas havia um problema... ela era instável. Foi então que ele decidiu separar a arma em sete partes, entregando seis delas a guerreiros honrados da época. Juntos, os sete combateram o terrível mago negro e o exilaram. Assim acaba a guerra e finalmente a paz volta ao reino de Arctan.
Esse é o final do livro.
“É uma história bem simples..., mas se me lembro bem, essa guerra realmente aconteceu. Mas o mais estranho é que esse livro tem detalhes que não constam nos livros de história. Esses seis guerreiros não aparecem nas histórias oficiais...”.
Yasmin fecha o livro e vai em direção a moça para registrar a retirada do livro. Ela ficaria de examiná-lo melhor depois.
Ao todo ela gastara cerca de dez minutos para terminar aquela leitura.
Ao voltar para o salão principal, ela se depara com a multidão, vibrando como nunca.
— Por que eles ainda estão reunidos ali?
Yasmin se aproxima deles, mas antes que alcançasse ela ouve um som de sino tocando.
— É o fim! Finalmente! James venceu!
— Foi a coisa mais incrível que vi em anos!
Yasmin fica sem entender o que acontecera. Ela então vê Valquíria e Mandrágora no meio da multidão e decide se aproximar.
— Ei, o que está havendo?
— Yasmin? — Mandrágora parecia surpresa .— Como assim?! Não viu o que aconteceu?
— Eu tive que dar uma saída.
— É mesmo? Desculpe, nem percebemos que tinha saído...
— Mas o que aconteceu?
— Aquele garoto aconteceu!
Yasmin vira seu rosto para o centro do pátio e vê James de pé, sem nenhum ferimento, mas extremamente exausto.
— Esse desgraçado... — Ele estava ofegante. — Que garoto persistente... ele definitivamente não é normal...
Yasmin abaixa mais sua visão e vê o garoto Kagayashi em uma pose engraçada, caído de dorso com os olhos girando e completamente apagado com um sorriso idiota no rosto. Ela imagina que o resultado não poderia ser mais normal, e não entende a empolgação do povo naquele instante.
— Yasmin, não parece muito surpresa. — Comenta Mandrágora.
— Bem... era de se esperar que ele não venceria.
— Você não está entendendo a situação aqui... — Diz Mandrágora com um olhar surpreso.
— Foram quantos minutos? Vinte? — Valquíria permaneceu pensativa. — Ele aguentou vinte minutos de luta com James.
Voltado a sua atenção para o pátio ela vê algumas pessoas da Guilda indo em direção ao garoto, para acudi-lo. Mas rapidamente eles são parados por James, que permanecia encarando o garoto enquanto estendia sua mão em sinal para que parassem. Naquele mesmo instante, o garoto parece recobrar a consciência e levanta a cabeça. Ele se senta no chão e encara James com um rosto sério.
— Eu perdi?
— Sim.
— Que droga... — Diz ele com um sorriso forçado.
— Você me fez usar mais de sessenta por cento do meu poder, garoto...
— Eu diria que foi mais de oitenta. — Grita Valquíria da plateia, tentando provocá-lo.
— Como você se chama?
— Sirulian.
— Sirulian Kagayashi. Não vou me esquecer desse nome.
James dá as costas para ele e começa a andar em direção as suas companheiras de equipe.
— Garoto! Pode se gabar! Você conseguiu cansar fisicamente e mentalmente um guerreiro classe SS e ainda por cima aguentar vinte minutos em uma arena com ele! Não é algo comum!
Yasmin parecia confusa sobre aquilo. Teria sido aquela luta tão incrível quanto eles disseram? Ela sentiu um leve arrependimento de não ter assistido aquilo.
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